Documento criado em 01 Novembro 07
ASPJ  Em Português 4° Trimestre 2007

A Insensatez de
Promover
Postumamente
Billy Mitchell

Coronel R1 Phillip S. Meilinger, USAF

Inclino-me a concordar com o argumento do Tenente-Coronel William J. Ott, neste periódico, a respeito da insensatez de promover-se Billy Mitchell postumamente (“Maj Gen William ‘Billy’ Mitchell: A Pyrrhic Promotion”, Air & Space Power Journal, Winter 2006) [traduzido para o português como “A Promoção do Major General William ‘Billy’ Mitchell: Uma Vitória de Pirro” e publicado no número do 4º Trimestre de 2006]. Eis aqui minha própria visão do assunto.

Sim, Billy Mitchell foi um grande homem do ar—um visionário que contemplou para o poder aéreo um futuro que transcendia muito seu emprego como simples elemento auxiliar das forças de terra. Na época atual de “transformação militar”, os militares, de todas as patentes, são estimulados a “pensar para além dos limites”—não apenas a conceber métodos aperfeiçoados de fazer as coisas antigas melhor e mais eficazmente, mas a imaginarem métodos, doutrinas e conceitos completamente novos para combater e vencer as guerras. Talvez a maior conquista de Mitchell tenha sido sua crença na capacidade que tinha o poder aéreo de transformar a guerra. Ele acrediatva piamente que o poder aéreo fornecia um novo modo de combater. Tendo testemunhado a carnificina nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, ele buscava algo melhor. O poder aéreo estratégico fornecia o caminho completamente diferente para a vitória. Embora a visão de Mitchell fosse imprecisa—o que acontece freqüentemente com os profetas—sua compreensão fundamental das possibilidades transformacionais do poder aéreo, bem como sua capacidade de inspirar uma multidão de outros oficiais da Força Aérea a compartilhar essa visão, o caracteriza como um pensador seminal e heróico.

Não há dúvida de que Billy Mitchell foi um grande homem do ar. Devemos, porém, promovê-lo agora, tantos anos depois da sua morte? A meu juízo, só há duas razões que justificariam que se pensasse nisso: (1) em virtude da continuação do serviço a sua Pátria e de conquistas significativas que não tivessem obtido reconhecimento anterior, ou (2) pela necessidade de reparar uma injustiça óbvia e gritante.

Esta espécie de fundamento racional já desempenhou, anteriormente, um papel na promoção de homens muito tempo depois de terem deixado a Força. Por exemplo, em 1985, Jimmy Doolittle e Ira Eaker foram promovidos a 4 estrelas 40 anos após sua passagem para a reserva. Não apenas eles tiveram um magnífico desempenho na Segunda Guerra Mundial—pelo qual, com justiça, foram premiados com a terceira estrela—mas também continuaram a servir seu país depois, tornando-se porta-vozes do poder aéreo—servindo em várias comissões e painéis, trabalhando na indústria aérea e espacial para promover as fronteiras técnicas desses meios e exibindo uma disposição aparentemente infinita de falar a homens e mulheres de todas as patentes a respeito das maravilhas do poder aéreo.         Quando eu era oficial subalterno da Força Aérea, ouvi ambos e neles encontrei inspiração.

Por outro lado, precisamos equilibrar esses critérios confrontando-os com possíveis efeitos negativos sentidos por outros membros das forças armadas. No caso dos dois homens referidos acima, ouvi dois outros militares de alta patente da Força Aérea—ambos generais 4 estrelas há muito tempo na reserva—expressarem desencanto pelas promoções de seus antigos colegas. Eles não estavam sendo mesquinhos, mas afirmavam simplesmente o que lhes parecia um fato: Doolittle e Eaker haviam passado para a reserva ainda jovens, para ingressar no mundo dos negócios e ganhar quantias substancialmente superiores ao soldo que recebiam nas forças armadas. Esta havia sido a recompensa deles. Promovê-los retroativamente representava uma desvalorização do labor de todas as pessoas que haviam permanecido na Força nos tempos magros do pós-guerra.

É útil lembrar aqui que as forças armadas sempre adotaram a posição de que a promoção não é uma recompensa de ações passadas—para isto existem medalhas e condecorações—mas sim, um sinal do potencial do indivíduo e de quanto ele é promissor em tarefas futuras. No caso de Billy Micthell, sua contribuição após deixar o Air Corps, em 1926, é relativamente pequena. Ele ainda viveu uma década, mas, na verdade, tornou-se uma figura amplamente esquecida, raramente convocado pelo país ou por sua própria Força Singular. Seu único livro, Skyways: A Book on Modern Aeronautics, apenas compila, em novo formato, idéias antigas já publicadas.

Quanto a usar uma promoção tardia para corrigir uma injustiça óbvia, precisamos ter cuidado. Será que as forças armadas ou a justiça militar de fato trataram a pessoa indevidamente ou a promoção proposta é mera tentativa de suavizar uma decisão em um mundo que se tornou mais pacífico e dialogante? Se for este o caso, a preocupação está mal colocada. A justiça militar, com sua ênfase necessária em dever e responsabilidade, precisa ser sustentada. Nas forças armadas, em que as vidas de seus membros dependem das decisões de um comandante, é extremamente insensato solapar ou suavizar um sistema em que são tão grandes as conseqüências do fracasso. Realmente, aqui a responsabilidade pára no comandante.

No caso de Billy Mitchell, precisamos perguntar se sua corte marcial por insubordinação, em 1925, foi injusta. Não há, em apoio desta hipótese, indícios com credibilidade. Foi verdade que Mitchell acusou seus superiores no Exército, bem como os almirantes mais antigos da Marinha, de “incompetência, negligência criminosa e uma administração da defesa nacional que chegava às raias da traição”—palavras demasiadamente ásperas para um grupo de homens que, por décadas, haviam servido seu país e que, em diversas ocasiões, haviam, eles próprios, travado combate.1 Na corte marcial, os advogados de Mitchell afirmaram que todos os americanos tinham direito constitucional de manifestar sua opinião. Isto é puro disparate. Os militares precisam seguir regras diferentes; eles têm de cumprir ordens e exercitar a autodisciplina. No que se refere às suas acusações de incompetência e má gestão no alto-comando das Forças Singulares no que se refere ao estado da aviação à época, a verdade tende a residir, em grande medida, nos olhos de quem contempla. Todos os setores queixavam-se do aperto fiscal e todos temiam não ter recursos para executar adequadamente suas tarefas.

Independentemente disto, após ler a transcrição do processo na corte marcial, é imperioso concluir que Mitchell, muito simplesmente, não sabia o que estava dizendo a respeito do status da aviação naval—e lembrem-se de que suas acusações foram feitas como resultado específico da queda do dirigível Shenandoah, da Marinha dos Estados Unidos—ou, mesmo, da de sua própria Força Singular. Com efeito, seu desempenho no banco das testemunhas foi uma vergonha. A corte marcial, composta por 10 oficiais-generais, declarou-o culpado e sua pena—afastamento do serviço por 5 anos sem direito a soldo e gratificações—foi razoável. O promotor havia pedido seu desligamento do Exército e sugeriu uma pena de prisão. Em vez disso, a corte prolatou uma sentença mais branda, levando em consideração a história de combate de Mitchell na guerra. O Presidente Calvin Coolidge amenizou ainda mais a sentença, concedendo-lhe a metade do soldo durante esses cinco anos. Mitchell, porém, decidiu desligar-se. Após a Força Aérea ter-se tornado independente, em 1947, ele tentou recorrer da corte marcial, na esperança de reverter a sentença. Contudo, após revisão, os líderes da Força concluíram que não havia dúvidas de que ele era culpado das acusações.

Há, em seguida, a questão da vida particular de Mitchell. Vamos esquecer que ele virtualmente abandonou os filhos frutos de seu primeiro matrimônio, era paquerador e tinha problemas com a bebida. A revelação recente—descoberta dos poeirentos arquivos do inspetor-geral, esquecida por muito tempo e trazida à luz por Douglas Waller, em A Question of Loyalty, sua biografia de Mitchell—de um incidente doméstico entre Mitchell e sua primeira mulher estarrece a imaginação. O arquivo conta que a Polícia do Exército foi à residência de Mitchell depois que a Sra Mitchell recebeu um tiro no peito, durante uma altercação com seu marido. Ela sustentava que ele havia atirado nela em fúria, estando bêbado; ele sustentava que ela havia atirado em si própria, bêbada, sem saber o que fazia. Não havia testemunhas do acontecimento. Felizmente, a ferida não foi grave, mas eles se divorciaram logo depois. Mesmo na época moderna que tende a passar por cima da imoralidade pessoal enquanto ela não afetar o desempenho no trabalho, este comportamento é um pouco excessivo. Será o de um modelo que desejássemos homenagear?

Em suma, Billy Mitchell foi um grande homem do que bem serviu o seu país na guerra e na paz. Ele foi recompensado por este serviço: em 1941, o Congresso chegou a instituir uma medalha de ouro especial em sua homenagem. Mitchell, porém, também teve profundas falhas que afetaram o seu desempenho como oficial, como comandante e como homem. Precisamos não esquecer esse fato ao considerarmos a questão da promoção tanto tempo após a morte dele.

Nota

1. “Statement of William Mitchell Concerning the Recent Air Accidents” (statement to the press, San Antonio, TX, 5 September 1925), 1. Disponível em: http://www.afa.org/magazine/july2006/keep_billy.pdf.


Colaborador

Coronel R1 Phillip S. Meilinger O Coronel R1 Phillip S. Meilinger (Bacharelado, Academia da USAF; Mestrado, University of Colorado; Doutorado, University of Michigan) aposentou-se da Northrop Grumman e reside em West Chicago, Illinois. Possuindo mais de 2.500 horas de vôo, o Cel Meilinger serviu como diretor da School of Advanced Air and Space Studies na Base Aérea Maxwell, Alabama, oficial do Estado-Maior da USAF no Pentágono, piloto de C-130 e HC-130 e professor de estratégia na Escola de Guerra Naval dos EUA, em Newport, Rhode Island. É o autor de Hoyt S. Vandenberg: The Life of a General (1989) e 10 Propositions Regarding Airpower (1995), bem como o editor de The Paths of Heaven: The Evolution of Airpower Theory (1997).

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