Publicado em julho 09
ASPJ  Em Português 2° Trimestre 2009

Os Dilemas da Força Aérea
Norte-Americana para com o
Ensino de Idiomas

Tenente-Coronel Jay J. Warwick, USAF, Reformado

Os Dilemas da Força Aérea Norte-America para com o Ensino de Idiomas

SE ALGUÉM COMPARAR, de forma objetiva, o programa de ensino de idiomas a militares da Força Aérea, com o de outros serviços militares norte-americanos, ela não se sairá muito bem. A aprendizagem de língua estrangeira simplesmente não faz parte da composição genética destes militares. Nunca tivemos um programa de idiomas abrangente, apesar de que, por décadas “podia-se ouvir vozes” clamando para que isso mudasse. À medida que número cada vez maior de pessoal encontra-se em ambientes culturais complexos, como parte da rotina diária, o conhecimento de idiomas, torna-se cada vez mais importante. A verdade, porém, é que além do número limitado de posições dedicadas a linguistas profissionais, (especialmente em inteligência e assuntos militares político/regionais), a USAF nunca identificou expectativas ou requisitos institucionais específicos para idiomas. De fato, 14 anos já decorreram desde a última vez que a Força Aérea abordou essa questão, formalmente, dentro da instituição. O Comando de Educação e Treinamento Aéreo e o Gabinete do Vice-Chefe de Estado-Maior de Pessoal da Força Aérea documentaram a última avaliação, realizada em meados da década de 90 pela Officer Foreign Language Skills Process Action Team [Equipe de Ação de Proficiência em Idiomas Estrangeiros para Oficiais], com o objetivo de “analisar aptidão linguística aperfeiçoada para o aprimoramento de operações da Força, ao redor do mundo”.1 A equipe fez mais de 30 recomendações específicas a este respeito.2 Até hoje, apenas um pequeno número dessas recomendações foi implementado.

A pergunta óbvia que vem imediatamente à mente é: por que isso é tão difícil assim? Que foi que levou a liderança a ignorar esse recurso crítico para facilitar operações eficazes em ambiente expedicionário? Este artigo faz uma breve análise das causas, oferece uma rápida ideia de como a Universidade do Ar (UA) está abordando a questão do ensino dentro do contexto da educação militar profissional (PME) e oferece certas prescrições para um programa de ensino de línguas que incluiria todos os militares da Força.

As Origens do Problema

A aprendizagem de um idioma estrangeiro é atividade extremamente complexa. O desenvolvimento de um programa que possa ser empregado entre a grande diversidade de militares é também um empreendimento bastante complicado. Esta dificuldade, provavelmente, reside em inércia. Apesar disso, os outros obstáculos descritos abaixo tornam tal tarefa excepcionalmente difícil para a Força Aérea.

O Estudo de Línguas não é Prioridade

Por tradição, a Força Aérea vê o mundo de forma um tanto peculiar − de 30.000 pés de altura. Seu modo de pensar procede, mais ou menos, assim: as operações aéreas iniciam em aeródromo seguro, lembrando uma fortaleza ilhada em meio à terra estrangeira ou, da segurança do território norte-americano. Realiza essas operações no espaço, longe das sociedades que se encontram lá embaixo, no solo terrestre, controlando-as de dentro de um centro padronizado de operações aeroespaciais que independem de sua localização em terra estrangeira. Centenas de pessoas dedicadas a apoio e operações pilotam aeronaves, providenciando manutenção e reparos, prestam serviço ao pessoal, realizam operações logísticas e desempenham uma centena de outras funções, todas sem qualquer contato direto com qualquer pessoa de país estrangeiro. O Coronel Gunther A. Mueller, recém-Presidente do Departamento de Línguas Estrangeiras da Academia da Força Aérea, provavelmente encontrou a definição perfeita para com este modo de pensar: “O pessoal da Força Aérea, mandando chuva de fogo e aço [lá de cima] tinha poucos motivos para dedicar-se a um entendimento intercultural”.3 Com essa atitude institucionalizada, não é de se admirar que encontre dificuldades em definir tais requisitos para a Força em geral.

O Enfoque em Tecnologia e Equipamento:
O Marco de seu Sucesso

Quem reclama do sucesso? A nossa história é um estudo incrível de como uma Força militar alavancou a tecnologia e excelente equipamento para alcançar êxitos impressionantes, algo inimaginável aos idealistas que defendiam a força aérea durante a fase inicial de desenvolvimento. Celebramos o fato de que podemos colocar uma bomba teleguiada na janela do segundo andar em um prédio do quartel-general inimigo. Testemunhamos, com alegria, a evolução progressiva do “ataque de precisão”, que agora possui 90% de probabilidade de atingir o alvo com uma única bomba, lançada de um só bombardeiro B2. Em comentários dirigidos aos estudantes e professores da UA, o Secretário de Defesa Robert Gates reconheceu tudo isso, observando ainda que o nosso último jato, perdido em combate, foi durante a guerra do Vietnam.4 Além disso, atribuiu esse sucesso, pelo menos em parte, a como nossos militares levaram a tecnologia ao extremo. O Secretário advertiu, no entanto, que mudanças, ainda que necessárias, iriam causar dificuldades a uma organização que já desfruta de tanto sucesso por seis décadas.5 A obsessão pelo passado e feitos tecnológicos inibe sua capacidade de considerar outros papéis apropriados para a potência aérea durante o século XXI, especialmente aqueles de natureza menos técnica, baseados em habilidades mais “brandas”, tais como competência linguística. A comunidade estereotipada é rápida em condecorar pilotos pelo disparo perfeito de arma que atinge a janela de um segundo andar, mas parece não perceber o potencial muito maior de sucesso em atendimento e fornecimento de provisões de socorro humanitário por membro de tripulação, que também pode acrescentar algumas palavras a um líder de tribo da localidade, facilmente impressionável.

O Carácter Singular das Operações
Expedicionárias da Força Aérea

Os nossos militares são organizados para o destacamento de forma diferente dos militares do Exército, Marinha e Fuzileiros Navais. Isso apresenta certos obstáculos peculiares à gestão de um programa de idiomas para a Força Aérea, particularmente tendo em conta o longo tempo necessário para adquirir e manter proficiência em língua estrangeira. Grande parte dos contingentes do Exército, Marinha e Fuzileiros pertencem à unidades que são treinadas e destacadas juntas, também operando em conjunto em combate, muitas vezes retornando à mesma área geográfica. Por exemplo, a 22ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais está sendo destacada ao Mediterrâneo como força auto-suficiente de 2.200 fuzileiros, revezando-se com outras unidades e, servindo de força de desembarque para a 6ª Frota. Visto que esses Fuzileiros tendem a passar boa parte da carreira, em unidades como a 22ª, que opera dentro da mesma área geográfica, é possível desenvolver especialização regional e linguística no espaço de vários anos. Essa situação facilita o processo de seleção de um idioma (neste caso, o Árabe) que devem dominar, a fim de entrar em contato com a população local. Apesar de muitas exceções, geralmente o mesmo acontece com as brigadas do Exército e navios de transporte de tropas da Marinha. Com relativa confiabilidade, é possível prever a área geográfica em que estas unidades operam, facilitando o enfoque em treinamento de línguas. Este não é o caso dos militares da Força Aérea. Em geral, aqueles que participam do ciclo de distribuição de forças expedicionárias aereoespaciais são destacados, como indivíduos, de uma base nacional à área de operações, designados à unidade provisória, composta de pessoal e equipamento provenientes de diversas Bases. Em tal estrutura, os militares da Força Aérea podem ser enviados ao Iraque no primeiro ciclo, para a Turquia no segundo e para a América Latina no próximo, tornando impossível o domínio do idioma, vindo a conhecer apenas frases de sobrevivência, que aprendem quando já é hora de embarcar. Uma vez que não há como garantir que esses militares retornarão à mesma área geográfica em sucessivas missões, não existem meios práticos para a seleção de determinada proficiência. Já que é impossível dominarem quatro ou cinco idiomas diferentes para cobrir a gama de possíveis áreas, a Força Aérea, simplesmente dá de ombros, com indiferença, tomando a atitude de que o problema continua a ser demasiado difícil de se resolver. As operações de mobilidade aérea são questões ainda mais complexas, uma vez ser provável que as tripulações farão múltiplas paradas em diversas áreas geográficas, em uma única missão. Como seria possível cobrir todas as possíveis demandas linguísticas com eficácia? Atualmente, a Força Aérea não possui solução para este problema singular.

As Exigências Linguísticas:
Passadas e Presentes

Esta não é mais a Força Aérea de nossos avós. Antigamente, a Força podia fazer frente às modestas exigências linguísticas com a pequena comunidade que oferecia esses conhecimentos, principalmente em inteligência e assuntos militares político-regionais. Podíamos corrigir as deficiências, contratando linguistas ou pessoal nativo que haviam “herdado” o idioma [maternal ou paternal] e, que muitas vezes eram também militares da Força. Os demais membros contentavam-se em manter o enfoque nas missões fundamentais de voar, combater e vencer. Esse ambiente tradicional da Força Aérea, já conhecido, mudou e, simplesmente, não existe mais. Essa mudança radical começou nos anos 90 com as operações Southern e Northern Watch e explodiu após 11 de setembro de 2001. Pela primeira vez, a Força Aérea começou a transferir, com frequência, seu pessoal em massa à estações remotas. Já passou o tempo em que uma única missão a local remoto, durava um ano, sendo o suficiente para uma carreira de 20 anos. A Força é e continuará sendo, dentro de futuro previsível, uma Força Aérea expedicionária. É preciso também lidar com a fria e dura realidade da redução de pessoal e equipamento. Esses fatores, em conjunto, formam um perfeito caos de consequências imprevisíveis, uma das quais é a de que militares comuns desempenham, agora, papéis não tradicionais e missões que jamais poderiam ter previsto há anos atrás. Os militares, cada vez mais, entram em contato regular com culturas estrangeiras em uma miríade de diferentes níveis, levando à necessidade de conhecimento linguístico básico, se não completa proficiência. Os Oficiais da Força Aérea lideram equipes locais na reconstrução do Iraque. O pessoal trabalha muito bem com os equivalentes do Iraque para criar uma Força Aérea Iraquiana pós-Saddam. Aproximadamente 14.200 militares da aeronáutica trabalham em solo, desempenhando tarefas expedicionárias conjuntas no Iraque e Afeganistão onde, por exemplo, um engenheiro civil da Força Aérea substitui um engenheiro de construção pesada do Exército, ou pode ser que um estudante formado possa vira a ser motorista de caminhão do Exército nas estradas iraquianas.6 Como observou o Secretário Gates em seus comentários na UA, os militares da Força Aérea envolvem-se cada vez mais com culturas estrangeiras e acabam em situações complexas que exigem interação imediata, quer seja na garantia de direitos aéreos ou negociações de contratos. As parcerias de coalizão são comuns em todas as operações militares. Finalmente, a nação cada vez mais apela à Força Aérea para levar a cabo operações humanitárias civis e militares com parceiros de outras agências e organizações não-governamentais que lidam diretamente com as populações locais, colocando a prêmio a perícia linguística e cultura estrangeiras.7

Como Abordar a Questão

Em 2008, a maneira de pensar e atitudes tradicionais da Força Aérea tornaram-se coisa do passado. Embora a tendência para um programa sério de línguas para a Força Aérea caminhe lentamente, aos trancos e barrancos, a mudança é perceptível. Em janeiro de 2005, o Departamento de Defesa descreveu os objetivos gerais no Defense Language Transformation Roadmap [Roteiro de Transformação de Idiomas de Defesa], cujos objetivos, no entanto, estão muito enfocados nos requisitos para o especialista em linguística, em vez de um programa coerente para todos os militares da Força Aérea.8 Em 2007, o Chefe de Estado-Maior da Aeronáutica compartilhou a visão da Força em documento intitulado “Global Cultural, Regional and Linguistic Competency Framework [Quadro de competência cultural, regional e linguística global].”9 Embora esse documento destaque a importância que os altos líderes já outorgam à questões culturais e linguísticas, não é suficientemente específico para servir de exemplo para um programa de idiomas abrangente concebido para satisfazer as necessidades de todos os militares da Força. Até o final de 2007, o Estado-Maior da Aeronáutica aparentemente estava pronto a seguir o mesmo caminho do Exército, contemplando a possibilidade de aquisição de um programa de computador de idiomas para toda a Força e para todos os militares. O Exército recentemente gastou US$4,2 milhões para renovar o contrato de informática para idiomas, após 2 anos, tornando tal ferramenta disponível a todos os soldados.10 Em meados de 2008, o Estado-Maior da Aeronáutica voltou atrás em relação a essa posição. No entanto, a Força Aérea tomou mais uma iniciativa para resolver questões linguísticas, criando, em dezembro de 2007, o Air Force Culture and Language Center (AFCLC) na Base Aérea Maxwell, Alabama. Como parte da Universidade do Ar, esta organização da Força é agora responsável pela concepção, coordenação e implementação de programas de educação e treinamento em línguas estrangeiras, identidades culturais e regiões que satisfaçam os requisitos da USAF.11 No centro deste trabalho está a criação de um plano de ação, cientificamente eficaz e institucionalmente sustentável para desenvolver militares competentes em várias culturas. (3C) através do sistema de PME.12 O AFCLC visa infundir o conhecimento de diferentes culturas (centrando-se em conceitos, teorias e métodos), aptidões (particularmente comunicação, negociação e relacionamento interpessoal), atitudes e abordagens de aprendizagem.13 Este conceito, agora adotado pela Força Aérea, apoia-se na aprendizagem de idiomas como parte integrante da abordagem maior do desenvolvimento de militares 3C. À medida que o Centro aperfeiçoa a implementação do conceito 3C para toda a Força Aérea, irá também colaborar com a Autoridade Sênior em Línguas, parte do Estado-Maior da Aeronáutica, na concepção de um programa para todos os militares da Força Aérea.

O Departamento de Administração de Línguas também organizou grupos permanentes de assessoria e equipes de orientação do departamento executivo, compostos de peritos de toda a Força para formular diretrizes relacionadas aos requisitos culturais, regionais e linguísticos para todos os militares. O trabalho do AFCLC, bem como o dos grupos de assessoria e orientação, apenas teve início em meados de 2008. Na ausência de programa para toda a Força Aérea, notamos um número cada vez maior de despretensiosas iniciativas locais. Algumas bibliotecas do Comando da Força Aérea Norte-norte-americana na Europa e do Comando de Educação e Treinamento Aéreo compraram licenças para programas de computador para os militares.14 Além disso, uma porcentagem muito pequena dos militares destacados à áreas de combate recebem treinamento para familiarização com idiomas, através de equipes móveis de treinamento do Defense Language Institute (DLI). Esses empreendimentos, no entanto, servem, principalmente, para casos especiais, tais como o de operações de mobilidade aérea.

O Papel da Educação Militar
Profissional da Força Aérea
na Aprendizagem de Idiomas

Sob a orientação do Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, a Universidade do Ar está na vanguarda, no que se refere aos empreendimentos ainda latentes da aprendizagem de idiomas para toda a Força. Em Fevereiro de 2006, o chefe do Estado-Maior ordenou que a UA iniciasse a instrução na Air War College (AWC), Air Command and Staff College (ACSC) e Senior Noncommissioned Officer Academy de cinco idiomas “estratégicos”: Espanhol, Francês, Mandarim Chinês e Árabe. Em 2008 ficou evidente que o alto comando da UA levou a tarefa a sério. No entanto, a UA enfrenta dificuldades em definir um programa específico de objetivos para a proficiência. Isso reflete a falta de direção do programa dentro da Força. As questões, tais como método didático, quantidade, conteúdo e avaliação da aprendizagem são o tema central do debate. Ainda no início do cumprimento da ordem do Chefe de Estado-Maior, a UA concluiu que a geração de linguistas proficientes vai mais além do âmbito de recursos do PME, em virtude da já pesada carga horária do currículo que os alunos enfrentam. A meta da UA, veio a ser, então, a familiarização/exposição ao idioma. A expectativa é de que os estudantes ficassem motivados a continuar o aprendizado por iniciativa própria.

Três Escolas Diferentes,
Três Soluções Distintas

O programa da UA enfrenta o grande obstáculo de começar, do zero, o ensino de um idioma a americanos que durante toda a vida não aprenderam uma língua estrangeira, sem falar nos estudantes militares já sobrecarregados de matérias acadêmicas. Entre 2006 e 2008 a UA enfrentou esta demanda ao colocar em prova três tipos de ensino didático. Para o Squadron Officer College (SOC), frequentado por tenentes e capitães, ofereceu um programa voluntário que envolvia a emissão de licenças de programa de aprendizagem de idiomas por computador aos estudantes de iniciativa própria. A ACSC, frequentada por majores, testou um programa obrigatório, onde os alunos participando do ensino em classe, necessitavam completar determinado número de módulos de programa de computador para um dos cinco idiomas estratégicos. Foi um requisito de graduação. Esses alunos passaram pelo Defense Language Aptitude Battery Test [Bateria de testes de aptidão em idiomas de Defesa] no início do ano letivo para determinar o idioma que cada um iria estudar. Além de completar os módulos obrigatórios, os estudantes tinham a opção de utilizar instrutores do DLI disponibilizados através de equipes móveis de treinamento. O programa de línguas da AWC [Air War College], frequentado por coronéis e tenentes-coronéis, possuía dois requisitos para os estudantes em classe: uso de programa de computador do DLI, juntamente com vídeos e instrução ministrada em sala de aula por professores do DLI. Em seu programa de ensino à distância, a AWC colocou em prova, recentemente, a oferta de pequeno número de módulos de programa de idiomas por computador, a ser concluído como curso facultativo.

Os Resultados

Agora que a UA já passou por dois ciclos acadêmicos completos com este tipo de ensino didático, podemos declarar, definitivamente, o que foi e o que não foi bem sucedido.

O Que Funcionou

O ensino didático, em classe, face a face foi, sem dúvida, o mais bem recebido dos métodos usados pelas escolas da UA. Esse método também conseguiu motivar os alunos a continuar o estudo por conta própria. Embora a eficácia da aprendizagem de línguas dependa especificamente, em grande parte, do instrutor do DLI, os alunos da AWC tiveram uma experiência para lá de favorável com esses professores. Durante o trimestre do outono de 2007, mais de 58 % dos estudantes classificaram esse tipo de instrução como excelente ou fora de série em eficiência para a familiarização com o idioma. Quase 70% indicaram que seria provável ou muito provável que iriam continuar o estudo por conta própria.15 A conclusão do DLI, apoiada pela experiência de mais de dois anos da UA, sugere que 30 horas de instrução, ao vivo, é o mínimo que se exige para um programa de familiarização, digno de confiança para qualquer um dos cinco idiomas estratégicos ensinados na UA. Essa carga horária parece permitir um bom equilíbrio: oferece significativa familiarização e não se torna demasiadamente invasiva para com o currículo básico da AWC.

O Que Não Funcionou

Os estudantes não deram grande importância às opções de software de idiomas e vídeo, pois não conseguiram grande domínio do idioma e parece não terem motivado os alunos a continuar a aprendizagem, além dos requisitos obrigatórios.16 Particularmente, os métodos didáticos utilizados, que incluem aprendizado por indução (uma série de figuras associadas ou acompanhadas de uma frase no idioma-alvo), causaram frustração aos estudantes da ACSC. Após curto período de uso, muitos perderam a motivação e concentraram-se mais em “derrotar” o software.17

Os estudantes do programa de ensino à distância da SOC encontraram um problema diferente com o software. Embora à princípio este programa voluntário gerasse entusiasmo, evidenciado por longa lista de espera para a licença, as taxas de conclusão dos módulos foram difíceis de compreender. Durante um período de 15 meses, 2.667 estudantes da SOC inscreveram-se para obter as licenças, mas apenas 67 (2,5 %) completaram 50 horas ou mais.18 As taxas de conclusão para os idiomas mais difíceis (como o Mandarim Chinês) foram particularmente baixas, onde a maioria dos alunos completou apenas duas das 19 unidades. Sem incentivos para o programa (seja recompensa ou palmatória) os alunos descobriram, rapidamente, que o programa era difícil de se encaixar em suas prioridades cotidianas e que a ferramenta do software não era a “pílula mágica” que lhes permitiria evitar o trabalho árduo, necessário para aprender uma língua.

Os estudantes do programa de ensino à distância da AWC também tiveram a opção de utilizar o software de idiomas, de maneira voluntária. Ao contrário da SOC, o programa é oferecido à AWC como matéria facultativa, substituindo um requisito de graduação pre-existente. Isto proporcionou a “garra” necessária para motivar os alunos a concluir o programa de ensino à distância. O programa-piloto na AWC foi extremamente popular entre os estudantes, com alta taxa de conclusão. Pode muito bem ser que a UA acaba de encontrar o “caminho” para futuros programas de ensino de idiomas à distância.

O Futuro dos Idiomas na
Educação Militar Profissional

Em novembro de 2007, a UA realizou a conferência de “cúpula de idiomas” um empreendimento para moldar futura metodologia coerente, usando os diferentes sistemas postos a prova pelas escolas. Esta cúpula contou com representantes de cada escola da UA, bem como profissionais da Força Aérea e Departamento de Defesa experientes em línguas. Embora a UA reconheça a viabilidade de um programa que parte do zero para oficiais intermediários e superiores, tendo em vista expectativas realistas, a cúpula determinou que dada a natureza a longo prazo do PME da Força Aérea, este exigiria um programa mais amplo e abrangente do que o atual. A Educação Militar Profissional, bem como qualquer programa de larga escala da Força Aérea, deveria colocar ênfase à aprendizagem de línguas logo no início da carreira−quanto mais cedo, melhor. Portanto, a abordagem da Força Aérea para a aquisição de idiomas de uso geral para as tropas deverá estressar a aprendizagem em programas de ascensão ao oficialato, incluindo a Academia da Força Aérea e o CPOR. Ao longo dos anos, isso vai produzir um grupo de militares proficientes em idiomas estrangeiros muito maior do que existe hoje. Nesse ponto, o PME irá desempenhar um papel importante no aprimoramento, apoio e manutenção de competência linguística existente, mantendo uma pequena capacidade para acomodar oficiais superiores e intermediários que desejem começar a aprender um idioma mais tarde em sua carreira.19

À medida que a UA avança em direção a esse objetivo a longo prazo, também continuará a refinar o programa, aproveitando o sucesso alcançado desde o início de 2006. Já que a instrução face a face, mediada pelo DLI, provou ser uma grande ferramenta para motivar os estudantes da AWC, o programa de ensino em classe da ACSC vai usar o programa da AWC, a ser implantando até 2010, instrução mandatória mediada por professores para todos os estudantes americanos da ACSC. Isto, porém, não significa que a UA irá descartar, por completo, o software de idiomas, como método didático. Certas ferramentas serão oferecidas aos alunos que possam e desejem auto-estudo. Além disso, os programas de ensino à distância, quase que intrinsecamente, exigem algum tipo de software. A questão continua sendo, qual é o melhor. No entanto, continuamos sem resposta, dada as diferentes opiniões sobre o software existente. A UA está avaliando as opções.

As Lacunas a Preencher

Apesar de certo sucesso com um programa criado a partir do zero, a UA ainda enfrenta uma série de questões difíceis. O problema principal é implementar um programa nas escolas, onde os cursos são de demasiada curta duração para permitir o acréscimo de um idioma a um currículo já completo. Isto foi mais que comprovado no caso da Educação Militar Profissional de graduados onde os cursos duram cerca de um mês. Mesmo com a inclusão de idiomas no curriculo, sua curta duração é negligenciável. Uma possível solução para os militares graduados seria oferecer maiores oportunidades através da Community College of the Air Force ou a UA poderia oferecer aulas de duas horas de estratégias para a aprendizagem de idiomas, centrando-se no “mais adequado” estilo de aprendizagem para indivíduos interessados. A duração do curso também dificulta a instrução na SOC. A experiência de ensino à distância na AWC pode ser valiosa indicação no oferecimento de uma alternativa de currículo para estudantes interessados.

A Prescrição para um
Programa Global de Idiomas

Os participantes da cúpula de idiomas da UA concordaram que é inviável e inadequado para que todos os militares venham a especializar-se em linguística.20 Dependendo do idioma, um indivíduo poderia demorar mais de um ano em curso de imersão, para obter um mínimo de fluência. A Força Aérea não pode se dar ao luxo de fazer com que todos os militares gastem essa quantidade de tempo. Além disso, a experiência identificou motivação e capacidade como fatores essenciais. Nem todos os militares possuem a motivação para aprender um idioma estrangeiro ou manter proficiência no mesmo e, nem todos estão predispostos a este tipo de aprendizagem. No entanto, os participantes concordaram que todos os militares aptos devem receber a oportunidade se desejarem e se as funções e / ou especialidade de carreira ditarem a necessidade. Esses princípios básicos possuem inferências enormes, não apenas para determinar a natureza e o caráter do programa da UA, mas também para a formação de programa abrangente para todos.

O processo de análise das experiências da UA na criação de programa e aplicação dos amplos princípios acordados durante a Cúpula da UA produziram uma série de recomendações, inclusive:

•  Designar (como fez o Chefe de Estado-Maior para o PME em 2006) cinco ou seis idiomas de maior importância estratégica a longo prazo; essa lista deveria satisfazer 75-80% do total da demanda da Força Aérea para os próximos 20 anos.

•  Através de um programa de adesão e avaliação, identificar militares dispostos e aptos a aprender, durante toda a carreira, um dos idiomas estrategicamente importantes. Esses militares deverão ingressar na ativa já com uma capacidade inicial. Para aqueles que buscam aprender idiomas raros ou de baixa densidade, a Força Aérea continuará a depender de programas existentes, baixo contrato com linguistas e recrutamento de pessoas que “herdaram” a língua materna ou paterna.

•  Cada área de especialidade da Força Aérea deve designar parte das tropas para capacitação em idiomas. Essa iniciativa irá muito além da atual área de especialidade de carreira em idiomas (inteligência e assuntos militares políticos/ regionais). Após levantamento exaustivo das demandas linguísticas, os líderes de cada campo especializado devem avaliar futuras demandas, relativas a quanto contato as tropas virão a ter em ambiente cada vez mais orientado à coligação e parcerias. As metas serão adaptadas de acordo.

•  Orientar os especialistas em destacamento e movimentação de militares a encaixar o grupo de militares com aptidão e capacidade linguística às apropriadas especialidades de carreira e monitorá-los através do departamento de recursos humanos. Já que a Força Aérea considera estes indivíduos treinados como bens de baixa intensidade/alta demanda, deve-se definir e impor limites no número de vezes que esses militares serão destacados fora do ciclo, não voluntariamente, à áreas de conflito. Sobrecarregar esse pessoal com destacamento excessivo à área de conflito pode ser que irá ajudá-los a manter a proficiência linguística atualizada, mas, ao mesmo tempo, sua competência técnica e a carreira militar irão sofrer com isso.

•  Assegurar que a PME da Força Aérea manterá o programa de idiomas enfocado, a fim de manter, sustentar e aprimorar a aptidão fundamental em idiomas, iniciada durante o processo de adesão e avaliação. A Educação Militar Profissional lançará mão de instrução de idiomas em classe, mediada por professor, como “dose suplementar” efetiva durante uma jornada progressiva de aprendizagem, ao longo de toda a carreira, usando a ferramenta de software apropriada para aperfeiçoar o auto-estudo.

Será que podemos fazer isso? Sim, mas somente se a alta liderança manter o acompanhamento, garantindo que tudo funcione em conjunto − educação e treinamento, regulamento e sistema de pessoal. Só então será sustentável.

Será este um esforço monumental? Sim, mas os dividendos serão, também, sem conta. Pela primeira vez na sua história a Força Aérea irá contar com um programa de idiomas abrangente, acessível a todos. Um empreendimento digno de nota.

Notas:

1. Executive Summary,” Officer Foreign Language Skills Process Action Team Report and Recommendations (Colorado Springs, CO: US Air Force Academy, dezembro de 1995), 1.

2. Coronel Gunther A. Mueller and Tenente-coronel Carl Daubach, “Global Skills: Vital Components of Global Engagement,” Airpower Journal 12, no 2 (Verão de 1998): 68, disponível em http://www.airpower.au.af.mil/airchronicles/apj/apj98/sum98/mueller.pdf.

3. Ibid., 67.

4. Secretário de Defesa Robert M. Gates, “Secretary Gates [sic] Remarks at Maxwell-Gunter Air Force Base, Montgomery Alabama, [21 April 2008]” (Washington, DC: Department of Defense, Office of the Assistant Secretary of Defense, Public Affairs, 2008), disponível em http://www.defenselink.mil/transcripts/transcript.aspx ?transcriptid=4214 (obtido em 29 de outubro de 2008).

5. Ibid.

6. Ibid.

7. Ibid.

8. Defense Language Transformation Roadmap (Washington, DC: Department of Defense, janeiro de 2005), disponível em http://www.globalsecurity.org/military/library/policy/dod/d20050330roadmap.pdf.

9. General T. Michael Moseley, Chefe de Estado-Maior, Força Aérea dos EUA, para o Comando da Força Aérea/A1, memorando, assunto: Global Cultural, Regional and Linguistic Competency Framework [Quadro de competência cultural, regional e linguística global], 29 de janeiro 2007.

10. Kristin Atwater, “U.S. Army Extends Language-Learning Partnership,” 2 de novembro de 2007, disponível em http://www.govpro.com/RBD.aspx?t=%2fNews%2f Article%2f75515%2f.

11. Headquarters USAF/A1 and Headquarters AU, Air Force Culture and Language Center Charter, 26 de dezembro de 2007.

12. Dr. Brian Selmeski, “Air University’s 2008 Quality Enhancement Plan: Cross-Culturally Competent Airmen,” 15 de fevereiro de 2008. Competência em transposição cultural é definida como a capacidade de compreender rapidamente e com precisão− e, em seguida, agir adequada e efetivamente − em ambiente culturalmente complexo para alcançar o efeito desejado, sem necessariamente expor-se a um determinado grupo, região ou idioma.

13. Ibid.

14. John C. K. Daly, “UPI Intelligence Watch,” United Press International, 5 de dezembro de 2006.

15. Briefing, Tenente-Coronel Jay Warwick, USAF, Reformado, Centro Cultural e de Línguas da Força Aérea, assunto: Atualização em ldiomas da Universidade do Ar, 5 de maio de 2008.

16. Ibid. Entrevistas de proficiência oral com estudantes graduados em 2007 da ACSC indicaram que 41 % de 51 estudantes obtiveram o grau “ 0 +” (definido como proficiência em memorização - capacidade de satisfazer necessidades imediatas proferindo palavras ensaiadas) ou melhor na escala-padrão de classificação linguística do serviço federal. Na AWC, 81% dos entrevistados em proficiência oral obtiveram o mesmo grau. A maioria dos estudantes da ACSC graduados em 2007 (64 %) avaliou a ferramenta de software de idiomas como marginal ou insatisfatória para familiarização para o Árabe e 31% classificaram o mesmo de marginal ou insatisfatório para o Chinês Mandarim. 59% dos estudantes da AWC classificaram a eficácia do vídeo de marginal ou insatisfatória.

17. Ibid. Uma pequena amostra de alunos da ACSC (nove ao total) que participou da pesquisa afirmou que o software não satisfez as expectativas. 88%, discordaram em parte ou totalmente, que a ferramenta foi a motivação para continuar o aprendizado.

18. Ibid. A taxa de uso pelos estudantes da SOC incluída nesse relatório cobriu o período de 15 meses de setembro de 2006 a novembro de 2007.

19. Tenente-Coronel Jay Warwick, USAF, Reformado, “Language Summit Proceedings” (Base Aérea Maxwell, AL: AFCLC, 10 de dezembro de 2007).

20. Ibid.


Colaborador

O autor é vice-diretor de educação e treinamento do Centro Cultural e de Idiomas da Força Aérea, Base Aérea Maxwell, Alabama.


As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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