Publicado em julho 09
ASPJ  Em Português 2° Trimestre 2009

A Restauração Impreterível©

Les Doggrell

É, então, condição essencial da liderança estratégica que se mantenham forças em reserva, conforme o grau de incerteza estratégica.

Carl Von Clausewitz, Da Guerra

©The Aerospace Corporation

A Restauração ImpreterívelA COMUNIDADE ESPACIAL norte-americana ficou alarmada com o teste anti-satélite (ASAT) da China, de 11 de janeiro de 2007, mas a reação prática foi mínima.1 Ao fazer esta demonstração pública, a China notificou ao mundo que possue a capacidade de pôr em risco equipamentos espaciais. Como observam muitos eruditos, o espaço será vital aos Estados Unidos em combates futuros. Certos analistas nesta área cogitaram que o objetivo da destruição de um dispositivo espacial identificado pela imprensa como USA 193, em 22 de fevereiro de 2008, foi demonstrar a capacidade ASAT dos Estados Unidos. Em conflito futuro, a destruição de veículos espaciais inimigos não tomará o lugar do equipamento perdido.2 Levando em consideração a relativa dependência deste país em sistemas espaciais, será que existe algum preparativo a ser feito para futuras operações espaciais em condições de ataque? Uma possível solução seria a prontidão para repor ou consertar o equipamento perdido.

O Congresso e altos funcionários de Defesa, estabeleceram o sistema de Operações Espaciais de Rápida Reação (ORS – Operationally Responsive Space) como meio de reagir à futuras ameaças aos sistemas espaciais, mas ninguém enunciou, especificamente, as funções do mesmo. Que elementos do ORS reagiriam à ameaça espacial? Publicação alguma existe com uma descrição clara do ORS e suas funções. Levando em consideração o estudo de diretrizes providenciadas pelo Congresso, bem como necessidades e tecnologia disponível para restaurações, identificamos, pelo menos em esboço, aspectos e capacidade que o ORS ou qualquer outro sistema de restauração requer para reagir, a tempo, a uma ameaça à capacidade espacial.

O Departamento de Defesa (DoD) está preparado para destacar forças espaciais. Em 2001, o ex-Secretário de Defesa Donald Rumsfeld advertiu contra possível “Pearl Harbor espacial”.3 A Diretriz de Transporte Espacial dos Estados Unidos, expedida em 2005, requer a capacidade de “reação à perda ou degradação inesperada de equipamento de alta qualidade e/ou fornecimento, a tempo, de novo equipamento ou sua restauração, especialmente configurado para apoiar as demandas da segurança nacional”.4 Essa mesma diretriz estabelece o ano de 2010 como marco para demonstração de capacidade espacial de rápida reação:

Antes de 2010, a nação demonstrará a capacidade inicial de acesso ao espaço e seu uso, rápida a reagir, a fim de apoiar as exigências da segurança nacional. Para isso, o Secretário de Defesa, em coordenação com o Diretor da Agência Central de Inteligência:

a) desenvolverá os requisitos e conceito de operações para equipamento de lançamento, infra-estrutura, aeronaves e dispositivos espaciais, a fim de fornecer acesso e uso espacial rápido às operações, garantindo, assim, apoio à segurança nacional, inclusive o fornecimento de capacidade espacial vital, em caso de falha de lançamento ou de [falha] de equipamento em órbita.

b) identificará as modificações fundamentais em capacidade de lançamento espacial, aeronaves e dispositivos espaciais ou operações em terra, necessários para implementar um lançamento espacial rápido.5

É evidente que existe uma diretriz de ação.

Em depoimento prestado ao Congresso, em março de 2007, o Dr. Ronald Sega, à época Sub-Secretário da Força Aérea e Agente Executivo para o Espaço, identificou o ORS como a ação para preparar a reação do país em caso de ameaça aos sistemas espaciais: “este enfoque inclui a capacidade de lançar, ativar e empregar satélites militarmente úteis, de baixo custo, para gerar capacidade de surto, restaurar, ampliar os sistemas existentes ou, fornecer a tempo, a disponibilidade de capacidades novas ou configuradas ‘sob medida’ ”.6 O Vice-Secretário de Defesa Gordon England colocou esta visão em memorando de 2007, estabelecendo o ORS como a iniciativa destinada a satisfazer as metas da Diretriz de Transporte Espacial Norte-Americana. Apesar disso, o DoD sempre está baixo constante crítica por não definir o ORS de maneira precisa e sucinta. Em relatório recente ao Congresso, definiu o ORS em termos gerais como “a garantia da potência espacial, enfocada em satisfazer, a tempo, as demandas dos Comandantes de Força Combinada”.7 Contudo, esta definição abrange qualquer capacidade espacial militar. Segundo comentarista “em essência , o ORS, até agora, tem sido uma série de aquisições de peças para dispositivos espaciais e foguetes, mal gerenciada e de vaga definição.”8

A Força Aérea, tenta, com dificuldade, definir o ORS9: é um sistema de lançamentos, uma série de veículos espaciais, melhoria de infraestrutura, uma tentativa de reforma em aquisições ou, tudo isto ao mesmo tempo? Estamos falando de que tamanho de aeronaves espaciais e em que número, com que tipo de capacidade? A que tipo de sistema necessitamos reagir, se existir uma ameaça à capacidade espacial? Pergunta alguma foi respondida com certo grau de certeza, mas precisamos fazê-lo, antes de colocarmos uma solução em campo. O Congresso forneceu certas diretrizes com o Estatuto de Orçamento da Defesa Nacional de John Warner para o ano fiscal de 2007.10 Contudo, agência alguma publicou um projeto de restauração para o ORS.

Podemos identificar reações teóricas à ameaças aos sistemas espaciais, sem qualquer problema. A China e a Rússia defendem a eliminação de ameaça por meio de tratado, proibindo armas espaciais. 11 Talvez possamos reduzir a vulnerabilidade se desvencilharmos o Departamento de Defesa da dependência em sistemas espaciais. O estabelecimento de defesa por intermédio de dispositivos espaciais ativos e passivos é outra alternativa. Os preparativos para restaurar os meios espaciais após o fracasso de outras medidas seria a solução ou, parte de um conjunto de soluções para perda ou ameaça de perda de recursos espaciais. De acordo com o Dr. Sega, o Sr. England e o Congresso, o ORS proporciona meios para a restauração de recursos espaciais mas, ainda assim, dentro deste âmbito limitado, não fica exatamente claro o que o ORS terá que fazer para desempenhar esta missão.

Poderíamos restaurar qualquer perda de meios espaciais para a segurança nacional com a manutenção de estoque completo de sobressalentes, mantendo-os em reserva, prontos para lançamento, embarcados em veículos de lançamento. A declaração de requisitos de missão do ORS, assinada pelo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, em 2001, documentou a necessidade de veículos de lançamento para este tipo de sistema.12 Uma análise de alternativas (AOA), completada em abril de 2005, examinou amplo espectro de meios de lançamento para a realização de missões espaciais de rápida reação. Notou que a rápida restauração de meios de inteligência, vigilância e reconhecimento perdidos, bem como de navegação de precisão e controle de tempo demonstrou, em resultados teóricos, que teria grande impacto em futuras campanhas militares.13 Este resultado dependeria de estoque de espaçonaves planejadas para lançamento de rápida reação. Com base em resultados da AOA, a Força Aérea iniciou um programa de “Transporte Espacial de Rápida Reação Financeiramente Viável”.

Embora os sistemas espaciais possuam vida relativamente curta, os recursos norte-americanos, atualmente em órbita, representam décadas de investimento de dezenas de bilhões de dólares anuais. Construir e, mais ainda, manter um completo estoque de sobressalantes, ainda mesmo se tecnicamente viável, vai muito além das expectativas razoáveis de aumento em custos de defesa. Tal investimento, baseado em contingência, torna-se ainda menos provável, comparado à necessidade de recapitalizar os sistemas de defesa atuais.14

O estoque crescente de satélites comerciais é provável fonte de recursos que já usamos em conflitos e que, possivelmente, continuaremos a usar no futuro. O problema com este sistema é o caráter multinacional, cada vez maior, do mercado econômico espacial. O impacto de conflito em consórcios internacionais dependeria, quase que por completo, das Nações específicas e interesses afetados pelo conflito. Por exemplo, seria difícil manter a “neutralidade” do equipamento espacial, usado comercialmente, se [ao mesmo tempo] estiver fornecendo serviços militares essenciais.

Com o Estatuto Orçamentário de Defesa de 2007, o Congresso, na verdade, extinguiu o programa de “Transporte Espacial de Rápida Reação Financeiramente Viável”, redirecionando o orçamento presidencial e elegendo a diretriz [que declara] que o ORS não tem em mente um completo recurso de “substituição”, mas sim um pequeno sistema básico de satélites.

A diretriz Norte-Americana é demonstrar, adquirir e destacar recursos eficazes para um espaço com operações de rápida reação, a fim de apoiar usuários militares e operações em:

(1) cargas úteis de satélites de rápida reação e ônibus espaciais construídos sob padrões técnicos que funcionam com todos os dispositivos espaciais;

(2) veículos de lançamento espacial de baixo custo e alcance de operações de apoio [estrutura de lançamento, recuperação de cápsula, limpeza de detritos espaciais, etc.] que facilitam o lançamento, a tempo, e operação de satélites em órbita;

(3) meios de comando e controle de rápida reação e,

(4) noções de operações, táticas, técnicas e procedimentos que permitam o uso de recursos espaciais de rápida reação para combate e operações militares fora do âmbito de guerra.15

No mesmo estatuto, o Congresso formulou outras diretrizes a respeito dos sistemas a serem adquiridos, estabelecendo a meta de US$ 20 milhões para a aquisição de um veículo de lançamento e US$ 40 milhões para a aquisição de nave espacial. O Congresso delegou ao DoD a determinação da composição e estrutura da força ORS.

Ao estabelecer metas de custo, o Congresso determinou o tipo de estrutura de força ORS que espera ser criada. Um cálculo aproximado para o preço de aeronave, de US$ 100 mil dólares por quilograma, indicaria que o Congresso calcula que a aeronave ORS não vai ultrapassar 400 quilogramas. Muito conveniente, já que este é mais ou menos o tamanho da espaçonave que pode ser lançada de um veículo de US$ 20 milhões de dólares, e é quase do mesmo tamanho, aproximando o custo de espaçonave de classe satélite-tático.16

O Ten Cel Ed Tomme examinou a capacidade de pequenos dispositivos espaciais em desempenho de missões militares, observando as relações recíprocas entre custo e desempenho.17 Estas relações recíprocas são geralmente negativas para pequenos dispositivos espaciais, mas o Ten Cel Tomme indica a capacidade de sistemas espaciais de observar território denegado e fornecer capacidade estratégica. É importante determinar a capacidade espacial mínima necessária para apoiar a força combinada em [dado] conflito. O Gen Kevin Chilton, Chefe do Comando Estratégico norte-americano, definiu este tipo de desempenho como o “adequado para vencer”.18 Como observou o Ten Cel Tomme, um pequeno dispositivo espacial fornece capacidade muito limitada, comparada aos atuais sistemas de grandes dispositivos espaciais. Vários autores sugeriram diversas configurações de sistemas em órbita, a fim de fornecer uma cobertura contínua.19 Um sistema de restauração deve incorporar os sistemas de diversos dispositivos espaciais pequenos, a fim de efetuar essa cobertura. Além disso, por definição, dispositivos espaciais pequenos e de propósito único não serviriam para missões múltiplas. As órbitas dos dispositivos espaciais são cuidadosamente configuradas para a missão planejada e adequadas à capacidade do dispositivo. Por exemplo, múltiplos tipos de dispositivos espaciais forneceriam vigilância e reconhecimento, comunicações e navegação. Uma capacidade mínima de restauração empregaria múltiplos sistemas de diferentes tipos de dispositivos espaciais. Cada sistema típico, de três a oito dispositivos espaciais por missão, ocuparia órbitas adequadas à missão e à capacidade.

Um objetivo expresso para o ORS requer maior capacidade de fabricação em projetos menores, menos dispendiosos e de entrega mais rápida. Contudo, sistemas espaciais mais aperfeiçoados, rápidos e baratos são difíceis de encontrar. Mesmo em cronogramas acelerados, não podemos fabricar, atualmente, pequenos veículos de lançamento em menos de 18 meses. Os cronogramas de fabricação de dispositivos espaciais requerem ainda mais tempo. Um otimista calcula dois anos para a fabricação e teste de pequenos dispositivos espaciais. Podemos e devemos tomar providências para reduzir esses cronogramas mas, mesmo projeções otimistas para rápida fabricação excedem, e muito, o período de tempo disponível entre o alerta e a recuperação, a fim de reagir à grande perda de capacidade espacial. O fornecimento de capacidade significativa de recursos em poucos dias ou semanas após ataque, só é possível se possuirmos os necessários dispositivos espaciais e veículos de lançamento em estoque. Levando em consideração a reserva de bombas, botas e feijão armazenados para futuras contingências militares, não deve surpreender à pessoa alguma que recursos militares espaciais devam também ser mantidos em estoque.

Tanto o Air Force Research Laboratory [Laboratório de Pesquisa da Força Aérea], quanto o Naval Research Laboratory [Laboratório de Pesquisa Naval], estão projetando tecnologia para reduzir a necessidade de armazenagem de dispositivos espaciais e, ainda assim, satisfazer um cronograma de rápida reação, tendo, como meta, a montagem de dispositivo espacial em seis dias.20 Para isto, contudo, o governo ou fornecedor deve manter um estoque de peças previamente montadas e testadas. Precisamos, ainda assim, arcar com o custo de manter esse estoque e pessoal necessário para aguardar o momento de fazer a montagem. O êxito do modelo comercial de rápida montagem e baixo estoque, como exemplificado pelos computadores Dell, depende de grande volume. Precisamos de um estudo de relações recíprocas para avaliar o uso de dispositivos espaciais completamente montados no local de lançamento, comparado ao uso de silo centralizado para pequenos satélites que iria conter dispositivos espaciais em diferentes estágios de montagem. O custo do inventário seria significativo. Da mesma maneira, um ônibus espacial comum, modular ou do tipo ‘conete e use’ reduziria as despesas periódicas, ou não, de pequenos dispositivos espaciais e poderia vir a ser útil para satisfazer a meta de um dispositivo espacial de US$ 40 milhões. Mesmo supondo o êxito desse empreendimento, necessitaríamos, ainda assim, de um estoque de vários ônibus e cargas úteis para fazer face à provável necessidade em guerra.

Um sistema alternativo acarreta a armazenagem de dispositivos espaciais em órbita, antecipando demandas futuras. A metodologia em órbita, construída em tempo de paz é um recurso ininterrupto. Este é um sistema particularmente útil se os Estados Unidos receberem o alerta estratégico de um provável ou iminente conflito. Contudo, dada a ameaça de ASAT da China, a armazenagem em órbita resultaria em nada mais que a criação de novos alvos. Uma avaliação minuciosa da ameaça e cronogramas de possíveis reações rápidas são fundamentais, a fim de considerarmos as relações recíprocas de custo-benefício entre a estratégia de lançamentos que seguem o cronograma [fixo]e, lançamentos sob demanda. Não é provável que um futuro inimigo irá “telegrafar” o alerta estratégico com dois anos de antecedência e, se o fizer, pode ser que o país não possua a suficiente percepção, a fim de aproveitar o aviso prévio.

Como todas as capacidades militares, o fato de [possuirmos] armazenagem de equipamento espacial de rápida reação não é suficiente para garantir futura prontidão. A capacidade para finalizar uma missão de restauração exige instalações, como torres de lançamento, estruturas de armazenagem, montagem e integração; comando e controle em órbita; e, sistemas de telemetria integrados à infra-estrutura de determinação e disseminação de tarefas, bem como outras instalações associadas.

Uma vez em órbita, devemos estar seguros de que o dispositivo espacial restaurado esteja funcionando. Existem dois conceitos operacionais em justaposição e, é provável que a melhor solução utilize ambos. A fim de operar sem descontinuidade para aperfeiçoar ou substituir o dispositivo espacial perdido ou danificado em determinado sistema, o restaurado seria manobrado por estruturas de comando e controle enfocados na missão e equipes operacionais já existentes. Este conceito maximiza o uso da infra-estrutura de operações atual e minimiza a interrupção do ponto de vista do usuário. Alternativamente, dispositivos espaciais de restauração de rápida reação seriam operados por dispositivos dedicados. Este conceito seria mais útil, se os diversos dispositivos espaciais substitutos forem construídos de tal forma que um só ônibus serviria para todos. Por exemplo, um dispositivo espacial de comunicações substituto deve estar integrado à infraestrutura de comunicações, comando e controle atual ou remanescente. Contudo, um pequeno dispositivo espacial capaz de desempenhar a missão de restauração, provavelmente não usaria a mesma estrutura de comando e telemetria que o dispositivo espacial a que substitui, exigindo, assim, certa funcionalidade específica. Uma pesquisa relevante, referente à autonomia de dispositivos espaciais, atualmente em curso, indica que aumento de autonomia cancela os obstáculos que ocorrem com o rápido lançamento de múltiplos sistemas de dispositivos espaciais. Além disso, essa autonomia libera os operadores, porque não necessitam monitorar, via telemetria, permitindo que se concentrem em comandar o dispositivo espacial para reagir à ameaças e otimizar cargas e órbitas, reagindo às demandas em metamorfose.

Um sistema de restauração exige pessoal competente para operá-lo, o que é mais importante do que o equipamento em si. Quer sejam militares, funcionários civis ou pessoal contratado, necessitam de treinamento e tempo para colocar em prática as tarefas de guerra, antes de serem obrigados a executá-las, sob pressão. Além disso, devem usar o sistema durante os exercícios de treinamento, já que não é razoável esperar que todas essas interações ocorram durante um conflito, sem grandes ensaios em tempo de paz. Os militares sabem, por experiência, que em combate, só podem confiar em soldados bem treinados que conheçam bem os sistemas de armas.

Embora não seja raro nas forças militares manter uma equipe completa em tempo de paz para reagir à exigência de intensidade repentina durante guerra, seria dispendiosa para o conceito de rápida reação espacial, sem importar se o pessoal for militar ou contratado. A necessidade de pequeno grupo especializado em tempo de paz com a capacidade de aumentar rapidamente seu número durante crise, a fim de desempenhar a missão de restauração, encaixa-se bem às missões de Reserva ou Guarda Nacional. Ao contrário da força de mísseis balísticos norte-americanos, a restauração espacial provavelmente não reagiria a um ataque, “como relâmpago”. Antes de formular o plano para formar a equipe, devemos analisar um pouco mais as relações de custo-benefício para satisfazer diferentes cronogramas de reação. O fornecimento de capacidade de restauração confiável exige demonstrações periódicas, do princípio ao fim. Estes lançamentos de dispositivos espaciais de rápida reação para treinamento ou exercício podem coincidir com os grandes exercícios militares. Além de estabelecer uma reserva de equipamento de guerra, o ORS ou qualquer outro sério empreendimento de restauração deve fornecer a produção ininterrupta de dispositivos espaciais e veículos de lançamento para apoiar treinamento e exercícios. Também podemos utilizar esses meios para aumentar o estoque em órbita, durante menores contingências. Além disso, para permitir que as tripulações e usuários recebam treinamento em sistemas de armas, a produção e uso contínuos ajudariam a manter o estoque em dia.

A arquitetura espacial existente enfrenta um problema contínuo, devido à incapacidade de modernização. Uma vez lançado, o dispositivo espacial raramente pode ser modificado.21 Voltando ao estoque de pequenos dispositivos espaciais de rápida reação, seu uso em treinamento, exercícios e reações à contingências permitiria a incorporação de tecnologia de ponta, aperfeiçoada para os dispositivos espaciais sobressalentes. Além disso, a manutenção da produção permitiria o apoio contínuo para com a base industrial que fabrica os mesmos. A viabilidade da capacidade de restauração a longo prazo depende da manutenção de tecnologia subjacente e da base industrial. Obviamente, uma estratégia que projete uma cadeia de produção que irá funcionar uma única vez não vai apoiar à manutenção de uma base industrial.

Um conceito viável de restauração, mesmo com metas muito modestas, em relação à quantidade de capacidade restaurada, não será barato. Supondo que seria possível adquirir dispositivos espaciais e veículos de lançamento que garantam um desempenho “suficientemente adequado para ganhar a luta]” com um custo aproximado às metas estabelecidas pelo Congresso (uma suposição bastante ampla), a criação de estoque de múltiplos sistemas de pequenos dispositivos espaciais custará centenas de milhões de dólares. O suprimento e a manutenção de pessoal e instalações para apoiar tais sistemas aumentará consideravelmente o custo. Finalmente, o treinamento em tempo de paz e o reabastecimento de recursos superados acarreta outra despesa. A produção de sistemas espaciais em maior quantidade reduzirá muito o custo desses sistemas, por unidade.22 É claro que podemos esperar certa redução. Contudo, o custo do sistema total continuará a ser alto.

Como observam o Ten Cel Tomme e o LTC Bob Guerriero em seus artigos a respeito de satélites táticos, a questão fundamental não é se podemos construir esses sistemas, mas se devemos fazê-lo.23 Somente podemos responder a pergunta, quando comparamos a magnitude e a probabilidade da ameaça com o custo e a eficácia das alternativas. Os analistas de operações militares são peritos em AOA. Uma questão central para qualquer AOA refere-se ao custo-benefício dos sistemas propostos. Uma vez que este tipo de análise é um requisito contido em estatuto, ela deve ser feita antes do início de qualquer programa de defesa importante e deve começar o quanto antes. Existe a possibilidade de “paralisia por análise”, mas é contrabalançada pelo custo da análise comparado ao de experimentos em órbita para determinar que recurso é “suficientemente bom para ganhar [a luta]”.

A dependência das forças deste país em recursos espaciais cria uma assimetria entre o que está em jogo e a avaliação da potência das nações adversárias que estão considerando um contra-ataque espacial. Pode ser que uma capacidade de restauração eficaz, comprovada em tempo de paz, irá dissuadir adversários de até mesmo contemplar tal ação. A comparação entre o valor e o custo da capacidade de restauração espacial deve considerar, em minúcia, a importância de um sistema que seja capaz de dissuadir esse tipo de ataque. Devemos ponderar tudo isso, com cuidado, levando em consideração as necessidades imediatas do combatente.

A doutrina combinada inclui a restauração de forças espaciais como missão definida, desde 2002.24 Ainda assim, apesar do teste Chinês de 2007, os Estados Unidos não possuem, atualmente, maior capacidade do que já possuiam em 2002. Financeiramente, um estoque de equipamento sobressalente de recursos espaciais completos, em órbita, está fora da realidade. O Congresso e o Presidente expediram diretrizes para a manufatura de um sistema de restauração pequeno, de rápida reação, baseado em satélite. Devemos fazer uma análise imediata, a fim de determinar o custo-benefício de tal sistema, a prioridade de missões e a capacidade necessária do sistema. O estabelecimento de verbas para apoiar a colocação de um estoque de dispositivos espaciais, veículos de lançamento e infra-estrutura em campo, deve seguir rapidamente. Se o programa para satisfazer esta necessidade for o ORS, como determinado pelo Dr. Sega, o Sr. England e o Congressso, devemos, então, concentrar os avanços do ORS para esta finalidade e não diluí-lo por falta de enfoque.

O ex-Secretário Rumsfeld usou o exemplo do ataque japonês a Pearl Harbor para descrever a possibilidade de futura eventualidade. A analogia é adequada, até certo ponto. Por muito tempo, os Estados Unidos consideraram o espaço como um santuário, por décadas investindo muitíssimo no desenvolvimento de um conjunto de recursos preeminentes.

Note-se que dia 7 de dezembro de 1941, “perceberam”, não só que os encouraçados, inesperadamente, eram vulneráveis à ataque aéreo, mas também, que esses navios já não eram o fator básico para a potência nacional. A questão para este país não é se inimigos futuros projetarão sistemas de contra-ataque à supremacia espacial, mas se estará pronto a reagir [quando isto acontecer].

Peterson AFB, Colorado

Notas:

1. Craig Covault, “Chinese Test Anti-Satellite Weapon”, Aviation Week, 17 janeiro 2007. Disponível em: http://www.aviationweek .com/aw/generic/story_channel.jsp?channel=space&id=news/CHI01177.xml.

2. Jeffrey Kluger, “Was a Satellite Shootdown Necessary?” Time, 20 fevereiro 2008. Disponível em: http://www.time.com/time/health/article/0,8599,1714811,00.html; and Greg Miller, “Missile’s Bull’s-Eye on Satellite Echoes Far, Experts Say”, Los Angeles Times, 22 fevereiro 2008. Disponível em: http://www.latimes.com/news/nationworld/nation/la-na-satellite 22feb22,0,4969568.story.

3. Jean-Michel Stoullig, “Rumsfeld Commission Warns against ‘Space Pearl Harbor,’ “Space Daily, 11 janeiro 2001. Disponível em: http://www.spacedaily.com/news/bmdo-0 1b.html.

4. “U.S. Space Transportation Policy Fact Sheet, 6 janeiro 2005”, SpaceRef.com. Disponível em: http://www.spaceref.com/news/viewsr.html?pid=15010.

5. Ibid.

6. House, Department of the Air Force Presentation to the House Armed Services Committee, United States House of Representatives Subcommittee on Strategic Forces, Subject: National Security Space Posture, Statement of Honorable Ronald M. Sega, Undersecretary of the Air Force, 110th Cong., 1st sess., 23 março 2007. Disponível em: http://armedservices.house.gov/pdfs/Strat 032307/Sega_Testimony032307.pdf.

7. Plan for Operationally Responsive Space: A Report to Congressional Defense Committees (Washington, DC: Department of Defense, 17 abril 2007), 2. Disponível em: http://www.responsive space.com/ors/reference/ORS_Plan.pdf.

8. Dwayne A. Day, “How to Tell Your ORS from a Hole in the Ground”, Space Review, 31 dezembro 2007. Disponível em: http://www.thespacereview.com/article/ 1027/1. See also James R. Wertz, “It’s Time to Get Our ORS in Gear”, Space Review, 7 janeiro 2008. Disponível em: http://www.thespacereview.com/article/1032/1; and Dwayne A. Day “Some ORS for ORS”, Space Review, 28 janeiro 2008. Disponível em: http://www.thespacereview.com/article/1048/1.

9. Ver Les Doggrell, “Operationally Responsive Space: A Vision for the Future of Military Space”, Air and Space Power Journal 20, no. 2 (Verão 2006): 42-49. Disponível em: http://www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/apj/apj06/sum06/sum06.pdf.

10. John Warner National Defense Authorization Act for Fiscal Year 2007, HR 5122, 109th Cong., 2d sess., Title 9, sec. 913, “Operationally Responsive Space”, 273-76. Disponível em: http://www.govtrack.us/data/us/bills.text/ 109/h/h5122.pdf.

11. Michael Krepon, “Russia and China Propose a Treaty Banning Space Weapons, While the Pentagon Plans an ASAT Test”, Henry L. Stimson Center, 14 feve-reiro 2008. Disponível em: http://www.stimson.org/pub.cfm?ID=568.

12. “Mission Need Statement AFSPC [Air Force Space Command] 001-01, for Operationally Responsive Spacelift” (Peterson AFB, CO: Headquarters AFSPC/DRS, 30 outubro 2001). Disponível em: http://www.responsivespace.com/ors/reference/ORS_MNS_Final.pdf. O Gen John P. Jumper assinou a declaração em 20 de dezembro de 2001. Homologada pelo Joint Requirements Oversight Council em abril de 2002.

13. Apesar de concluída em 2005, a Análise de Alternativas do Transporte Espacial de Rápida Reação Operacional, não foi publicada pelo AFSPC. Como o Congresso retirou a verba destinada ao Transporte Espacial Financeiramente Viável do Orçamento Presidencial para o ano fiscal de 2007, isso [automaticamente] cancelou a análise.

14. Outra idéia é construir e lançar recursos suplementares antes que sejam necessários, altamente questionável, porque não é uma vantagem econômica e militar, darmos ao inimigo uma miríade de possíveis alvos antes que seja necessário.

15. John Warner National Defense Authorization Act, 273.

16. Mike Hurley et al., “A TacSat Update and the ORS/JWS [Joint Warfighting Space] Standard Bus” (apresentado durante a American Institute of Aeronautics and Astronautics [AIAA] Third Responsive Space Conference, 26 abril 2005). Disponível em: http://www.responsivespace .com/Papers/RS3%5CSESSION%20PAPERS%5CSESSION%201%5C1006HURLEY5C1006C.pdf.

17. Lt Col Edward B. Tomme, “The Myth of the Tactical Satellite”, Air and Space Power Journal 20, no. 2 (Verão 2006): 89-100. Disponível em: http://www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/apj/apj06/sum06/sum06.pdf. See also Edward B. Tomme, “Tactical Satellites: It’s Not ‘Can We?’ but ‘Should We?’ ” Air and Space Power Journal 21, no. 2 (Verão 2007): 30-33. Disponível em: http://www.airpower.maxwell.af.mil/air chronicles/apj/apj07/sum07/sum07.pdf.

18. Citada em “Space Experts Meet to Address Warfighter Needs” Capt Catie Hague, Air Force Link, 4 setembro 2007. Disponível em: http://www.af.mil/news/story.asp?storyID=1 23066738.

19. Lt Col Scott C. Larrimore, “Partially Continuous Earth Coverage from a Responsive Space Constellation” (apresentado durante a Fifth Responsive Space Conference, Los Angeles, 23-26 abril 2007). Disponível em: http://www.responsivespace.com/Papers/RS5/SESSION%20PAPERS /SESSION%202/2001_LARRIMORE/2001P.PDF. Ver, também, Brian L. Kantsiper, Patrick A. Stadter, and Pamela L. Stewart, “ORS HEO [High Earth Orbit] Constellations for Continuous Availability” (apresentado durante a Fifth Responsive Space Conference, Los Angeles, 23-26 abril 2007). Disponível em: http://www.responsivespace.com/Papers/RS5/SESSION%20PAPERS/SESSION%202/2004_KANT SIPER/2004P.PDF.

20. Jeffrey L. Janicik, “Implementing Standard Microsatellites for Responsive Space” (apresentado durante a AIAA-Los Angeles Section / SSTC 2003-0000, First Responsive Space Conference, Redondo Beach, CA, 1-3 abril 2003). Disponível em: http://www.responsivespace.com/Papers/RS1/SESSION4/JANICIK/4003P.pdf; and Andrew D. Williams and Scott E. Palo, “Issues and Implications of the Thermal Control Systems on the ‘Six Day Spacecraft’ ” (apresentado durante a Fourth Responsive Space Conference, Los Angeles, 24-27 abril 2006). Disponível em: http://www.responsive space.com/Papers/RS4/Papers/RS4_6001P_Williams.pdf.

21. Apesar de demonstrações como o Orbital Express, da Agência de Projetos de Pesquisa Avançados para a Defesa e da missão Hubble, a capacidade prática de manutenção em órbita não está bem desenvolvida.

22. Ver o então chamado Office of Force Transformation, “Operationally Responsive Space: A New and Complementary Business Model” (Washington, DC: Office of the Secretary of Defense, Office of Force Transformation, Verão 2004). Disponível em: http://www.oft.osd.mil/library/library _files/document_382_J2850-Space%20Response(12).pdf.

23. LTC Bob Guerriero, “Tactical Satellites: The Rest of the Story”, Air and Space Power Journal 21, no. 2 (Verão 2007): 27-29. Disponível em: http://www.airpower.maxwell .af.mil/airchronicles/apj/apj07/sum07/sum07.pdf.

24. Joint Publication (JP) 3-14, Joint Doctrine for Space Operations, 9 agosto 2002, IV-10. Disponível em: http://www.dtic.mil/doctrine/jel/new_pubs/jp3_14.pdf. Ver, também, Air Force Doctrine Document 2-2, Space Operations, 27 novembro 2006. Disponível em: http://www.dtic.mil/doctrine/jel/service_pubs/afdd2_2.pdf. Uma primeira versão do JP 3-14 incorpora, como apêndice, uma breve descrição de ORS.


Colaborador

O autor é um líder sênior (projetos) na Aerospace Corporation, em apoio à Diretoria de Requisitos do Quartel-General do Air Force Space Command [Comando Espacial da Força Aérea] Base Aérea Peterson, Colorado.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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