Publicado em dezembro 09
ASPJ  Em Português 4° Trimestre 2009

A Vulnerabilidade da Indústria
na Era Atômica

Tenente-Coronel George R. Charlton

Artigo Original Publicado em 1949.

A vulnerabilidade da indústria a ataques atômicos é, para os Estados Unidos no momento atual, problema de magna importância. No decurso de nossa história, nossa capacidade industrial mudou a sorte das armas em várias guerras. Nossos inimigos potenciais estão perfeitamente a par de nossos recursos. Outras nações há que nos ultrapassam em potencial humano e em certas matérias primas estratégicas, porém nenhuma em capacidade industrial. E a 2ª. Guerra Mundial demonstrou cabalmente, que, na guerra moderna, a base das operações militares é a indústria.

O advento da guerra atômica altera consideràvelmente os conceitos anteriores de defesa. Talvez seja verdade que nossos inimigos prováveis não disponham até agora da bomba e de outros tipos de armamento atômico; mas o consenso dos cientistas que nos deram essa arma, é que dentro de mais alguns anos outras nações serão capazes de produzir bombas atômicas. Em seu último relatório anual (1948) ao Secretário de Defesa, Mr. Stuart W. Symington, Secretário da Força Aérea, declarou o seguinte: “A conclusão atingida é que em fins de 1952 não poderemos mais contar com o monopólio das armas atômicas.” Assim sendo, restam-nos cêrca de dez anos durante os quais nenhum ataque atômico de vulto poderá ser lançado contra nós.

O problema da vulnerabilidade industrial a ataques atômicos é grave e complexo. De sua pronta solução pode muito bem depender nossa sobrevivência a uma guerra futura. Os meios de reduzir essa vulnerabilidade envolvem considerações de ordem individual, coletiva, tática e estratégica. O Govêrno e a indústria privada deve, quanto antes, conjugar seus esforços para formular planos claros de ação.

Já está caduco o conceito formado durante a 2ª. Guerra Mundial de que impor uma perda de quinze por cento a atacantes aéreos era defesa eficiente. Hoje, se só dez por cento de uma poderosa fôrça aérea de ataque atômico penetrar nossas fronteiras, poderemos ser vencidos. As defesas de que esta nação dispõe, por melhores que sejam não poderão evitar, num ataque de surprêsa, a penetração de nossas linhas de um inimigo decidido e capaz, com aeronaves carregadas de armamento atômico. Nenhuma defesa pode ser considerada impugnável. Nossa melhor esperança está em fazer que os objetivos, neste país, sejam menos atraentes para o adversário. Êsses objetivos devem ser tornados menos vulneráveis.

Dentre os vários métodos que podem ser adotados para reduzir a vulnerabilidade de nossa indústria, os mais práticos e factíveis são: - a dispersão da indústria, a construção de fábricas subterrâneas e o refôrço da resistência estrutural das fábricas atuais. Todavia, tentar executar de golpe um programa que abarca tantos fatôres, causaria sérias perturbações econômicas e sociais. Êsse programa tem de ser por fôrça, realizado gradativamente, à medida que o povo se vá convencendo de sua imprescindibilidade. Além das providências passivas acima mencionadas, o Govêrno deve lançar uma campanha intensa e realística de informação ao público, a fim de tornar conhecido o perigo de confiarmos demasiado em nossa segurança nacional. Só quando o povo estiver amplamente capacitado da necessidade de medidas de longo alcance terá o Govêrno conquistado o apoio indispensável à execução dos objetivos colimados.

Tanto a indústria como a população dos Estados Unidos se encontram preponderantemente concentradas nas grandes cidades e nas zonas urbanas que lhes são adjacentes. Um sexto da população e a metade das indústrias do país estão, hoje, localizadas nas dezesseis cidades norte-americanas que proclamam ter meio milhão de habitantes ou mais.

A chamada Greater New York (que compreende a cidade de Nova York pròpriamente dita e os vários centros urbanos adjacentes absorvidos pela metrópole) com uma população de mais de 11.500.000, é centro industrial de magna importância na produção de ferramentas mecânicas, equipamento elétrico, instrumentos de óptica, e de outros inúmeros artigos industriais e vitais num esfôrço de guerra. As principais indústrias do petróleo estão localizadas nos estados de Texas, Oklahoma e Missouri, agrupadas em cidades como Houston,Tulsa e São Luís. O centro da indústria do transporte motorizado é Detroit. Chicago, com uma população de 3.390.000, é centro preponderante da refinação do petróleo, da fabricação do aço, da fabricação de produtos alimentícios; é uma cidade industrial chave e ponto de convergência dos sistemas ferroviários e fluviais do país. As mais importantes indútrias do aço e do carvão estão maiormente agrupadas nos estados de Ohio, Pensilvânia, Indiana, Kentucky e no oeste de Virgínia e se encontram localizadas em grandes cidades que abrigam numerosas indústrias complementares, ou nas vizinhanças dessas cidades. Essas instalações complexas, que se dedicam à produção do aço, do carvão de coque, são altamente vulneráveis a ataques atômicos.

Originàriamente, o grosso da indústria aeronáutica estava localizado, principalmente, no nordeste do país. Lógico era que assim fôsse porque é a região de capital, administração, indústrias complementares, e de operariado hábil – elementos essenciais à produção de aeronaves. Gradativamente, forçadas pelo encarecimento dos salários e por condições climáticas, muitas companhias se transferiram para a costa ocidental, onde condições climáticas mais favoraveis proporcionam economia de construção e aquecimento porque, como boa parte do trabalho pode ser executado ao ar livre, não se necessitam de oficinas tão amplas; e também porque as condições propícias de tempo durante o ano inteiro facilitam os vôos de prova e pesquisa e a retirada imediata, de dentro das fábricas, das aeronaves terminadas.

Por volta de 1939, as principais fábricas de aeronaves estavam localizadas na costa ocidental, na área de Los Angeles; e no ano seguinte, quando o Presidente Roosevelt pediu uma produção anual de 50.000 aviões, 80% das fábricas de armações para aeronaves e de montagem se encontravam nas costas oriental e ocidental, dentro de 200 milhas de distância do litoral. A indústria não podia, de modo algum, produzir tamanha quantidade de aviões e motores nas fábricas existentes; de modo que o Govêrno começou a construir fábricas de armações e motores para aeronaves, a maioria delas no sudeste, em Dallas, em Fort Worth, Oklahoma City, Tulsa e Nova Orleans. Êste programa tendia a descentralizar a intensa concentração das indústrias aeronáuticas, e como resultado os 80% baixaram, em pouco tempo, a cêrca de 40%.

Terminada a guerra e verificado o subsequente fechamento quasi total das fábricas de aviões os fabricantes em geral começaram a retornar às suas localizações de antes da guerra:- as principais indústrias de armações para aeronaves, rumo à costa ocidental, e os fabricantes de motores, para a costa oriental. Em 1946, a concentração, na área de Los Angeles, era maior do que em 1940.

Êste deslocamento para os sítios de ante-guerra é compeensível do ponto de vista dos industriais, mas perigoso do ponto de vista da segurança militar. É provável que a indústria aeronáutica dos Estados Unidos esteja, agora, menos favoràvelmente localizada, do ponto de vista millitar, que antes da guerra e, consideràvelmente mais exposta à destruição do que durante a guerra.1 Mr. J. Carlton Ward Jr., presidente da Fairchild Engine and Airplane Corporation, declarou que seis bombas atômicas bastariam para fazer desaparecer completamente a indústria aeronáutica de Los Angeles. Se isso fôr verdade, é desde logo concebível que um número proporcinalmente maior poderia destruir as grandes fábricas de armações e motores para aeronaves da área de Nova York. Algumas bombas atômicas poderiam eliminar tôda a indústria aeronáutica do país.

A carência de um programa oficial, claramente delineado, para a relocação ou dispersão das indústrias aeronáuticas, é considerada uma das razões primordiais da vulnerabilidade atual. Êste fato foi hàbilmente resumido por Mr. Henry E. Glass, da Seção de Planejamento Industrial da Diretoria do Material de Aviação:

Outros fatores, tais como instalações de aeródromos, serviços urbanos, energia, luz e esgotos, são quase iguais, tanto nas fábricas do interior como nas do litoral. De um modo geral, portanto, a opinião era que qualquer companhia que se fôsse reestabelecer no interior não se colocaria, de modo algum, em situação desvantajosa. Chegámos à conclusão de que o obstáculo capital ao esfôrço da relocação e dispersão da indústria consiste nas preferências e ojerizas pessoais, nos gostos dos indivíduos interessados. Como indivíduos, a maioria do pessoal preferiria permanecer no sul da Califórnia ou fora, na costa oriental, perto das grandes cidades. Esta situação só poderá ser dominada quando os afetados pela relocação e dispersão da indústria aeronáutica estiverem convencidos de que esta medida é essencial à defesa do país. Estamos convencidos de que, se o Congresso aprovar um programa dessa natureza, as companhias que se dedicam à indústria aeronáutica cooperarão com os serviços encarregados de executá-lo.2

É possível, portanto, que um firme plano de ação, patrocinado pelo Govêrno e com amplitude nacional, possa, mediante a elaboração de um programa e a assistência à sua execução, contribuir eficientemente para a segurança nacional.

Para a maioria do povo norte-americano, ataque significa agressão física: mas há vários e insidiosos meios de ataque que não são militares. Raro começam as guerras sem períodos anteriores de tensão. A violência aberta é apenas o momento culminantes, que, de súbito, nos lança numa luta a ferro e fogo. A defesa dêste país, abarca, portanto, muito mais do que as salvaguardas contra ataques físicos; significa, aliás, hoje, como disse o Presidente da Comissão Consultiva sôbre Serviço Obrigatório, a necessidade de manter a nação “unida, forte e sadia.” Um povo amplamente informado é essencial à execução de qualquer programa governamental. Nossa história está cheia de casos em que programas patrocinados pelo Govêrno, porém de cuja necessidade o povo não estava convencido, foram derrotados pela opinião pública.

Os cidadãos dêste país devem ser contínua e amplamente informados a respeito do que pode acontecer em caso de guerra. Uma nação exposta a bombardeios atômicos tem, certamente, o direito de saber a extensão do perigo que a ameaça. É nosso dever encarar, com realismo, os perigos de um ataque atômico e tôdas as suas consequências. A diplomacia e o povo dos Estados Unidos devem estar de acôrdo, quanto a êste problema. A aprovação da opinião pública a qualquer programa governamental assegurará o apoio voluntário do povo às medidas em pró da defesa comum. Esperemos que os atuais e futuros líderes dos Estados Unidos adotem a sábia política de manter o povo norte americano largamente informado dos acontecimentos internacionais.

Há centenas de publicações disponíveis que retratam, eficientemente, a vulnerabilidade de nossas indústrias a ataques atômicos. O homem comum não tem incentivo, nem tempo, nem dinheiro para dar-se o trabalho de procurá-las; consequentemente, está mal informado sôbre o problema. O Congresso, servindo-se criteriosamente dos privilégios de franquia para a distribuição em grande escala de planos, estudos, relatórios e investigações relativos à vulnerabilidade industrial, poderia fazer muito para esclarecer o público. Existe material informativo valioso e vultoso na Imprensa Nacional à disposição de quem o requisitar. Êsses dados, colocados nas mãos de líderes selecionados do comércio e da indústria, poderiam contribuir eficientemente para modelar a opinião pública e conquistar-lhe o apoio ao esfôrço nacional no sentido de reduzir a vulnerabilidade mediante a minoração dos efeitos de qualquer ataque. Todos os meios à disposição dos departamentos governamentais de informação pública – os jornais, o rádio, as revistas – deveriam ser utilizados para manater o povo norte-americano bem informado.

Hoje, neste período de após-guerra, muitas grandes indústrias, a fim de evitar o congestionamento e os gastos das grandes cidades, estão explorando áreas mais econômicas, e novas fonte de mão de obra nas pequenas cidades e nas zonas simi-rurais, para ali se estabelecerem. Êste movimento tende a drenar de nossas grandes cidades uma parte dos habitantes e a reduzir a vulnerabillidade de nossa indústria e população. Portanto, a descentralização gradativa da indústria não é apenas prática, como também, ao que parece, econômicamente realizável. Um programa de descentralização e dispersão gradativa da indústria dentro dum prazo de dez anos não seria problema insolúvel. Embora seja verdade que tôdas as indústrias não poderiam ser adequadamente descentralizadas no decurso dêsse prazo, o fato é que se poderiam obter resultados verdadeiramente impressionantes. Programas econômicos, patrocinados pelo Govêrno, com êsse objetivo, são uma necessidade, e o público informado pode ter papel decisivo na realização de qualquer plano desta natureza.

O primeiro passo, no sentido de proteger-nos contra ameaças à segurança nacional é encarar, de frente, o perigo. É essencial que o povo esteja esclarecido, a par de todos os fatos relacionados com os problemas desta nossa era atômica, e dos perigos potenciais que podem ocorrer. Isto não implica uma campanha de propaganda ou uma tentativa no sentido de assustar o povo para induzí-lo a medidas precipitadas, porém mais pròpriamente, uma apresentação racional dos problemas por líderes militares e científicos. O objetivo é assegurar a aprovação do povo e seu apoio voluntáro às medidas governamentais que possam ser necessárias à garantia da defesa comum, tanto contra os perigos que de fora nos ameacem, como contra a subversão interna.3

Embora se tenha calculado que por volta de 1953 outras nações estarão em condições de atacar-nos com armamento atômico, muitas autoridades opinam não ser provável que um golpe desta natureza seja lançado contra nós antes de uns dez anos. Portanto, com uma década pela frente para reduzirmos a vulnerabilidade de nossas indústrias, muito poderá ser realizado se dermos início imediato a providências rápidas, agressivas e sem solução de continuidade. Embora um programa desta índole exija, indubitàvelmente uma certa quantidade de contrôle governamental, a indústria aceitaria de bom grado êsse contrôle, uma vez que estivesse convencida de que está em jôgo a sobrevivência nacional.

Examinemos, agora, os quatro métodos primordiais para reduzir a vulnerabilidade industrial: (1) operações militares, (2) instalações subterrâneas (3) reforçamento estrutural, e (4) dispersão.

Primeiro, operações militares. O Congresso aprovou recentemente leis que autorizam a montagem de uma vasta rêde rádio-localizadora contra aviões. Os componentes de terra e ar de nossas regiões militares no continente, foram, recentemente, reorganizados para efetuar uma defesa integrada e melhor do solo pátrio. Podemos estar certos de que não se perderá de vista a importância da defesa aérea, em proporção aos meios providos para essa defesa; mas não devemos confiar em que as operações militares, por si sós, sejam bastantes para proteger-nos contra bombardeio. Devem ser intentados outros meios de reduzir nossa vulnerabilidade.

A segunda medida seria recorrer a instalações subterrâneas. Não se tem em vista fazer construções subterrâneas para as fábricas hoje existentes, porque, do ponto de vista do custo, êsse recurso é impraticável. Mas as instalações futuras que tenham importância estratégica específica, podem perfeitamente ser subterrâneas, dependendo isso apenas dos resultados obtidos pelos estudos que estão sendo feitos sôbre o problema.

A experiência da Alemanha na 2ª. Guerra Mundial está a nosso alcance como guia, e aponta a praticabilidade da instalação subterrânea de estabelecimentos industriais. Dessa experiência deveríamos ter aprendido que o momento de construir instalações subterrâneas é antes da guerra e não durante ela. A Alemanha cometeu o êrro de atribuir exagerado valor à eficiência de sua defesa aérea e de menosprezar o poderio do ataque aéreo aliado. Os que planejam nossa defesa deveriam aproveitar a lição decorrente dêsse êrro – e lembrar-se de que os alemães não tiveram que lutar contra a bomba atômica.

Os alemães só se capacitaram inteiramente da necessidade de levar sua indústria a subterrâneos quando a guerra já estava quasi terminada. As fábricas foram então instaladas em todos os tipos de abrigos disponíveis no momento – minas, túneis ferroviários e de rodovias, cavernas, adegas de cervejarias, e trens subterrâneos. O principal esfôrço da indústria alemã subterrânea foi no sentido de produzir aeronaves, bombas-V, gasolina sintética e munições. Muitas outras fábricas também mergulharam sob a terra para produzir motores para veículos, maquinaria, armamento, tanques e acessórios para aviões.

Os alemães haviam delineado planos precisos para um tipo do construção protetora chamada bunkerwerke. Muitos eram os edifícios de concreto armado com muitos andares, construídos em parte sob a terra, com uma pesada carapaça protetora de concreto acima da terra. Êsses edifícios deveriam ter nada menos que 600.000 metros quadrados de superfície utilizável, deveriam bastar-se a si mesmos e ser capazes de produzir 1.000 aeronaves ou seus componentes por mês.

Êsse tipo de edifícios parece perfeitamente adaptável ao uso da indústria dêste país. Não precisamos de instalações inteiramente subterrãneas porque não esperamos ataques aéreos contínuos e intensos. O custo dêsse tipo de construção – comparado com o de construções inteiramente subterrâneas – seria substancialmente reduzido, e a entrada e saída de pessoal e abastecimentos seria consideràvelmente simplificada.

A experiência alemã revelou inúmeros fatôres a serem tomados em consideração em nossos planos: (1) as construções subterrâneas custavam três vêzes mais que as de superfície; (2) as consequências fisiológicas do trabalho subterrâneo não foram prejudiciais a ponto de excluir uma produtividade igual à dos trabalhadores de superfície; (3) o arenito de dureza média ou a pedra calcária são particularmente adaptáveis à construção subterrânea; (4) a manutenção de uma fábrica subterrânea é menor que a de uma instalação de superfície; (5) o custo de produção, numa fábrica adequadamente planeada e equipada, deve ser menor que o de uma fábrica de superfície com o mesmo espaço útil; (6) verificou-se que era praticável a instalação subterrânea de quasi todos os tipos de indústria; (7) grandes indústrias subterrâneas centralizadas e suficientes em si mesmas, são mais praticáveis que um grande número de pequenas fábricas; (8) as fábricas subterrâneas não foram eficientemente danificadas pelos bombardeios, mesmo quando atingidas em cheio. Vê-se com clareza que os problemas de instalar fábricas subterrâneas não são insolúveis.

Sob a orientação da Junta de Munições, o corpo de Engenharia do Exército executou uma investigação das localizações subterrâneas existentes nos Estados Unidos. Embora os resultados dêsse estudo não tenham sido publicados, é concebível que os locais dêsse tipo ora existentes devam representar milhares de metros quadrados para armazenagem ou espaço utilizável. Mas a adaptabilidade dos locais subterrâneos existentes para a indústria parecece estar extremamente limitada, e custa muito mais convertê-los do que construir locais novos em sítios escolhidos. Seria mais lógico aproveitar os locais já existentes para armazenagem ou para a acumulação dos estoques de reserva de matérias primas estratégicas ou de munições.

O Corpo de Engenharia está fazendo outros estudos para determinar o custo das construções subterrâneas e a praticabilidade de sua execução; Êsses estudos incluem investigações sôbre a resistência das rochas e do solo, que orientarão a escolha dos sítios para instalações militares e industriais à prova de bombardeio. Uma das séries de testes consiste em provocar explosões subterrâneas em vários tipos de rocha e terreno. Os testes serão iniciados com 320 libras de TNT, quantidade que será gradativamete aumentada até 320.000 libras de TNT. Espera-se que os dados colhidos com essas experiências sejam de utilidade aos engenheiros industriais, na determinação das melhores zonas do território e dos melhores tipos de construção para fábricas subterrâneas.

Os Estados Unidos estão, aparentemente, avançando a passo lento e com extrema cautela, no que concerne o deslocamento de qualquer parte de sua indútria para instalações sob a terra. Outras nações estão executando amplamente esta medida. Mr. Ira W. McBride escreveu, recentemente, no Ordnance: “Os boatos e os fatos provam que outras nações estão agindo com mais rapidez e menos cautela do que os Estados Unidos no sentido de utilizar o subterrâneo como meio de defesa. Consta que a Grã-Bretanha está ampliando as instalações dêsse tipo construídas durante a guerra. Outro país, segundo se diz, forçou seus prisioneiros de guerra a trabalharem na construção do maior aeródromo subterrrâneo do mundo. Localizado em posição dominante, êsse aeródromo tem um potencial de ataque enorme.” A Suécia está, neste momento, produzindo aeronaves em fábricas subterrâneas. Alguns jornalistas norte-americanos tiveram ensejo de visitar algumas, mas não tôdas essas fábricas. As autoridades suécas mantiveram certa reserva sôbre êste assunto, mas confessaram a existência de, pelo menos, mais dez fábricas subterrâneas.

Muitos problemas terão de ser resolvidos para que se realize a localização subterrânea de qualquer parte de nossa indústria, e talvez haja meios mais econômicos e praticáveis de reduzir nossa vulnerabilidade. Todavia, pelo menos uma parte de nossas indústrias mais vitais deveria refugiar-se em subterrâneos, simultâneamente com outros meios de construção protetora ou descentralização. Uma inspeção das zonas industriais alemãs bombardeadas ou dos ermos que foram outrora Hiroshima e Nagasaki serviria de muito para despertar os líderes da indústria norte-americana de sua aparente letargia no que respeita à vulnerabilidade a ataques aéreos. O Govêrno pode e deve executar um projeto neste sentido. Se fôr preciso verbas especiais, nossos líderes devem tomar a iniciativa de conseguir a legislação necessária. O tempo de agir é agora; não quando as bombas começarem a cair.

A proteção estrutural é a terceira medida para reduzir a vulnerabilidade. É aparente, da estimativa dos danos causados pelo bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, que os edifícios de cimento armado sòlidamente construídos resistiram melhor à explosão atômica e os incêndios subsequentes que os de tijolo ou de madeira. As estruturas de concreto situadas a 600 metros ou mais do centro da explosão ficaram, relativamente, ilesas, ao passo que edifícios de tijolo de muitos andares, localizados até a 1800 metros de distância, foram inteiramente destruídos.

Êstes e outros fatos colhidos nos estudos feitos das duas cidades japonesas orientam as experiências de engenharia e os planos de construções de tipo protetor. As fábricas e as indústrias consideradas importantes para o nosso esforço bélico devem ser planeadas de maneira a proporcionar o máximo de proteção estrutural. É evidente que nenhum plano factível de construções de superfície proporcionará muita garantia quando o edifício esteja localizado no centro da explosão ou perto dele. Todavia, está verificado que adequadas formas de estrutura reduzirão de muito o efeito destruidor a distâncias razoáveis. A adoção de planos-padrão, desenvolvidos por nossos engenheiros, que estabeleçam o mínimo de proteção aceitável, deve constituir uma das fases do programa total para reduzir a vulnerabilidade.

A dispersão precipitada das indústrias existentes, que seria o quarto método possível de reduzir a vulnerabilidade, não é aconselhável. Essa medida provocaria uma perturbação social proibitiva. As medidas de proteção devem ser executadas de modo gradativo, talvez mediante a dispersão das instalações importantes, ao passo que sejam construídas. Quando as instalações atuais se desgastarem e fôr indicado renová-las, a substituição deve ser feita levando em conta a dispersão e outras medidas protetoras. A descentralização gradativa, mediante um plano de longo alcance, e a dispersão durante os estágios de construção, eliminariam muitas das dificuldades que uma ação rápida criaria.

O custo e a complexidade da manufatura de armas atômicas tornam necessário colimar objetivos estratégicos de proporções iguais. Uma vez que a localização geográfica das indústrias, nos Estados Unidos, é por fôrça fator determinante, para o inimigo, na escolha de seus objetivos, manter alta concentração de indústrias essenciais à guerra em áreas relativamente pequenas, é aumentar os riscos. A dispersão de nossas indústrias seria, portanto, a solução mais prática do problema da redução da vulnerabilidade industrial. Tôdas as outras medidas, salvo possìvelmente as operações militares, podem ser consideradas secundárias.

A descentralização gradativa da indústria e das populações nela empregadas pode, em tempos de paz, ser fomentada por medidas econômicas e sociais patrocinadas pelo Govêrno. Muitas grandes indústrias, empenhadas em evitar o congestionamento e os gastos das grandes cidades, e em encontrar zonas menos custosas e novas fontes de mão de obra, escolheram cidades pequenas e até zonas semi-rurais para a construção de seus novos edifícios. A presente emigração voluntária das indústrias das áreas de densa população deveria ser estimulada por todos os motivos.

O recente deslocamento de grande parte da indústria rumo ao sul, embora não executado com a intenção de reduzir a vulnerabilidade, tende a diminuir nossa vulnerabilidade industrial. Êsses deslocamentos das indústrias existentes e das em criação seriam muito mais eficientes, do ponto de vista estratégico, se orientados e estimulados pelo Govêrno. Foram assegurados aos fazendeiros vastos subsídios, por espaço de alguns anos, para fomentar a produção do trigo, milho e de outras colheitas. Por que não favorecer a indústria com subsídios idênticos com o fim de encorajar e facilitar a solução de um problema vital, como é o da dispersão industrial? A assistência do Govêrno, neste assunto, teria como resultado uma dispersão planejada e o máximo de medidas protetoras. O deslocamento voluntário da indústria é motivo de satisfação; mas não seria uma plano nacional de dispersão a maneira mais lógica de reduzir a vulnerabilidade industrial?

O Diretor do Departamento de Edifícios Públicos calcula, que, em 1949, os gastos globais em construções públicas e particulares, em todo o país, se elevará a um quarto de bilhão de dólares. Não está incluída nesta cifra a verba federal de muitos milhões de dólares aprovada recentemente para a construção de casas residenciais, que estipula a ereção de 810.000 unidades num período de seis anos, à razão de 135.000 por ano. Um dos parágrafos da lei autoriza a “Housing and Home Finance Administration” a promover programas de amplas investigações técnico-econômicas, a fim de estimular a construção de casas residenciais e reduzir os custos.

Ao ser executado êsse programa, o problema da vulnerabilidade deveria ser encarado sèriamente. Essas unidades residenciais deveriam, absolutamente, ser erguidas em obediência aos princípios cardeais de dispersão adequada e de tipos de construção protetora. A experiência japonesa mostrou que até abrigos subterrrâneos precários foram eficientes contra a onda de choque e irradiação provocada pela explosão atômica. Não deveria o Govêrno, nos projetos de construção de casas por êle patrocinados, tomar em séria consideração o antiquado sistema dos porões?

Nossas indústrias, que são o coração, as artérias e o calcanhar de Aquiles de nosso esfôrço militar, devem ser tornadas menos vulneráveis aos ataques e à destruição atômica. O meio mais prático de reduzir a vulnerabilidade industrial está em dispersar, pelo menos, as indústrias-chaves, vitais para um imediato esfôrço de guerra. A dispersão parece de mais fácil realização que as outras medidas protetoras; porém, qualquer dos meios mencionados e todos êles, dentro da capacidade desta nação, devem ser empregados.

Escola de Comando e Estado Maior da Aviação

Notas:

1. Ver Robert E. Marshak e outros, Our Atomic World (U. Of New Mexico, 1946), pag. 34.

2. Henry E. Glass, Dispersion and Relocation of Aircraft Industry (Washington D.C., The Industrial College of the Armed Forces, 1946), pag. 2.

3. Coronel Matthew K. Deichelmann. “American Security.” Air University Quarterly Review, Vol. II, No. 2 (1948), pag. 8.

Colaborador

O Ten.-Cel. George R. Charlton, diplomado pela Escola de Comando e EM do Ar e antigo Diretor de Comunicações do Q.G. da Fôrça Aérea no Mar das Antilhas, está agora adido à Escola de EME da Fôrça Aérea, Universidade do Ar.


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