Documento criado em 01 Novembro 07
ASPJ  Em Português 4° Trimestre 2007

Ética Militar
Lições Aprendidas de Manuel Davenport

Dr. J. Carl Ficarrotta*

*  Manuel Davenport, especialista em ética militar influente e amplamente reconhecido, especialmente na Força Aérea, por sua liderança, coragem e moral, gentileza, generosidade e um senso de humor maliciosamente engraçado. Considero a ocorrência do sétimo aniversário de seu falecimento (ele morreu em 30 de agosto de 2000) uma boa ocasião para recordar este homem, seu impacto e exemplo, e seus métodos singulares e as doutrinas que ele ensinava.

Agradeço ao Dr. Robin Smith, chefe do Departamento de Filosofia da Texas A&M University, por me convidar a apresentar a primeira versão deste artigo em 2001. Numerosos agradecimentos às dezenas de pessoas que me falaram sobre Manuel Davenport quando eu preparava a primeira versão. Recentemente, o Dr. James Toner, do [Air] War College, apresentou-me certo número de sugestões muito úteis. Todos os editores do Air and Space Power Journal que trabalharam comigo para que este artigo fosse publicado demonstraram, certamente, uma paciência de Jó. Sou grato a todos eles.

Iniciar guerras e travá-las é um assunto moralmente perigoso. O filósofo G. E. M. Anscombe descreve bem o perigo: ao começar guerras, nossas fraquezas comuns levaram com demasiada freqüência as nações a “pensar erradamente que estivessem certas”.1 A tarefa terrivelmente séria de travar guerras apresenta ainda mais armadilhas ao militar em combate: “o orgulho, a malícia e a crueldade são tão habituais que é verdade dizer-se que as guerras têm sido, em sua maior parte, mera perversidade em ambos os lados. . . . É provável que a guerra seja uma injustiça, que a vida no serviço militar seja uma vida má”.2 Poderíamos discordar das estimativas de Anscombe quanto à probabilidade de que falhemos, mas é certo que nenhum outro contexto apresenta tantas oportunidades para as piores espécies de imoralidade. Em face deste perigo, algumas pessoas realmente consideram a guerra uma catástrofe moral, ao permitir, sem condenação, qualquer uso ou abuso de poder nas relações internacionais e qualquer método de combate na condução da guerra. Felizmente, muitos mais, entre nós, encaram claramente como negativa esta espécie de niilismo moral em relação à guerra.

A oposição ao niilismo e à sua permissividade radical deve ser acompanhada de outra preocupação: a de que faremos um trabalho insatisfatório ao formularmos julgamentos morais (com as conseqüentes tentativas bem intencionadas de remediar ou evitar problemas). Não devemos proceder de maneira ingênua, demasiado apressados, ou “por fora”, sem apreciarmos a verdadeira natureza das dificuldades morais da arte de bem governar e na condução da guerra. Numerosos pensadores evitaram esses riscos, tornaram-se especialistas judiciosos e bem informados quanto à moralidade da guerra e apresentaram contribuições úteis e adequadas para lidar com os espinhosos problemas levantados pela ética militar. Manuel Davenport foi um desses pensadores. Com efeito, retrospectivamente, podemos perceber que ele foi membro de um grupo de elite de especialistas em ética militar que fizeram muito bem este trabalho vital.3 A maneira conscienciosa, a convicção moral e a disciplina com que ele se dedicou à tarefa de produzir e ensinar ética militar nos dá um grande exemplo. Deveríamos refletir no seu exemplo e ver que lições ele nos pode ensinar no presente.

Lições a Respeito de Como
Ensinar Ética Militar

 Os lugares em que Davenport ensinou ética militar permitiram que seu trabalho como professor tivesse impacto e alcance máximos. O Corpo de Cadetes Aggie, da Texas A&M University, tem, normalmente, cerca de 2.000 membros, tornando-o um dos maiores grupos de alunos fardados no país.4 Durante o longo tempo em que ocupou seu cargo na A&M (começando em 1967), Davenport ensinou uma disciplina sobre ética militar que calou fundo em muitos cadetes dessa rica fonte de oficiais. Além disso, ele foi duas vezes professor visitante da Academia da USAF, onde ensinou ética militar a mais centenas de futuros oficiais. Aqui está a primeira lição: no mínimo, precisamos disponibilizar disciplinas sobre ética militar junto de todas as nossas fontes de formação de oficiais.

Em diversas ocasiões observei Davenport interagindo com esses estudantes, que logo se tornariam nossos líderes; ele se colocava sempre no nível deles—cativante, fácil de recordar, gentil e engraçado. Todavia, ao mesmo tempo, permanecia rigoroso e intelectualmente exigente. No decorrer do tempo, suas lições exerceram uma influência ampla e positiva na forma em como muitos de nós, em todas as forças armadas, pensamos os problemas morais—influência exercida sobre os estudantes um a um. Assim, há, refletindo-se no modo de ensinar de Davenport, outra lição a aprender: não podemos ensinar ética militar adequadamente só com o uso de cartazes, fascículos ou pequenas palestras motivadoras. Preocupações razoáveis com a eficiência e uso econômico dos recursos não devem bloquear o que é essencial ao processo educativo. A interação pessoal com os alunos, um a um, por períodos longos, é parte vital do trabalho.

Davenport fez mais do que ensinar a muitos estudantes de nível universitário na sua preparação como jovens oficiais. Ele também ensinou a um grande número de professores que, em seguida, prosseguiram educando um número muito, muito maior de alunos de graduação. No corpo docente da Academia da Força Aérea, bem como no de West Point, a maioria dos membros é de oficiais. (Com efeito, por muitos anos antes de 1990 eram quase que somente oficiais.) Alguns professores militares têm duradouras relações com a Academia, têm doutorados e muitos anos de experiência de ensino. É significativo, contudo, que o número maior de membros do corpo docente seja constituído de oficiais com muito pouco tempo na carreira, recrutados das diversas especialidades, para ali servirem como professores das disciplinas introdutórias de nível mais básico durante uma única comissão—de três ou quatro anos. É preciso que tenham mestrado na temática que queiram ensinar. Se não houver oficiais qualificados com pós-graduação disponíveis, a Academia patrocina, para os que tenham credenciais adequadas, bolsas de 12 a 18 meses; quer dizer, quando necessário, a instituição “cultiva” seus próprios oficiais subalternos que servem no corpo docente.

Como se pode esperar, muito poucos oficiais têm já mestrado em filosofia; assim, a grande maioria deles precisa cursar escolas de pós-graduação antes de servirem [na Academia]. Contudo, não são tantas as universidades que podem ou querem atender às necessidades das Forças Singulares nessa área. Horários apertados, alunos que precisam de nivelamento, alunos que não conseguem iniciar um doutorado e lhe dar continuidade e outras complicações tornam difícil aos departamentos de filosofia admitirem esses oficiais. Davenport, porém, não dizia não. Sempre disposto a acolher oficiais da Academia, ele encaminhava-os para sérios programas de mestrado quando outros talvez não o fizessem. Por meio do treinamento desses instrutores, é claro que ele influenciava a educação moral de milhares de futuros oficiais, tanto na Academia da Força Aérea quanto em West Point. Encontramos aqui outra lição: Precisamos não negligenciar as estruturas e programas institucionais que alimentam uma fonte para oficiais com a especialização necessária ao ensino da ética militar. Essas estruturas e programas (por exemplo, educação civil patrocinada pela Força Aérea, liberação de oficiais de suas áreas de especialização para essas comissões e especialidades “fora do padrão”, funções militares no corpo docente da Academia etc) funcionam como nós críticos em nossos esforços mais amplos e sistemáticos para produzir oficiais da Força Aérea com forte caráter moral e competências sólidas de raciocínio moral.

Durante suas comissões de um ano como visitante na Academia, Davenport funcionou como importante assessor de diversos chefes de departamento e orientou muitos oficiais subalternos do corpo docente. Em seu primeiro período como visitante, tornou-se confidente de Malham Wakin, à época, coronel (Wakin chamava Davenport de “consultor sênior”). Em seu segundo período como visitante, o Cel Charles Myers sentiu-se de modo muito parecido. Para os membros mais jovens do corpo docente, Davenport orientou grupos de leituras, assessorou em publicações e dedicou-lhes seu tempo gratuita e generosamente, tanto no escritório quanto no cafezinho, sempre pronto a ajudar com algo intrigante, de caráter profissional ou pessoal. O Departamento de Filosofia da Academia tornou-se inquestionavelmente mais forte como resultado dos dois anos que ali passou. Outros visitantes tiveram influências igualmente benéficas. Compartilhar a especialidade de estudiosos seniores deste modo nos dá outro procedimento a seguir: devemos encontrar modos de reproduzir este tipo de arranjo presencial em todos os níveis da educação em ética, na Força Aérea. Não podemos substituir Davenport, mas podemos nos beneficiar do estímulo sustentado e sinegístico que um especialista visitante pode trazer a um corpo docente.

A influência de Davenport espalhou-se desde outros lugares além da Texas A&M e da Academia da Força Aérea. No início dos anos de 1980, um grupo de oficiais criou uma organização que lhes permitiria apresentar artigos sobre problemas de ética militar em um simpósio realizado regularmente—a Conferência de Ética Profissional das Forças Combinadas (JSCOPE, chamada agora Simpósio Internacional de Ética Militar). Quando o grupo convidou Davenport a participar, ele concordou de imediato, integrando a junta do JSCOPE como representante civil, apresentando muitos trabalhos pioneiros na conferência e conseguindo que a Texas A&M abrigasse a conferência antes que ela tivesse sede permanente em Washington, DC. Ano após ano nessa organização, ele favoreceu a reflexão não apenas de alunos de graduação e seus professores, mas também de profissionais consumados que ainda enfrentavam os mesmos problemas—profissionais que estão agora nas forças armadas e que tomarão muitas das decisões críticas e relevantes nas guerras que nosso país travar. Então, acha-se aqui mais uma lição a ser aprendida: devemos continuar a apoiar fóruns de ética que existam para que os militares troquem idéias e recebam consultoria de um grupo diversificado de especialistas. De um modo global, devemos ver o modo de ensinar de Davenport como o modelo do que é possível fazer e encontrarmos modos de manter viva essa chama (com alunos de graduação, seus professores e profissionais em exercício).

O Que Ele Ensinava:
As Doutrinas

 Além de aprender com o exemplo de Davenport como grande professor de ampla influência, é óbvio que não podemos deixar de examinar o que ele ensinava. O que ele escreveu sobre ética militar revela contribuições úteis em duas grandes áreas. Na primeira, ele anunciava e defendia algumas doutrinas específicas—extensões ou derivações de diversos princípios clássicos de ética militar. Na segunda, ele nos mostrou um método ou um tratamento que jamais deveríamos deixar de apreciar e imitar.

As doutrinas que ele ensinava cobrem o espectro dos problemas de ética militar: questões morais acerca de quando ir à guerra, como podemos combater, lealdade e competência profissionais e que tipo de pessoas (do ponto de vista moral) devem ser os militares. Ele tem um trabalho sobre a moldura da guerra justa que todo estudante de ética militar conhece.5 Aqui, só vou sublinhar algumas das idéias mais importantes e influentes que ele desenvolveu e propalou—idéias singulares ou incomuns na literatura a respeito do assunto.

Para começar, Davenport nos advertia coerentemente quanto aos perigos do poder militar e, por causa deles, da necessidade absoluta de certas lealdades por parte das pessoas que constituem as forças armadas. Os perigos dividem-se em duas categorias gerais. Primeira, se as forças armadas receberem poder demais, costumam não abandoná-lo; daí que a influência das forças armadas cresça além do que é adequado, e sua função desloque-se da proteção para a tirania. Desse modo, a lealdade ao cliente, que é o Estado, torna-se crucialmente importante. O militar é e deve ser caracterizado pelo companheirismo e por uma intensa lealdade à Força; todavia, o “dever para com o cliente [quer dizer para com o Estado, que é o cliente] precisa ter prioridade sobre o dever para com a carreira e, neste país [os Estados Unidos] reconhecemos isto pelo princípio do controle civil das forças armadas”.6

Ligado a este conceito estava a firme defesa que Davenport fazia de um antigo princípio da guerra justa: o de que só a autoridade legítima—afastada das forças armadas—deve tomar a decisão de ir à guerra. Ao longo da história, as forças armadas têm sido tentadas a pensar, com maus resultados, que elas sabem melhor das coisas do que os cidadãos a quem servem. Na maior parte dos casos, quando os membros das forças armadas “decidem quem são os inimigos de sua sociedade e empenham-se, por si próprias, em ações destinadas à destruição desses inimigos aparentes, a estabilidade da sociedade é colocada em risco, em vez de preservada”.7 Além disso, segundo o ponto de vista de Davenport, devemos retirar a decisão de ir à guerra até das pessoas responsáveis pelas tarefas cotidianas do governo direto. Em vez disso, a autoridade de fazer a guerra deve pertencer aos que são responsáveis por indicar e destituir os governantes—nos Estados Unidos, o povo ou seus representantes. A história mostrou e o raciocínio confirma que “aqueles que governam diretamente tornam-se mais difíceis de destituir se tiverem o poder de fazer a guerra”.8 Precisamos manter os cães-de-guerra com a coleira apertada.

O segundo risco do poder militar manifesta-se na condução da guerra. Davenport tinha grande preocupação com o fato de que os soldados, envolvidos no combate, se tornassem “ébrios de poder”. Mesmo que esses soldados reconheçam que o Estado-cliente e as regras da moralidade lhes conferem o poder de praticar a violência, podem ser “tentados a exercitar o poder . . . sem restrições, e argumentar que isto era necessário para atender aos melhores interesses” de seus clientes.9 Contudo, os militares precisam “distinguir entre [seus] clientes e a humanidade” e não podem justificar ações destrutivas em relação a inimigos civis apenas porque essas ações poderiam promover seus próprios interesses ou até os de seus cidadãos no território nacional. O dever supremo do militar é “promover a segurança e o bem estar da humanidade e este dever, [até] segundo o direito militar, tem precedência sobre os deveres para com os clientes que, como seus cidadãos, são apenas uma porção da raça humana” (grifado no original).10 Assim, o discernimento entre civis inocentes e combatentes é uma das responsabilidades mais prementes do militar. Nada obstante as tentações em contrário, esta responsabilidade assume precedência sobre nossos interesses pessoais ou os do Estado.

Este mesmo ordenamento léxico de valores levou Davenport a algumas visões interessantes do que constituiria causa justa para a guerra. Seu ponto de vista era mais abrangente do que o dos que defendem apenas os interesses nacionais e a autodefesa: “em um mundo ideal todas as violações dos direitos humanos devem ser punidas, mas no mundo real talvez não sejamos capazes de fazê-lo. Contudo, o fato de que não o façamos não nos deve impedir de compreender que nossas tentativas de estabelecer a justiça internacional podem e devem levar a crescente consciência moral e a um aperfeiçoamento das reais normas da guerra. A melhoria da qualidade de vida de todos os seres humanos é mais importante do que servir a nossos interesses nacionais egoístas”.11

Davenport também tinha pontos de vista bastante fortes quanto ao tipo de pessoas de que necessitamos nas forças armadas e insistia nas qualidades pessoais que considerava indispensáveis para o serviço militar. Trabalhando a partir de algumas idéias de Wakin, Albert Schweitzer e outros, ele indicava especialmente a integridade moral e a competência técnica especializada. Exigia coragem (tanto física quanto moral), sentido de vocação e integridade pessoal—e estendia essas fortes exigências morais até à vida particular do militar. Por exemplo, Davenport manifestou-se contra a tolerância do adultério no oficial, mesmo que permanecesse secreto: “uma pessoa cuja existência depende continuamente de enganar-se a si próprio e aos outros não merece confiança para desempenhar os deveres que lhe são atribuídos ou fazer relatórios verdadeiros que sejam subjetivamente desagradáveis ou nocivos. Uma pessoa assim . . . não pode merecer respeito como militar”.12

Ele endossava estas virtudes militares especiais e exigentes porque elas são necessárias ao funcionamento das forças armadas. Agora, este tratamento funcional está razoavelmente padronizado como modo de justificar as virtudes militares. Contudo, em toda a sua obra escrita, Davenport observava que essas virtudes precisavam promover não apenas a excelência militar, mas, também (e ao mesmo tempo), uma rica noção de vida boa para todos, nas forças armadas e fora delas. Afinal, o que é importante como forças armadas morais não deve ser concebido de maneira isolada do resto da vida moral—com efeito, forças armadas morais serão morais exatamente porque preservam adequadamente certo número de valores humanos importantes. As virtudes do militar e os valores da vida humana como um todo precisam estar de mãos dadas e fundir-se em uma consistência sem descontinuidades. Desse modo, o fundamento definitivo, para Davenport, de todas essas exigências do caráter militar (quer dizer, a excelência militar e a idéia dos valores da vida humana, que paira sobre ela) exclui a possibilidade de considerar um nazista um combatente virtuoso apenas porque, em certo nível, ele foi um bom soldado.

Em outro tema que perpassa o trabalho de Davenport, ele sugeriu que a natureza burocrática e abstrata da estrutura militar cria certo número de problemas, especialmente para o caráter militar. Em primeiro lugar, a estrutura das forças armadas tende a agravar seu afastamento e isolamento do resto da sociedade. Isto, por sua vez, cria uma tendência a não reagir adequadamente quando são feitas exigências éticas às Forças. Como exemplo, ele achava que as forças armadas freqüentemente vêem suas verdadeiras necessidades subordinadas, de maneira pouco saudável, a preocupações políticas puramente egoístas. Ele acreditava que outros aspectos da estrutura militar também geram problemas: uma força completamente constituída de voluntários não representa adequadamente todos os segmentos da sociedade, as forças armadas não recrutam efetivamente um número suficiente de pessoas competentes e a burocracia é motivadora de uma espécie de carreirismo entre os oficiais que se concentra apenas na promoção, em vez de concentrar-se na verdadeira excelência. Davenport considerava, porém, que a estrutura basicamente burocrática e abstrata de quaisquer forças armadas de grande efetivo continuava a ser a única que elas podem ter para realizarem suas funções. Portanto, “a organização militar precisa [quando necessário] mudar seu pessoal e suas respostas ao ambiente social de maneira que, dentro da estrutura existente, haja um compromisso maior com o objetivo militar”.13 Novamente, ele sublinhava a necessidade de certas virtudes ou traços de caráter—certos tipos de pessoas—nas forças armadas. Estas são, então, algumas das doutrinas singulares que Davenport ensinava.

O Que Ele Ensinava:
O Método

Compreender o método pelo qual Davenport desenvolvia e ensinava suas doutrinas (método que eu discerni, na maior parte, pelo seu exemplo) revela-se de longe a lição mais difícil a ser aprendida; não obstante, é um método que faz muita falta na prática da ética militar. Em suma, ele era magistralmente sutil—sempre imparcial, jamais sucumbindo às tentações da simplificação excessiva ou do dogmatismo. Ele dizia muito claramente que “não devemos nos jogar de cabeça” em nossos julgamentos, advertindo contra “o perigo e a atração . . . dos atalhos morais”, insistindo em que empreendêssemos “um questionamento constante das verdadeiras regras da guerra em vez da adesão inflexível a absolutos morais [simplistas]”.14

Com efeito, Davenport resistia a todas as formas de reduzir a ética militar a um formulário, mostrando-nos, em vez disso, uma espécie de sabedoria moral que brota de uma verdadeira humildade diante desta difícil matéria. Em contraste com a simplicidade enganadora e clareza de seus escritos, ele tinha uma compreensão profunda da complexidade moral. Nos fundamentos do pensamento de Davenport, encontramos o evitar de compromissos teóricos unidimensionais que não são fiéis à natureza da experiência moral. Freqüentemente, ele apelava para argumentos utilitaristas, mas não era simplesmente um utilitarista; falava dos deveres morais, mas sua base não era kantiana; e eventualmente apelava para princípios bíblicos ou para algum filósofo de formação teológica, mas não lhes concedeu lugar privilegiado em seu pensamento.15 Na mesma linha, ele percebia que as teorias morais freqüentemente não eram suficientemente refinadas para ajudar a equilibrar os valores em competição, mas que, por acréscimo, o juízo moral sensível e a experiência são cruciais. Além disso, quando tratava de uma questão moral concreta, ele buscava os fatos—todos eles—a despeito de saber as dificuldades de discernir quais os fatos que têm relevância moral. Ele também compreendia que o conhecimento das regras morais cotidianas não garante, imediatamente, que saibamos quais delas são adequadas a situações com que nos defrontemos—ou como elas o são. E ele percebia que, às vezes, um problema envolve falta de motivação moral ou ausência de virtudes (em vez de incapacidade de entendê-las). Eu poderia enumerar mais de suas advertências. A questão importante é que Davenport sabia que nenhum algoritmo simples garante um juízo moral correto, que é tanto arte quanto ciência. A não ser nos casos mais simples, não há um modo simples de proceder.

A compreensão que Davenport tinha do juízo moral recorda algo que o filósofo Jay Rosenberg disse certa vez a respeito da filosofia em geral: aprender a boa filosofia, às vezes, é algo que não pode ser reduzido a um simples conjunto de regras. Às vezes precisamos ver primeiro como ela é feita—como aprender a dançar vendo outros e, em seguida, participando.16 Vamos, com este mesmo espírito, observar como Davenport manejava alguns casos difíceis de raciocínio moral aplicado, examinando alguns exemplos de seu método em ação.

Tomemos, por exemplo, a análise por Davenport de um dilema enfrentado pelo Gen Laurence Kuter, que participou do planejamento do bombardeio de Dresden, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando os documentos de Kuter e alguns outros documentos anteriormente sigilosos se tornaram públicos, nos anos de 1990, Davenport estudou os memorandos associados à decisão do general em participar. Ele considerava que o ataque a esse centro de população amplamente civil com bombas incendiárias era imoral, correspondendo a uma forma de terrorismo. Aparentemente, até Kuter pensava de maneira semelhante e tinha idéia de que “o terrorismo, inclusive bombardeio de área, era sempre errado”.17 Assim, poderíamos pensar que se Kuter tinha esse ponto de vista e ainda assim planejou o ataque, ele precisaria ter tido um caráter fraco e complacente—a espécie que Davenport tão freqüentemente afirmava que não cabia nas forças armadas.

Entretanto ele não caracterizou Kuter desta maneira. Por quê? Ele observou que Kuter tentou insistentemente dissuadir seus superiores de realizarem o ataque, mas não teve êxito: “parece evidente que conquistou tanto terreno moral quanto pôde, [e] que pressionar mais poderia colocar em risco sua futura credibilidade moral”.18 Dito isto, como pensava Davenport que uma pessoa moral devesse reagir nessas terríveis circunstâncias?

Para responder a esta questão teríamos de considerar, como fez Kuter, que linha de ação contribuiria de maneira mais significativa para vencer a guerra e resguardar a paz: obedecer, após veicular as próprias objeções morais, ou recusar-se, por motivos morais, a continuar participando da guerra. O General Kuter evidentemente acreditava que pudesse contribuir mais tanto para a consciência moral de seus superiores quanto para a vitória final mantendo seu cargo militar do que renunciando a ele e tornando-se um crítico público dos que tinham sido seus superiores . . . ele se apresenta a nós, como se apresentou a si próprio, constrangido a preservar sua integridade e servir ao país, em face da incerteza moral. Reconhecer a própria finitude e falibilidade e, ainda assim, tomar posição consoante o próprio entendimento requer elevado grau de coragem moral. É muito mais fácil agir como um covarde moral e recusar-se a adotar uma posição moral por medo de errar ou ser impopular, e é ainda mais fácil agir a partir da suposição arrogante e imprudente de que se sabe o que é melhor para todos os seres humanos em todos os momentos. Uma pessoa com solidez moral teme os danos que vêm da omissão e teme os danos que vêm do apego cego a absolutos.19

Desse modo, comprometer seus próprios princípios sem objeções ou reflexão é covarde e fácil (fácil pelo menos naquele momento). Na verdade, a recusa em contemporizar em termos de princípios morais é, quase sem exceção, a linha de ação corajosa, difícil e adequada; por exemplo, quando não há dúvida acerca da imoralidade ou ilegalidade de uma ordem, a integridade exige nada menos que uma firme desobediência. Contudo, Davenport admitia a existência, em ocasiões muito raras, de circunstâncias horríveis recheadas de pressões terríveis e deveres conflitantes, nas quais uma recusa simples e de altos propósitos poderia também ser uma linha de ação relativamente fácil e, todavia, imprópria. Estava Kuter realmente certo da imoralidade do ataque? Se o general se demitisse após verbalizar vigorosamente suas objeções, quem o substituiria? Será que o próximo ataque se revelaria mais fácil sem a presença de Kuter? Sem ele, quais as chances de impedir um outro? Outra pessoa desafiaria as consciências morais de seus superiores? As minúcias do planejamento cuidariam de mitigar a imoralidade que ele percebia? Com todas essas questões em aberto, a linha correta de ação não é óbvia. Michael Walzer observa uma dificuldade semelhante nos raros casos em que se precisa fazer algo, embora julgando-o errado, como parte de uma preocupação global em fazer a coisa certa: “dizemos, dessas pessoas, que elas têm as mãos sujas. . . . [Essas pessoas] com as mãos sujas, embora possam ter agido bem e feito o exigido por sua posição, precisam, não obstante, arcar com o peso da responsabilidade e da culpa”.20 Concordemos ou não com Davenport (acerca da idéia geral ou da adequação de ser ela aplicada ao caso de Kuter) sua sugestão deve fazer-nos parar para pensar antes de concluir que Kuter errou claramente em ceder. Davenport nos mostrou que um juízo moral freqüentemente envolve mais do que a primeira aparência.

Outro caso exemplifica em grande medida o mesmo raciocínio. Durante os anos de 1970, Davenport, com Wakin e J. Glenn Gray, participavam da Conferência de Filosofia de Mountain-Plains. Nos primeiros meses daquela década, a conferência decidiu divulgar um documento de posição pública, em nome da conferência, condenando claramente a Guerra do Vietnã. À época, isto teria sido fácil e (nos círculos acadêmicos) incontroverso. Wakin, que à época era coronel da Força Aérea, pediu que a manifestação da conferência não fosse unânime. Se o fosse, ele e outros filósofos militares do grupo teriam de retirar-se. Mesmo que, considerando todas as coisas, Davenport achasse a guerra imoral, ele ficou do lado dos oficiais. Embora outros pareçam não ter entendido, ele compreendia as redes de lealdade a que estavam presos os militares. Respeitava a posição deles e recusava-se a adotar uma visão simplística mesmo que, superficialmente, ela parecesse ser o “terreno elevado” moral.

A reação de Davenport aos problemas dos relatos falsos nas forças armadas fornece ainda outro exemplo de seu cuidadoso raciocínio. Nos anos de 1980, começando no Vietnã e continuando por uma década, as forças armadas descobriram uma epidemia de relatórios falsos—quanto a acontecimentos no campo de batalha, manutenção, prontidão e um punhado de outras coisas, grandes e pequenas. Começou a espalhar-se entre os comentadores uma histeria relativa ao tecido moral dos militares. Todavia, Davenport não entraria nesse barco. Ele havia anteriormente pesquisado a morte do almirante japonês Isoroku Yamamoto, no final da Segunda Guerra Mundial. Quem atirou nele? Os pilotos da missão não são concordantes, mas Davenport não supõe, como muitos, que alguns deles ou todos eles simplesmente mentiram. Em um refinado estudo de caso, ele revelou como o estresse e as expectativas, valores pessoais e miríades de outros fatores afetam a percepção: “considerando-se o estresse produzido por situações de combate multiplicado pela crescente complexidade dos sistemas de armas e comunicações, e visto o fato de que esse estresse pode acentuar a tendência normal a responder a estímulos conforme valores subjetivos, o que é notável não é que haja tantos relatórios falsos a respeito de operações militares, mas que, em relação às possibilidades, eles sejam tão poucos”.21 Analista com idéias claras e honestidade de julgamento, ele sempre se recusou a participar de uma agitação que não tinha fundamento—e tentou dissuadir-nos de fazê-lo.

Davenport também ponderou as questões controversas dos gays nas forças armadas e das mulheres servindo em funções de combate, adotando posições moderadas que não se compadeciam nem com o ponto de vista conservador, nem com o ponto de vista radical desses problemas. Ao defender essas providências, ele insistia em um exame cuidadoso das verdadeiras conseqüências das políticas propostas para as Forças e para nosso país. Antes de excluir as mulheres do combate com base na alegação de más conseqüências, precisamos primeiro executar o trabalho empírico, mostrando a dificuldade de integrá-las ou demonstrando que sua presença afetaria a prontidão. (Embora Davenport tivesse dúvidas a respeito da existência desses indícios, esperava pacientemente pelo veredicto da experiência real.) Por motivos semelhantes, antes de excluir os gays das Forças, precisamos primeiro executar o trabalho empírico mostrando que seu comportamento prejudicará seriamente nossa capacidade de realizar a missão militar. Simplesmente Davenport não aceitava argumentos apriorísticos ou soluções rápidas enraizadas em preconceitos, no princípio de autoridade ou em ideologias.

Conclusão

Todos nós, nas forças armadas e fora delas, muito beneficiamos com o que Davenport fez—e pela maneira sábia e cuidadosa como ele o fez. A meu juízo, ele elevou os padrões da prática e do ensino da ética militar, e devemos empenhar-nos para atender a esses padrões. As atuais e futuras gerações de líderes e de combatentes precisam expor-se completamente aos problemas morais que permeiam o que fazem. Precisam de uma educação completa na habilidade filosófica e na sabedoria prática de que necessitam para tratar desses problemas. Para satisfazer essas necessidades, precisamos (1) persuadir professores e estudiosos de primeira linha, nas forças armadas e fora delas, a continuar trabalhando em ética militar, (2) estimulá-los a executar esse trabalho em lugares (como academias, escolas de guerra e conferências para militares) onde possam ter impacto em todos os níveis das forças armadas, e (3) estabelecer e manter as políticas, práticas e apoios institucionais (como educação de professores, prioridades de designação de pessoal, programas de professores visitantes, financiamento de viagens, etc) que tornarão tudo isso possível.

Nota

1. G. E. M. Anscombe, “War and Murder,” in War, Morality, and the Military Profession, 2d ed., ed. Malham M. Wakin (Boulder, CO: Westview Press, 1986), 286.

2. Ibid.

3. Dois outros vêm à mente ao pensar acerca de Davenport: J. Glenn Gray e Malham Wakin. Digo isto porque vale a pena observar que nos anos iniciais da carreira de Davenport, enquanto ainda ensinava no Colorado, ele consolidou, com os dois, amizades pessoais e profissionais. Não há dúvidas que as influências deles contribuíram para colocá-lo no caminho que trilhou.

4. “About the Corps”, Texas A&M University Corps of Cadets. Disponível em < http://www.aggiecorps.org/home/about >.

5. Para os leitores que não conheçam o pensamento acerca da guerra justa, estão disponíveis excelentes sumários deste tratamento geral, que não tentarei recriar ou resumir aqui. Entre tantos outros, vejam-se James Turner Johnson, Just War Tradition and the Restraint of War: A Moral and Historical Inquiry (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1981); Paul Ramsey, War and the Christian Conscience: How Shall Modern War Be Conducted Justly? (Durham, NC: Duke University Press, 1961); Nicholas G. Fotion, Military Ethics: Looking toward the Future (Stanford, CA: Hoover Institution Press, 1990), ou Martin L. Cook, The Moral Warrior: Ethics and Service in the U.S. Military (Albany: State University of New York Press, 2004).

6. Manuel Davenport, The Fellowship of Violence: Readings for Military Ethics [coleção completa de seus trabalhos em ética militar] (Acton, MA: Copley Publishing Group, 2000), 4.

7. Ibid., 79.

8. Ibid., 80.

9. Ibid., 5.

10. Ibid., 2–3.

11. Ibid., 181.

12. Ibid., 171.

13. Ibid., 29.

14. Ibid., 144, 181.

15. Conforme o pensamento utilitarista a respeito da natureza da moralidade, o princípio fundamental da moralidade é observar apenas as conseqüências das ações, avaliadas em termos do máximo bem para o maior número [de beneficiários]. O filósofo alemão Immanuel Kant atribui um papel fundamental semelhante a certos deveres primitivos—mas estes não são determinados por simples conseqüências.

16. Jay F. Rosenberg, The Practice of Philosophy: A Handbook for Beginners, 2d ed. (Englewood, NJ: Prentice Hall, 1984), vii.

17. Davenport, Fellowship of Violence, 116. Para uma caracterização do ataque de um outro ponto de vista, consulte-se Frederick Taylor, Dresden: Tuesday, February 13, 1945 (New York: HarperCollins, 2004) (revisado pelo Maj Paul G. Niesen, Air and Space Power Journal 19, no.3 [Fall 2005]: 122–24).

18. Davenport, Fellowship of Violence, 119.

19. Ibid., 120.

20. Michael Walzer, Just and Unjust Wars: A Moral Argument with Historical Illustrations, 3d ed. (New York: Basic Books, 2000), 323. Veja-se também seu “Political Action: The Problem of Dirty Hands,” Philosophy and Public Affairs 2, no. 1 (Autumn 1972): 160–80.

21. Davenport, Fellowship of Violence, 64.


Colaborador

Dr. J. Carl Ficarrotta O Dr. J. Carl Ficarrotta (Bacharelado, Mercer University; Mestrado, Emory University; Doutorado, University of North Carolina—Chappel Hill) é professor de filosofia na Academia da Força Aérea dos EUA, onde vem lecionando há 13 anos. Realiza conferências regularmente sobre ética militar nos Estados Unidos e Canadá. Organizador do livro The Leader’s Imperativa: Ethics, Integrity, and Responsibility (Purdue University Press, 2001) o Dr. Ficarrotta também tem muitos artigos publicados sobre ética teórica e aplicada, incluindo “Are Military Professionals Bound by a Higher Moral Standard?” Armed Forces and Society, 1997.

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