Documento criado em 01 Junho 2008
ASPJ  Em Português 2° Trimestre 2008

O que aconteceu ao ataque
estratégico?

Tenente-Coronel J. P. Hunerwadel, USAF, na reserva*

*O autor é analista de doutrina sênior na Diretoria de Doutrina Combinada e Multinacional, no Air Force Doctrine Development and Education Center, Base Aérea Maxwell, Alabama.

O que aconteceu ao ataque estratégico?

Tudo na guerra diz respeito à vontade. Os que travam a guerra seguem o ditado de Clausewitz: “impor nossa vontade ao inimigo é o objeto [da guerra]. Para garantir esse objetivo precisamos tornar o inimigo impotente” (grifado no original).1 Ao longo da história, tornar o inimigo impotente significou, na maior parte das vezes, denegar-lhe os meios de resistir, derrotando suas forças militares em campo. Contudo, há outros modos de tornar o inimigo impotente ou, de outra forma, convencê-lo a concordar com a nossa vontade. Essas formas são chamadas em conjunto de ataques estratégicos (SA) e têm uma tradição histórica que é muito anterior a essa denominação.

Este artigo examina parte dessa tradição, revela seu tamanho e variedade e demonstra claramente perplexidade quanto a por que encontra-se tão pouca coisa escrita a respeito do assunto. Embora seja sempre uma porção intuitiva do conjunto de ferramentas do comando, SA não recebeu muita atenção explícita na documentação das melhores práticas dos Estados Unidos. Essa documentação, no seu aspecto oficial, assume a forma da doutrina combinada, que só se refere a SA sete vezes.2 Como explicação única de SA, a Joint Publication (JP) 3-0, Joint Operations, só apresenta este pequeno parágrafo:

O JFC [comandante da força combinada] deve, quando factível, considerar a possibilidade de executar ataques estratégicos. Um ataque estratégico é uma ação ofensiva determinada pelo JFC contra um alvo – militar, político, econômico ou qualquer outro – selecionado especificamente para alcançar objetivos estratégicos militares ou nacionais. Esses ataques buscam enfraquecer a capacidade ou a vontade de empenhar-se no conflito ou prosseguir na ação, por parte do adversário, e, sendo assim, seriam partes de uma campanha, de uma grande operação ou seriam levados a efeito de maneira independente, conforme determinado pelo Presidente ou [pelo secretário de defesa]. Além disso, esses ataques podem alcançar objetivos estratégicos sem terem, necessariamente, de alcançar objetivos operacionais como condição preliminar. Os alvos adequados podem incluir os COGs [centros de gravidade] estratégicos inimigos, mas não se limitam a eles. Todos os componentes de uma força combinada podem ter capacidades para levarem a efeitos ataques estratégicos.3

Isso está muito bom em tudo que diz, mas não diz muito. Não se encontram referências às melhores práticas históricas ou a aspectos singulares de SA que possam acarretar consideração doutrinária. Além disso, a doutrina combinada não trata de como esses ataques alcançam objetivos estratégicos sem alcançarem, como condição preliminar, objetivos operacionais. Ela declara explicitamente que o JFC “deve considerar” SA e implica, quase tão explicitamente, que SA representa o uso eficaz de “todos os componentes” da força combinada. Ainda assim, não há doutrina combinada a respeito do assunto, exceto por esta rápida referência. Em contraste, encontram-se livros inteiros a respeito de barreiras, obstáculos e minas, bem como de uso de “contêineres intermodais”, na hierarquia da doutrina combinada.4 Não há dúvida que estas questões importantes merecem um tratamento completo na doutrina, mas será que uma forma de guerra que promete neutralizar os COGs inimigos sem ter de combater as forças inimigas não mereceria também um tratamento doutrinário?

Para ser honesto, a doutrina da Força Aérea inclui todo um livro a respeito de SA. (Na verdade, uma versão nova e aprimorada desse texto foi lançada em junho de 2007).5 Talvez seja, em parte, por isso que a doutrina combinada não contém um tratamento mais completo [de SA]. Voltaremos, porém, às razões da escassez de doutrina combinada no final deste artigo, após considerarmos os próprios SA com maior minúcia.

O que é

A definição de SA na doutrina combinada, citada acima – “uma ação ofensiva determinada pelo JFC contra um alvo . . . selecionado especificamente para alcançar objetivos estratégicos militares ou nacionais” – não é muito reveladora. Uma definição combinada anterior descrevia SA como “ação ofensiva planejada para afetar diretamente um centro de gravidade do adversário”.6 A atual publicação da Força Aérea a respeito de SA o define como “ação ofensiva selecionada especificamente para alcançar objetivos nacionais e estratégicos”.7 Estas definições produzem pouco esclarecimento adicional. Talvez a definição mais esclarecedora (e certamente a mais específica) seja uma antiga definição da Força Aérea produzida por um simpósio de oficiais-generais realizado em 2002: “ação ofensiva levada a efeito pelas autoridades de comando com o objetivo de produzirem efeitos que alcancem, da maneira mais direta, objetivos de segurança nacional, afetando a liderança, os recursos para a sustentação do conflito e/ou a estratégia do adversário”.8 Isto põe um pouco melhor o assunto em seu contexto. Para compreender plenamente a questão, contudo, é preciso examinar o que há de específico nessa definição.

“Ação ofensiva”

A vitória normalmente requer ação ofensiva. Desse modo, SA é a parte proativa e agressiva das operações estratégicas, que também incluem a defesa estratégica (por exemplo, a dissuasão nuclear da Guerra Fria e a colocação de mísseis Patriot em Israel durante a Operação Tempestade no Deserto) e outras operações estratégicas (por exemplo, a ponte-aérea para Berlim); todas “alcançam de maneira direta nossos objetivos de segurança nacional”.

“Levada a efeito pelas autoridades de comando”

A definição combinada deixa ao JFC a opção de dirigir SA. Na maior parte das vezes SA é levado a efeito pelos componentes da força combinada, especialmente os do componente aeronáutico e de operações especiais; deste modo, as operações de SA ficam sob a supervisão e aprovação daqueles comandantes de componentes que sustentam a intenção do JFC. Em outro sentido, é freqüente que SA assuma tal importância e se torne um assunto tão delicado para a campanha que receba aprovação diretamente dos líderes nacionais que estão acima do JFC, como o presidente, o secretário de defesa ou um comandante combatente. Na verdade, outros comandantes combatentes que não aquele que designou o JFC (como os comandantes do US Strategic Command [STRATCOM] ou Special Operations Command) podem, às vezes, ter autoridade para levar a efeito operações de SA na área do JFC, independentemente dos planos ou intenções desse comandante – o que é uma das razões pela qual é necessária a orientação doutrinária a respeito de SA.

“Destinada a produzir efeitos”

Derrotar ou compelir adversários exige SA baseado em efeitos. Que dizer, é preciso planejar ações contra os sistemas adversários para criar efeitos desejados específicos que contribuam diretamente para alcançar objetivos militares e políticos, cuja consecução faz surgir, como estado final, um conjunto de condições que confere vantagem continuada. Além disso, é preciso fazer-se isto enquanto se evitam efeitos indesejados específicos que inibiriam a criação dessas condições. O conduzir-se SA estimula a que seja dado às operações militares um tratamento baseado em efeitos.

“Alcançar da maneira mais direta nossos objetivos de segurança nacional”

A frase da maneira mais direta é fundamental para compreender estes aspectos de SA. Freqüentemente, o acúmulo de ações táticas contra as forças militares postas em campo pelo inimigo também oferece um modo efetivo de alcançar objetivos de segurança nacional. Contudo, é comum que isto não represente o meio mais direto, em termos de níveis de esforços ou dos alvos selecionados. Essa vitória tática contra forças em campo freqüentemente ocorre a um custo maior em termos de vidas, dinheiro, tempo e oportunidades. Assim, SA pode revelar-se mais eficiente, bem como mais direto. É irônico que historiadores como B. H. Liddell Hart tenham dado aos ataques que contornam as forças inimigas a classificação de “tratamento indireto”.9 Isto é um exemplo do quão profundamente arraigada tornou-se, na mentalidade militar, a idéia da guerra de confronto. Na verdade, SA é mais direto, buscando contornar os efeitos de nível operacional da guerra tradicional e alcançar diretamente metas estratégicas (veja-se a figura).

Figura. O ataque estratégico e os níveis da guerra.

“Liderança”

Todo sistema tem algum tipo de função diretriz; todo sistema humano tem um líder ou líderes. Em muitos casos, os ataques que neutralizam esses líderes conseguem eliminar a resistência inimiga, tornando o inimigo impotente. Como se verá, historicamente, isto tem acarretado, na maior parte das vezes, que sejam atacados os líderes estratégicos; além disso, agora temos a capacidade de atacar a infra-estrutura que apóia a liderança e faz conexão dessa função com o resto do sistema. É claro que, no contexto hodierno, precisa-se levar a efeito os ataques à liderança de acordo com as leis do conflito armado, que sustentam que os líderes precisam ser alvos militares legítimos.

“Recursos para a sustentação do conflito”

É freqüentemente possível alvejar os meios de que o adversário dispõe para empreender ou manter sua participação em um conflito. O apoio necessário para sustentar a guerra moderna, de intensa dependência de recursos (mesmo as guerras primitivas dependem de recursos de algum tipo) dá lugar a numerosos alvos que podem ser aproveitados para acelerar o colapso do inimigo e tirar opções dos comandantes inimigos.

“Estratégia”

Disse Sun Tzu que, na guerra, a melhor política é derrotar a estratégia inimiga; isto exige que se mantenha em risco o que o adversário busca obter ou que se lhe denegue a capacidade de obtê-lo. Freqüentemente, SA pode denegar ao adversário escolhas estratégicas, muitas vezes em conjunção com o denegar-lhe recursos para a sustentação do conflito. Quer dizer, SA pode denegar ao inimigo os meios e empenhar-se no conflito ou a opção por certas escolhas estratégicas, de maneiras que não envolvam diretamente a destruição de suas forças militares.

Considerações singulares

Numerosas considerações permitem distinguir a execução de SA de formas de guerra de contraposição mais tradicionais. É claro que a seleção de alvos difere, como podem diferir os meios de atacá-los. A sofisticação necessária para levar a efeito, com êxito, SA contra sistemas modernos implica um custo muito maior em análise das informações do que no caso de operações de simples atrito com as forças inimigas em campo. Isto torna necessário o desenvolvimento de parcerias em uma federação de atividades de inteligência, com agências de nível nacional e, às vezes, até com serviços de inteligência de governos estrangeiros, para analisar adequadamente os sistemas. É preciso que os comandantes garantam que esse trabalho preparatório ocorra antes que as crises se desenvolvam e que a elas siga o conflito. Além disso, nas operações de contraposição e força pode ser possível avaliar o progresso simplesmente pela contagem das tropas inimigas mortas ou das peças de equipamentos destruídas, mas avaliar os efeitos de SA exige muito maior sofisticação na escolha de medidas e indicadores. Isto também exige maior paciência dos comandantes e dos líderes nacionais, uma vez que o progresso no sentido da consecução de objetivos pode exibir poucos sinais exteriores até que se alcancem os próprios objetivos. Todavia, a doutrina combinada não menciona qualquer dessas considerações.

Uma coisa que o ataque estratégico não é

SA não é sinônimo de nuclear ou atômico, como, na Guerra Fria, a associação da palavra estratégico com a palavra nuclear implicou por muito tempo. Nada obstante, podem-se usar armas nucleares para levar a efeito SA, como no bombardeio atômico do Japão, em 1945. No contexto de SA, estratégico refere-se ao nível dos efeitos – não aos métodos usados para criá-los. Potencialmente, pode-se empregar qualquer sistema de armas para levar a efeito SA, mesmo sistemas tão simples quanto lança e espada, como mostram os exemplos históricos.

Exemplos históricos

De que fonte deriva esta informação acerca de SA? Há registro de êxitos históricos que demonstrem as melhores práticas? Na verdade, certamente existe, embora, é claro, ataques que hoje consideraríamos SA não tenham sido assim chamados pelos historiadores.

Um exemplo bem antigo aconteceu na batalha de Issus, em novembro de 333 a.C. Alexandre, o Grande, derrotou os persas quando “carregou pesadamente com sua cavalaria contra o próprio rei [persa] Dario, desejando não tanto derrotar o exército persa, mas colher a vitória com suas próprias mãos”.10 Alexandre expulsou Dario do campo e arrebatou o seu império. De maneira semelhante, a infantaria franca de Carlos Martel, na batalha de Tours, em 732 AD, isolou o comandante muçulmano, Emir Abd-er Rahman, e “transpassou-o com numerosas lanças, de modo que ele morreu, e, então, toda a hoste [muçulmana] fugiu diante do inimigo”, salvando, desse modo, a Europa Ocidental de maiores avanços dos muçulmanos.11 Vem à mente, também, a história de Davi contra Golias. No contexto da batalha antiga, as forças de terra costumavam levar a efeito SA contra líderes estratégicos. É claro que chegar ao líder costumava envolver certo grau de enfrentamento força contra força, mas isto não era a derrota tática de toda a força inimiga (como ocorria na maior parte das batalhas antigas). A longa existência de SA revela sua tradição e o fato de que as forças de superfície podem levá-lo a efeito, tal qual qualquer outro elemento da força combinada. Embora o enfretamento de força contra força tenha definido a maior parte das batalhas, SA (quando foi possível) revelou-se, pelo menos, um associado eficaz do atrito e da aniquilação, tornando as operações militares tanto mais eficazes quanto mais eficientes. Alguns poderiam considerar a famosa marcha para o mar do Gen William T. Sherman e a pilhagem do vale Shenandoah, pelo Gen Philipe Sheridan, durante a Guerra Civil Americana, campanhas de SA, porque elas buscaram denegar à Confederação recursos vitais para a sustentação do conflito, ao mesmo tempo que evitavam o enfrentamento direto das forças confederadas.

SA também tem lugar dentro do que a doutrina chamou “guerra irregular”.12 De 1899 a 1902, os Estados Unidos empenharam-se em uma guerra para extinguir a insurreição filipina contra o domínio americano. Independentemente da correção desta aventura imperialista, brutal e sangrenta de ambos os lados, o incidente mais conhecido da guerra envolveu a captura, em 1901, pelas tropas dos Estados Unidos, de Emilio Aguinaldo, líder da insurreição filipina. É questionável a legalidade do artifício usado para capturar Agnaldo, segundo as leis da guerra (os soldados dos Estados Unidos fingiram-se prisioneiros de rastreadores filipinos aliados, com fardas do exército filipino – não fardas dos Estados Unidos). Nada obstante, esta ação pôs fim, efetivamente, à resistência da maior parte dos filipinos e representou um uso eficaz de SA por uma força terrestre no contexto da guerra irregular.13

Freqüentemente as forças de operações especiais (SOF) desempenham um papel crítico em SA. Em 1943, comandos noruegueses e britânicos destruíram suprimentos alemães de água pesada e sabotaram as fábricas que a produziam, em uma ação referida pelo executivo de operações especiais britânico como “o mais bem-sucedido ato de sabotagem de toda a Segunda Guerra Mundial”.14 Isto foi, também, o exemplo de SA enormemente eficaz, planejado para denegar a Hitler uma opção de estratégia, impedindo-lhe criar armas de destruição em massa (WMD).

De maneira semelhante, a Campanha Submarina dos Aliados contra o Japão, no teatro de operações no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, exibiu o uso eficaz de SA contra recursos: os submarinos aliados buscaram especificamente evitar contato com a Marinha Imperial Japonesa, indo, em vez disso, em perseguição ao tráfego marítimo comercial. Não apenas credita-se a esta campanha tanta importância para impor o fim da guerra quanto a do bombardeio atômico, mas, também, ela ilustra o uso eficaz de SA por uma força exclusivamente naval. É claro que o bombardeio atômico, talvez o exemplo mais conhecido, representa a forma mais pura de SA: lançamento de duas armas que tiveram, diretamente, a conseqüência estratégica desejada de maneira quase imediata.

Poder aéreo e
ataque estratégico

Após a Segunda Guerra Mundial, as aeronaves tornaram-se um dos sistemas mais eficazes para levar a efeito SA. Em 1942, o Tte Cel Jimmy Doolittle e um pequeno contingente de bombardeiros B-25 que operavam de navios aeródromos no Pacífico Central levaram a efeito um exemplo de SA de quase igual “pureza”. Evitando as defesas antiaéreas japonesas, os danos que os ataques causavam às capacidades inimigas eram quase insignificantes. Embora a intenção primordial desses ataques fosse elevar o moral nos Estados Unidos e demonstrar que as forças aliadas poderiam certamente atacar o Japão, estas ações tiveram conseqüências estratégicas de maior alcance. Primeiro, revelaram à liderança política japonesa a vulnerabilidade do país, levando ao realinhamento estratégico de suas forças aéreas, retiradas da China para as ilhas territoriais, produzindo, essencialmente, um desgaste virtual da capacidade do inimigo na China. Em segundo lugar, os ataques convenceram o estado-maior japonês a adotar o curso de ação que conduziu à batalha de Midway e à derrota decisiva da Marinha Imperial Japonesa. Neste caso, os SA facilitaram grandemente as campanhas de nível operacional que transcorriam ao mesmo tempo e abreviaram eficazmente a guerra no Pacífico.

Durante a Ofensiva Combinada de Bombardeio, na Europa, na Segunda Guerra Mundial, os ataques aéreos aliados contra os sistemas ferroviários e de hidrovias alemães desferiram um golpe fatal contra a economia da Alemanha. Embora a capacidade produtiva das fábricas individuais tivessem aumento ao longo da maior parte do ano de 1944, a desorganização do transporte quase que imobilizou a economia como um todo, quase privou a Alemanha de energia elétrica (pela interrupção do transporte de carvão) e prejudicou gravemente o movimento dos exércitos inimigos. Esses esforços teriam bastado para terminar a guerra na Europa, não fosse o colapso simultâneo da resistência alemã em campo. “O ataque aos transportes foi um golpe decisivo que desorganizou completamente a economia alemã. Ele reduziu a produção de guerra em todas as categorias e tornou difícil levar para a frente o que era produzido. O ataque também limitou a mobilidade tática do exército alemão.”15 Essencialmente, isto correspondeu a um ataque fatal aos recursos de sustentação do conflito.

A parte de SA da Operação Justa Causa, no Panamá, em 1989 – a destruição da Commandancia do ditador panamenho Manuel Noriega pelo disparo de aeronaves, por exemplo – desorganizou sua capacidade de comando e controle e ajudou a criar condições para seu final isolamento e captura pelas forças dos Estados Unidos. De maneira semelhante, a extensa parte de SA da Tempestade no Deserto desorganizou o comando e controle de Saddam Hussein, neutralizando muitos de seus mecanismos de controle do regime, quase levando à queda desse regime na esteira da campanha terrestre que tirou suas tropas do Kuwait. Na Operação Allied Force, o SA levado a efeito pelas forças aéreas interaliadas compeliu o ditador sérvio Slobodan Milosevic a retirar suas forças de Kosovo.

Por um par de razões o caso da Allied Force é interessante da perspectiva de SA. Primeiro, a verdadeira parte de SA da campanha começou tarde, após muitas semanas de os ataques aéreos diretos às forças sérvias em campo terem falhado. Em segundo lugar, a seleção dos alvos de SA foi muito sofisticada. Os estrategistas da coalizão resolveram alvejar seletivamente as indústrias e negócios dos cleptocráticos amigos chegados de Milosevic. Combinaram os ataques físicos contra essas instalações com ataques cibernéticos aos seus danos (por exemplo, faxes pessoais dirigidos a eles dizendo-lhes que seus negócios seriam bombardeados). Embora tivéssemos alvejado infra-estrutura civil para enfraquecer o apoio público a Milosevic, esses ataques não-letais não produziram danos permanentes (por exemplo, ataques de filamentos de carbono contra instalações elétricas que produziram o colapso temporário de grande parte da energia elétrica de uso civil).16 Diferentemente da ação de contraposição de força por parte da coalizão, o SA revelou-se eficaz para produzir o estado final desejado desta campanha específica.

Contudo, este êxito não indica o caminho para o que o comentador Ralph Peters chamou de “guerra imaculada”.17 As campanhas em que o SA não-destrutivo “ganha a parada” serão raras exceções, não a regra geral. SA é mais eficaz em conjunto com outros esforços, inclusive operações de contraposição de força. A operação Iraqi Freedom apresenta um desenho melhor. Essa campanha iniciou-se com uma tentativa sem êxito, mas, não obstante, desorganizadora de matar Saddam e o SA continua até o fim, desorganizando as funções de liderança, denegando recursos de sustentação do conflito e neutralizando locais suspeitos de concentrarem WMD iraquianos. Usamos SA de modo muito parecido na Tempestade no Deserto – ou, no que se refere a isto, na Segunda Guerra Mundial. Independentemente do meio a partir do qual seja conduzido, SA ajuda a força combinada/interaliada a tomar iniciativas, desorganizar o ciclo e o cálculo de tomada de decisão do adversário, afetar criticamente os COGs estratégicos do adversário e, de outro modo, estabelecer os termos do conflito nos modos e momentos de nossa escolha. É uma parte vital da estratégia abrangente e do planejamento operacional.

Nossos inimigos certamente pensam assim: usaram um dos mais espetaculares exemplos de SA contra nós, nos ataques de 11 de setembro ao World Trade Center e ao Pentágono, chegando a escolher usarem aeronaves como meios de realização. Se o uso que fizeram de SA teve êxito, resta por verificar-se, mas certamente ele teve conseqüências estratégicas profundas. Por exemplo, hoje em dia, usamos SA nas operações em andamento na guerra global ao terror para denegar a nossos inimigos acesso a recursos vitais, como ativos financeiros para a sustentação do conflito e para eliminar a legítima liderança combatente do inimigo, como Abu Musab al-Zarqawi. A caçada aos líderes da al-Qaeda e outros líderes terroristas continua cotidianamente na guerra em andamento (grande parte dela levada a efeito por elementos da força combinada diferentes da Aeronáutica). Com os passos acertados, como no Iraque e no Afeganistão, mais uma vez SA torná-se-a o espaço comum de todas as Forças e componentes funcionais da força combinada.

Silêncio combinado

Como vimos, SA permanece diferente de outras operações e tem uma tradição entre as melhores (e piores) práticas históricas. Exige, também, que os comandantes considerem fatores suficientemente distintos de outras operações, o que justifica tratamento doutrinário. Assim, por que o relativo silêncio a esse respeito na doutrina combinada?

A resposta a essa pergunta é desconfortável para muita gente. A explicação simples é que a maior parte da oposição a colocar-se SA na doutrina combinada vem das Forças terrestres, que vêem SA como ameaça ao status aparente que elas têm como arma decisiva dos instrumentos de poder militar dos Estados Unidos. O fato de que o poder aéreo combinado as SOF levem a efeito a maior parte dos SA, hoje em dia, é fonte de irritação, já que muitos membros das forças terrestres – o Exército e o Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos – considera esses componentes da força combinada meros elementos de apoio das armas decisivas, que são as deles. Até certo ponto, essa reação é compreensível: os exércitos combatem outros exércitos, e os comandantes das forças terrestres pensam em termos de derrotas das forças inimigas. Esta situação criou uma cultura repleta de tradição e apego emocional ao conceito de guerra de atrito, de força contra força. É difícil não sentir-se emocionalmente tocado quando se considera o sacrifício dos homens (e, agora, mulheres) de farda que deram suas vidas pelas causas dos Estados Unidos durante o entrechoque de forças. Todavia, é possível que haja preconceito contra SA em certos círculos combinados por causa da aparência de que SA dê ao poder aéreo e às SOF pé de igualdade na disputa de quem seja decisivo? Os defensores do uso de SA devem ser cuidadosos em não dar ênfase excessiva a aspectos como a aparente centralidade da Aeronáutica. Todos os elementos da força combinada podem levar a efeito SA, e todos os comandantes combinados precisam saber o melhor uso das forças para melhor empregá-las. No ambiente integrado hodierno combinado/interaliado, devemos pensar em termos de derrotar o inimigo, não apenas suas forças. Reiterando, toda guerra tem a ver com a vontade e com o compelir o inimigo a seguir a nossa. SA pode ser uma parte vital do ato de tornar o inimigo impotente e criar condições de vantagem continuada.

Nada obstante, determinados elementos da comunidade combinada resistiram a SA em termos proativos e emocionais. Existiu, em certa época, uma versão preliminar de uma comunicação combinada – JP 3-70, “Joint Strategic Attack” – e, diversas vezes, ele mereceu o patrocínio da Força Aérea e do STRATCOM, mas elementos da comunidade de doutrina combinada combateram-no com unhas e dentes. Ele foi abolido por determinação de certos representantes doutrinários de outras Forças, que achavam que a referência eventual a SA no JP 3-0 constituía um tratamento adequado. A publicação voltou a aparecer rapidamente no âmbito do STRATCOM, mas um colóquio de doutrina combinada, em 2005, votou, novamente, pela sua supressão. Desde então, ninguém tentou ressuscitá-lo ou elaborar doutrina que bem e verdadeiramente representasse, para um público combinado, as características singulares de SA. Na fase de coordenação para o documento, surgiram dúvidas quanto à qualidade das versões preliminares apresentadas (SA pode ser um assunto difícil para escrever-se a respeito, especialmente se quem escreve não o pratica), mas os opositores sustentaram que não precisávamos dele – que já estava coberto adequadamente na doutrina combinada. Este argumento é notoriamente falso. Como se disse antes, temos abundância de doutrina em questões como minas e containeres intermodais (sem dúvida, de grande valor) mas apenas um parágrafo a respeito de SA. Certamente, uma forma de combate que (a) os comandantes usaram amplamente no passado, (b) envolve considerações singulares em comparação com a tradicional guerra de força contra força e (c) pode envolver questões potencialmente controvertidas de comando/controle e execução faz jus a um tratamento mais completo na doutrina combinada.

A comunidade de doutrina combinada precisa pôr de lado qualquer resistência emocional ao conceito de SA e à ficção de que SA faz os “cowboys” do poder aéreo tentarem fazer tudo sozinhos. Os segmentos da comunidade combinada que endossam SA precisam evitar prometer em demasia afastando quaisquer idéias de que ele produzirá “guerra imaculada” e percebendo que SA representa apenas um instrumento na coleção do comandante. Nada obstante, a tradição e o caráter distintivo de SA o torna merecedor de que se lhe dê um lugar permanente na hierarquia da doutrina combinada. Precisamos de uma publicação a respeito de ataque estratégico na doutrina combinada.

Base Aérea Maxwell, Alabama

Notas

1. Carl von Clausewitz, On War, ed. e trad. Michael Howard e Peter Paret (New York: Knopf, 1993), 83.

2. Quatro vezes na Joint Publication (JP) 3-0, Joint Operations, 17 September 2006 e três vezes na JP 3-30, Command and Control for Joint Air Operations, 5 June 2003.

3. JP 3-0, Joint Operations, III-21 a III-22.

4. JP 3-15, Barriers, Obstacles, and Mine Warfare for Joint Operations, 26 April 2007; e JP 4-01.7, Joint Tactics, Techniques, and Procedures for Use of Intermodal Containers in Joint Operations, 7 January 1997.

5. Air Force Doctrine Document (AFDD) 2-1.2, Strategic Attack, 12 June 2007.

6. JP 3-70, “Joint Strategic Attack,” third draft, March 2005, I-1 (exemplar no Air Force Doctrine Development and Education Center, Maxwell AFB, AL).

7. AFDD 2-1.2, Strategic Attack, 2.

8. AFDD 2-1.2, Strategic Attack, 30 September 2003, 1. A versão de 12 de junho de 2007 inclui modificação da definição combinada. Embora seja preferível, no sentido de ter certo grau de “aceitação combinada”, a nova definição não é tão descritiva.

9. B. H. Liddell Hart, Strategy, 2d rev. ed. (London: Plume, 1991), 383.

10. Diodorus Siculus, Library of History, trad. C. H. Oldfather (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1935), v. 17, sec. 23.1-3.

11. Cronista árabe anônimo citado em Edward Creasy, The Fifteen Decisive Battles of the World from Marathon to Waterloo (Whitefish, MT: Kessinger Publishing, 2004), 144.

12. Guerra irregular é “uma luta violenta entre atores estatais e não-estatais, em disputa de legitimidade e influência sobre a população relevante”. JP 1, “Doctrine for the Armed Forces of the United States,” versão preliminar para revisão final em coordenação, 27 de outubro de 2006, I-2.

13. Max Boot, The Savage Wars of Peace: Small Wars and the Rise of American Power (New York: Basic Books, 2002), 99–128.

14. Wikipedia: The Free Encyclopedia, s.v. “Norwegian Heavy Water Sabotage”. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Norwegian_heavy_water_sabotage.

15. The United States Strategic Bombing Surveys (European War) (Pacific War) (1945; repr., Maxwell AFB, AL: Air University Press, 1987), 30.

16. Veja-se, por exemplo, “CBU-94 ‘Blackout Bomb,’ BLU-114/B ‘Soft Bomb,’ ” Federation of American Scientists Military Analysis Network, 7 May 1999. Disponível em: http://www.fas.org/man/dod-101/sys/dumb/blu-114.htm.

17. Ralph Peters, “The Myth of Immaculate Warfare,” USA Today, 5 September 2006. Disponível em: http://www.usatoday.com/news/opinion/editorials/2006-09-05-warfare-edit_x.htm.


Colaborador

Tenente-Coronel J. P. Hunerwadel O Tenente-Coronel J. P. Hunerwadel, USAF, na reserva (Bacharelado, George Mason University; Mestrado, Embry-Riddle Aeronautical University) é analista sênior de doutrina na Diretoria Combinada e Multinacional no Air Force Doctrine Development and Education Center, Base Aérea Maxwell, Alabama. Possuindo mais de 4.000 horas de vôo e tendo desempenhado 26 missões de combate, foi piloto-instrutor e checador em aeronaves B-52, T-38 e T-1. Também exerceu a função de instrutor na College of Aerospace Doctrine, Research and Education (CADRE) na Base Aérea Maxwell, onde ensinou planejamento de campanha, projeto operacional e participou no desenvolvimento do currículo de planejamento para a Escola de Comando e Estado-Maior da USAF, Air War College e CADRE. Autor principal dos Air Force Doctrine Documents 2-1.2, Strategic Attack e 2-1.9, Targeting, as primeiras publicações de doutrina da USAF a discutir, em profundidade, operações baseadas em efeitos, o Ten Cel Hunerwadel é amplamente reconhecido como um dos principais especialistas das Forças Armadas dos EUA no que diz respeito ao tratamento das operações como baseadas em efeitos.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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