Documento criado em 30 Agosto 06
ASPJ Em
Português 3° Trimestre 2006
Desde o verão de 1950, o poder aéreo dos EUA tem permanecido uma das forças militares dominantes na Península Coreana. Durante a Guerra da Coréia, a Guerra Fria, a incerta era pós-Guerra Fria existente desde a queda da União Soviética, e a transição do poder na Coréia do Norte do Rei Kim Il Sung para seu filho, Kim Jong Il, a capacidade do poder áereo dos EUA de servir como um pilar central da dissuasão para forças que ameacem a estabilidade e a segurança da República da Coréia (RC) e da aliança RC-EUA tem permanecida inquestionada. Em um panorama geopolítico em transformação e uma região em rápida evolução, é improvável que tal situação venha a se modificar no futuro.
Diversos temas relacionados com a disposição das forças americanas na Ásia—em particular na Coréia do Sul—são relevantes para qualquer discussão relativa ao futuro das forças aéreas na Península e em áreas adjacentes que venham a se encontrar envolvidas em um conflito ou em operações militares de grande escala durante uma situação de crise. Dentre esses temas, um dos mais importantes é a evolucionária ameaça norte-coreana.
Esse artigo analisa aquela ameaça e seu desenvolvimento ao longo da década passada. Tendo em vista que a ameaça colocada pela Coréia do Norte tem, de fato, evoluído, é necessário efetuar uma análise de como os Estados Unidos podem melhor apoiar seu aliado, a Coréia do Sul, em tempos de crises; e examinar por que, no momento, mais do que no passado, o poder aéreo representa um elemento de suma importância dessa equação.
Igualmente importante, o artigo considera como a transformação das forças militares americanas e, em particular, suas forças na Coréia do Sul, tem alterado o papel do poder aéreo americano relativo à aliança RC-USA e, também, como as recentes preocupações de Seul e Washington têm alterado os paradigmas sobre as formas como nossas forças militares podem melhor apoiar as forças militares sul-coreanas em situação de crise ou de guerra generalizada. Todos esses temas ganharam proeminência desde o aquecimento da confrontação nuclear com a Coréia do Norte no outono de 2002.1
Para explicar por que o poder aéreo dos EUA tornou-se um fator dissuasório tão importante para a ameaça militar da Coréia do Norte, é necessário, primeiro, entender como tal ameaça modificou-se. Durante os anos 1990, a Coréia do Norte—uma nação com 22 milhões de habitantes—desenvolveu a quinta maior força militar do mundo (fig.1). Seus exércitos totalizaram 3.700 carros de combate, 3.500 viaturas blindadas de transporte de pessoal, mais de 4.000 peças de artilharia autopropulsadas e aproximadamente 800 aeronaves.2
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Figura 1. As cinco maiores forças armadas do mundo. (Reproduzido de The Military Balance, 1997/98 [London: International Institute for Strategic Studies, 1999] e incluído em relatório elaborado pelo Grupo de Assessoria sobre a Coréia do Norte, uma organização especial do Congresso dos EUA formada para analisar problemas específicos de política de segurança nacional dos Estados Unidos com relação à Coréia do Norte. Esse relatório foi encaminhado ao Presidente da Câmara em novembro de 1999, tendo sido divulgado ao público, de forma escrita, em 29 de outubro de 1999. |
Desde o fim da Guerra Fria, com o encerramento dos subsídios providos por uma União Soviética colapsada, a Coréia do Norte tem confrontado a absoluta impossibilidade de manter as capacidades e o grau de prontidão de uma força militar (centrada em um enorme exército mecanizado) posicionada para atacar a Coréia do Sul, com o propósito de obter a unificação sob o regime comunista de Pionguiang.3 A manutenção do aprestamento de uma estrutura militar dominada por forças mecanizadas e artilharia autopropulsada requer uma quantidade substancial de combustível para o treinamento dessas forças em campanha. O provimento de alimentação também se mostra uma tarefa hercúlea, especialmente devido a que comida (assim como combustível) tem sido um bem escasso na Coréia do Norte desde o início dos anos 1990.4 Além disso, em qualquer cenário previsível de invasão, as forças militares norte-coreanas teriam que deslocar-se para o sul através de dois estreitos corredores chaves—o Kaesong-Munsan e o Vale Chorwon (o trajeto pela costa leste possibilitaria apenas um pequeno fluxo de forças) (fig. 2).5
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Figura 2. Vias de acesso. (Ministério da Defesa Nacional da Coréia do Norte, 2001.) |
Uma invasão em larga escala por forças mecanizadas e artilharia autopropulsada pelos estreitos corredores ao longo dos eixos de aproximação norte-sul exigiria o apoio de uma força aérea moderna, capaz de impedir que modernas aeronaves americanas e sul-coreanas destruíssem as forças terrestres à medida que estas tentassem avançar ao longo de rodovias para o sul. Infelizmente para Pionguiang, sua força aérea não se tem sido submetida a nenhuma modernização desde o final dos anos 1980 e pequenas aquisições, como a aquisição de 40 MiG-21 do Cazaquistão em 1999, não produziram nenhum ganho real em termos do poder aéreo norte-coreano.6 Adicionamente, os pilotos norte-coreanos têm sorte quando voam 20 horas por ano (provavelmente devido à mesma deficiência de combustível que limita as forças mecanizadas, blindadas e a artilharia autopropulsada), situação que reduz ainda mais o aprestamento dessa força aérea, que já não é moderna.7
Um relatório baseado em fotos obtidas por satélite comercial, liberado pela imprensa japonesa em 2005, revelou que “90% das aeronaves militares norte-coreanas são uma herança da Guerra da Coréia [e que] os caças mais novos eram aqueles fornecidos em 1984 e 1988 pela União Soviética.”8 Embora, talvez, exagerado, esse relatório da imprensa aponta o desafio encontrado pelas forças militares norte-coreanas: elas encontrariam graves problemas no provimento de cobertura aérea para uma força de invasão da Coréia do Sul.
Em face das informações discutidas acima, perguntar-se-ía se a ameaça colocada pela Coréia do Norte não teria diminuído como resultado da severa degradação de sua capacidade de montar, com êxito, uma invasão com forças convencionais na Coréia do Sul. A resposta mais provável seria que não. De fato, à medida que as capacidades de Pionguiang de conduzir uma guerra contra o Sul, utilizando forças convencionais, diminuíram, o regime começou a concentrar-se em uma nova capacidade—ameaçar a Coréia do Sul (e em última análise toda a região) com forças assimétricas.
Desde meados dos anos 1990, quando Pionguiang reconheceu que não poderia mais manter os níveis anteriores de capacidade e de prontidão de suas forças blindadas e mecanizadas, o Regime, aparentemente, tem se concentrado em armas e capacidades que continuem a ameaçar a segurança e a estabilidade do governo de Seul, sem drenar demasiadamente seus recursos minguantes. A tríade de forças assimétricas incluem artilharia de longo alcance, mísseis e forças especiais.
Desde meados dos anos 1990, a Coréia do Norte deslocou mais de 500 sistemas de artilharia de longo alcance autopropulsados para áreas logo ao norte da zona desmilitarizada (DMZ), com pelo menos 300 desses sistemas posicionados em locais de onde eles poderiam, literalmente, atingir áreas de Seul, ou seus arredores, em curto espaço de tempo, com o potencial de infligir centenas de milhares de mortes.9 De fato, a última versão do Livro Branco de Defesa do Ministério da Defesa Sul-Coreano salienta que a capacidade da Coréia do Norte de manter seus velhos equipamentos tinha chegado ao limite, com o declínio do número de carros de combate e viaturas blindadas (devido à falta de combustível e eletricidade que impediu a capacidade de Pionguiang de manter sua indústria de armamento e produzir os sobressalentes necessários).
O relatório também apontava que, entretanto, desde o ano de 2000, a Coréia do Norte tinha incluído 1.000 peças de artilharia em seu arsenal—um aumento significativo.10 Dessa forma, à medida que uma capacidade das forças norte-coreanas de ameaçar a Coréia do Sul diminuiu durante os últimos anos, elas a substituíram por outras que, de muitas maneiras, são tão letais quanto as anteriores.
Também preocupante é o desenvolvimento norte-coreano de mísseis de super-longo alcance, tais como o Taepo Dong e o recentemente anunciado Taepo Dong X, os quais, eventualmente, serão (se já não o forem) capazes de atingir partes do território dos EUA.11 Entretanto, os mísseis Scud, já posicionados na Coréia do Norte, constituem-se na principal ameaça à segurança e estabilidade do Sul. Algumas estimativas sugerem que Pionguiang já possui pelo menos 500 desses mísseis em seu arsenal, e que alguns, ou todos eles, poderiam transportar ogivas armadas com substâncias químicas.12 O Norte poderia utilizar esses mísseis em conjunto com sua artilharia de longo alcance já posicionada ao longo da DMZ, com pequeno, ou quase nenhum, alerta antecipado, aumentando significativamente a projeção das já significativas baixas no primeiro dia de guerra.
Finalmente, o bem adestrado quadro de forças especiais (FE) da Coréia do Norte, com um efetivo total estimado de mais de 100.000 homens, evidencia-se como um dos maiores do mundo. Diferentemente de muitas outras forças na Coréia do Norte que encontram limitações de recursos, essas forças especiais não têm sofrido de falta de combutível ou de provisões. Elas treinam durante todo o ano e não têm experienciado o declínio de adestramento evidenciado em muitas das forças convencionais de Pionguiang. Além disso, o pessoal das FE norte-coreanas pratica pára-quedismo tanto de torres como de aeronaves, essas últimas, obviamente, não limitadas por restrições de combustível e/ou tempo de vôo.
Em tempo de guerra, grande número dessas forças poderiam atacar pontos críticos de comando e controle, bases aéreas, ou qualquer alvo de alto valor na Coréia do Sul. Talvez igualmente perturbador seja o fato de essas forças também poderem executar operações não-convencionais ou mesmo atos terroristas que poderiam afetar drasticamente o moral e alterar a opinião pública tanto da Coréia do Sul quanto dos Estados Unidos. Muito provavelmente, as mais de 300 aeronaves AN-2 Colt (da época da Segunda Guerra Mundial) pertencentes ao acervo da Coréia do Norte poderiam inserir essas forças na Coréia do Sul. Segundo consta, a Coréia do Norte tem empreendido esforços concentrados para manterem essas aeronaves AN-2, que são fáceis de voar, em bom estado de manutenção.13
A evidência é de uma clara mudança de rumo, iniciada quando as forças armadas norte-coreanas começaram a declinar durante os anos 1990. Pionguiang passou da construção e manutenção de forças convencionais que poderiam sobrepujar e conquistar a Coréia do Sul para o estabelecimento de capacidades que podem ameaçar toda ou a maior parte de Seul—e, ao final, abalar ou ameaçar a segurança da maior parte do território restante no Sul. Esse enfoque alcança muito dos mesmos objetivos iniciais. Ao degradar severamente Seul e destruir ou danificar grande parte do território e/ou população da Coréia do Sul, a Coréia do Norte poderia reduzir um país com o décimo maior produto interno bruto do mundo a um status de terceiro mundo.14 Com isso, Pionguiang pode ameaçar o próprio estilo de vida da Coréia do Sul e, em última instância, sua segurança nacional. Embora o espectro de uma reunificação violenta tenha diminuído, a maoria dos sul-coreanos tem consciência de que a projeção de uma guerra violenta e destruição de vidas não diminuiu. Dessa forma, dissuadir a Coréia do Norte continua tão importante como nunca. É necessário, então, determinar como os Estados Unidos e a Coréia do Sul podem melhor se defender contra a evolutiva ameaça norte-coreana.
Embora a Coréia do Norte pareça experienciar um declínio em sua capacidade de projetar forças mecanizadas móveis em massa em profundidade na Coréia do Sul, ela ainda é capaz de ameaçar Seul diretamente e de afetar seriamente outras partes do país. Conforme discutido anteriormente, Pionguiang não pode mover com facilidade forças para o sul pelos dois principais corredores de invasão, porque seu poder aéreo não pode confrontar o poder aéreo mais moderno dos Estados Unidos e da Coréia do Sul. A Força Aérea Sul-Coreana dispõe atualmente de 153 F-16, 185 F-5 e 135 F-4 mais antigos em seu acervo.15 Além disso, a Coréia do Sul está, atualmente, adquirindo 40 avançadas aeronaves F-15K fabricadas pelos EUA, que estarão completamente integradas ao seu arsenal até 2008.16 É possível, entretanto, que as aeronaves da Sétima Força Aérea Americana representem o mais importante fator na supressão do poder aéreo norte-coreano. Diversos esquadrões de F-16C e F-16D americanos, bem como aeronaves A-10 (ideais para destruir formações maciças de blindados e de artilharia autopropulsada) podem impedir a execução com sucesso de uma invasão em larga escala de forças norte-coreanas – e rapidamente destruir a maioria, ou todas, as bases aéreas da Coréia do Norte (fig.3).
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Figura 3. Bases Aéreas da Coréia do Norte. (Ministério da Defesa Nacional da República da Coréia, 2000.) |
Claramente, o poder aéreo dos EUA e da Coréia do Sul serve como forte fator disuasivo contra uma agressão tradicional que a Coréia do Norte poderia ter iniciado antes do colapso econômico que colocou suas formidáveis forças blindadas e mecanizadas em um estado de declínio. Entretanto, o poder aéreo também poderia ter um papel importante (ou talvez até fundamental) em deter uma agressão da capacidade assimétrica da Coréia do Norte construída durante os anos 1990.
Conforme discutido anteriormente, a Coréia do Norte transferiu um grande número de sistemas de artilharia de longo alcance para perto da DMZ para virtualmente ameaçar Seul e muitas áreas da província de Kyonge (a província localizada no extremo norte da Coréia do Sul, a qual contém a maior concentração das forças terrestres desse país) com pequeno tempo da alerta antecipado para as forças dos EUA e da RC. Atualmente, a tarefa de prover fogo de contrabateria para fazer face a essa artilharia de longo alcance recai sobre a Segunda Divisão de Infantaria dos EUA, a qual opera 30 sistemas de lançadores múltiplos de foguetes e 30 obuses autopropulsados M109A6 Paladin.
Em abril de 2005, como parte da mudança de responsabilidades da defesa da Península da Coréia entre as forças sul-coreanas e americanas, a liderança sul-coreana anunciou que o Exército da Coréia do Sul iria assumir a responsabilidade por essa tarefa. A integração de unidades sul-coreanas em sistemas integrados RC-EUA de comando, controle, comunicações, computação, e inteligência (C4I) na Península serão a chave do sucesso dessa nova missão.17
Com relação ao atual estado de prontidão das forças sul-coreanas na Península, entretanto, os Estados Unidos possuem reservas sobre a disposição de Seul em despender recursos para modernizar sua própria infra-estrutura de C4I—ou de compartilhar os custos da atual estrutura.18 A integração dessas novas unidades em um moderno sistema de C4I é vital em função da necessidade de pronta resposta na identificação radar das unidades de artilharia norte-coreanas e de sua destruição antes ou logo após terem elas disparado.19
Mesmo que todos esses sistemas pudessem operar no máximo de eficiência e que pudessem ser integrados imediata e efetivamente nas atuais ou futuras infra-estruturas de C4I, eles ainda necessitariam de uma ampla complementação em termos de poder aéreo que atuasse de forma eficaz tanto em operações de natureza ofensiva quanto defensiva. A Coréia do Norte simplesmente dispõe de mais sistemas de artilharia de longo alcance ao longo da DMZ que os sistemas baseados em terra poderiam destruir de uma só vez—particularmente em um cenário aonde ocorra um primeiro ataque com o propósito de neutralizar o máximo de forças adversárias. Certamente, isso é exacerbado pelas preocupações a respeito do C4I, as quais irão, provavelmente, permanecer como um tema de discussão na aliança RC-EUA no futuro previsível. Dessa forma, em termos do primeiro elemento da tríade assimétrica norte-coreana (artilharia de longo alcance), o poder aéreo americano irá continuar a exercer um papel essencial na dissuasão e neutralização daquela ameaça.
Devido à capacidade ímpar dos caças e aeronaves de ataque americanas de destruírem esse tipo de alvo, o poder aéreo dos EUA tornou-se extremamente importante na contraposição a essa crescente ameaça—e assim deverá permanecer por muitos anos, enquanto Seul continua a modernizar seus meios de C4I e de ataque aéreo.
Com relação ao segundo elemento da tríade (mísseis), o poder aéreo americano é, agora e no futuro, um fator dissuasório absolutamente vital contra um ataque inicial desfechado pela Coréia do Norte, a qual detém um grande número de instalações de mísseis dispersos (assim como lançadores móveis, que eles não somente posicionaram no território como também forneceram para outros países, tal como a Síria).20
Em caso de guerra, as forças combinadas da RC-EUA irão necessitar neutralizar sítios e lançadores de mísseis Scud, assim como mísseis de maior alcance, já que a Coréia do Norte poderia fazer uso destes últimos para lançar um ataque retaliatório contra o Japão (provavelmente contra bases americanas em Okinawa ou em outros locais) (fig.4). Para assim proceder, a Força Aérea dos EUA empregaria seus meios localizados na Península da Coréia (Sétima Força Aérea), no Japão (Quinta Força Aérea), em Guam (bombardeiros), e outros locais no Pacífico, onde a Força Aérea possui capacidades únicas e fundamentais para a defesa da Península da Coréia.21
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| Figura 4. Sítios de mísseis norte-coreanos. (Ministério da Defesa Nacional da República da Coréia, 2003.) |
O poder aéreo dos EUA também irá continuar a exercer um papel chave no confronto à forças especiais, o terceiro elemento da tríade norte-coreana. Claramente, as aeronaves da Força Aérea dos EUA iriam atuar de forma decisiva na supressão e destruição de aeródromos norte-coreanos, de onde aeronaves (em sua maioria AN-2) transportanto forças especiais poderiam decolar. Concomitantemente, prestariam apoio às aeronaves sul-coreanas nas missões de interceptação de aeronaves de inimigas transportando pára-quedistas para o Sul. Entretanto, isso representa apenas parte da história.
Tendo em vista que a Coréia do Norte possui mais tropas especiais do que aeronaves que possam transportá-las, muitas dessas forças deverão tentar se infiltrar na Coréia do Sul por áreas mais desprotegidas da DMZ. Duas dessas áreas incluem corredores de transporte inter-coreanos, onde rodovias e linhas férreas estão sendo recuperadas para futuras rotas de transporte e, de onde, barreiras de arame farpado e minas foram removidas (fig.5). O poder aéreo pode localizar e impedir tentativas de infiltração por essas áreas.
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| Figura 5. Corredores de transporte intercoreanos. (Extraído de Statement of General Leon J. LaPorte, Commander United Nations Command, Commander, Republic of Korea-United States Combined Forces Command and United States Forces Korea before the 108th Congress House Armed Services Committee, 12 Mar 2003, 108th Congress, 1st sess., http://armedservices.house.gov/openingstatementsandpressreleases/108thcongress/03-03-12laporte.pdf.) |
Outro fator extremamente importante na resposta à ameaça assimétrica (particularmente no que se refere ao poder aéreo) envolve a supressão do antigo Sistema Integrado de Defesa Aérea (IADS) da Coréia do Norte (com preponderância de SA-2), para permitir ataques em instalações no interior desse país.22 Pionguiang tem empreendido esforços com vistas a adaptar esses sistemas para fazerem frente às modernas capacidades aliadas, enviando observadores à Sérvia durante a Operação Allied Force e, possivelmente, integrando alguns mísseis superfície-ar, de nova geração, de guiagem infra-vermelha, de relativamente baixo custo, em sua rede de defesa aérea.23
De fato, especialistas afirmaram recentemente que a presença desses mísseis implica em que as Forças Aéreas do Pacífico irão necessitar dos novos F/A-22 para “abrir uma brecha nos dispositivos de defesa inimigos, permitindo o ingresso do restante das forças atacantes.24” O moderno poder aéreo dos EUA, atuando em conjunto com nossos aliados, irá desempenhar essa missão das defesas—uma parcela importante na destruição da ameaça assimétrica tripartite da Coréia do Norte.
A transformação chegou à Península da Coréia. A Revisão da Postura Global deu início a uma redução significativa no efetivo de forças terrestres na Coréia, com planos para retirar 12.500 militares americanos (em sua maioria forças terrestres) da Coréia até o final de 2008. Além disso, o Quartel-General do Comando das Forças Americanas na Coréia/Comando das Forças Multinacionais tem programada, para esse mesmo período, a transferência da maior parte de sua infra-estrutura e pessoal para o sul, para Camp Humphries (próximo da cidade de Pyongtaek).25
As principais forças terrestres americanas na Coréia, a Segunda Divisão de Infantaria, deverá ser transformada, durante o verão de 2005, em uma unidade de combate de nova geração, tornando-se uma “unidade de emprego X” dois anos antes do planejado.26 Além disso, numerosos aspectos relativos a relações de comando e a recursos financeiros na aliança RC-EUA deverão permanecer em evolução até a finalização das mudanças atuais, mas a discussão desses aspectos encontra-se para além do escopo desse artigo.
É necessário, então, considerar a questão de como tudo isso afeta o papel do poder aéreo na Península da Coréia. A resposta é óbvia. A Aliança RC-EUA irá depender, agora mais do que nunca, das capacidades únicas providas pelo poder aéreo dos EUA para dissuadir a ameaça norte-coreana. De fato, apesar de todo o esforço em andamento para reorganizar as forças do Exército dos EUA na Península e deslocar unidades de combate terrestre, instalações de comando e pessoal para o sul, a disposição das unidades da Força Aérea dos EUA permaneceu relativamente inalterada.
O Gen Leon LaPorte, comandante das forças americanas na Coréia, declarou recentemente que a missão de nossas forças na Coréia permanece clara (embora assumindo um papel regional): defender a Coréia do Sul contra um ataque do Norte. Ele também discutiu os planos americanos para melhorar as capacidades de combate com o emprego de recursos da ordem de US$11 bilhões ao longo dos próximos três anos, e para estabelecer cinco ou seis brigadas Stryker na região do Pacífico, as quais poderiam ser rapidamente desdobradas para a Coréia.27 Entretanto, as forças americanas—especialmente o poder aéreo—permanecem a melhor maneira de aumentar a segurança na Península da Coréia. De fato, em 2003, o ex-professor da Universidade Georgetown (atualmente membro do Conselho de Segurança Nacional), Victor Cha, observou que o arranjo mais razoável para a aliança geraria uma crescente ênfase na presença naval e do poder aéreo americanos, com a redução das forças terrestres. Estamos testemunhando isso ocorrer.28
A ameaça da Coréia do Norte tem evoluído; entretanto, ela permanece danosa tanto aos interesses americanos quanto aos da Coréia do Sul e do Japão, importantes aliados de Washington. Devido às mudanças na situação geopolítica na Ásia e, talvez mais importante, devido à atual transformação das forças americanas, os tradicionais paradigmas relativos a como confrontamos ameaças em todo o mundo não mais se aplicam em muitos casos—tal como na Coréia.
Embora uma grande presença avançada de tropas terrestres na Península da Coréia possa não mais ser necessária, o provimento de apoio militar à aliança RC-EUA permanece tão importante quanto antes. De fato, a dissuasão provida por uma forte presença do poder aéreo continua a ter um efeito em nossos inimigos, tal como evidenciado pelo manual publicado pelo Exército do Povo da Coréia do Norte em 2004, o qual alertava que, em situação de guerra, os Estados Unidos iriam ter como alvo a liderança militar norte-coreana.29
Os tipos de forças americanas que apoiam a liberdade da Coréia do Sul têm mudado, mas não o compromisso de Washington para com a segurança daquele país. No futuro previsível, o poder aéreo continuará a exercer um papel fundamental (e agora mais proeminente) na Península da Coréia.
1. Oh Young-hwan and Jeong Yong-soo, “North’s Uranium Put U.S. in Policy Quandry [sic],” Joongang Ilbo, 11 de outubro de 2004, http://joongangdaily.joins.com/200410/200410112231256809900092309231.html.
2. “A Country Study: North Korea,” Biblioteca do Congresso, n.d., http://lcweb2.loc.gov/frd/cs/kptoc.html.
3. Barry Rubin, “North Korea’s Threat to the Middle East and the Middle East’s Threat to Asia,” Middle East Review of International Affairs, n.d., http://meria.idc.ac.il/books/brkorea.html#Author.
4. Rebecca MacKinnon, “Food, Fuel and Medicine Shortages Plague North Korea,” CNN.com, 14 de dezembro de 1999, http://archives.cnn.com/1999/ASIANOW/east/12/14/nkorea.crisis.
5. “OPLAN 5027, Major Theater War–West, Phase 1: DPRK Attack,” GlobalSecurity.org, n.d. http://www.globalsecurity.org/military/ops/oplan-5027-1.htm.
6. “N. Korea Boosts Border Defenses,” BBC World News, broadcast, London, England, 4 de dezembro de 2000.
7. Richard Halloran, “How Good Are North Korean Forces?” Korea Herald, 28 de junho de 2004, http://www2.gol.com/users/coynerhm/how_good_are_north_korean_forces.htm.
8. “Satellite Photos Show Outdated N. Korean Military Forces,” Kyodo Press, 6 de Janeiro de 2005, http://asia.news.yahoo.com/050106/kyodo/d87ed3b00.html.
9. Declaração do General Thomas A. Schwartz, Comandante-em-Chefe do Comando Multinacional das Forças das Nações Unidas e das Forças Americanas na Coréia ante a Comissão de Forças Armadas do Senado, 1060 Cong., 20 sess., 7 de março de 2000, http://www.shaps.hawaii.edu/security/us/schwartz_2000.html; and Donald Macintyre, “Kim’s War Machine,” Time Asia, 17 de fevereiro de 2003, http://www.time.com/time/asia/covers/501030224/army.html.
10. Brian Lee, “Defense Paper: North Boosts Artillery but Cuts Tanks, Armor,” Joongang Ilbo, 5 de fevereiro de 2005, http://joongangdaily.joins.com/200502/04/200502042241418509900090309031.html.
11. “North Deploys New 4,000 km Range Missiles,” Chosun Ilbo, 5 de maio de 2004, http://english.chosun.com/cgi-bin/printNews?id=200405040031; and “Report: NK Missiles Could Hit U.S.,” CBSNews.com, 4 de agosto de 2004, http://www.cbsnews.com/stories/2004/06/22/world/main625301.shtml.
12. “Annex 8: North Korea and Weapons of Mass Destruction: US Department of Defense Estimate of North Korean Actions and Intentions Involving Nuclear, Biological, and Chemical Weapons,” Analytical Center for Non-Proliferation Problems, 2005, http://npc.sarov.ru/english/digest/52002/appendix8.html.
13. “United Nations Command/Combined Forces Command Backgrounder No. 13: North Korean Military Capabilities,” Public Affairs Office, United States Forces Korea, janeiro de 1998, http://www.korea.army.mil/pao/backgrounder/bg13.htm.
14. “Korea as World’s 10th Largest Economy,” Korea.net, 31 de janeiro de 2005, http://www.korea.net/news/issues/issueDetailView.asp?board_no=6103.
15. “ROK Air Force Equipment,” GlobalSecurity.org, n.d., http://www.globalsecurity.org/military/world/rok/rokaf-equipment.htm.
16. “South Korea Plans Significant Defense Budget Increases,” Defense Industry Daily, 30 de março de 2005, http://www.defenseindustrydaily.com/2005/03/south-korea-plans-significant-defense-budget-increases/index.php.
17. Kim Min-seok e Brian Lee, “Key Defense Mission to Go to Korean Military,” Joongang Ilbo, 11 de abril de 2005, http://joongangdaily.joins.com/200504/10/200504102253445679900090309031.html.
18. “U.S. Requests Koreans Share in C4I Modernization Costs,” Chosun Ilbo, 18 de outubro de 2004, http://english.chosun.com/w21data/html/news/200410/200410180019.html.
19. Sang-Ho Yun, “1,000 Guided Missiles to Be Introduced to Counter North Korean Artillery,” Donga Ilbo, 10 de abril de 2005, http://english.donga.com/srv/service.php3?biid=2005041158378.
20. “Syria: Missile Development,” Risk Report 3, no. 2 (March–April 1997), http://www.wisconsinproject.org/countries/syria/missiles.html.
21. Declaração do Honorável James G. Roche, Secretário da Força Aérea e do General John P. Jumper, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, ante a Comissão de Forças Armadas do Congresso a respeito da soliticação do orçamento da Força Aérea, 26 de fevereiro de 2004, 1080 Cong., 20 sess., http://www.house.gov/hasc/openingstatementsandpressreleases/108thcongress/04-02-26roche.html.
22. Adam J. Hebert, “Keeping Watch on Korea,” Air Force Magazine 87, no. 6 (junho de 2004), http://www.afa.org/magazine/june2004/0604korea.html.
23. Steven J. Zaloga, “The Evolving SAM Threat: Kosovo and Beyond,” Journal of Electronic Defense, 1 de maio de 2000, http://static.highbeam.com/j/journalofelectronicdefense/may012000/theevolvingsamthreatkosovoandbeyond.
24. Adam J. Hebert, “Airpower for a Big Ocean,” Air Force Magazine 87, no. 7 (julho de 2004), http://www.afa.org/magazine/july2004/0704airpower.html.
25. Ho-Won Choi, “Future of the Security of the Korean Peninsula and USFK,” Donga Ilbo, 3 de novembro de 2004, http://english.donga.com/srv/service.php3?bicode=050000&biid=2004110467718.
26. Sang-Ho Yun, “U.S. 2nd Infantry Division to Transform into a Next-Generation Unit This Summer,” Donga Ilbo, 6 de março de 2005, http://english.donga.com/srv/service.php3bicode=050000&biid=2005030750118.
27. Chae Byung-gn and Brian Lee, “LaPorte Says U.S. Focus Will Stay on Korea,” Joongang Ilbo, 7 de Janeiro 2005, http://joongangdaily.joins.com/200501/07/200501071553312579900090309031.html.
28. Victor Cha, “Focus on the Future, Not the North,” Washington Quarterly, Winter 2002–2003, 98–100.
29. “North Manual Says U.S. Aims at Leaders,” Joongang Ilbo, 8 abril de 2005, http://joongangdaily.joins.com/200504/07/200504072231231939900090209021.html.
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O Dr. Bruce E. Bechtol Jr. (Bacharelado, Excelsior College; Mestrado, Catholic University; Mestrado em Ciência Militar, Escola de Comando e Estado-Maior do Corpo de Fuzileiros Navais; Doutorado, Union Institute) é professor-assistente de Estudos de Segurança Nacional na Escola de Comando e Estado-Maior da Força Aérea dos EUA, Maxwell AFB, Alabama. Antes de passar a integrar o corpo docente deste estabelecimento, trabalhou na Defense Intelligence Agency (DIA), onde exerceu a função de analista sênior do Nordeste Asiático na Diretoria de Inteligência, Junta de Chefes de Estado-Maior (J2), no Pentágono. Serviu durante 20 anos no Corpo de Fuzileiros Navais, tendo passado para a reserva em 1997. É o autor de Avenging the General Sherman e colaborador de Divided Korea. Tem trabalhos publicados em numerosos periódicos tanto nos Estados Unidos quanto na Coréia. O Dr. Bechtol é o editor do Defense Intelligence Journal (2004-5) e membro da Comissão de Revisão Editorial da East Asian Review. | |||
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