Publicado em dezembro 09
ASPJ  Em Português 4° Trimestre 2009

Choque Cultural

Operações de Bombardeiros Nucleares
no Mundo Pós-Guerra Fria

Tenente-Coronel Robert Spalding, USAF

Choque Cultural

As potências mundiais exigem força de bombardeiros convencionais agressiva, criativa e decisiva. Também requerem tripulações de bombardeiros nucleares com controle de armas impecável e positivo e que seguem os procedimentos ao pé da letra.

Quando ingressei ao primeiro destacamento de operações, após treino de qualificação inicial em B-52s, o que restava do Comando Aéreo Estratégico (SAC) ainda predominava. Os antigos membros da tripulação falavam, saudosos, do SAC, esperando que de alguma forma ou de outra o comando fosse restabelecido.

O Comando de Combate Aéreo (ACC) acabara de combinar os bombardeiros do SAC aos caças do Comando Aéreo Tático (TAC). Na época, seria difícil encontrar dois grupos mais divergentes dentro da Força Aérea. O SAC representava a força projetada pelo General Curtis LeMay para intimidar a União Soviética. O TAC era a Força Aérea que apoiaria o Exército em conflito convencional.

Cada uma desdenhava a outra. Os guerreiros do TAC viam o SAC como organização regimentada incapaz de improvisação. Os do SAC viam o TAC como fraternidade de cowboys. Nenhum entendia como o outro acabou daquele jeito e provavelmente nem queria saber.

Independente de quem estava correto, o grupo dos bombardeiros geralmente aceitava o fato de que o TAC ganhara o debate filosófico. Portanto, trabalhávamos arduamente para mudar de costume e corresponder ao novo ACC. O enfoque do treinamento era a missão convencional. A Força Aérea criou uma escola de armas para o B-52, B-1 e, finalmente, para o B-2. Embora continuassem a ensinar armas nucleares, passaram a currículo mais convencional.

O ACC aceitou muito bem as alterações. Isso levou ao sucesso do combate de estreia do B-2 na guerra de Kosovo. “Embora participasse em somente 1% de todas as surtidas da OTAN, [ainda assim] a capacidade de precisão da aeronave em qualquer tipo de clima permitiu o lançamento de 11% da munição utilizada durante a campanha aérea”.1 Kosovo comprovou que os bombardeiros podiam liderar a luta, mesmo em áreas solidamente defendidas.

O B-2 mais uma vez liderou os ataques aéreos iniciais nas guerras do Afeganistão e Iraque. O B-1 e o B-52 continuaram a luta, propiciando apoio aéreo aproximado (CAS) aos Estados Unidos e às forças de coalizão. A Coreia comprovou que os bombardeiros não serviam para CAS mas o advento de munições guiadas pelo sistema de posicionamento global permitiu a mudança em doutrina. No entanto, não podemos atribuir a eficácia dos bombardeiros em CAS exclusivamente à tecnologia. Devemos reconhecer a mudança de cultura que agora é completa e bem sucedida.

Infelizmente nem todas as mudanças foram positivas. A transferência equivocada de meia dúzia de mísseis nucleares da Base Aérea Minot, Dakota do Norte à Base Aérea Barksdale, Louisiana, em 2007, demonstrou, sob perspectiva nuclear, como foi erroneo mudar a tradição dos bombardeiros. A regimentação que produzira guerreiros nucleares que não se desviavam do plano de ação tinha razão de ser. O TAC treina guerreiros criativos que tomavam decisões em tempo real, mas o SAC formava guerreiros cuja maior responsabilidade era o controle de armas nucleares, executando decisões tomadas pelo presidente.

Atualmente, a Força Aérea confronta a perspectiva de reformular a tradição de bombardeiros nucleares. No entanto, deve fazê-lo sem destruir o valioso ambiente convencional engendrado desde o final da Guerra Fria.

Para complicar a situação, a frota de bombardeiros passou por grande redução, de 10 Alas de B-52 em 1989 à duas em 1994. Apesar do advento do B-1 e B-2, a perda líquida foi de aproximadamente 100 bombardeiros.2

A grande estrutura de bombardeiros durante a Guerra Fria criava opções flexíveis. As Alas nucleares e convencionais de B-52s concentravam-se exclusivamente em respectivas missões, gerando grupos distintos entre as tripulações. A tripulação convencional do B-52 assistiu, posteriormente, em liderar a mudança de cultura de bombardeiros pós-Guerra Fria. Em essência, menor número de bombardeiros significa número limitado de opções para a Força Aérea quando tenta reativar a postura nuclear.

Uma solução seria reter as Alas de bombardeiros de dupla missão mas, de certa forma, aumentar a ênfase em treinamento nuclear, opção não muito atraente. O estabelecimento de grupo que seja, ao mesmo tempo, criativo e regimentado é difícil. A melhor opção seria a criação de Alas nucleares e convencionais, o que implicaria em ativar a reserva antiga de B-52Hs até que novo bombardeiro fosse construído. Além disso, a Força Aérea deve reexaminar os requisitos de dissuasão nuclear.

Já que potências globais devem possuir a capacidade de dissusão, necessitam de força crível de bombardeiros nucleares. Pela mesma razão, devido ao fato de que necessitam projetar, rapidamente, potência ao redor do globo, é necessário força capacitada de bombardeiros convencionais. Finalmente, deve criar estrutura que forneça aos Estados Unidos a flexibilidade necessária para cumprir com os dois requisitos. Nesse meio tempo, devemos conceber uma solução que irá reformular o grupo de bombardeiros nucleares sem destruir a valiosa prática estabelecida de bombardeiros convencionais que trabalhamos tão arduamente para criar.

Notas:

1. Margaret DePalma, “History of the 509th Bomb Wing,” 26 de julho de 2007, http://www.whiteman.af.mil/news/story.asp?id=123062208 (acessado em 24 de setembro de 2009).

2. Ver “B-52 Timeline,” Boeing, http://www.boeing.com/defensespace/military/b52strat/b52_50th/timeline.htm (acessado em 24 de setembro de 2009). Para o número de B-52s produzidos, ver “Boeing B-52 Stratofortress Intercontinental Strategic Bomber,” Aerospaceweb.org, http://www.aerospaceweb.org/aircraft/bomber/b52 (acessado em 24 de setembro de 2009). Ver também Wikipedia: The Free Encyclopedia, s.v. “List of B-52 Units of the United States Air Force,” http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_B-52_Units_of_the_United_States_Air_Force (acessado em 24 de setembro de 2009).

Colaborador

O autor é chefe de segurança, 509th Ala de Bombas, Base Aérea Whiteman, Missouri.


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