Publicado em dezembro 09
ASPJ  Em Português 4° Trimestre 2009

A Transparência

Coronel Frédéric Parisot
Oficial de Ligação Francesa, junto ao Chefe-do-Estado-Maior da Força Aérea - USAF

A Transparência

O termo transparência, como usado em ciências humanas, possui a inferência de sinceridade, comunicação e responsabilidade [dever de prestar contas]. É uma expansão metafórica do significado usado em ciências físicas, onde um objeto “transparente” deixa passar a luz e permite ver nitidamente o que está por trás. Assim sendo, este estudo considera um sistema “transparente” aquele que é aberto, gera comunicação e onde a informação é vista com facilidade.

A crise financeira atual é bom exemplo de aparente falta de transparência. À medida que se desenrolava a crise, as notícias de outras quedas econômicas e administrativas surgiam com o passar dos dias. As dúvidas acompanharam o problema cada vez mais aparente durante as semanas que se seguiram. Será que alguma instituição ou governo seria capaz de conter a situação? Muitos questionavam se a crise poderia ter sido prevista de maneira mais precisa, se as autoridades competentes estavam a par da probabilidade ou, se até mesmo sabiam que o resultado acabaria mal. Para outros, o drama desdobrava-se de forma demasiada opaca. Era como dirigir em forte neblina.

Com o surto das inevitáveis teorias de conspiração, à medida que os “relatórios post mortem” começam a surgir o que devemos perguntar é, até que ponto as autoridades competentes estavam cientes das consequências nefastas no estágio inicial e que informação estava disponível ao público. Se, como é bem provável, nem toda a informação disponível foi compartilhada, devemos examinar a justificativa, especialmente o impacto da mídia e sua pressa indecorosa em alcançar furos de reportagem, muitas vezes sensacionalizando as notícias. Talvez isso fez com que as instituições filtrassem e até mesmo alterassem os dados liberados ao público.

A queda financeira teve início com a crise de crédito indevido nos E.U.A., denominada de “crise da Wall Street” pela mídia. Rapidamente alastrou-se aos mercados internacionais. A Bolsa Russa manteve as portas cerradas dias após quedas nunca antes registradas. As Bolsas de Valores internacionais foram atingidas seriamente. Tal efeito demonstra a correlação íntima que existe entre as economias modernas, inclusive a redução registrada nos limites entre os sistemas financeiros. Essa situação também ocorre em setores de segurança internacional, onde muitas ameaças modernas transcendem fronteiras. A redução dessas ameaças exige comum esforço, colocando-se maior dependência em cooperação internacional e compartilhação de informação.

A intenção do presente artigo é demonstrar que a transparência é benéfica. Aumenta a confiança em princípios compartilhados, aperfeiçoa a prestação de contas, desenvolve o conhecimento, promove tomada de consciência e responsabilidade entre as sociedades modernas. Ao iniciar, tentaremos definir a teoria da transparência, ilustrando-a com exemplos para identificar os benefícios principais e porque, na maioria das vezes, não existe. Em seguida, omitindo ideias que exigem varinha mágica, de propósito limitamos o estudo à áreas de segurança nacional que surgem devido a ameaças à redes transnacionais. O artigo propõe criar uma comunidade de nações interessadas. O primeiro passo na direção certa.

Durante séculos, o sigilo vem sendo a prerrogativa de Estados que se empenham em manter estrito controle de dados acerca de planos militares, projeto de armamentos e inteligência. Geralmente, o sigilo é empregado por Nações não democráticas, a fim de encobrir atividades internas, em particular, o abuso de poder. Vários grupos acreditam que o sigilo governamental é excessivo e muitas vezes utilizado para propósitos políticos. Somente certas nações possuem leis que tentam limitar o sigilo governamental, tais como a Freedom of Information Act e a leis “Sunshine” dos E.U.A.

Apesar do sigilo que reveste o comprometimento internacional, muitos governos empregam um sistema mais transparente como ferramenta informacional para difundir ao público dados de tópico importante. A transparência pode ser positiva ou negativa.

A transparência positiva, usada muitas vezes em arena política, caracteríza-se por comportamento ou obrigação moral para fazer com que informação relevante esteja disponível à audiência interessada. Por exemplo, a decisão de liberar dados relacionadas à saúde pública, tais como escape químico. A transparência positiva também é vista como meio para explicar porque e como decisões subsequentes foram tomadas, tais como evacuação. À medida que o publico toma conhecimento do assunto, compartilha a responsabilidade de fazer face à ameaças contínuas, tais como terrorismo internacional, poluição do meio ambiente e energia. A transparência positiva faz uso do instinto humano básico de que sentimos medo daquilo que está fora de nosso controle. Por exemplo, um acidente nuclear em usina de energia elétrica. À pessoas não educadas, pode ser visto como a precipitação de explosão do núcleo e a resultante difusão de radiação. Contudo, qualquer incidente em usina de energia nuclear é avaliado de acordo com a International Nuclear and Radiologic Event Scale (INES) [Escala Internacional de Evento Nuclear e Radiológico - INES] da International Atomic Energy Agency (IAEA) [Agência de Energia Atômica Internacional – IAEA], que vai de 0 a 7 (de anomalia a grande acidente). Por exemplo, a França, onde quase 80% da eletricidade é produzida por usinas nucleares. Em média, ocorrem 900 incidentes INES por ano. Contudo, desses 900 incidentes somente dois chegaram ao nível 2 da escala. Os outros foram de nível 0 e 1. Ao difundirmos a escala INES e as baixas avaliações feitas após cada incidente, o público vai compreender que a ameaça foi muito baixa. Assim, contem-se o pânico. É o que ocorre no caso da escala Richter e terremotos. Solidificamos a transparência positiva, conscientizando a audiência interessada. O bom entendimento resulta em reação responsável. A transparência negativa resulta devido a apreensão. O governo teme que demasiada informação acerca de dada situação possa levar à reação irracional e pânico generalizado entre a população. Como já mencionado, a atividade recente nas bolsas de valores internacionais exemplifica tal comportamento. Altamente contagioso e bem difícil de se conter a curto prazo.

A transparência negativa também cria efeitos de segunda e terceira ordens, especialmente quando se trata de política ou negócios. A informação deve ser avaliada cuidadosamente antes de ser liberada.

Tipicamente, o vazamento de informação exemplifíca a transparência negativa. Como transcende o ambiente normal de sigilo é extra potente. Na melhor das hipóteses, cria polêmica ou crise, ameaçando a prestação de contas das autoridades. Ao adicionarmos a competitividade da mídia, onde todas querem ser a primeira a divulgar a notícia, validada ou não, o dano resultante é grave. Afinal de contas, não importa se a notícia for verdadeira. A probabilidade é grande impacto no clima político. O restabelecimento da confiança pública leva tempo e esforço.

Contudo, a transparência também é usada como meio de propaganda e desinformação, i.e., passar informação falsa ou alterada, de propósito, a fim de influenciar a opinião pública, obtendo ou não apoio a objetivo ou projeto específico, o que não ocorreria se todos os fatos estivessem disponíveis.

A desinformação é extremamente difundida em Estados não democráticos, grupos ou seitas, a fim de tentar recrutar ou indoutrinar indivíduos contra sua vontade. As democracias também utilizam a desinformação, a fim de justificar ações a priori ou a posteriori. Já existe há séculos, usada para justificar guerras ou genocídio. Os líderes não populares de nações não democráticas fazem uso da mesma para demonstrar que tomam conta do povo e controlam o país para o bem comum. Muitas imagens de Saddam Hussein em cidades iraquianas demonstram como tratava oponentes de forma severa ou ríspida, em particular americanos. Isso quase sempre em gráficos. As fotos de tais eventos não existem, uma vez que o quadro era falso.

A habilidade de usar propaganda e desinformação aumentou com o avanço geométrico em comunicações, inclusive a televisão e a Internet. Contudo, o fluxo e a disponibilidade de informação concomitante, frequentemente sem o controle de entidades nacionais, possui o efeito oposto. O público é enganado pelo delúgio de mensagens falsas. Acabam pesquisando uma variedade de fontes, a fim de tentar discernir o que é e o que não é verdade.

Finalmente, ainda há lugar para o que se denomina de “operações de dados” em termos militares, especialmente em operações psicológicas [psychological operations - PSYOP]. Como definido pela doutrina contida na Joint Publication JP 3-13 “Information Operations” [Operações de Informação] do DoD norte-americano, as PSYOPs são operações planejadas para passar informação e indicadores reais selecionados à audiências estrangeiras, a fim de influenciar emoções, motivos, raciocínio objetivo e, finalmente, o comportamento de governos, organizações, grupo e indivíduos.” Consideramos as PSYOPS área cinzenta, raciocinando que as técnicas e mensagens passadas são usadas para salvar as vidas de forças amigas e dissuadir inimigos que estejam prestes a lutar.

A fim de defender a transparência mais eficaz relatamos, a seguir, dois exemplos que destacam as diferentes metodologias. Sem julgá-las ou criticá-las. Apesar de tudo, aprendemos com ambas.

O primeiro exemplo trata da tragédia do submarino nuclear K-141 Kursk, que afundou nas águas geladas do Oceano Ártico no dia 12 de agosto de 2000, após explosão na proa do casco. A metodologia usada pelas autoridades russas é exemplo de falta de transparência, com graves consequências. As explosões iniciais a bordo do Kursk a 12 de agosto foram captadas por sismógrafos noruegueses. Após análise cuidadosa pelos norte-americanos e europeus, que sabiam que o Kursk fazia parte de grande exercício da Marinha Russa, juntamente com a frota Norte, enviaram oferta de assistência às autoridades russas para possível tentativa de resgate. Não receberam resposta.

No dia 14 de agosto, após tentar alcançar o Kursk, usando submersíveis do navio de resgate Rudnitsky, a Marinha Russa foi obrigada a admitir que havia perdido contato com o submarino. Divulgaram a declaração oficial, negando que havia armamento nuclear a bordo da embarcação. Contudo, não aceitaram as ofertas de assistência britânica e norueguesa até 16 de agosto. O primeiro navio de resgate alcançou o local dia 19 de agosto mas, quando [a tripulação] conseguiu chegar até o Kursk puderam ver que o submarino estava completamente inundado. Durante a investigação subsequente à perda de 118 marinheiros, descobriram que somente quatro deles haviam morrido durante as explosões iniciais.Tres dias após, no mínimo 23 marinheiros ainda estavam vivos dentro da carcassa, em uma série de diferentes compartimentos. Além disso, no dia seguinte à explosão, a liberação de video no qual Vladimir Putin divirtia-se em um churrasco em sua vila de férias no Mar Negro, aumentou a percepção de desastre de relações públicas para o Presidente da Federação Russa. Sua reação inicial foi atribuir culpa [a outros] pelo incidente, declarando que havia ocorrido uma colisão com submarino estrangeiro, tentando prevenir que as autoridades navais divulgassem a informação. Essa questão foi complicada com a humilhação pela qual passou a Marinha Russa após o acidente, ao ser incapaz de abrir a comporta do Kursk. Os mergulhadores noruegueses mais tarde levaram somente 25 minutos para obter acesso.

Do ponto de vista de transparência, o incidente do Kursk demonstrou como o uso de sigilo para proteger o orgulho nacional proibiu a participação da assistência internacional.

O Presidente da Rússia foi criado em ambiente de baixa tolerência para com o fracasso. Foi o que influenciou sua decisão em não pedir ajuda à comunidade internacional até ser tarde demais. Essa postura baseava-se ainda em várias questões relacionadas: a suspeita enraigada e a falta de comunicação com o mundo exterior; a apreensão em certas esferas da Marinha Russa de que os torpedos usados pelo Kursk eram perigosos; o impacto ao prestígio russo de explosão a bordo de um de seus submarinos mais modernos; e, a relutância em pedir ajuda a antigos adversários.

O segundo exemplo analisa a denominada “crise do Tylenol” de 1982 nos Estados Unidos. Na época o Tylenol era o remédio contra dor número um no país. A crise ocorreu quando sete pessoas em Chicago, supostamente morreram após ingerir o “Tylenol Extra”. No momento em que ocorreu a conexão direta entre as mortes e o produto, Johnson & Johnson, cuja reputação e posição de fabricante de produto lider estavam em jogo, optou em colocar “o consumidor em primeiro lugar”. Imediamente removeu 31 milhões de frascos das prateleiras de drogarias em todo o país, ao custo de mais de 100 milhões de dólares. A decisão categórica de colocar a saúde pública em primeiro lugar foi um sucesso, especialmente porque não era o que se esperava de grande empresa.

O próximo caso é o da Perrier. A decisão de remover 160 milhões de garrafas foi tomada dias após a descoberta de traços de benzeno em uma delas. Contudo, Perrier ofereceu diferentes explicações, tentando minimizar o impacto da crise.

A Johnson & Johnson foi louvada pela mídia pela ação responsável. Em outubro de 1982 o Washington Post declarou “Johnson & Johnson, o exemplo a seguir de firma líder em administração eficaz de desastres.” O resultado foi que conseguiu reintroduzir o Tylenol ao mercado, com o apoio da mídia, apenas seis semanas após o incidente. Como o público acreditava no produto, permitiu seu regresso à posição líder. Demonstrou que o consumidor compreendeu a urgência da situação, não entrou em pânico e retornou à vida normal uma vez passada a crise.

O principal é que devemos considerar, cuidadosamente, como explicamos um problema ou incidente ao público. É uma oportunidade de influenciar sua reação. Quando compartilhamos dados com a audiência no momento oportuno, evitamos maior catastrofe. Esse foi o elemento essencial no uso da mídia para difundir advertências acerca do uso de Tylenol, alcançando o maior número de pessoas possível. Uma pesquisa feita pós-crise relatou que 90% da população americana ficou ciente da mesma dentro de uma semana das mortes. No caso do Kursk, a demora ao tentarem solucionar o problema, sem aceitar auxílio internacional, simplesmente negando o ocorrido, causou o atraso da operação de resgate. O reconhecimento de tal fato diante do mundo foi difícil demais às autoridades russas e fatal aos marinheiros.

Infelizmente, não se usa transparência. O sigilo generalizado ou a busca de poder por indivíduos, grupos de interesse para vantagem política, empresas ou os denominados personagens que não fazem parte de nação previnem seu uso. Em consequência, o público possui baixo nível de confiança para com a liderança. Levará tempo e persistência para restaurá-la, passo a passo.

É necessário definir interesses comuns para vivermos em mundo estável, estabelecendo meios, a fim de aperfeiçoar a confiança entre as nações que advogam os mesmos princípios. As questões de segurança transnacionais e o impacto na segurança nacional fazem parte desses interesses.

Como maior transparência promove a segurança nacional? A globalização é o marco do mundo em que agora vivemos. Quer seja de propósito ou não, o desenvolvimento de redes transnacionais (financeiras, terroristas, máfias, ciber, criminais, etc.) cria maior interdependência entre as nações. O resultado é que existem poucos lugares protegidos. Não mais existem abrigos verdadeiramente independentes do resto do mundo, pelo menos entre as sociedades modernas. Podemos ver com a crise financeira atual que os interesses nacionais e até mesmo a estabilidade, como no caso da Islândia, são afetados por incidentes iniciados por outras nações. Contudo, esperamos para agir até a crise estar às portas. Agir não faz parte da natureza humana. Normalmente, o que provoca a ação é certo evento dramático que ameaça a sobrevivência. Contudo, em níveis governamentais, ao compartilharmos a experiência de eventos que ameaçam os interesses nacionais – transformando a experiência identificada em experiência ganha – através de metodologia mais transparente, reduziremos o impacto do mundo globalizado em nações individuais.

Os cenários a seguir demonstram que as nações modernas têm muito a ganhar ao criar comunidades de interesse para compartilhar dados acerca de ameaças transnacionais. Ao usarmos um sistema mais transparente, podemos antecipar futuros eventos dramáticos, criando reações adequadas para quando ocorrerem.

Cada país desenvolve dados e experiência acerca de ameaças transnacionais. As interpretações e avaliações de vulnerabilidade, consequências e resiliência, variam. O que falta, em geral, é maior análise do impacto de tais ameaças em países vizinhos, amigos e até mesmo inimigos. Isso ocorre especialmente, devido a falta de transparência e graus de sigilo que permeiam discussões acerca de vulnerabilidades e pontos fortes.

Usaremos um cenário básico para ilustrar tal ponto. Vamos assumir que um ciberataque foi levado a cabo contra uma das grandes nações europeias. Sua rede elétrica caiu e foi impossível restaurá-la durante horas. O problema começa a alastrar-se aos países vizinhos que compartem o mesmo sistema. O ataque é finalmente repelido ao testarem uma série de métodos. Após o evento, o publico recebe a garantia oficial do governo de que a situação estava sob controle e que os países europeus irão discutir como contra atacar essa ameaça específica de maneira eficaz. Contudo, semanas depois, o mesmo ataque, agora mais eficaz, com assinatura eletrônica similar, atinge os EUA durante a temporada de frio. Desta vez, a rede elétrica fica fora de ação durante dias. Os residentes estão em perigo de congelamento, especialmente os mais idosos. Leva dias para encontrar a solução. Houve dano colateral à infraestrutura da força elétrica e o governo está sob pressão, porque não agiu suficientemente rápido.

Após dois ataques bem similares, pode ser que tanto a Europa como os EUA desenvolveram meios de contra ataque específicos, distintos, mas eficazes. Se existe maior transparência entre os governos acerca de compartilhação de dados para solucionar tais ameaças transnacionais, os Estados Unidos teriam se beneficiado de informação providenciada pelas nações europeias e estariam melhor preparados para fazer face ao ataque quando ocorreu.

Quando aceitamos o fato de que existe necessidade de maior transparência, aceitamos maior nível de risco. Isso quer dizer expor áreas que tradicionalmente eram tidas como secretas, em particular, as vulnerabilidades. Está claro que devemos chegar a um equilíbrio entre preservar o sigilo em áreas especiais e ser mais transparentes onde podemos identificar benefício mútuo em experiência compartilhada.

Voltando ao cenário do ciberataque, ao compartilharmos as assinaturas e possíveis soluções dentro de comunidade de mútuo interesse, contribuiríamos para a solução da ameaça, diminuindo seu impacto. Ao aceitar o fato de que tais ameaças não possuem limites e de que o ‘inimigo’ não se organiza ou age para se acomodar à nossa zona de conforto intelectual, a necessidade de transparência torna-se ainda mais premente.

Tais comunidades de interesse já existem, em particular entre os Estados Unidos e aliados principais, especialmente de forma bilateral. Ao reconhecer que certas ameaças não podem ser solucionadas por um só país e que talvez dois ou mais países possam ser atingidos ao mesmo tempo, seria relativamente fácil estabelecer a cooperação. Uma maneira de estabelecer tal comunidade é seguir o método desenvolvido pelo Secretário O’Leary do Departamento de Energia (DoE) dos EUA que, em dezembro de 1993 desvendou a iniciativa denominada “Responsible Openness: an Imperative for the DoE”. Essa iniciativa foi esboçada porque:

muitas décadas de segredo que permearam as atividades do DoE serviram para levantar suspeitas acerca do Departamento e suas atividades. Essas suspeitas foram cimentadas por contínuos lapsos em providenciar dados completos e oportunos, relações danificadas entre o DoD e contratantes e as comunidades nas quais devem operar. Também causam erosão de confiança para com o Departamento pelo público e seus representantes eleitos.

O relatório recomendou ações em três áreas gerais:

- Melhorar o sistema de atribuição de caráter secreto e oficial a documentos, i.e., material que devido à sua atribuição secreta não pode ser compartilhado. Mas, as regras que regem a atribuição de documento secreto, baseiam-se em experiência e na tendência de “passar dos limites”, o que previne a possibilidade ou desejo de cooperar.

- Facilitar acesso a documentos e dados. Na iniciativa, o objetivo era “desatribuir” muitos documentos e torná-los disponíveis ao público. Neste artigo, imaginamos a criação de atribuição específica que permitiria que documentos e dados fossem compartilhados dentro da comunidade interessada.

- A mudança de cultura enraigada, dentro das administrações de países, ambiente moldado por anos de sigilo. A completa honestidade deve ser a metodologia inicial para com qualquer nova informação disponível acerca de ameaça transnacional para que possa ser compartilhada dentro do grupo interessado. Provavelmente é o maior obstáculo ao processo global.

O interessante é que os Russos reciprocaram em julho de 1996 com a publicação do primeiro relatório “USSR Nuclear Tests and Peaceful Nuclear Explosions – 1949 through 1990”. Em seu prefácio, o Ministro da Energia Atômica citou a publicação norte-americana. A honestidade e transparência são contagiosas.

O ponto que queremos destacar é não buscar acesso total a todas as informações mantidas em segredo. As nações sempre necessitarão manter sigilo, mas existem áreas de acesso onde os estados possuem interesses comuns em jogo. É óbvio que é impossível fazer tudo isso em um só dia. Usando um sistema gradativo, os EUA e aliados mais chegados, podem discutir em que áreas e até que ponto desejam compartilhar informação. Esse trabalho deve incluir classificação mas também cláusulas que limitam o acesso a certos dados. O aumento de confiança dentro de comunidades de interesse destacará possíveis benefícios com o uso de maior transparência. Os Estados Unidos, um dos países principais no cenário internacional e o centro de muitas redes transnacionais podem liderar eficazmente os países que desejam cooperar em assuntos comuns com possível impacto em interesses nacionais.

O benefício principal desse tipo de metodologia seria forçar qualquer país que deseje participar a possuir um sistema interagencial. A abertura à comunidade mais internacional forçará os governos a apresentar ao exterior uma só voz. Mas, pelo mesmo motivo que as ameaças transnacionais não possuem fronteiras, as reações nacionais à ameaças não podem ser tomadas por um só Ministério ou Departamento.

A Defesa não tem a ver somente com as forças armadas, a economia ou segurança das nações. Requer empreendimento combinado para compartilhar dados em setores de inteligência, conhecimento, experiência identificada, e até mesmo exercícios conjuntos. Assim, deve haver um sistema aberto e transparente em cada país, onde agências envolvidas no processo de segurança nacional compartilham informação relevante em grande escala.

As ameaças transnacionais que usam redes de informática afetam sociedades à velocidade da luz e permitem pouquíssimo tempo para desenvolver estratégias elaboradas de reação. A habilidade de combinar as tentativas de células de reação próximas ao tempo real, estabelecidas dentro de cada nação-membro, vinculadas entre si, usando o mesmo princípio da Hot Line estabelecido pela antiga União Soviética e os Estados Unidos, talvez ofereça reação mais eficaz ou coibição no período crítico de início de qualquer ataque. A fim de cobrir o espectro total de exigências, essas células de reação também devem ser interagenciais, dando acesso bem rápido às estruturas ou organizações atingidas e acessorando-as em como reagir. Elas, por sua vez, recebem as observações que passam à comunidade internacional.

Esse sistema aberto e transparente é necessário. Devemos superar a tendência natural a sigilo entre agências e aliados. Não podemos desperdiçar tempo espiando entre si ou encobrindo informação valiosa, quando nosso modo de vida e princípios comuns estiverem em jogo. Devemos estar cientes de que as sociedades são erigidas em expectativas e reações à expectativas. Como somos família, amigos, governo, cidadãos e aliados, as relações estabelecidas dentro de tais círculos baseiam-se em confiança. Em círculos aliados, a partilha de dados valiosos acerca de segurança é uma dessas expectativas. Os dados também importantes a aliados devem ser, antes de tudo, validados, comprovando que podem ser compartilhados. De acordo com o ex-Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, devemos passar da metodologia de “necessidade de saber” à “necessidade de compartilhar”. Devemos escancarar as portas da cooperação, a fim de melhor compreender e fazer face às presentes ameaças transnacionais, de maneira mais rápida, antecipando o que ocorrerá em futuro próximo. Vai levar tremenda energia, mudança radical de ambiente e tempo. Mas o resultado beneficiará o interesse comum. Antecípam-se obstáculos. Por exemplo: a segurança nacional e questões relacionadas ao Mercado. Dá para se compreender. Entretanto, não deve haver uma cortina de fumaça, a fim de evitar quaisquer outras tentativas de maior transparência.

As ameaças transnacionais existem e não podem ser combatidas por um só país. A crise financeira deixou bem claro que estamos todos no mesmo barco. O sério impacto dessa crise em países modernos – de fato, o G20 – viabilizou o desenvolvimento de soluções de grande alcance para fazer face aos interesses de todos. Seria útil consider um paralelo à ameaça de futuro ataque. Um só hacker, de posse de notebook pode atacar qualquer rede de forma remota, com impunidade. Contudo, sua habilidade seria seriamente comprometida se a assinatura digital de seu ciberataque fosse circulada entre as comunidades interessadas. Poderiam assim tomar ação em concerto para mitigar as consequências e reagir com contramedidas coordenadas. Ademais, a partilha de experiência e exercícios combinados entre os membros da comunidade aperfeiçoariam a reação a tais ataques.

A transparência, quando usada para combater ameaças transnacionais, é um passo avante para maior cooperação. Os empreendimentos anteriores desse tipo, como a Interpol, demonstraram que as nações podem melhor proteger-se via cooperação, contribuindo à estabilidade mundial e ao progresso. Os passos iniciais para dividir áreas vitais de conhecimento, talvez exijam abrir mão de áreas previamente consideradas segredos nacionais. Será grande o ajuste cultural. A cooperação funciona somente quando todas as partes ficam cientes de que existem benefícios. Pode ser que principie com número reduzido de assuntos mas o escopo expandirá, à medida que cada um dos membros note sucessos e benefícios mútuos.

Ao encararmos um futuro cada vez mais incerto, devemos considerar cuidadosamente a possibilidade de vantagens em aumentar a transparência e a honestidade em casos de segurança transnacional. O público deve tomar parte em certa etapa, a fim de assegurar que a suscetibilidade a esse tipo de agressão seja muito bem compreendida em um mundo cada vez mais dependente em redes transnacionais.

A transparência proposta encaixa-se perfeitamente à defesa minuciosa delineada na National Defense Strategy [Estratégia de Defesa Nacional] de 2008, bem como à sociedade global, fortalece as alianças e possui certo valor dissuasivo.

O interessante é que um sistema transparente e aberto foi termo muito usado pelo Presidente Obama no início de seus dias na Casa Branca. O momento é oportuno. É agora que devemos agir!

Notas:

1. “Vamos fortalecer a transparência do mercado financeiro, inclusive aperfeiçoar a divulgação [pública] que se requer a respeito de produtos financeiros complexos, assegurando divulgação precisa e completa de empresas acerca de sua condição financeira.” Declaração Conjunta, Fórum G20 acerca de mercados financeiros e economia mundial, 15 de nov 2008.”

2. “...após primeiro alcançar os países industriais e depois os mercados emergentes, uma terceira onda da crise financeira global atinge agora, de forma implacável, os mais pobres e vulneráveis do mundo” Dominique Strauss-Kahn, o Diretor-Gerente do FMI, the Brookings Institution, Washington, D.C., 3 de março, 2009.

3. “Embora esta crise teve início com as economias principais, alastra-se agora aos mercados emergentes ao redor do mundo,” Tim Geithner, novo Secretário do Tesouro Americano, reunião G7 14 de fev. 2009.

4. http://www.iaea.org/Publications/Factsheets/English/ines.pdf

5. Verificou-se mais tarde que a Johnson & Johnson não foi a responsável pela adulteração das drágeas de Tylenol.

6. http://www.netcaucus.org/events/2007/threatassessment/video.shtml. Nessa conferência, o painel reconheceu que é da natureza humana esconder deficiências – naquele caso ser vítima de agressão de hacker, porque devemos reconhecer que suas defesas não eram suficientes para combater a mesma.

Colaborador

Coronel Frédéric Parisot atual Chefe de Ligação Francês junto ao Chefe-do-Estado-Maior da Força Aérea – Grupo de Estudos Estratégicos, USAF Natural de Montreuil, França Academia da Força Aérea Francesa: Engenharia Aérea Chefe Adjunto encarregado de programas de equipamento conjunto para a Diretoria de Finanças, Ministério de Defesa. Função de contato com Membros do Congresso e Senado, Ministério de Orçamentos e de Defesa. Comandante, Esquadrão Mirage 2000 (Defesa Aérea), Base Aérea Orange França. Várias missões na Arábia Saudita. Oficial designado ao pessoal do Sub-Secretário de Defesa, encarregado de Diretrizes, P&D, defesa de mísseis e armamentos. Membro do Grupo de Avaliação da Eficácia da Campanha Aérea de Kosovo. Sob a autoridade direta do Ministro de Defesa. Escola de Guerra Conjunta, Paris, França. Membro de Intercâmbio de Pilotos – CF-18 na TFS 443rd, Bagotville, Canadá. Oficial de Padronização e Avaliação. Tomou parte em dois exercícios MAPLE FLAG e duas operações de combate a narcotráfico, sob o controle de NORAD. Piloto para a Defesa Aérea, instrutor e comandante de voo, 3/5 Esquadrão de Combate, Base Aérea Orange, França. Participou em inúmeras missões no Sul do Iraque (Operação SOUTHERN WATCH) e Bosnia (Operação DENY FLIGHT). Participou em exercício RED FLAG em 1995. Recebeu Pilot Wings em 1989. Mais de 2.700 horas de voo, a maioria em Mirage2000 e CF-18. 73 missões de combate no Iraque e Bósnia (275 horas). Condecorações: Legião de Honra com a Divisa de Cavalheiro Medalha de missões estrangeiras com a menção de Oriente Médio Medalha comemorando as operações da Antiga República da Iugoslávia (Francesa e OTAN).


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