Publicado em julho 09
ASPJ  Em Português 2° Trimestre 2009


Resenhas Críticas


Killing Pablo: The Hunt for the World’s Greatest Outlaw, de Mark Bowden. Atlantic Monthly Press / Grove Atlantic (http://www.groveatlantic.com), 841 Broadway, New York, New York 10003, 2001, 296 páginas, $20.00 (encadernado).

Mark Bowden, autor de Black Hawk Down, escreveu uma narrativa cativante da ascensão e queda de Pablo Escobar, o conhecido barão da droga colombiano cuja política impiedosa de “prata ou chumbo” colocou-o acima da lei. Escobar corrompia sistematicamente os funcionários do governo, forçando-os a receberem ou seu dinheiro (prata) ou suas balas (chumbo). O domínio que tinha dos lucros da cocaína financiava a corrupção e, também, seu luxuoso estilo de vida. Em sua cidade natal, Medellin, era um herói popular, pela construção de alojamentos públicos e de campos de futebol para os pobres, mas, gradualmente, seus crimes macularam sua imagem pública. Em possível alusão ao livro clássico de Tom Clancy, de 1989, Bowden chama Escobar de “perigo nítido e atual” (p. 59).

Indo além de uma estimulante história criminal, Killing Pablo sonda o nexo obscuro entre terroristas, crime organizado e governos democráticos. Inicialmente, os cartéis da droga colombianos ajudaram o governo a combater guerrilheiros; mais tarde, porém, desenvolveu-se uma relação simbiótica entre os cartéis e a guerrilha. Para combater os cartéis, o governo colombiano mesclou a tradicional imposição da lei com uma estratégia desesperada de combater o terror com o terror. Inicialmente, o governo tentou a imposição da lei, mas o “aprisionamento” de Escobar entre 1991 e 1992 revelou-se uma farsa humilhante, porque ele dominava a prisão. Sua fuga levou a uma caçada humana maciça, baseada em uma estratégia governamental diferente. Bowden sustenta que a nova estratégia dos governos colombiano e dos Estados Unidos era simplesmente matar Escobar, embora proclamando oficialmente que só queriam capturá-lo.

Bowden caracteriza essa caçada humana como assassinato planejado, uma idéia perturbadora acerca de dois governos democráticos ostensivamente dedicados ao império da lei. O governo colombiano era incapaz de deter Escobar devido a políticos desclassificados e militares e policiais incompetentes e corruptos. Ansioso para extinguir o fluxo da cocaína, o governo dos Estados Unidos foi vítima da intensa competição entre suas próprias agências para obterem uma vantagem burocrática pela captura do fora-da-lei. Talvez os funcionários dos Estados Unidos também tenham explorado a mudança nas administrações presidenciais para livrarem-se das dúbias operações clandestinas antes que os funcionários da administração Clinton, que se iniciava, entendessem completamente o que estava acontecendo (p. 195). Secretamente, os Estados Unidos enviaram militares operacionais e aparelhagem de vigilância eletrônica avançada, enquanto os colombianos criavam uma unidade de polícia especial chamada “Bloco de Busca”, para rastrear Escobar. Logo o Bloco de Busca obteve a reputação de matar suspeitos em vez de prendê-los. Pior, o autor sustenta que ambos os governos foram lenientes com um grupo de vigilantes atuando nas sombras do chamado “Los Pepes” (termo, em espanhol, para “pessoas perseguidas por Pablo Escobar”), que incluía criminosos. A alegação é que o Bloco de Busca transferia informações de inteligência dos Estados Unidos aos membros de Los Pepes, que assassinavam metodicamente muitas pessoas que se imaginavam associadas a Escobar, dizimando seus asseclas. Bowden acha que os funcionários dos Estados Unidos sabiam o que Los Pepes estavam fazendo, mas conclui que “sempre haveria homens poderosos e bem intencionados que acreditavam que proteger a civilização exige, às vezes, escorregões na ilegalidade” (p. 178). Operações cibernéticas eram vitais para a caçada, mas de difícil realização. Escobar mudava de esconderijo freqüentemente, de modo que o Bloco de Busca usava equipamento Americano para localizar seu telefone celular, quando ligava para o filho. Escobar sabia que as autoridades estavam bisbilhotando, mas “o jogo não era evitar a escuta – o que seria impossível –, mas evitar ser alvejado” (p. 237). Para garantir que continuasse fazendo ligações telefônicas, os governos colombiano e Norte-Americano usaram a mulher e os filhos de Escobar de iscas, recusando-se a permitir que fugissem da Colômbia, com receio de que, se a família de Escobar fugisse para lugar seguro, ele poderia render-se, para outra farsa de prisão ou, simplesmente, desaparecer. Após exasperante série de ataques frustrados, inclusive um ataque aéreo abortado à localização de Escobar, eletronicamente determinada, finalmente o Bloco de Busca localizou-o via telefone celular, matando-o.

Talvez o leitor veja paralelos entre esta história e a guerra ao terror. A Colômbia não é o único país que enfrenta uma aliança espúria entre o terrorismo e o crime organizado. A evolução da parceria entre guerrilha colombiana e os traficantes de drogas lembra o que se vê, agora, no Afeganistão, em que os membros do Talibã já combateram os cultivadores de ópio, mas, agora, associam-se a eles para financiarem sua insurgência. Os esforços para combater esses inimigos produzem dilemas para os Estados Unidos. Bowden explica que “matar Pablo não poria fim à exportação de cocaína para os Estados Unidos, nem mesmo a diminuiria – todos sabiam disso – mas os americanos fizeram parte da tarefa acreditando que se tratava de algo maior: De democracia, soberania da lei tomar o partido da justiça e civilização” (pp. 260–61). De maneira semelhante, matar um terrorista conhecido pode afetar ou não a incidência do terrorismo, mas os americanos, ainda assim, lutam pelos princípios relacionados por Bowden. Os métodos questionáveis de governo usados na Colômbia talvez sejam análogos a nossas diretrizes de detenção de terroristas na Baía de Guantánamo e às técnicas de interrogatório da Agência Central de Inteligência. Narra-se que Joe Toft, chefe da repartição de Bogotá da Drug Enforcement Administration dos Estados Unidos, acreditava que tivesse feito uma transação faustiana e “sentia que haviam vendido almas para pegar Pablo” (p. 268). Espera-se que não vamos sentir desse modo em relação à guerra ao terror.

Killing Pablo baseia-se em extensa pesquisa, que inclui entrevistas e documentos oficiais sumarizados em uma seção de “Fontes”, o que dá credibilidade às afirmativas provocantes do autor. De um modo geral, o livro é uma excelente narrativa, mas levanta questões preocupantes que continuaremos a enfrentar pelos próximos anos.

Ten Cel Paul D. Berg, USAF
Maxwell AFB, Alabama

Hablan los Generales: Las grandes batallas del conflicto colombiano contadas por sus protagonistas, editado por Glenda Martinez Osorio. Grupo Editorial Norma (http://www.carvajal.com.co/CarvajalIng/empresas-eng/grupo-editorial/grupo-principal.html), Bogotá, Colombia, 2006, 340 páginas, $12.50.

A despeito do título, nem todos os colaboradores desta antologia são generais, mas todos fornecem narrativas reveladoras e em primeira mão das violentas campanhas da Colômbia contra guerrilheiros, barões das drogas e outros foras-da-lei, desde o início dos anos de 1960. Há um prólogo do Dr. Alfredo Rangel comentando os 14 capítulos organizados cronologicamente. Referindo-se à insurgência das Forças Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC), Rangel observa que “este grupo guerrilheiro demonstrou sempre imensa capacidade para sobreviver, resistir e persistir, mas frágil poder no que se refere a inclinar para seu lado, de forma definitiva, a balança política e militar” (p. 35). Esta avaliação caberia a numerosos grupos insurgentes. Contudo, sua observação de que “a cidade é por natureza local perigoso para grupos clandestinos irregulares” (p. 14) soaria divertida para veteranos da guerra urbana em Bagdá. Os capítulos 2 e 3 descrevem as caçadas humanas das forças armadas colombianas para encontrarem criminosos incrivelmente violentos. O autor do capítulo 11 é um agente anônimo que opera em segredo e colabora com funcionários dos Estados Unidos para interceptar chamadas de telefones celulares e utilizar veículos aéreos não-tripulados para rastrear os líderes dos cartéis de droga de Cali. O capítulo 12 é a narrativa bizarra de um soldado comum a respeito de como os guerrilheiros das FARC acabaram com sua unidade e o mantiveram prisioneiro durante anos, um ordálio que lhe provocou a insanidade, literalmente.

Os leitores encontrarão numerosas peças bem conhecidas do que se sabe quanto a contra-insurreição (COIN). O Gen. Álvaro Valencia, que escreveu dois capítulos, observa que “na guerra de guerrilhas nada pode ser fixo nem estável. A flexibilidade mental física e metodológica constitui um verdadeiro princípio” (p. 62). Os líderes militares colombianos compreendem a necessidade de uma estratégia integrada civil-militar, porque, freqüentemente, os insurgentes colombianos preenchem o vácuo de poder em regiões remotas, servindo, às vezes, por décadas, como governos locais de fato. Em relação a uma das operações, o General Valencia diz que “a ênfase do plano estaria na combinação de ações cívicas e psicológicas, e essas teriam prioridade sob qualquer operação de combate” (p. 45). Quando as forças colombianas entravam em áreas controladas pelos rebeldes, os residentes locais freqüentemente hesitavam em confiar nelas até que se convencessem de que o governo permaneceria ali e forneceria serviços básicos. A consciência cultural é tão essencial na Colômbia quanto em qualquer outro lugar, mas as forças de COIN colombianas têm a vantagem de operarem em seu próprio país. Não obstante, as forças armadas colombianas lutaram muitos anos para adaptarem-se. Refletindo a respeito da fracassada operação Marquetalia contra as FARC, em 1964, o Gen José Bonnet observa filosoficamente: “sem que então fosse percebido, nasceu, nesse momento, um Novo Exército, um Exército moderno” (p. 108).

O poder aéreo revelou-se essencial nas campanhas colombianas de COIN. Durante operações contra os guerrilheiros comunistas nos anos 1960, transportes C-47 da Força Aérea Colombiana desembarcaram soldados em um campo aberto, hidroaviões desembarcaram soldados no rio e outras aeronaves lançaram panfletos insistindo em que os residentes não apoiassem os guerrilheiros. Em 1990, helicópteros e caças-bombardeiros participaram de um intenso ataque ar-terra contra o bastião de Casa Verde, das FARC, e o Gen Humberto Correa queria ainda maior potência aérea porque “faltam helicópteros, um número considerável havia recebido impactos durante os desembarques” (p. 214). A cooperação internacional apareceu de maneira notável. Funcionários dos Estados Unidos forneceram informes a respeito da imensa fábrica de cocaína “Tranquilandia”, oculta na selva, e deram aos colombianos as aeronaves que necessitavam para capturá-la. Quando as FARC atacaram Mitú, uma cidade remota além do alcance dos helicópteros da base colombiana mais próxima, os guerrilheiros esconderam-se em um hospital e em escolas, onde as aeronaves não podiam bombardeá-los com facilidade devido ao receio de danos colaterais. As forças armadas colombianas acertaram o uso de uma base aérea brasileira próxima como área de preparação de um ataque de helicópteros. A operação Vuelo de Ángel, que se seguiu, representou um divisor de águas para a Força Aérea Colombiana, que implementou “a diretriz de comando centralizado e execução descentralizada... para tornar mais rápida a reação” (pp. 290–91). O Gen Yair Perdomo comenta que “jamais...até esse momento da história da Colômbia nos havíamos dado conta da importância do sistema logístico para aeronaves em distâncias superiores a 100 milhas” (p. 302).

Este instigante livro contém tanto pontos fortes quanto limitações. Os capítulos parecem relativamente francos; contudo, o General Valencia tem uma postura claramente defensiva a respeito do papel de sua unidade em matar um sacerdote renegado (e amigo da família) Camilo Torres, que se havia unido a um grupo rebelde. Depois disso, o general enfrentou repetidos inquéritos governamentais, intensa crítica comunista e, até, uma tentativa de assassinato. Esses episódios fazem com que os leitores pensem quanto sofrimento o governo colombiano teria evitado se tivesçe mantido presença suficiente nas áreas remotas, de modo a impedir que grupos hostis se tornassem profundamente entrincheirados. O livro diz pouco a respeito dos grupos paramilitares de extrema direita, mas a grande surpresa é a ausência de um capítulo acerca da caçada humana contra o famoso barão da droga Pablo Escobar. Cada capítulo inicia-se com um resumo e breve biografia do autor, mas eles contêm erros. O resumo do capítulo 13 refere-se à operação Vuelo de Angel, de 1998, como início de uso dos aviões de ataque AC-47, mas o capítulo 9 descreve o uso desses aeroplanos oito anos antes. De um modo geral, os leitores ficarão impressionados com a perseverança das Forças Armadas colombianas. Hablan los generales será considerado instrutivo por todos os que se interessam pelo papel das forças armadas em COIN e em operações antidrogas.

Ten Cel Paul D. Berg, USAF
Maxwell AFB, Alabama

The Rise of China: How Economic Reform Is Creating a New Superpower, William H. Overholt. W. W. Norton and Company (http://www.wwnorton.com), 500 Fifth Avenue, New York, New York 10110, 1994, 432 páginas, US$16.95 (Brochura).

Durante os últimos 30 anos, a economia da China reviveu. Os cálculos recentes publicados pelo Banco Mundial indicam que desde 1978 a média de crescimento anual do produto interno bruto foi de 9,4% (PIB) e, de 1984 a 2004 ainda aumentou seis vezes. Além disso, em 2004, representava 12% da economia mundial, baseado na paridade do poder aquisitivo (perdendo apenas para os Estados Unidos) e contava com 1/3 de crescimento econômico global. A China atraiu, também, centenas de bilhões de dólares em investimento estrangeiro e mais de um trilhão de dólares em investimento doméstico. A pouco mais de dez anos, a China quase não possuia serviço de telecomunicação móvel. Agora, conta com mais de 300 milhões de assinantes de telefones móveis − o maior número de assinantes do mundo.

Não há dúvida de que a China possui uma das taxas de crescimento mais elevadas. O que isso significa para outros países, particularmente para os Estados Unidos? No The Rise of China, um trabalho denso e acadêmico, William Overholt aborda essas e muitas outras questões. Após rever a China antiga e sua situação de Reino Médio, o autor expõe fatos indicando que, apesar de ganhos recentes, o país ainda precisa superar a extrema pobreza de terceiro mundo, medidas socialistas ineficientes e a disparidade entre ricos e pobres. O autor também compara a China à Rússia− país que a maioria dos Americanos ainda equipara ao socialismo e comunismo− alegando que a Rússia foi derrotada e continua sendo, devido à relutância inicial para com reformas e tentativas de fazer muito em curto período de tempo, depois de tomada a decisão. O autor coloca em foco a superioridade da estratégia a longo prazo da China em realizar reformas econômicas e políticas, passo a passo, alegando que isto acabará em produzir uma nação muito diferente da que temos tendência a estereotipar.

O autor descreve a China, Hong Kong, relações internacionais e os Estados Unidos em grande detalhe. Reconhece que o acesso ao mercado e o tratamento dado a investidores estrangeiros apresentam problemas à China mas, declara que ela possui sua quota de queixas legítimas.

Mais interessante para o leitor militar é que o autor demonstra a existência de uma séria divergência de opinião entre os que veem a China como agressor calmo e meditativo e aqueles que a veem como a mais interessada na conquista pacífica de riqueza e influência. O autor faz parte do último grupo, afirmando que a China perde, ao ser comparada à União Soviética e a outros regimes comunistas.

Alega ainda que os Estados Unidos devem ter cuidado para não fazer com que se cumpra a profecia, através de retórica inflexível e ostracismo político. Recomenda que os Estados Unidos devem manter a força e adotar uma postura retórica e economicamente acolhedora. Além disso, o autor observa a diferença das despesas militares entre os dois países. Atualmente, a China gasta US$30 bilhões por ano, um décimo dos EUA. Para o autor, isto significa a vantagem dos Estados Unidos e relativa capacidade de jogar bem, sem temores imediatos.

The Rise of China apresenta ao leitor uma riqueza de fatos históricos, econômicos e políticos. Embora um tanto passé, o livro oferece dados relevantes sobre questões políticas, bem como um cenário adequado para um estudo equilibrado e justo daquele país.

Maj Rodney D. Bullard, USAF
Secretário da Força Aérea,
Departamento de Relações Jurídicas
Washington, DC

Airpower in Small Wars: Fighting Insurgents and Terrorists, de James S. Corum e Wray R. Johnson. University Press of Kansas (http://www.kansaspress.ku.edu), 2502 Westbrooke Circle, Lawrence, Kansas 66045-4444, 2003, 560 páginas, US$24.95 (brochura).

A guerra irregular parece ser o tema “quente” da Força Aérea. Infelizmente, sofremos com a falta de bons livros didáticos a respeito. No entanto, Airpower in Small Wars oferece uma solução. Os autores James Corum e Wray Johnson, ambos ex-instrutores da Escola de Estudos Avançados em Potência Aérea da Universidade do Ar (atualmente Escola de Estudos Aeroespaciais Avançados), escreveram esse livro para preencher a lacuna que existe em pesquisas sérias acerca do papel da potência aérea em guerras de baixa intensidade. O livro apresenta uma história abrangente sobre o assunto para oficiais americanos e políticos. Neste aspecto Corum e Johnson foram brilhantes.

O livro trata do papel especializado da potência aérea no século XX, a partir da campanha de Pershing em 1916 até as operações de Israel contra os Palestinos em 2000. Os 10 capítulos oferecem amplo estudo do papel dessa potência em guerras de baixa intensidade, abrangendo guerras coloniais europeias, Vietnã, América Latina e Oriente Médio. Os autores observam que o Exército Americano empregou aviões contra inimigo irregular, pela primeira vez, durante a expedição punitiva Mexicana de 1916. Porém, em última análise, o Corpo de Fuzileiros Navais Norte Americano foi o primeiro a utilizar a potência aérea de modo sério em guerras de baixa intensidade. Às vezes chamados de “Tropas do Departamento de Estado para pequenas guerras” (p. 11), os Fuzileiros Navais possuiam vasta experiência, o que levou à publicação do Small Wars Manual, um clássico da era de 1940, descrevendo as lições das guerras de baixa intensidade do século XX.

Airpower in Small Wars oferece uma perspectiva fantástica sobre o uso permanente da potência aérea, dando ênfase ao fato de que o interesse atual não é nada de novo. Infelizmente, também ressalta o fato de que muitas vezes não aprendemos as lições oferecidas pela história. Uma de minhas passagens favoritas é quando os autores examinam a experiência Britânica na gestão do Iraque, após a primeira guerra mundial: “Se o governo Britânico possuía um grande plano estratégico, cuidadosamente concebido, para alienar os três maiores grupos no Iraque (Curdos, Muçulmanos Xiitas e Muçulmanos Sunitas), bem como para forçar o país inteiro à rebelião contra os ocupantes britânicos, não poderia ter tido o êxito de maneira mais prática.” (p. 54). Aparentemente, a História se repete. Esse livro registra o sucesso da potência aérea, quando utilizada corretamente, bem como seus defeitos, quando mal empregada.

Os autores oferecem ao leitor um excelente conhecimento histórico para a tomada de decisões nas atuais e futuras guerras irregulares; na verdade, o texto serve de livro didático para a liderança da Força Aérea. De fato, todo militar envolvido no planejamento e emprego da potência aérea em atuais e futuras guerras irregulares, deveria imprimir e afixar as 11 lições mencionadas contida na conclusão (pp. 425-37):

1. Uma estratégia global é essencial.

2. O papel de apoio da potência aérea (e.g., reconhecimento, transporte, etc.) é normalmente a missão mais importante e eficaz contra guerrilhas.

3. O papel da potência aérea em ataque terrestre torna-se mais importante, quando se trata de guerra convencional.

4. O bombardeio a civis é ineficaz e contraproducente.

5. O aspecto de alta tecnologia da potência aérea desempenha papel importante em guerras de baixa intensidade.

6. O aspecto de baixa tecnologia da potência aérea é importante em guerras de baixa intensidade.

7. As operações conjuntas, eficientes, são fundamentais para a utilização eficaz da potência aérea.

8. As guerras de baixa intensidade dão mais ênfase à inteligência.

9. A potência aérea proporciona flexibilidade e iniciativa, normalmente a vantagem da guerrilha.

10. As guerras de baixa intensidade são longas.

11. Os Estados Unidos e aliados devem dedicar-se mais ao treinamento para guerras de baixa intensidade.

Recomendo Airpower in Small Wars não só para a comunidade de operações especiais da Força Aérea, mas também para todos os militares que contribuem ou contribuirão para a “ longa guerra.”

Lt Col Michael C. Grub, USAF
Hurlburt Field, Florida

Billy Mitchell: “Stormy Petrel of the Air”, de Roger G. Miller. Air Force Historical Studies Office (http://www.airforcehistory.hq.af.mil/publicati ons.htm), Publications Division, 3 Brookley Avenue, Box 94, Bolling AFB, Washington, DC 20032-5000, 2004, 58 páginas (brochura). O pessoal e organizações do Departamento de Defesa podem solicitar cópias impressas de publicações do Instituto Histórico da Força Aérea, de forma gratuita (e-mail: afhso.book.orders@pentagon.af .mil). Disponível em https://www.airforcehistory.hq.af.mil/Publications/fulltext/Billy_Mitchell_Stormy_Petrel.pdf.

Billy Mitchell, de longe uma das figuras mais importantes da História da Força Aérea, desbravou o caminho para futuros militares. Provou, logo de início, que a potência aérea era vital, ganhando o reconhecimento da nação e de importantes líderes. Em Billy Mitchell: “Stormy Petrel of the Air”, Roger Miller capta a história de Mitchell de forma ampla e eloquente.

O autor inicia descrevendo o bombardeio do antigo navio de guerra alemão Ostfriesland, fato que alguns consideram ser o auge da carreira de Mitchell. Esse cenário, repleto de ação, valida a idéia de Mitchell de que aviões poderiam afundar navios de guerra. Isto prende a atenção do leitor. Em seguida o livro oferece informações básicas e clara percepção acerca de Mitchell, bem como o motivo para suas futuras decisões. Felizmente, faz isso sem deter o leitor com detalhes de infância, fornecendo apenas os dados necessárias para que se compreenda o personagem.

O autor descreve os principais eventos e pessoas na vida de Mitchell, com muito talento, tornando possível a participação do leitor, permitindo, assim, que chegue à sua própria conclusão. O autor, sem dificuldades, passa de um a outro evento em linguagem que qualquer pessoa pode entender. Inúmeras fotografias e descrições permitem que o leitor contemple o rosto das pessoas mencionadas, o que contribui para o desenrolar rápido e natural da narrativa.

Embora Mitchell defendesse, sem rodeios, a necessidade de uma Força Aérea independente, foi longe demais ao declarar, inequivocamente, que a potência aérea tornaria as outras Forças obsoletas. Como qualquer idealista inflexível, Mitchell encontrou muita oposição, especialmente da Marinha, e pagou alto preço ao acusar vários oficiais de traição, sendo submetido a Conselho de Guerra. Não sobreviveu o tempo necessário para ver realizado seu sonho de ver uma Força Aérea independente, nem ouvir as repetidas refutações à alegação de que a potência aérea ganharia guerras por si só.

Billy Mitchell: “Stormy Petrel of the Air” é um livro que entretem. Recomendo, decididamente, essa fascinante e importante adição às muitas outras obras sobre Billy Mitchell a qualquer pessoa interessada em potência aérea.

Cadet Jennifer Walne
Air Force ROTC, University of Houston

Tempered Steel: The Three Wars of Triple Air Force Cross Winner Jim Kasler, de Perry D. Luckett e Charles L. Byler. Potomac Books (http://www.potomacbooksinc.com), 22841 Quicksilver Drive, Dulles, Virginia 20166, 2005, 320 páginas, US$22.36 (capa dura), US$15.16 (brochura) (2006).

Nunca vi outro título de livro que descrevesse tão bem o protagonista. Tempered Steel [Aço Temperado] narra a heróica vida desse Coronel da Força Aérea, piloto Az de caça, durante a guerra da Coreia e o único militar a receber três medalhas Air Force Crosses. Essa biografia é a crônica emocionante de um homem cujo inigualável compromisso com “A Força antes de si mesmo” é algo que todos deveríamos imitar.

Escrito pelos biógrafos Perry D. Luckett, oficial de comunicações Reformado da Força Aérea, e Charles L. Byler, um veterano que serviu sob o comando de Kasler em 1965, Tempered Steel assemelha-se mais a um filme de aventura de Hollywood do que a simples biografia. A extensa pesquisa dos autores sobre a vida de Kasler é evidente e, o poder com que escrevem arremessa o leitor à metralhadora da torre na cauda do B-29 com um soldado de 18 anos de idade, voando sobre o Japão e, mais tarde, às câmaras de tortura do Hanói Hilton do Vietnã do Norte com o agora Tenente-Coronel de 40 anos.

Os autores levam o leitor a uma jornada através da vida de Jim Kasler, começando com seu humilde nascimento, de família comum, na pequena cidade do Centro-Oeste Norte-Americano, até as incríveis experiências na linha de frente de combates no Japão, Coreia e Vietnã. Com uma investigação profunda de sua vida, demonstrando ao leitor de onde veio o homem por trás das três medalhas, os autores evitam, com sucesso, a biografia típica militar, que narra apenas momentos decisivos de um herói de guerra em campo de batalha. Por exemplo, os autores exploram seu relacionamento com a esposa, Martha, desde o momento em que ela “não queria namorar um baixinho” (p.17) até o casamento feliz que gerou três filhos e as mudanças da família por todo o país para seguir Kasler, que servia à nação onde fosse necessário. Os Autores também expõem o leitor a momentos cruciais, tais como, quando Kasler contava com dezenove anos de idade, quando percebeu sua vocação. Ao retornar à base após uma missão de bombardeio, bem sucedida, no Japão, sentado no banco de artilheiro da Fortaleza Voadora B-29 “podia ver Saipan lá do alto, durante o voo de regresso à base, quando um caça P-51 apareceu de repente ao lado direito do avião. O piloto acenou para ele e sumiu, fazendo um parafuso. Jim pensou: ‘isto sim é que é voar!’ A partir daquele momento sabia que queria ser um piloto de caça” (p. 13).

Se existe um equivalente do Resgate do Soldado Ryan para a Força Aérea, este é o livro. Descreve cada momento em minucioso detalhe, onde o leitor quase sente a emoção e a adrenalina correndo pelas veias de Kasler, quando destrói seu quinto MiG na Coreia e grita no rádio, − “Casey, sou um Az!” (P. 36 ). O relato é tão poderoso e convincente que quase sentimos sua intensa dor, quando retorcido, consegue sobreviver, literalmente, centenas de horas de tortura, acorrentado, açoitado, faminto, agredido fisicamente, ao se recusar a trair o país para participar de propaganda Norte-Vietnamita. Quando escreve para a querida esposa, sua agonia é evidente: discriminado, maltratado e de cócoras em uma cadeia do Vietnã do Norte, orando para que algum dia pudesse vê-la novamente: − “O que sou e o que faço não significaria nada sem você a meu lado. Reviví nossa vida, passo a passo, sonhando acordado, e foi uma experiência maravilhosa voltar ao passado e recordar nossa vida juntos todos estes anos. Sei que teremos muitos mais à nossa frente” (p. 121).

Imagino que os autores estivessem, no mínimo, um tanto apreensivos, quando decidiram aceitar esse projeto. Afinal, não é todo dia que um escritor tenta contar a história da Força Aérea de um só homem que foi à Coreia como obscuro tenente e retornou com grande notariedade.

Kasler recebeu elogios de outros heróis notáveis do Vietnã. Heróis como o Senador John McCain que disse em uma entrevista: −“Digo isto com toda a sinceridade. Não sou um herói. Tive o privilégio de servir em companhia de heróis. . . como Jim Kasler. Foram os que me deram força. . . que serão sempre meus heróis” (p.180). Creio que os autores produziram uma obra louvável e penso que o Coronel Kasler também, a julgar pela contribuição no apêndice (“Reflexão Pessoal”) onde fala acerca de tudo, começando pelo movimento antiguerra, até o projeto de futuros aviões. Gostaria que o livro tivesse aparecido antes de 2005. Uma história tão poderosa e emocionante como esta merecia ter sido contada muito antes.

Tempered Steel é a história absolutamente fascinante de Jim Kasler, um verdadeiro herói americano. Recomendo entusiasticamente a todos: jovens e idosos, militares ou civis. Qualquer americano com sangue nas veias terá dificuldade em deixar este livro de lado. Escolha um sábado e deixe a agenda livre, pois uma vez iniciada a leitura não vai poder parar até ter certeza que Kasler sai vivo do Vietnã.

Cadet David L. Morgan, USAF
Air Force ROTC, University of Houston

The Specter of Munich: Reconsidering the Lessons of Appeasing Hitler, de Jeffrey Record. Potomac Books (http://www.potomacbooksinc.com), 22841 Quicksilver Drive, Dulles, Virginia 20166, 2006, 160 páginas, US$19.96 (capa dura).

“Digam o que quiserem, mas a visão de eventos passados nunca é 100% clara”, declara Jeffrey Record em seu livro The Specter of Munich. Parece que muitos líderes Norte-Americanos, militares e civis, gostam de invocar o apaziguamento franco-britânico da Alemanha nazista de Hitler na conferência de Munique de setembro-outubro de 1938. O autor começa com uma breve análise da guerra Norte-Americana atual e parte para uma revisão histórica de líderes que já invocaram Munique, principiando com Harry Truman.

Para ser preciso, esse livro não é nada generoso com a administração do Presidente George W. Bush, mas o leitor terá que superar este ponto e notar a valiosa análise apresentada. O autor afirma que erros significativos ocorreram na manipulação franco-britânica da política expansionista de Hitler, a partir de meados da década de 30 até a primeira declaração de guerra. Erros que, se corrigidos, poderiam ter alterado a História, pelo menos em parte. Na maior parte do livro o autor gira em torno desses pontos principais (p. 8), usando-os em atuais e futuros empreendimentos, observando que líderes devem:

1. avaliar corretamente as intenções e capacidade do inimigo,

2. ter o apoio público para uma ação militar arriscada,

3. assegurar a coerência entre objetivos diplomáticos e postura militar,

4. possuir equilíbrio quantitativo entre recursos e fins estratégicos,

5. equilibrar, de maneira apropriada, capacidades ofensivas e defensivas e

6. ser previsível (e continuar sendo) em ameaças e uso de força.

É evidente que o autor primeiro busca colocar as ações britânicas e francesas no contexto da época, argumentando com sucesso no capítulo 2 (quase metade do livro!) que a opinião pública atou as mãos de Neville Chamberlain e da cooperação anglo-francesa (tal como o era) e observa que é difícil subestimar a influência do massacre de 1914-1918 na opinião oficial e pública da Europa durante as décadas de 20 e 30. . . . A guerra teve um impacto profundo na opinião da Grã-Bretanha, até então, principal poder em prol da paz na década de 30, onde vívidas lembranças de companheiros e entes queridos perdidos e horrores da guerra de trincheira produziram cidadãos dos quais muitos ou eram pacifistas ou não queriam contemplar o uso da força (pp. 13-14). Na França, onde a primeira guerra mundial foi uma catástrofe demográfica (p. 15), a opinião pública não era melhor.

Uma série de outros fatores, os quais Record discute em detalhe, moldou as decisões franco-britânicas que resultaram na segunda guerra mundial. Ao final, todos estes aspectos políticos, militares e psicológicos combinados negaram aos líderes britânicos e franceses qualquer possibilidade realista de que as democracias ocidentais pudessem atuar de maneira eficaz contra Hitler, a tempo de impedir a eclosão de outra guerra mundial na Europa (p. 65). O autor prossegue observando que, em retrospectiva, condenar o apaziguamento é fácil. Porém, vendo através dos britânicos e franceses da época, os líderes não se empenhavam em iniciar a segunda guerra mundial, mas sim em evitar a guerra− embora não a qualquer custo ( p. 65).

Record assinala também que Hitler estava equivocado. Excesso de autoconfiança na capacidade de seu país talvez tenha sido seu maior erro. Ao pressionar a potência alemã acima dos limites, Hitler forçou a Alemanha à uma guerra impossível de vencer.

O restante do livro explora as razões pelas quais o movimento pacífico falhou e porque atuais e futuros líderes mundiais devem tomar cuidado, evitando invocar Munique de forma incorreta. O Autor, de modo ainda mais importante, sugere o que líderes mundiais devem fazer ou evitar para prevenir que a mesma série de erros ocorra uma vez mais. A década de 30 contém certas lições valiosas para os dirigentes atuais e futuros. A análise que segue no capítulo 4 é bastante persuasiva.

No capítulo final, o autor faz uma série de recomendações e observações que qualquer líder, presente ou futuro, faria bem em analisar. Como líderes militares, com a função de aconselhar líderes civis acerca da capacidade militar em cenários específicos, também deveríamos manter em mente tais recomendações e observações.

A visão de eventos passados nunca é 100% clara. É fácil criticá-los, destacando eventos que se seguiram. É muito mais difícil colocar-nos no lugar e hora de quem toma a decisão, sabendo apenas o que se conhecia no momento. Aí sim, perguntar objetivamente, se teríamos agido de modo diferente. O mesmo acontece hoje. Ao aprendermos com o passado, compreendemos que os líderes atuais e futuros devem ter certeza dos dados em que baseiam as decisões, a fim de não repetir os mesmos erros. The Specter of Munich é leitura boa e recomendada.

Maj Paul G. Niesen, USAF, Reformado
Scott AFB, Illinois

Science, Strategy and War: The Strategic Theory of John Boyd, de Frans P. B. Osinga. Routledge (http://www.routledge.com), Taylor and Francis Group, 2 Park Square, Milton Park, Abingdon, Oxford OX14 4RN, United Kingdom, 2006, 336 páginas, US$125.00 (capa dura).

Em Science, Strategy and War, Frans P.B. Osinga explica o conceito, motivo e criação que impulsionam as teorias do estrategista militar John Boyd. O autor explora como Boyd chegou a conclusões e teoremas que definiram a prática militar americana do século XX e que, sem dúvida, continuarão a motivar a teoria militar em todos os níveis− táctico, operacional e estratégico − no século XXI. Examinando os documentos e textos de Boyd, quando era oficial da Força Aérea e mais tarde, consultor de defesa, Osinga monta uma imagem, quase completa, de como seu personagem cria processos, modelos e, em última análise, projetos complexos, tais como o ciclo Observar, Orientar, Decidir, Agir (OODA). Ao estudar as listas que John Boyd recomendou à sua audiência e as notas que deixou, o autor permite que os leitores descubram a criação das teorias de Boyd, tais como a de guerra de quarta geração e a de redes concêntricas de guerra.

O Autor organiza o texto em quatro partes: (1) a experiência profissional de Boyd, (2) o cenário político e estratégico dos Estados Unidos, (3) o estudo de Boyd sobre teoria e história militar, e (4) seu crescente interesse e estudos em desenvolvimentos e teorias científicas. Uma vez que o idioma Inglês não é suficiente para descrever certas investigações intelectuais, o autor utiliza a palavra alemã Zeitgeist [Espírito da Época] para explicar como fórmulas científicas e sociais influenciaram Boyd em varios assuntos. Também revela que Boyd usou uma abordagem multidisciplinar em seu trabalho, tomando emprestado de outros campos, como a psicologia cognitiva, cognição humana, ciência política, teoria de sistemas, cibernética, antropologia, economia, mecânica quântica e teoria do caos.

Este livro elaborado demanda leitura disciplinada para os que têm desejo de compreender como Boyd formulou os argumentos, o discurso estratégico, integrando vários conceitos científicos e filosóficos da biologia e matéria social. O autor conclui com uma análise de como os temas, debates e percepções da época influenciaram ou moldaram o pensamento estratégico de Boyd. Após desenvolver o ciclo OODA e outros conceitos, que historiadores vêm usando no mundo pós-moderno, as referências vinculadas a outros eventos atuais ajudam a colocar em perspectiva as ideias e lógica que Boyd trabalhou tão arduamente para desenvolver.

Esse excelente texto possui um defeito que permeia toda a literatura: o uso de notas, em vez de notas de rodapé, que obrigam o leitor a procurar explicações para o texto, folheando páginas, algo bastante cansativo. Atualmente, em projetos assistidos por computador, o planejamento do livro poderia ser melhor. No entanto, qualquer fã de John Boyd deveria ter Science, Strategy and War em seu acervo; não uma biografia, mas uma análise verdadeiramente erudita e profunda da investigação e conceitos deste militar da Força Aérea.

Capt Gilles Van Nederveen, USAF, na Reserva
Centreville, Virginia


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