Documento criado em 26 Julho 04
ASPJ  Em Português 3° Trimestre 2004

Segurança e Desenvolvimento na Era da Informação

formulação de critérios de análise

Dr. Salvador Ghelfi Raza*

*As opiniões, conclusões e recomendações aqui expressas são da inteira responsabilidade do autor e não refletem o entendimento da Universidade Nacional de Defesa dos EUA, do Departamento de Defesa dos EUA, do Governo dos EUA, ou de nenhuma outra instituição, agência, organização ou governo. A versão preliminar do presente artigo foi apresentada na I Conferência Mundial de Relações Internacionais e IX Encontro Nacional de Estudantes de Relações Internacionais—ENERI, em Florianópolis, SC, maio de 2004.

A maneira como os países geram desenvolvimento reflete a forma como provêem segurança. Da mesma forma, alterações nas formas como o provimento de segurança é percebido tendem a alterar as condições para a geração de desenvolvimento.1 Isso faz com que, na busca por atualização, o conjunto de critérios empregados para avaliar a capacidade dos estados de proverem os níveis de segurança requeridos deva estar alinhado com a estrutura do conhecimento que gera a percepção dos requisitos que esses mesmos níveis de segurança buscam atender.2

A partir do entendimento de que a solução do problema de segurança e desenvolvimento passa pelo reconhecimento de que ele—o problema—possui novos contornos modelados pelo imenso (e crescente) volume de informações que multiplica as interações possíveis e faz emergir novos padrões de relacionamentos, este trabalho propõe a (re)definição e integração de novas variáveis ao conjunto de critérios de análise empregados para avaliar os níveis de segurança que os países conseguem, atualmente, oferecer aos indivíduos, instituições e sistema internacional em apoio às suas demandas de condições necessárias para um desenvolvimento econômico socialmente justificável e moralmente sustentável, bem como para prover condições adequadas à efetiva coordenação entre instituições e agentes decisórios responsáveis pela formulação de políticas e pela geração de estratégias de ação decorrentes que, em última análise, concorrem para a (re)estruturação da ordem política tanto dentro dos estados como entre Estados. 

Com isso, este artigo ambiciona, ainda, estimular a reflexão crítica sobre a pertinência dos atuais critérios utilizados, em última análise, para a concepção e justificação dos instrumentos de força nacionais, que provêem os meios de consecução dos propósitos da segurança por meio da defesa, principalmente daqueles meios de força orientados para o futuro e que detenham em sua natureza uma alta densidade tecnológica, tal como, por exemplo, a vanguarda combatente do poder aeroespacial, do poder naval e do poder terrestre.

O novo conjunto resultante de variáveis de análise não intenciona criar um índice agregado geral de segurança, mas sim prover uma nova maneira de pensar as capacidades nacionais, não sendo substituto para o conhecimento e julgamento instruídos de especialistas em análise de segurança. Por essa razão, este trabalho conclui com alguns critérios para aferição do tipo de educação que deveria ser oferecida para a continuidade ao ciclo de renovação intelectual necessário à reformulação futura dos critérios de análise que elaboramos no presente. 

Percepção da realidade
empírica e desdobramentos

O fluxo internacional de drogas, as máfias regionais e a pobreza estrutural são algumas das expressões particulares de problemas de segurança e desenvolvimento de longa data, com os quais nos debatemos há longo tempo—infelizmente, sem grandes sucessos. Já as últimas bombas terroristas de março de 2004 em Madri, além de ratificarem uma nova dimensão do terrorismo, revelada pelos atentados nos EUA em 11 setembro de 2001, confirmaram a necessidade de novos índices que permitam medir a importância relativa das capacidades dos países de articularem seus interesses e, simultaneamente, desenvolverem novos conceitos que permitam traduzir em linguagem comum as percepções dos seus níveis de segurança pretendidos.

A enorme redução dos tempos de conexão entre nódulos decisórios acentua a existência de uma fragmentação nas percepções do que sejam, atualmente, as demandas de segurança. Essa fragmentação deriva de uma ampliação do escopo da segurança, surgida como reação às possibilidades (nocivas aos Estados, instituições e indivíduos) provocadas pela reconfiguração ou surgimento de novas ameaças, pela evidenciação de fragilidades estruturais nos mecanismos de governança, pela exaustão das práticas normativas padronizadas que definem condições para o financiamento e impulsão do desenvolvimento econômico e, principalmente, pela complexidade dos novos padrões de relacionamentos sociais em escala global. Além disso, à medida que notamos a crescente interligação entre sistemas, necessitamos integrar domínios de fatos e métodos até então compartimentados e isolados.

O entendimento dessas dinâmicas abre enormes possibilidades para a concepção de alternativas de defesa com a exploração de tecnologias revolucionárias de forma inovadora, contribuindo para assegurar superioridades combatentes em um largo espectro de possibilidades. Aparentemente, as forças aéreas parecem ter largado na dianteira em termos de capturar essas vantagens para a reconfiguração de seus conceitos estratégicos de emprego e sistemas de armas associados, explorando tecnologias de informação superiores como um discriminador de sucesso em operações militares. Entretanto, somente com a compreensão de similaridades e diferenças entre perspectivas diferenciadas (interforças) podemos esperar sintetizar alternativas de decisão viáveis, avaliar seus desdobramentos e priorizar linhas de ação combinadas.3 

Em termos mais amplos—no domínio de competência das políticas visando o provimento das demandas de segurança que irão condicionar as alternativas de defesa—a necessidade de compreensão das potencialidades de inovação oferecidas pelas tecnologias emergentes de informação nasce das formas imprevisíveis de proliferação dos propósitos que os processos de tomada de decisão em segurança buscam atender. Essa imprevisibilidade decorre da diversidade e incertezas da tipologia e intensidade de ameaça aos indivíduos, organizações e estados que o crescente volume e velocidade de troca de informações põem em prática, refletindo-se em diferentes perspectivas sobre possibilidades de futuros alternativos e sobre como esses futuros alternativos irão impactar em nossos valores, percepções, interesses e, principalmente, em nossas expectativas sobre as diversas possibilidades de ação política no ambiente internacional. 

A premissa implícita é que o ambiente internacional encontra-se, atualmente, sob a influência de uma crescente percepção (e respeito) não só pelo aumento do volume de informações dentro de grupos sociais e entre eles, mas, também, pelas taxas de aumento desse volume e pelo aumento da taxa de sua disseminação.4 Diferentes pontos de vista desenvolvidos a partir de perspectivas diferenciadas refletem aspectos divergentes de problemas complexos, evidenciando a criticalidade de uma boa governança na guiagem política nacional. Entretanto, sem critérios de análise adequados, a formulação de políticas públicas para o provimento de segurança pode simplesmente desconsiderar aspectos relevantes do problema ou, então, reagir com excessivo rigor (normalmente com a alocação de recursos fiscais que, em última análise, serão desperdiçados) a cenários que careçam de sustentação empírica.

Como resultado, aqueles que buscam conhecimentos para formularem decisões visando dar consecução a iniciativas que gerem níveis de segurança adequados à construção de um ambiente mínimo para o fomento do desenvolvimento nacional enfrentam o desafio de estenderem a base de seus conhecimentos e de adicionarem crescente variedade a essa mesma base. Isso requer o entendimento da estrutura implícita da informação necessária para o desenvolvimento de alterações e extensão do que já se sabe e que pode ser racionalmente sustentável em segurança e desenvolvimento, possibilitando, dessa forma, sintetizar diversas molduras de análise, pensar através de diferentes perspectivas e sopesar valores competitivos. 

Segundo essa perspectiva, o problema para a formulação de políticas de segurança (que irão desdobrar-se em projetos de força) no mundo da informação globalizada de alta velocidade traduz-se, primariamente, na necessidade de uma estrutura de análise que permita, rapidamente, explicitar demandas simultâneas (e por vezes contraditórias) nas esferas internacional, estatal e humana, compatibilizando-as com alternativas de desenvolvimento econômico que sejam, ao mesmo tempo, eficientes, eficazes e socialmente custeáveis. Ainda de acordo com essa mesma perspectiva, é mandatório que o provimento de ambos—segurança e desenvolvimento—seja integrado por mecanismos de coordenação que permitam transpor os dividendos sociais em variáveis políticas capazes de atuar sob os mecanismos de vaso-comunicação globais.

Esse estado de coisas desdobra duas implicações. A primeira é a evidenciação da inadequação das categorias de análise tradicionais—política, social, econômica, militar (e tecnologia, para alguns incluída como categoria, para outros implícita nas demais). O tratamento dos países como recursos contidos dentro de fronteiras com atributos de poder mensuráveis, por si só, já é suficiente para contestar essas categorias. 

Dois exemplos são suficientes para lançar dúvidas sobre a pertinência dessas categorias de análise. Primeiro, é evidente o esgotamento dos mecanismos de gestão macro-econômica padronizados, que acabaram por criar vulnerabilidades estruturais e baixos níveis de crescimento. Um mundo de pobres (de acordo com a CEPAL, existiriam 221 milhões de pobres na América Latina)5 e, pior, sem mais paciência para esperar por milagres. Segundo, guerras tradicionais entre estados com capacidades assimétricas tornam-se, cada vez mais, uma impropriedade lógica, com limitada capacidade de instrumentalizar objetivos políticos para os que encontram-se em situação de reconhecida inferioridade no domínio de tecnologias que permitam o rápido domínio das informações para exploração das fragilidades adversárias.

Esses dois exemplos, combinados, evidenciam que a realidade atual não consegue ser explicada por conceitos desenvolvidos para uma época qualitativamente diferente da atual. Mas se isso não fosse suficiente, a segregação da política da esfera de competência militar ou a desarticulação entre fins econômicos e condições de possibilidades ditadas pela cultura/ sociedade são evidências fortes o bastante para atestar a fragilidade dessas categorias de análise para dar conta das demandas atuais de formulação de projetos de força consentâneos com políticas de segurança e desenvolvimento.6

A segunda implicação, como um corolário da primeira, diz que os resultados da análise orientada para a definição de qual seja a capacidade nacional para prover os níveis desejados de segurança passa, primeiro, pela redefinição dos critérios de análise das capacidades nacionais.

A necessidade de redefinição dos critérios de análise das capacidades nacionais fundamenta-se na premissa de que a revolução tecnológica aplicada ao domínio do processamento das informações gerou uma dinâmica interativa de conhecimentos apoiada por uma rede de conexões pessoais, institucionais e governamentais em contínua expansão, e que essa dinâmica tornou insuficiente o conjunto de conceitos tradicionais que subsidiavam a definição das capacidades nacionais, tais como população, território, potencial econômico (normalmente expresso em variáveis macro-ecônomicas).

Tabela 1: Critérios de Análise: Definição Operacional

Critérios de análise: Definição operacional

Critérios de análise são os fatores essenciais que devem ser levados em consideração para a tomada de decisão, avaliação de prioridades, determinação de verdade ou relevância, ou então para contestar ou apoiar uma posição sobre um determinado tema, argumento, ou política. 

Os critérios de análise refletem os principais conceitos de um dado campo de conhecimento e, dessa forma, não devem ser tomados como permanentes, mas devem, sim, ser questionados, emendados ou substituídos à medida que o conhecimento no campo progride. 

A manutenção desse conjunto de conceitos tradicionais reduz a importância relativa dos países não-potências na escala global, o que tende a fazer desaparecer nuanças de percepções sub-regionais e minimiza potencialidades específicas.

Os novos critérios devem incluir um conjunto de outras variáveis qualitativas que traduzam a complexa trama onde as sociedades pós-modernas coevoluem, incorporando diferentes perspectivas derivadas de diversos grupos sociais em interação e distintos mecanismos de controle e supervisão das instituições e entidades nacionais responsáveis pelo provimento dos níveis de segurança pretendidos necessários para dar consecução às demandas de desenvolvimento requeridas. 

O novo conjunto de critérios de análise incorpora variáveis que permitem adequar a escala de medida das capacidades dos países não-potências dentro da rede global de relacionamentos, salientando as potencialidades comparativas dentro dessa trama. Com isso, procura-se oferecer uma nova perspectiva analítica (implícita no conjunto de conceitos que sustentam os critérios de análise) com capacidade de explicar e predizer estados futuros da realidade das relações internacionais, em vez de reduzir essa realidade aos critérios de análise utilizados, critérios esses desenvolvidos para uma época qualitativamente diferente da que presenciamos e projetamos no futuro. Assume-se, dessa forma, explicitamente, que países não-potências têm peso específico na definição das políticas globais, dentro da rede de relacionamentos em que o conhecimento necessário para impulsionar o provimento de segurança e desenvolvimento são gerados, mantidos e empregados. 

Podemos sumarizar essa discussão, de maneira mais formal, nos seguintes termos: a demanda por um novo conjunto de critérios de análise enseja a preocupação em assegurar que sua formulação seja instruída por mecanismos de autocorreção dos processos de sua concepção, justificação e de exposição das razões que os sustentam, submetidos a um contínuo escrutínio sobre sua pertinência e validade frente ao contexto (circunstâncias particulares) em que eles serão aplicados. Isso, por outro lado, antecipa a necessidade de que esse novo conjunto de critérios de análise resultantes desses processos esteja subordinado às possibilidades práticas e atenda às normas que regulam o campo do conhecimento onde eles irão ser aplicados (ou então que contestem essas práticas e normas) com argumentos relevantes e persuasivos.

Modelando o novo conjunto
de critérios de análise

Uma coisa é obter-se convergência intelectual em termos da necessidade de novos critérios de análise, outra coisa é obter-se consenso em termos de quais sejam esses critérios. Consenso, aqui, implica que os participantes do processo de formulação dos critérios de análise os aceitem como necessários e suficientes para expressar seus entendimentos pessoais sobre o tema, e que eles concordem em sustentá-los como válidos até que outras proposições possam ser verificadas como superiores quando examinadas com o mesmo rigor. 

Para que o consenso em torno de novos critérios de análise ocorra, primeiro é necessário definir o propósito que orienta a formulação desses novos critérios: a explicitação dos elementos essenciais que condicionam a formulação de políticas que respondam as demandas de segurança requeridas para a consecução dos índices de desenvolvimento desejados. 

Tal definição de propósito é relevante para a aceitação—convencimento pessoal—de que as variáveis que traduzem o problema de segurança estão adequadamente reconhecidas e formuladas, assim como adequadamente relacionadas com condições de possibilidade oferecidas pelas capacidades de produção nacionais. 

Ou seja, o novo conjunto de critérios de análise deve ser adaptativo às condições vigentes no presente, ao mesmo tempo que ele antecipa condições de futuro que testemunharão sobre a adequação de seus efeitos. Para atender a essa condição, devemos evoluir desde os critérios de primeira e segunda geração—legado do período pré-revolução tecnológico-informacional, tais como indicadores macro-econômicos (PIB, inflação, balança de pagamentos, distribuição de renda, etc.), estoques de recursos naturais, capacidade de produção de energia, população, etc.7—para critérios de terceira geração que permitam uma reflexão crítica sobre desempenhos.8

Tabela 2: Critérios de Análise: premissas e elementos condicionantes

Critérios de Análise: premissas e elementos condicionantes

Reproduzimos aqui o parágrafo introdutório desse trabalho. Talvez agora a premissa que ele comporta e a importância das condições que ele impõe a acadêmicos e profissionais na área de relações internacionais, formulação de políticas e projetos de defesa possa ser mais bem percebida: A maneira como os países geram desenvolvimento reflete a forma como provêem segurança. Da mesma forma, alterações nas formas como o provimento de segurança é percebido tendem a alterar as condições para a geração de desenvolvimento. Isso faz com que, na busca por atualização, o conjunto de critérios empregados para avaliar a capacidade dos estados de proverem os níveis de segurança requeridos deva estar alinhado com a estrutura do conhecimento que gera a percepção dos requisitos que esses mesmos níveis de segurança buscam atender.

A presenta-se, a seguir, um conjunto de novos critérios de análise de terceira geração compartimentados em três categorias: habilitadores, ordenadores e propagadores.9 Os critérios de análise contidos nessas três categorias, em seu conjunto, têm como premissa a necessidade de capacitação da sociedade civil para o aperfeiçoamento dos mecanismos de planejamento, programação, orçamentação, supervisão e controle voltados tanto para o aperfeiçoamento dos processos de governança quanto para qualificação de quadros civis na elaboração, gestão e supervisão de um projeto de defesa. 

Tabela 3: Critérios de Análise: gerações - exemplo

Critérios de Análise: gerações - exemplo 

Critérios de análise de primeira geração mostrariam quantas doses de vacina, quantos profissionais, quantas viaturas, etc. seriam necessários para uma campanha de vacinação antipólio nacional e quanto isso tudo custaria (inputs, na literatura especializada). Já critérios de análise de segunda geração indicariam quantas pessoas seriam vacinadas (outputs). Critérios de análise de terceira geração (outcomes) proveriam informações sobre qual a taxa de crescimento econômico derivada da redução da mortalidade infantil teria resultado após um dado período de tempo como resultado da campanha de vacinação.

A) Critérios Habilitadores. Os critérios de análise habilitadores permitem aferir a capacidade dos estados de gerarem bens e produtos necessários para a consecução das metas que eles mesmos estabelecem de forma eficaz, eficiente e econômica.

• Habilidade em eleger prioridades tecnológicas que contribuam para o provimento de segurança sem gerar reações do sistema internacional e desenvolver essas prioridades em face da competição internacional.

• Habilidade de dominar ciclos de inovação econômica, com a capacidade de criar novos produtos e métodos de produção, abrir novos mercados, descobrir novas matérias-primas e desenvolver novas formas de organização comercial para os produtos de defesa.10

• Eficiência no acesso de fontes de recursos e créditos internos em um ambiente que fomente a inovação sob uma ponderação de aceitabilidade de custos, sob arranjos legais e institucionais que protejam os direitos individuais e assegurem a solução legal de controvérsias no provimento de segurança.

• Capacidade de fomentar investimentos internacionais em articulação com posturas políticas e alianças assumidas, assegurando a ampliação de possibilidades de novos investimentos em arranjos cooperativos de segurança e defesa.

B) Critérios Ordenadores Os critérios de análise ordenadores traduzem a capacidade dos estados de claramente definirem seus objetivos políticos para os domínios da segurança e desenvolvimento, estabelecerem projetos de defesa logicamente estruturados e minimalistas (articulação lógica e mini-malidade) consentâneos com esses objetivos.

• Habilidade da liderança nacional em dar orientação aos processos políticos visando a sistematização e legitimação da ameaça ou uso da força para a consecução de objetivos competitivos.

• Capacidade de articular fins de defesa com objetivos políticos nacionais na arena internacional sob uma ponderação de custos e riscos, assegurando a minimalidade e articulação lógica do conjunto de capacidades de defesa com requisitos de aprestamento claramente definidos, visando a consecução de conceitos estratégicos coerentes com os objetivos de defesa.

• Capacidade de desenvolver metas de ação baseadas no projeto de defesa e na estratégia de segurança e desenvolvimento nacional consentâneos com as possibilidades oferecidas pelas capacidades nacionais. 

• Capacidade de aumentar a relação entre a taxa de aumento dos registros de patente e a expansão das fronteiras de possibilidades de produção nacionais de produtos, processos, informações e organizações que contribuam para o aumento das capacidades de defesa. 

C) Propagadores Os critérios propagadores traduzem a capacidade dos estados de adequarem-se continuamente em antecipação às configurações projetadas do ambiente onde eles se inserem, garantindo a continuidade e aprimoramento do provimento da segurança requerida e das demandas de desenvolvimento antecipadas.

• Grau de institucionalidade da capacidade de metacognição na avaliação de incertezas na concepção de cenários projetivos, prospectivos e prosficcionais* para o projeto de defesa e a formulação de estratégias de segurança e desenvolvimento.

• Capacidade de desenvolvimento de políticas que fomentem a institucionalização do pensamento crítico e incentivo de atitudes que promovam níveis de excelência intelectual nacional.

• Capacidade dos programas e currículos do ensino médio e superior de fomentarem o pensamento crítico e criativo11 em correlação com o aumento da pesquisa de inovação tecnológica industrial e desenvolvimento de tecnologias.

• Nível de eficácia no estabelecimento de metas de desempenho por áreas de atuação governamental em segurança e institucionalização de mecanismos de supervisão e controle conectados com instrumentos de revisão de metas, diretrizes e estratégias de ação de defesa.

*Prosficção (prosficcional) é uma palavra criada no contexto do projeto de força, dentro dos estudos estratégicos, para demarcar uma ação criativa voltada para a compreensão e formulação de alternativas para problemas complexos no futuro, por meio do emprego de um plano de conceitos aceito no presente para formular um cenário que permita pensar em várias categorias diferentes de conceitos e seus arranjos possíveis. A prosficção considera um universo onde tudo se relaciona, tudo está interligado, com o que cria alternativas de futuros sob a pressuposição da possibilidade de bifurcações temporais (histórias alternativas), todas lógicas e coerentes. Seu único limite é o da plausibilidade das alternativas, o que é um limite marcadamente subjetivo. As cadeias de eventos prosficcionais variam em qualquer sentido, sem um plano previamente fixado que estabeleça padrões de medida ou tolerância estatística. O que rege a formação das cadeias de eventos prosficcionais é somente a possibilidade de mostrar que essas cadeias podem existir.

Evidentemente, essa listagem não é exaustiva, o que enseja a noção de que ela deva ser refinada e expandida. O importante é o entendimento—consensual, espera-se—de que a formulação de políticas de segurança e defesa não possam mais depender de informações derivadas de critérios de primeira e segunda gerações. Embora essas informações sejam importantes, necessárias, elas não são mais suficientes. Esse é, de fato, o argumento central desse trabalho. Pensar atualmente alternativas de solução para o provimento de segurança tendo como referências critérios de análise de primeira e segunda gerações irá prover respostas para problemas do passado: obsoletas desde sua concepção, incompetentes desde sua idealização. 

Sem as informações providas por critérios de análise baseados em desempenho, não há como definir-se, adequadamente, prioridades na alocação de recursos entre agências/instituições que ofereçam alternativas competitivas para o problema de segurança e desenvolvimento (o que dá margem para apadrinhamentos políticos e, em última análise, corrupção e ineficiência). Além disso, sem as informações providas por critérios de análise baseados em desempenho, não há como definir-se a reestruturação das competências funcionais das forças armadas, polícias e outros instrumentos de força dos Estados, e, muito menos, definir-se e justificar-se, com competência, os recursos financeiros que cada uma dessas instituições deveria receber e, mais ainda, quais são os “resultados” que elas são responsáveis (e legalmente imputáveis) por prover. Por exemplo, é absolutamente inaceitável que forças armadas afiram sua eficiência por meio de milhas navegadas, horas voadas, número e resultados de exercícios realizados. Isso não diz absolutamente nada a não ser como os recursos foram (eficientemente, espera-se) gastos, permitindo que incompetências sejam escondidas sob o tapete da obsolescência intelectual, profissional e funcional, onde burocracias tendem a criar as razões para sua própria perpetuação.12 Sem as informações providas por critérios de análise baseados em desempenho, a culpa pela inadequação no provimento de segurança e defesa acaba sendo “política”, sem se saber, exatamente, o que isso quer dizer e, mais ainda, permitindo que forças armadas excedam seus limites de competências dentro de sociedades democráticas na determinação de suas próprias missões e tarefas, sem vínculo com as prioridades políticas nacionais para segurança e desenvolvimento. Sem informações providas por critérios de análise baseados em desempenho não há como criar-se as condições para o provimento de segurança e desenvolvimento necessários. Sem as informações providas por critérios de análise baseados em desempenho restam apenas obsolescência e incompetência.

Progressão para o futuro

O conjunto de variáveis propostas neste artigo possui escopo limitado. Isso não poderia ser diferente. O assunto é de tal complexidade que perspectivas individuais certamente acabarão limitadas. O desenvolvimento do novo conjunto de critérios de análise deverá ser um trabalho que demandará continuidade de esforços (no sentido de sistematicidade, ao invés de esforços espasmódicos—tal como este artigo), baseado em multidisciplinaridade (conjugação de competências) e auto-regulação (dotado de auto-avaliação e autocorreção). Em termos sintéticos: 

Continuidade = f[(multidisciplinaridade) + (auto-regulação)]

Cada critério de análise considerado como válido para integrar o novo conjunto deverá ter um domínio de competência específico (requisito de necessidade) claramente determinado e concorrer para o propósito mencionado: explicitar elementos essenciais que condicionam a formulação de políticas que respondam as demandas de segurança requeridas para a consecução dos índices de desenvolvimento desejados (requisito de pertinência). 

Finalmente, devemos estar atentos para o fato de que, enquanto progredimos em direção a critérios de análise de terceira geração, devemos qualificar novos investigadores e profissionais que irão integrar as equipes multidisciplinares, considerando que a esses caberá a tarefa de descobrir, propor e desenvolver os critérios de gerações superiores e dar continuidade ao ciclo de renovação intelectual. Para aferir o atendimento da função de continuidade, um bom ponto de partida seria o resultado do trabalho de investigação dirigido por A. Facione,13 cuja tabela síntese sobre o consenso obtido entre 46 especialistas no tema de qualificações para o pensamento crítico é aqui oferecida de forma adaptada ao propósito deste trabalho à guisa de conclusão e proposta de reflexão.

1. Interpretação: Capacidade de compreender e expressar o sentido e significado de uma ampla variedade de experiências, situações, dados, eventos, julgamentos, padrões convencionais, crenças, regras, procedimentos ou critérios. Essa capacidade desdobra-se nas habilidades de: (a) categorizar; (b) decodificar significados; e (c) tornar os significados ao domínio cognitivo do público-alvo.

2. Análise: Capacidade de identificar o relacionamento inferencial (efetivo ou potencial) entre conceitos, questões, descrições ou outras formas de representações de crenças, julgamentos, experiências, justificativas, informações ou opiniões. Essa capacidade desdobra-se nas habilidades de: (a) determinar o significado de idéias; (b) verificar sua pertinência frente a realidade empírica ou sistema conceitual em apoio ou contestação de uma determinada posição; e (c) diferenciar e contrastar a validade de idéias competitivas ou cooperativas.

3. Avaliação: Capacidade de julgar a credibilidade de uma solução (e sua forma de representação) com relação a sua consistência interna e adequação ao problema planteado. Essa capacidade desdobra-se nas habilidades de: (a) explicar a relevância dos fatores de decisão e do grau de confiabilidade das fontes de informação; (b) qualificar a relevância contextual dos princípios e regras aplicadas; (c) determinar se a aceitabilidade assumida das premissas suporta a justificativa de pertinência da solução proposta; (d) identificar argumentos falaciosos e explicar se suas conseqüências e outros conceitos/idéias ou premissas fragilizam o argumento.

4. Inferência: Capacidade de formar conjecturas ou hipóteses e de identificar elementos necessários para derivar conclusões pertinentes. Essa capacidade desdobra-se nas habilidades de: (a) reconhecer premissas que necessitem sustentação e formular estratégias para a obtenção de evidências que possam prover tal sustentação; (b) formular alternativas de resolução do problema e derivar desdobramentos dessas alternativas; (c) tirar conclusões coerentes e consistentes em apoio/refutação de uma determinada postura/idéia ou posição, explicando as razões subjacentes e as conseqüências previsíveis.

5. Explicação: Capacidade de apresentar resultados de um processo de tomada de decisão com evidências conceituais e metodológicas com a elucidação dos critérios que justificaram sua utilização. Essa capacidade desdobra-se nas habilidades de: (a) formulação escrita e verbal de declarações simples e objetivas sobre conclusões complexas; (b) apresentação de forma clara e articulada das evidências (conceituais e metodológicas) que sustentam as declarações; (c) contestação de objeções de forma convincente baseada em resultados de interpretação, análise, avaliação e inferência.

6. Metacognição: Capacidade consciente de identificar e monitorar os processos cognitivos pessoais, os elementos utilizados nesses processos e os resultados que eles produzem. Essa capacidade desdobra-se nas seguintes habilidades: (a) reflexão crítica sobre as habilidades pessoais, opiniões e julgamentos; (b) concepção, desenvolvimento e aplicação de procedimentos corretivos e/ou proativos para corrigir deficiências nas qualificações pessoais para fazer frente aos desafios colocados pela necessidade de formulação de novos critérios de análise.

Finalmente, resta apenas a pergunta: estamos provendo a educação adequada para o desenvolvimento dessas qualificações? Mas essa já é outra questão.

Notas

1. Para uma discussão sobre reforma do setor de segurança, veja-se Hoffmann, B. (resp). Security-Sector Reform in Developing Countries: An Analysis of the International Debate and Potentials for Implementing Reforms with Recommendations for Technical Cooperation. Bonn International Center for Convention, Div. 43. October 2000. Esse relatório evidencia a situação de co-desenvolvimento entre segurança e desenvolvimento e apresenta a necessidade de critérios de análise compatíveis com as novas demandas apresentadas pelo ambiente internacional (veja seções 4 e 5). 

2. A partir daqui, passamos a nos referir a esses critérios apenas como critérios de análise. Uma definição formal desses critérios será apresentada a seguir; entretanto, é importante notar, desde logo, o entendimento de que segurança e desenvolvimento, para efeito deste trabalho, tem suas naturezas, escopos e propósitos mutuamente condicionados.

3. Elihu Zimet (com a contribuição de outros autores) discute alterações em conceitos de operações em função de tecnologias inovadoras no contexto de transformação. Veja-se Zimet, E. “Technology, Transformation, and New Operational Concepts” Defense Horizons. Center for Technology and National Security Policy, NDU, Number 31, September 2003. Para uma análise sobre como essas tecnologias impactam as possibilidades industriais de defesa que, por sua vez, condicionam os conceitos de emprego, veja-se, por exemplo, “Transformed? A Survey of the Defence Industry”, The Economist, July 20th 2002. Para apreciar o desdobramento das predições apresentadas pelo The Economist, veja-se, por exemplo, Cronin, J. “British Arms in Foreign Hands”, BBC News. http://newvote.bbc.co.uk/ mpapps/pagetools/print/news.bbc.co.uk/1/hi/business/ 3741979.stm. Por outro lado, para a elaboração de critérios de análise e índices de aferição de maturação tecnológica, visando antecipar implicações da evolução tecnológica em termos de graus de prontidão—com impacto nos conceitos de emprego—veja-se, por exemplo, Mankins, J. Technology Readiness Levels. NASA, Office of Space Access and Technology, April 1995.

4. Para uma discussão sobre esse tema, veja-se os temas associados com a denominada Lei de Metcalfe. Segundo R. Metcalfe, o valor da rede aumenta em proporção ao quadrado do número de nós nela introduzidos. A palavra chave aqui é valor. Conforme explicado por Marc Andressen, um dos fundadores da Internet, “A network in general behaves in such a way that the more nodes that are added to it, the whole thing gets more valuable for everyone on it because all of a sudden there’s all this new stuff that wasn’t there before”. Disponível em http:// www-ec.njit.edu/~robertso/ infosci/metcalf.html. Acessado em 10 de abril de 2004. Para desdobramentos e aplicações desse conceito, veja-se Davis, P., Gompert, D. e Kugler, R. “Adaptiveness in National Defense: The Basis of a New Framework”, National Defense Research Institute, Issue Paper. August 1996. 

5. Citado em http://www.ufpa.br/imprensa/clipping/ clipping%2008%2011%202002.htm#América %20 Latina% 20está%20ficando%20mais%20pobre. Acessado em 15 de abril de 2004. 

6. Esse é um alerta para currículos/programas de ensino baseados em uma lógica de segurança nacional desenvolvida no início dos anos 1960, e que ainda resistem às evidências que apontam para a necessidade de sua atualização. 

7. Para outros exemplos, veja-se as empregadas pelo LatinoBarômetro (socio-políticas e econômicas) em http:// www.latinobarometro.org/. Red Iberoamericana de Indicadores de Ciencia y Tecnologia (ciência e tecnologia) http:// www.ricyt.org/. Banco Interamericano de Desenvolvimento (socio-econômicas). http://www.iadb.org/. 

8. Para uma aplicação de critérios de terceira geração, veja-se General Accounting Office, Report to Congressional Committees, GAO-03-783: Drug Control—Specific Performance Measures and Long-Term Costs for U.S. Programs in Colombia Have Not Been Developed. June 2003. 

9. Evidentemente, os indicadores de primeira e segunda geração continuam válidos segundo seus próprios propósitos. Aqui estamos tratando da demanda de indicadores de terceira geração para propósitos de formulação de políticas de segurança e desenvolvimento. Para esforço similar, veja-se Lempert, R. et al, “Shaping the Next One Hundred Years: New Methods for Quantitative, Long-Term Policy Analysis. California, Rand Corporation, 2003. Os autores propõem três conjuntos articulados de variáveis de análise com o propósito de instruir analistas de inteligência americanos sobre quais países emergentes podem vir a tornarem-se potenciais adversários militares dos EUA.

10. Esse critério foi elaborado tendo em referência o trabalho de Schumpeter, J. A. Theory of Economic Development. Cambridge: Harvard University Press, 1934, p. 66.

11. Para uma definição desses conceitos, veja, por exemplo, Hatcher, D. Critical Thinking: A New Definition and Defense. http://www.bakeru.edu/html/crit/literatur e/dlh_ct_defense.htm. Acessado em 10 janeiro de 2004. Para uma tratamento do problema sobre a relação entre inovação tecnológica e desenvolvimento, veja Nicolsky, R. “Inovação tecnológica industrial e desenvolvimento sustentado”, http://www.mct.gov.br/CEE/revista/parcerias 13/5. pdf. Acessado em 12 de março de 2004. Veja, ainda, Erber, Fábio S. “Perspectivas da América Latina em Ciência e Tecnologia”, Parcerias Estratégicas nr 8, maio de 2000. pp. 181-200. 

12. Para ampliar essa discussão, adentrando na temática do projeto de força, veja-se Raza, S. Projeto de Força: o elo ausente nas reformas de defesa. Trabalho apresentado na Conferência REDES 2002. Brasília, DF. 

13. Facione, A. P. “Critical Thinking: A Statement of Expert Consensus for Purposes of Educational Assessment and Instruction” (ERIC Doc. No.: ED 315 423), Millbrae, CA.: California Academic Press, 1990. Um sumário executivo pode ser encontrado em http://www.insightassess ment.com/pdffiles/DEXadobe.PDF. 


Colaborador

O Dr. Salvador Ghelfi Raza é professor de Assuntos de Segurança Nacional (National Security Affairs) no Centro de Estudos Hemisféricos de Defesa da Universidade Nacional de Defesa dos Estados Unidos (CHDS/NDU) em Washington, D.C., EUA, onde desenvolve estudos e pesquisas de pós-doutoramento na área de Projeto de Força. Possui mestrado em Defense Studies pelo King’s College da Universidade de Londres e doutorado em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ (BR), na área de Estudos Estratégicos. Possui, ainda, formação em Direito, Análise de Sistemas e em Altos Estudos de Defesa no Brasil e na Inglaterra. Ministra Cursos de Análise de Defesa e Gerência de Informação na Universidade Nacional de Defesa dos EUA e em vários outros países. É analista internacional na área de defesa e conferencista no tema de projeto de força, simulações e jogos, e manobra de crises. Escreveu diversos artigos que foram publicados no Brasil e no exterior e é co-autor do livro Guia de Estudos Estratégicos. O Dr. Salvador Raza é Capitão-de-Mar-e-Guerra da reserva remunerada da Marinha do Brasil. Foi encarregado da Área de Estudos de Política e Estratégia e do Centro de Jogos de Guerra da Escola de Guerra Naval no Rio de Janeiro.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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