Tenente-Coronel David R. King, PhD, USAF
Os pilotos de caça de hoje são os equivalentes modernos dos cavaleiros medievais. Consideramo-los produtos de suas sociedades e dependentes destas sociedades. A classe guerreira de cavaleiros emergiu de um sistema feudal que se baseava na concessão de terras necessárias para apoiá-los, bem como a seus cavalos e escudeiros (tal qual os pilotos de caça têm suas aeronaves e crew chiefs. Não sendo auto-suficiente, o cavaleiro tinha o apoio de relações complexas que envolviam servos, comerciantes, artesãos e a religião. O piloto de caça tem o apoio de um sistema ainda mais complexo de impostos e orçamentos que possibilitam a pesquisa e o desenvolvimento ao custo de bilhões de dólares, junto com programas de produção. Assim como o cavaleiro precisava de um ferreiro para ter suas armas e armadura, assim o piloto de caça depende da capacidade da base industrial de apoio.
As Forças Armadas dos Estados Unidos em geral e as aeronaves em particular colhem sua força da base industrial subjacente. Os Estados Unidos devem seu status de potência mundial inquestionável aos investimentos sustentados feitos durante a Guerra Fria. A manutenção do poderio militar dependerá da saúde da base industrial para a defesa, já que desenvolver, produzir e empregar sistemas de armas importantes pode levar mais de uma década. Infelizmente, decisões orçamentárias de curto prazo ameaçam a viabilidade de longo prazo dessa base. A decisão tomada em 2004 de cortar US$ 10,5 bilhões do financiamento do Raptor F-22, encerrando mais cedo a produção, representa uma situação em que restrições fiscais atuais desconsideram necessidades futuras.1 Entretanto, a Quadrennial Defense Review, de 2005, reviu e reverteu parcialmente essas reduções no financiamento do F-22.
Ao considerar a situação atual, é preciso que nos lembremos do passado, porque as realizações do poder aéreo tendem a ofuscar suas imperfeições.2 Por miopia, os Estados Unidos, a despeito de serem pioneiros do vôo tripulado, em 1903, descobriram que, quando da Primeira Guerra Mundial, sua base industrial estava atrasada em relação à de outras nações—condição que perdurou até a Segunda Guerra Mundial. Na Primeira Guerra Mundial, os pilotos americanos usaram aeronaves estrangeiras; o Curtiss JN-4 Jenny, dos Estados Unidos, jamais participou de combate. Além disso, as aeronaves táticas americanas, no começo da Segunda Guerra Mundial, eram inferiores tanto aos caças alemães quanto aos japoneses, e a tecnologia de caça dos Estados Unidos ficou atrás de sua correspondente alemã até o final da guerra.3 Com efeito, o Zero japonês voava mais longe e mais rápido do que qualquer avião do arsenal dos Estados Unidos, ao iniciar-se a Segunda Guerra Mundial.4 Para ter êxito no desenho de aeronaves, os Estados Unidos buscaram o auxílio de outras nações. Por exemplo, o Mustang P-51 norte americano, uma das primeiras aeronaves dos Estados Unidos na guerra, usava um motor britânico fabricado pela Rolls-Royce.5 Percebemos esta dependência refletida na decisão da Lockheed Martin, escolhida recentemente para fornecer os helicópteros do Presidente dos Estados Unidos, de usar um desenho da AgustaWestland, uma ítalo-britânica.6 A história mostra que um país precisa investir tempo e dinheiro significativos para recuperar uma base competitiva de indústria aeronáutica.7
|
|
Uma base industrial saudável precisa ter investimentos prolongados para manter a diversidade adequada, e, desse modo, possibilitar a inovação e renovação da força de trabalho. A variedade estimula a competitividade em um ambiente de tecnologia evolutiva, do mesmo modo que a pluralidade de firmas facilita operações eficientes e adaptações. Além disso, a indústria precisa de uma força de trabalho suficientemente grande para que trabalhadores mais velhos e experientes treinem seus futuros substitutos. O declínio recente no número de firmas e de trabalhadores experientes indica que se está deteriorando a saúde da indústria aeronáutica americana.
Precisamos ser o grande arsenal da democracia.
Franklin Delano Roosevelt
As realizações da atual base industrial aeronáutica dos Estados Unidos têm suas origens nos investimentos feitos durante e após a Segunda Guerra Mundial. Declínios subseqüentes no número de programas de aeronaves empreendidos pelo governo dos Estados Unidos tiveram um profundo impacto tanto no número de firmas quanto no de trabalhadores na indústria aeroespacial. Durante os anos de 1940 e 1950, chegaram a voar caças a reação de 40 projetos diferentes, fabricados por nove diferentes empresas de defesa.9 Em conseqüência, a Força Aérea, a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais adquiriram mais aeronaves de caça e de ataque em seis anos (1951-56) do que nos 34 anos subseqüentes (1957-90).10 Para pôr esses dados em perspectiva, considere-se que entre 1958 e 1979 os Estados Unidos e seus aliados receberam o total de 5.195 aviões F-4 Phantom II, mas entre 1990 e 2004 a indústria só produziu 572 aeronaves de caça para a Força Aérea.11O declínio na produção de aeronaves contribuiu para a consolidação da indústria, porque a aquisição de menores quantidades e menos programas de aeronaves só podem sustentar algumas firmas. Desde 1990, a indústria aeronáutica testemunhou uma consolidação significativa (fig. 2), resultando em menor variedade, o que pode afetar a inovação tecnológica de maneira adversa.12 A inovação não ocorre em isolamento e o conhecimento disponível que fornece a moldura para a definição e solução de problemas delimita o comportamento das firmas.13 Desse modo, diversidade insuficiente resulta em uma indústria menos resiliente. Entrementes, aqueles que determinam as políticas talvez esperem que a inovação continue sem perceber que os êxitos recentes brotam de uma base industrial mais robusta do que a que existe atualmente.
|
|
A Lockheed Martin venceu a disputa pelos contratos do F-22 Raptor e do Caça de Ataque Combinado F-35—provavelmente os últimos programas de desenvolvimento de aeronaves tripuladas dos Estados Unidos por pelo menos uma década.15 Esses dois desenhos vão substituir o F-15, F-16, F-117 e o A-10, mas em números significativamente menores. Menos aeronaves e maior confiabilidade diminuem ainda mais a procura, reduzindo a necessidade de peças sobressalentes e de reposição, o que se incorpora à dificuldade enfrentada pelas firmas remanescentes. Esses empreendimentos costumam depender do fluxo de caixa oriundo de seu apoio à manutenção das aeronaves atuais, para ajudar no financiamento da pesquisa e desenvolvimento que gera e adapta a tecnologia nova de que necessitam para continuarem competitivos.
As inter-relações entre os principais fornecedores de aeronaves também podem aumentar as preocupações a respeito da inovação futura (fig. 3). A associação entre as firmas dominantes, característica dos programas de aeronaves mais recentes, pode ter o efeito de desalojar os fornecedores de nível inferior, mas baixa os custos no curto prazo. Por exemplo, a BAE, a Northrop Grumman e a Lockheed Martin, em Palmdale, Califórnia, trabalham tanto no F-22, montado na Lockheed Martin, em Marietta, Georgia, quanto no F-35 montado na Lockheed Martin, em Fort Worth, Texas, resultando na diminuição estimada de 1 a 3 por cento no custo de cada aeronave pronta para o vôo. Contudo, esta prática de reduzir custos por meio da partilha do contrato com fornecedores subsidiários e dos componentes dos subsistemas importantes pode dificultar a inovação de longo prazo, porque sustentar menos firmas com os dólares disponíveis para aquisição limita a variedade na base industrial.
|
|
|
|
|
|
O problema do envelhecimento de aeronaves reforça a nossa necessidade da indústria aeronáutica e de sua força de trabalho. Sem dúvida, um “feriado de aquisições” durante os anos de 1990 contribuiu para o aumento da idade dos caças atualmente em operação. Em virtude da obsolescência e de limitações estruturais, a Força Aérea busca fixar-se na média de idade de 12,5 anos para essas aeronaves. Atualmente, a média de idade dos caças é aproximadamente 16 anos—com o projeto de aumentar para 25 anos em 2012. É importante a idade dessas aeronaves porque elas costumam ter um tempo de vida operacional de 8.000 horas, e a experiência mostra que, à medida que elas se aproximam desse limite, aumentam os custos de operação e manutenção delas (fig. 6). É evidente que precisamos substituir as atuais aeronaves de caça.
|
|
A transição da produção do F-22 para a do F-35 necessita de gerenciamento para manter operante a produção de aeronaves e para controlar o risco e os custos do programa do F-35. Embora os F-22 tenham entrado em plena produção em março de 2005 e tenham estabelecido a capacidade operacional inicial (IOC) em dezembro de 2005, o F-35A—versão de decolagem e aterrissagem convencional da Força Aérea—provavelmente não alcançará IOC até 2013. É imperativo manter a produção de aeronaves avançadas para atender às exigências da defesa nacional. O reinvestimento no arsenal de aeronaves de caça dos Estados Unidos chegou ao momento em que o financiamento disponível coloca a base da indústria aeronáutica sob o risco de não conseguir atender a necessidades imediatas e futuras.
A capacidade industrial muda gradualmente; todavia, as pessoas baseiam suas expectativas de desempenho e capacidade na experiência recente. Os êxitos nas Operações Allied Force, Enduring Freedom e Iraqi Freedom convalidam a necessidade de poder aeroespacial. Contudo, o que foi realizado nessas operações dependeu em grande medida de uma base industrial que já não existe, devido à consolidação da indústria bélica e à redução de sua força de trabalho. Quando uma condição como a capacidade industrial se deteriora lentamente, as percepções se alteram gradualmente, de modo que se podem passar vários anos ou décadas antes que se perceba as mudanças significativas na linha de base. Em virtude do declínio, por numerosas medidas, da indústria aeronáutica americana, a capacidade disponível talvez não atenda às necessidades projetadas.Um elemento vital para manter a paz é
nosso establishment militar. Nossas armas
têm de ser poderosas, prontas para ação
imediata, de modo que nenhum agressor
potencial possa sentir-se tentado a arriscar
sua própria destruição.
Dwight D. Eisenhower
Alguns argumentam que a guerra, na era da informação, produzida pelos avanços na tecnologia da informação, reduzirá a importância da capacidade industrial.21 Afinal, o sistema feudal terminou quando as mudanças na tecnologia e o despertar do nacionalismo substituíram os cavaleiros pelos exércitos de massa. Embora a sociedade americana esteja desviando seu foco da fabricação para a informação, este desvio oculta o fato de que as pessoas não pararam de comer quando a economia passou da agricultura para a fabricação. Na verdade, a capacidade de concentrar-se em fabricação exigiu uma agricultura mais eficiente e moderna. Hoje em dia, a crescente produtividade permite que um único fazendeiro alimente mais de 100 pessoas. De maneira semelhante, tirar vantagem das capacidades da era da informação exige uma base industrial moderna e eficiente. Precisamos perguntar-nos se estamos fazendo os investimentos—análogos aos que foram feitos na agricultura para garantir que permaneça a capacidade necessária de desenho e fabricação de aeronaves. No que diz respeito à indústria aeronáutica americana, temos razão para ter dúvidas sobre se os níveis atuais de investimento manterão essa capacidade.
1. David A. Fulghum e Amy Butler, “Foreboding”, Aviation Week and Space Technology, 24 July 2005, 31.
2. Benjamin S. Lambeth, “NATO’s Air War for Kosovo”, in The Transformation of American Air Power (Ithaca, NY: Cornell University Press, 2000), 181–232.
3. R. McLarren, “Air Power Strength Starts in the Laboratory”, Aviation Week, 28 February 1949, 39.
4. Jeff Shear, The Keys to the Kingdom: The FS-X Deal and the Selling of America’s Future to Japan (New York: Doubleday, 1994), 13–14.
5. “North American P-51 Mustang”, Aviation History Online Museum, 2002. Disponível em: http://www.aviation-history.com/north-american/p51.html.
6. Marvin Leibstone, “Marine One”, Military Technology 29, no. 3 (March 2005): 25–27.
7. David R. King e Mark L. Nowack, “The Impact of Government Policy on Technology Transfer: An Aircraft Industry Case Study”, Journal of Engineering and Technology Management 20, no. 4 (2003): 305.
8. Steven W. Popper, Caroline S. Wagner, Eric V. Larson, New Forces at Work: Industry Views Critical Technologies (Santa Monica, CA: RAND, 1998), 68.
9. Mark A. Lorell e Hugh P. Levaux, The Cutting Edge: A Half Century of U.S. Fighter Aircraft R&D (Santa Monica, CA: RAND, 1998), 17, 166–99.
10. Michael D. Rich, Evolution of the U.S. Defense Industry (Santa Monica, CA: RAND, 1990), 10.
11.“Phantoms Phabulous 40th”, Boeing. Disponível em: http://www.boeing.com/defense-space/military/f4; e spreadsheet (Washington, DC: Air Force Studies and Analysis, 2005).
12. Richard A. Goodman e Michael W. Lawless, Technology and Strategy: Conceptual Models and Diagnostics (New York: Oxford University Press, 1994), 35.
13. Franco Malerba, “Sectoral Systems of Innovation and Production”, Research Policy 31, no. 2 (February 2002): 247–64.
14. Lt Col John D. Driessnack e Maj David R. King, PhD, “An Initial Look at Technology and Institutions on Defense Industry Consolidation”, Acquisition Review Journal 1, no. 1 (January–April 2004): 66. Disponível em: http://www.dau.mil/pubs/arq/2004arq/Driessnack.pdf.
15. Ibid., 70.
16. Nick Johnson, “UAV Market Expected to Total $10.6 Billion over Next Decade”, Aerospace Daily 208, no. 20 (28 October 2003): 1.
17. King and Nowack, “Impact of Government Policy”, 305.
18. Dave Hirschman, “Making It: Lockheed Workers Shoot for Perfection in Getting F/A-22 Raptors Ready to Roar”, Atlanta Journal-Constitution, 19 October 2003, 1Q.
19. Robert B. Aronson, “Manufacturing the F/A-22”, Manufacturing Engineering 134, no. 3 (March 2005): 107–19.
20. Briefing, Lt Col John A. Dargan, subject: F/A-22 Strategic Communication Messages, 25 July 2005. Disponível em: http://www.qr.hq.af.mil/docs/Events/FA-22%20Messages_25%20Jul%2005.pps.
|
O Tenente-Coronel David R. King, PhD, USAR, é diretor dos programas do F-22 no Program Executive Office da Força Aérea, Washington, DC. |
As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.
[ Home Page | Emita sua opinião via Email a: aspjportuguese@maxwell.af.mil]