Documento criado em 26 Maio 05
ASPJ  Em Português 2° Trimestre 2005

A Força Aérea do Futuro

reflexões derivadas do Jogo de Guerra Future Capabilities de 2004

Dr. Thomas R. Searle

Jogo de Guerra Futuro

Muitos dos pontos fortes e debilidades que atualmente testemunhamos na Força Aérea dos EUA refletem decisões tomadas décadas atrás, durante a Guerra Fria, para confrontar o desafio soviético. Por exemplo, para deter vultosas forças terrestres soviéticas que avançariam rapidamente protegidas por modernos sistemas de defesa aérea e aeronaves antes que pudessem avançar impetuosamente pela Europa Ocidental, a Força Aérea estava plenamente ciente de que teria de imediatamente conquistar a superioridade aérea e, em seguida, destruir com rapidez um enorme número de alvos terrestres, enquanto submetida a elevados índices de desgaste. Para dar consecução a esse propósito, a Força Aérea acumulou um impressionante acervo de caças F-15C de superioridade aérea e uma enorme força de aeronaves de ataque (A-10, F-16 e F-15). Tendo em vista que a doutrina ofensiva soviética sacrificava dissimulação por velocidade e massa, o que tornava seus meios alvos de fácil localização, a Força Aérea não investiu de modo tão significativo em sistemas táticos de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR). Desde o término da Guerra Fria, entretanto, os adversários que foram efetivamente enfrentados em combate pela Força Aérea dos EUA nem contestaram seriamente nossa superioridade aérea, nem tentaram sobrepujar as forças americanas por meio do emprego de grande número de viaturas blindadas. Como resultado, a Força Aérea tem entrado nos conflitos recentes com um excesso de vetores de ataque—tanto ar-ar como ar-terra—mas com limitados meios de ISR.

Da mesma maneira como decisões efetuadas pelo menos há 20 modelam nossas forças atuais, decisões que tomamos hoje irão modelar a Força Aérea das décadas vindouras. Com vistas a nos ajudar a configurar a Força Aérea de que iremos necessitar, o recém-concluído Jogo de Guerra Future Capabilities 2004 exercitou alternativas hipotéticas de estruturas de força para enfrentar, no ano 2020, um adversário conceitual. Após sua conclusão, os participantes surgiram com questões concretas, mas não necessariamente com respostas específicas para todas elas—e isto assim ocorreu conforme o propósito inicial. Sem revelar qualquer dado confidencial ou descrever minuciosamente cálculos de custo-benefício para opções de investimentos em desenvolvimento de sistemas de armas, este artigo levanta determinadas questões fundamentais concernentes ao futuro da Força Aérea dos EUA que todo o pessoal da USAF precisa ponderar.

Como será que nossas Forças coirmãs irão se transformar nas décadas vindouras?

No futuro, a Força Aérea combaterá como parte de uma equipe combinada, multinacional e interagências. Por conseguinte, devemos manter-nos atualizados quanto à evolução do pensamento das Forças coirmãs para alcançarmos a maior sinergia possível. O aspecto mais impressionante a respeito de como o Exército, a Marinha, e os Fuzileiros Navais dos EUA planejam transformar-se reside na intenção que têm todos eles de mudar de maneira significativa a forma como vão combater. Os futuros sistemas de combate do Exército e a evolução deste para unidades de emprego e unidades de ação menores mais cuidadosamente organizadas e orientadas para a missão são ditados pela crença de que essas mudanças irão incorporar, com rapidez muito maior, um poder terrestre eficaz e sustentável ao combate. De forma semelhante, as Forças navais adotaram os conceitos "sea basing" [ApSvCmb baseado nos navios] e "ship-to-objective maneuver" [Movimento Navio-Objetivo] que transformarão o seu modo de combater por meio da mudança radical nos meios que utilizam para se deslocar até o combate e sustentá-lo. Por outro lado, a Força Aérea tomou a dianteira no que se refere a essa reforma mediante o conceito força aérea e espacial expedicionária. Por conseguinte, ela está atualmente menos concentrada do que as outras Forças Singulares em mudar a forma como ela parte para o combate.

As outras Forças Singulares também estão substancialmente empenhadas no desenvolvimento de veículos aéreos não-tripulados (UAV). As Forças terrestres, em particular, estão avaliando a exeqüibilidade de se empregar um grande número de pequenos e baratos UAV que poderiam atuar como um enxame sobre o campo de batalha, em apoio operacional e tático ao combate de superfície. Se esses sistemas forem, de fato, pouco dispendiosos, o inimigo certamente também irá empregá-los em grande número. Conseqüentemente, a Força Aérea terá de encontrar uma forma de distinguir amigos e inimigos nesse enxame de pequenos UAV, recorrer às informações transmitidas pelos UAV amigos, bem como gerenciar o espaço aéreo.

Quanto da Força necessita ser transformada—e com que rapidez?

O termo transformação tem ganho popularidade como substituto de revolução nos assuntos militares para descrever forças futuras. A maior parte da discussão trata do que transformar; entretanto, é imperioso que se considere quanto da Força precisa ser transformada e com que rapidez. Consideremos alguns exemplos históricos para nos ajudar a enquadrar o problema. Em 1940, a Alemanha invadiu a França, Bélgica, Luxemburgo e Holanda com forças terrestres e aéreas menores do que as forças aliadas que a elas se opunham. Cerca de sete por cento das forças alemãs tinham sido "transformadas" como resultado da incorporação de viaturas blindadas sobre lagartas, apoio logístico motorizado, bem como apoio aéreo aproximado e interdição aérea eficazes. Embora representassem apenas uma pequena parte da força alemã, essas forças Panzer facultaram aos alemães a conquista dos quatro países invadidos em cerca de seis semanas, a despeito do fato de que os adversários eram tão capazes e tão bem equipados quanto as tropas alemãs. Essa "blitzkrieg" foi possível porque os Aliados não haviam transformado a maior parte de suas forças.

Entretanto, à medida que continuou a guerra, a indústria alemã não conseguiu produzir viaturas suficientes para transformar todo o Exército. Os Estados Unidos, por outro lado, possuíam capacidade industrial muito mais vasta do que a Alemanha, o que lhes permitiu transformar a totalidade de suas forças. Como resultado, quando o Exército dos EUA desembarcou na França em 6 de Junho de 1944, as divisões de infantaria americanas tinham mais carros de combate e caminhões do que as divisões Panzer alemãs, enquanto que as divisões de infantaria alemãs—que não haviam sido transformadas—ainda dependiam de carroças. Quando os Aliados irromperam da península da Normandia, suas forças plenamente transformadas manobraram melhor que as forças alemãs parcialmente transformadas e as esmagaram. Entretanto, ao mesmo tempo em que as forças transformadas do Exército dos EUA estavam libertando a França, a transformação denominada blitzkrieg estava produzindo tão-somente impacto mínimo nas formas como as forças terrestres americanas combatiam os japoneses no Pacífico. Dessa forma, qualquer tipo de transformação produzirá maiores resultados em alguns ambientes do que em outros (a transformação denominada blitzkrieg mostrou-se decisiva no Continente Europeu mas muito menos importante nas ilhas do Pacífico). Além disso, embora não seja necessário transformar toda a força para destruir forças antiquadas por completo, a transformação plena torna-se importante na derrota de um adversário quase em igualdades de condições que atualizou partes de sua força.

Consideremos um exemplo mais recente. O desenvolvimento de aeronaves stealth tem gerado alguns efeitos transformacionais no poder aéreo. No que se refere a meios de baixa detectabilidade, a Força Aérea está parcialmente transformada. Os meios stealth da Força Aérea foram muito importantes contra o Iraque em 1991 e a Sérvia em 1999; mas, em grande parte, esses equipamentos mostraram-se irrelevantes em 2001 no Afeganistão. Enquanto a União Soviética existia, a Força Aérea planejou transformar a totalidade de sua força de bombardeiros tripulados em uma força stealth composta de centenas de bombardeiros B-2. A dissolução da URSS, entretanto, levou a Força Aérea a reduzir a força planejada de B-2 e a manter os bombardeiros tripulados não-transformados e sem tecnologia stealth. Tendo em vista ter essa força de bombardeiros parcialmente transformada se mostrado de custo acessível e altamente eficaz, a Força Aérea pretende mantê-la parcialmente transformada por mais umas décadas. Dessa forma, a questão fundamental sobre quanto da força necessita ser transformada, de que maneira e com que rapidez, depende do tipo de combate que esperamos travar (i.e., Europa Continental ou Ilhas do Pacífico), que tipo de inimigo esperamos combater (i.e., afegãos, sérvios ou soviéticos), e que tipo de capacidades desejamos possuir (por exemplo, deter uma invasão maciça de blindados rápidos ou localizar uma pequena força inimiga oculta no terreno).

Que ameaças enfrentaremos no futuro?

O planejamento de guerra baseia-se em objetivos identificados a serem conquistados e mantidos contra inimigos específicos por meio do emprego de uma dada estrutura de força. Entretanto, levando-se em conta o tempo necessário para o desenvolvimento de novas armas; formular doutrina, táticas, técnicas e procedimentos (TTP) para o emprego dessas armas; recrutar e treinar pessoal para executar os TTP, entre outros fatores, os planejadores devem tomar decisões importantes sobre a estrutura da força com bastante antecedência, quando nem nosso inimigo nem nossos objetivos estejam claramente definidos. A despeito de nossos melhores esforços, não conseguimos antever as guerras que teríamos de travar. Por exemplo, não previmos a Guerra da Coréia; não esperávamos que a Guerra do Vietnã chegasse à dimensão que chegou; e não esperáva-mos invadir o Afeganistão. Outros países não foram mais bem-sucedidos em antever seus futuros adversários; e—dada a natureza fluida do mundo pós-Guerra Fria—parece improvável que, de repente, consigamos fazê-lo melhor. Em condições de tão grande incerteza, precisamos considerar diversas ameaças alternativas.

Nos recentes conflitos no Panamá, Haiti, Bósnia e Afeganistão, tivemos o luxo de combater forças inimigas projetadas para enfrentar uma ameaça muito diferente da colocada pelas Forças Armadas americanas. É razoável considerar que alguns de nossos futuros adversários terão, igualmente, sido projetados para enfrentar apenas ameaças locais, mostrando-se tão inadequados para fazerem frente a nossas capacidades quanto as forças panamenhas de Manuel Noriega em 1989, ou as forças afegãs dos Talibã em 2001. Supondo, contudo, que alguns futuros adversários irão empenhar-se com afinco para se contraporem às forças americanas, que tipo de ameaça poderiam eles provavelmente nos apresentar?

O terrorismo e a guerra de guerrilha parecem ser a forma mais barata e mais óbvia para atacar os Estados Unidos e seus aliados. Entretanto, não temos que esperar até 2020 para que essas ameaças se materializem, já que nos encontramos atualmente combatendo uma guerra global contra o terrorismo, assim como lutando contra guerrilhas no Iraque e no Afeganistão. Presumivelmente, combates diários contra guerrilhas e terroristas no decorrer dos anos irão aprimorar nossa capacidade de continuar enfrentando essas ameaças assimétricas, mas elas continuarão a existir. De forma semelhante, devemos esperar que adversários futuros continuarão a atacar nossas redes de computadores, apesar do aperfeiçoamento da proteção dessas redes que vem sendo desenvolvido ao longo de décadas de ataques cibernéticos.

Como é que um futuro adversário nos enfrentará, se quiser fazê-lo em combate tradicional? Certamente esse adversário não produzirá imitações de nossos F-15 e F-16. Construir uma força comparável à que nós possuímos seria de custo proibitivo; além disso, quando fosse implementada, certamente nós teríamos uma força dotada de F/A-22 e F-35 muito mais eficiente do que aquela. De fato, dada nossa vantagem em aeronaves tripuladas e tecnologia stealth, provavelmente nenhum inimigo nos desafiará diretamente nessas áreas. Da mesma forma, nossos programas de mísseis antibalísticos estratégicos e de teatro tornam os mísseis balísticos um mau investimento por parte de nossos inimigos potenciais. O fato de que podemos fazer frente a aeronaves adversárias, juntamente com nossa crescente capacidade de enfrentar mísseis balísticos, também criará problemas para inimigos que tentem nos atacar com armas de destruição em massa. Tendo em vista nossa intenção de manter, a longo prazo, uma avassaladora superioridade em armas nucleares, qualquer emprego de armas de destruição em massa contra os Estados Unidos provocaria uma represália desastrosa. Obviamente, a disposição, por parte dos terroristas, de enfrentar as conseqüências provocadas pelo emprego dessas armas os torna uma ameaça especialmente importante a longo prazo.

Embora os armamentos convencionais não ofereçam a potenciais adversários dos EUA a oportunidade de nos ultrapassar até 2020, outras tecnologias inovadoras podem vir a alterar essa situação. Armas de energia dirigida, que atuam à velocidade da luz e produzem uma multiplicidade de efeitos, podem vir a representar este salto tecnológico. Além disso, um adversário tecnologicamente sofisticado e bem provido de recursos poderia obter vantagem ao aplicar nanotecnologia para enfrentar os Estados Unidos com múltiplas ameaças de pequenas dimensões. Uma vez que qualquer um que tenha condições de desenvolver essas tecnologias e queira fazê-lo com a intenção de se nos opor provavelmente já estará fazendo elevados investimentos nessas áreas, cumpre-nos pensar seriamente em como nos contrapormos a essas ameaças.

O que realmente fará a "rede" para nós?

Há um grande volume de material publicado sobre a "guerra centrada em redes", bem como sobre o que um sistema efetivamente integrado em rede nos poderá disponibilizar. De acordo com este conceito, a mesma tecnologia que permite que ligações telefônicas sobre uma rede celular transitem por um grande número de rotas diferentes entre dois telefones criaria um sistema de comunicações que, se montado numa combinação de veículos aéreos, de superfície e espaciais, seria muito difícil de ser neutralizado. Além disso, se as taxas de transferência de dados entre os diversos elementos da rede forem suficientes, cada sistema nessa rede poderia ter acesso, em tempo real, à mesma informação detida por qualquer outro sistema conectado sobre a mesma rede. Essa capacidade tornaria mesmo o menor e mais remoto elemento componente da rede (um soldado, aeronave, bomba, etc.) incrivelmente "inteligente", tornando possível um grau de outro modo inimaginável de velocidade e sinergia em todo o sistema.

Um dos atrativos deste tipo de rede reside em que ela melhora de forma significativa a inteligência dos diversos nós, ajudando, por conseguinte, a enfrentar os nossos pontos fracos em ISR. Da perspectiva do ciclo observar-orientar-decidir-agir (OODA), a rede deverá encurtar consideravelmente o nosso ciclo, colocando-nos dentro de ciclo de decisão de qualquer um com uma rede menos inclusiva (menos "transformada"). Um grande desafio seria alcançar este tipo de onisciência universal em tempo real sem sobrecarregar nosso pessoal e computadores com informações irrelevantes.

A Força Aérea dos EUA e as Forças coirmãs vêm, desde há alguns anos, caminhando em direção à guerra apoiada em rede; mas é difícil prever até onde iremos e com que rapidez. Talvez o desafio mais assustador resida na transformação da doutrina, treinamento, ensino e TTP para tirar pleno proveito da rede sem, contudo, ultrapassar nossas verdadeiras capacidades e depender de algo que ainda não funcione. Por exemplo, em uma força totalmente integrada em rede, não publicaríamos uma air-tasking order (ATO) [algo semelhante a uma ordem de operações]; antes, elaboraríamos uma ATO dinâmica, que evoluiria continuamente em tempo real. Entretanto, se mudássemos para uma ATO dinâmica sem a versão impressa, em que nos apoiaríamos se a rede viesse a falhar? A certa altura da Guerra do Vietnã, a Força Aérea apostou demasiado, muito cedo, em mísseis ar-ar, acabando por ter de reinstalar canhões nas aeronaves de caça porque os mísseis ainda não estavam suficientemente operacionais para substituir os canhões.

O que os Veículos Aéreos Não-tripulados têm a nos oferecer?

O êxito dos Predator e Global Hawk transferiu definitivamente os UAV da prancheta para o ambiente do campo de batalha. Em 2020, contudo, os F/A-22, F-35 e B-2 irão propiciar à Força Aérea meios stealth tripulados extremamente poderosos, tanto ar-ar quanto ar-terra. Mesmo que o F-35 venha a ser a última aeronave de combate tripulada a ser desenvolvida pelos Estados Unidos, nós provavelmente não necessitaremos de um substituto não-tripulado tanto para ela quanto para o F/A-22 antes de meados do século. O que os UAV podem oferecer nesse meio-tempo?

Ao prescindirem do elemento humano a bordo, os UAV economizam peso e espaço e não dependem da necessidade de repouso da tripulação. O desenvolvimento e testes também se tornam mais rápidos e baratos porque não se corre o risco de perder a tripulação se algo vier a falhar. Beneficiados pela capacidade de serem reabastecidos em vôo e livres da necessidade de revezar tripulações, os UAV podem executar missões de ISR de duração muito prolongada, propiciando vigilância constante que, com sistemas tripulados, se revelaria altamente dispendiosa. Os UAV também são ideais para certos tipo de missões de guerra eletrônica porque a radiação nociva ou o abate da aeronave de bloqueio eletrônico não mais se configuram como ameaças. As missões de ataque tradicionais consomem todo o armamento antes que os fatores de resistência humana entrem em cena. Por conseguinte, os UAV apresentam menos vantagens neste sentido, se bem que, para missões de ataque de alto risco, eles possam atacar sem expor o aviador a qualquer risco. As óbvias vantagens dos UAV para fins de ISR, bem como nossas atuais deficiências nessa área, sugerem ser o ISR uma prioridade imediata no desenvolvimento de UAV, seguindo-se outras possíveis aplicações.

O que será que a energia dirigida tem a nos oferecer?

A entrada em serviço do laser aerotransportado trará, nos próximos anos, o poder de destruição das armas de energia dirigida da ficção científica para o campo de batalha. Mas até onde devemos trilhar este caminho? Com estas armas ainda em sua infância, é difícil antever exatamente que tipos de armas produzirão que tipos de efeitos, e a que custo. Sua vantagem em relação aos mísseis (as armas de energia dirigida atingem os alvos à velocidade da luz) tornam-nas preferidas para destruir mísseis inimigos antes que eles atinjam seus alvos (daí a opção pelo laser aerotransportado). No espaço, essas armas podem mostrar-se eficazes a distâncias muito grandes, mas a atmosfera limita seu alcance contra a maioria dos alvos. Tendo em vista que alguns tipos de armas de energia dirigida podem funcionar com a própria energia das aeronaves e que podemos levar a efeito reabastecimento em vôo, algumas dessas armas nunca consumirão toda sua munição—situação que propicia vantagens óbvias contra um grande número de alvos inimigos. Ao modularem a energia e o tempo de atuação sobre o alvo, essas armas podem fornecer "energia a pedido" para produzirem efeitos não-letais ou gerarem vários níveis de destruição, o que poderia ajudar os comandantes a administrarem cuidadosamente os danos colaterais. O futuro parece promissor para as armas de energia dirigida, mas a Força Aérea terá de conduzir uma multiplicidade de projetos de pesquisa ainda por algum tempo antes que esse futuro venha a materializar-se.

O que será que o "domínio continuado de área" tem a nos oferecer?

O UAV Predator tinha sido sempre empregado como plataforma de ISR, mas recentemente eles foram equipados com dois pequenos mísseis Hellfire. Esses UAV armados tiveram certo êxito como plataformas de ataque porque eles já tinham o inimigo em sua linha de visada e podiam atacá-lo com mais rapidez que plataformas tripuladas que não estivessem na área. Deveríamos considerar expandir este tratamento, de forma a empregar um grande número de pequenos sistemas não-tripulados que poderiam orbitar a área e atacar alvos de oportunidade. Caso esses sistemas se tornem baratos o suficiente para serem adquiridos e empregados em larga escala, poderíamos utilizá-los para "inundar" e dominar uma área pelo tempo que sua autonomia de vôo o permitisse. Esse conceito, conhecido como domínio continuado de área, representa uma mudança radical em nosso antigo paradigma de enviar uma formação de ataque para lançar uma arma específica contra um alvo pré-planejado no momento predeterminado. Tradicionalmente, só alcançamos esse domínio com forças de superfície. Se os UAV, a rede e as novas armas permitirem o domínio continuado de área a partir do ar, eles podem revolucionar a maneira como pensamos o poder aéreo.

Será que o poder espacial é a onda do futuro ou apenas outra capacidade específica?

Os veículos espaciais detêm uma vantagem política fundamental sobre os sistemas aéreos e terrestres porque eles podem, legalmente, sobrevoar todas as áreas da Terra. Durante a Guerra Fria, somente veículos espaciais podiam monitorar as atividades militares no interior da União Soviética—então o maior país do mundo—desde fora do território soviético. Quanto a outras aéreas, particularmente as que estão próximas de águas internacionais, os sistemas espaciais propiciam menos vantagens. Infelizmente, o custo do lançamento de um sistema espacial permanece substancialmente elevado, e, uma vez em posição, custam muito para serem reparados, modernizados ou substituídos. Será que poderíamos transferir algumas capacidades espaciais—por exemplo, comunicações e ISR—para dirigíveis de elevada altitude ou algum outro tipo de UAV de enorme automia operando a elevadas altitudes (por exemplo, 100.000 pés)? Essa alternativa reduziria radicalmente os custos de lançamento desses sistemas, facilitaria o aumento repentino de lançamentos e concentraria esses meios em uma área específica de crise, além de nos permitir modernizá-los, repará-los ou substituí-los.

O papel global dos Estados Unidos sempre tornará o espaço mais atraente para nós do que para a maioria dos outros países; mas o custo de lançamento de sistemas espaciais e sua vulnerabilidade a ataques podem torná-los menos atraentes do que sistemas não-tripulados. Alguns anos atrás, um ditado popular descrevia a Força Aérea como "uma força aérea e espacial em transição para uma força espacial e aérea". Mas sistemas não-tripulados de elevada altitude podem, de fato, assumir alguns encargos dos sistemas espaciais, tornando o poder espacial uma parte importante de nossa força—mas não a força principal.

Conclusão

Esta é uma época empolgante para a Força Aérea dos EUA. Nossos sistemas tradicionais continuam sendo os melhores do mundo e a entrada em serviço de novos sistemas, tais como os F/A-22 e o laser aerotransportado, nos fornecerá capacidades futuras surpreendentes. Além disso, toda a comunidade combinada e interagências está em seus estágios iniciais de transformação. Novas tecnologias evidenciam grande potencial para nos fornecer capacidades espetaculares no futuro próximo. Tudo isso está ocorrendo enquanto travamos uma guerra global contra o terrorismo e combatemos a guerrilha no Iraque e no Afeganistão. Embora estejamos ocupados no desempenho de nossas funções, devemos fazer uma pausa e assegurar que estejamos construindo a força adequada tanto para o presente quanto para o futuro. O Jogo de Guerra Future Capabilities de 2004 nos forçou a ponderar essas questões difíceis.


Colaborador

Thomas R. Searle Thomas R. Searle é analista de defesa militar no Airpower Research Institute, College of Aerospace Doctrine, Research and Education, Maxwell AFB, Alabama.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.

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