O Desdobramento de Armas no Espaço

isto não acontece no vácuo

Major Howard D. Belote, USAF*

* Gostaria de agradecer a três membros antigos e atuais da School of Advanced Airpower Studies por sua útil crítica dos primeiros rascunhos deste artigo. Ten Cel Roy F. Houchin II, que também sugeriu o formato do artigo, Dr Harold R. Winton e Dr. David R. Mets.

No final dos anos 50, o presidente Dwight D. Eisenhower estabeleceu a política espacial dos Estados Unidos com as diretrizes que tem até hoje. A despeito do clamor público por ter a União Soviética lançado o Sputinik I, Eisenhower estruturou um programa espacial que fornecesse à liderança nacional o que ela ansiava — informação — enquanto limitava os gastos do governo e mantinha o controle civil sobre os recursos nacionais. Percebendo que “primeiro e principalmente o espaço dizia respeito a espionagem, não porque os Estados Unidos fossem agressivos, mas porque a URSS cultivava segredos”, o presidente formulou astutamente “uma política sutil em concepção e delicada na execução. Os Estados Unidos [tornaram-se] o campeão da ‘liberdade do espaço’.... ‘espaço para a paz’, ‘espaço para toda a humanidade’, uma linha da política americana que brotava do idealismo tradicional e do respeito pelo império da lei, por um lado, e da competição pelo prestígio na Guerra Fria, de outro lado”.1 Em termos simples, Eisenhower acreditava profundamente que o espaço sem armas era do interesse do país.

Quase imediatamente, contudo, a novel Força Aérea começou a procurar meios de estender suas prerrogativas institucionais ao novo meio. Embora as primeiras tentativas de lidar com o espaço se concentrassem principalmente nos detalhes práticos do direito internacional e nos limites da soberania,2 os homens do ar logo desenvolveram visões do espaço que não combinavam com a de seus líderes políticos. Na verdade, os chefes da Força Aérea pressionaram no sentido de programas de pesquisa e desenvolvimento para o espaço que contemplassem o uso dual — haja vista o programa Dyna-Soar, cancelado pelo Secretário de Defesa Robert S. McNamara — e alguns deles logo pediam que se colocassem armas no espaço.3

É certo que nem todos os homens do ar apressaram-se a advogar o desdobramento de armas no espaço. Diga-se, a bem da Força Aérea, que a Força patrocinou um vivo e amplo debate nas páginas de seus periódicos profissionais. Sem dúvida, artigos do Gen Thomas Moorman, do Maj. Shawn Rife e do Senador Bob Smith (Republicano, N.H.) no número de Spring 1999 do Airpower Journal, mostram que o debate está vivo e bem de saúde.4 Uma pequena, mas representativa amostra desse debate — cinco artigos publicados entre 1968 e 1998, no Airpower Journal e em seu antecessor, a Air University Review — resume os argumentos tanto dos que propõem quanto dos que se opõem ao desdobramento de armas no espaço e fornece um fundamento histórico para a discussão que continua. De maneira significativa, o contexto em que esses artigos foram escritos, seus temas comuns, seus respectivos pontos fortes e fragilidades sugerem uma política espacial viável para o futuro próximo.

Primeiros passos para
desdobramento de armas
no espaço

No final de 1968, o Maj Gen Oris B. Johnson, comandante da 9a Divisão de Defesa Aeroespacial, escreveu um artigo que ajudou a abrir as portas para os defensores do desdobramento de armas no espaço. Em “Space: Today’s Front Line of Defense”, o General Johnson dava ênfase à “continuidade do meio aéreo/espacial” e à natureza inevitável do desenvolvimento da Força Aérea em direção ao espaço. “Tanto física quanto conceitualmente”, argumentava ele, “a extensão de sistemas militares para além da atmosfera interior tornou-se natural e evolutiva”.5 Assim, o general feria uma corda que ressoaria no debate espacial pelos 20 anos subseqüentes: “as realizações espaciais exibidas pela URSS junto com sua intenção confessa de governar o mundo não deixam lugar para complacência. Independentemente de nossas intenções e desejos de usar o espaço para propósitos pacíficos, resta o fato de que os soviéticos estão profundamente comprometidos com seu programa espacial e que este é conduzido por um gerenciamento militar.”6 Embora o Gen Johnson reconhecesse a intenção confessa dos Estados Unidos de manter a paz no espaço, usou o teste soviético de um sistema fracionário de bombardeio em órbita e de um sistema de mísseis antibalísticos (ABM) para argumentar que “é óbvia e urgente a necessidade de armas eficazes de defesa no espaço”.7

Tendo enfatizado a ameaça do “Urso”, o Gen Johnson resumiu os conceitos básicos da defesa aeroespacial. Descreveu as 4 funções de detecção, identificação, interceptação e destruição e explicou como cada uma delas se aplicam à defesa contra mísseis balísticos continentais (ICBM) e à defesa espacial. Em relação aos ICBM, o Gen Johnson observou os comos e os porquês da rápida detecção e, então, analisou as dificuldades técnicas da interceptação nas fases de lançamento, cruzeiro e reentrada na atmosfera. Ele reconheceu “problemas formidáveis de desenvolvimento” em todos os três, mas sustentou que um sistema anti-ICBM operacional existiria no começo dos anos 70.8 Finalmente, descreveu a nascente capacidade do país, de rastrear objetos no espaço — à época, a única capacidade de defesa aeroespacial.

Incomodado com essa lacuna na defesa, o Gen Johnson concluía que a estratégia nacional “depende primordialmente da capacidade de sobreviver e reagir de nossas forças estratégicas” e que “a nação que primeiro desdobrar um sistema de defesa espacial a um custo compatível desfrutará de vantagem militar”.9 Contudo — talvez compreendendo as restrições políticas às armas no espaço — ele passou ao largo de uma reivindicação explícita de desdobramento de armas no espaço. Embora fosse a favor do “desdobramento de armas defensivas contra as ameaças espaciais existentes tão logo sistemas a custos compatíveis se tornem disponíveis”, citou exigências apenas de sistemas de detecção, rastreamento e identificação, não de sistemas destrutivos.10 O general evitou adiantar-se por uma terra de ninguém política, mas, certamente, apontou o caminho que seguiriam os subseqüentes defensores do desdobramento de armas no espaço.

Defesa explícita

Nos anos 70, talvez refletindo o desgaste no Vietnã ou a natureza idealista da administração Carter, a Air University Review publicou pouco a respeito do desdobramento de armas no espaço. Contudo, nos anos 80, época emoldurada pela retórica de “império do mal” na Guerra Fria e pelo terror nuclear nos meios de comunicação de massa,11 o periódico retomou o debate intensamente. Um dos primeiros autores a recolher a linha do General Johnson, de raciocínio baseada na ameaça, foi o Maj Steven E. Cady, um oficial de guerra eletrônica de B-52 que escreveu “Beam Weapons in Space: A Reality We Must Confront”.12 O Major Cady começou com as estimativas do Office of Technology Assessment indicando 70-160 milhões de mortos imediatamente em seguida a um ataque nuclear, com outros milhões morrendo mais tarde. Combinou essa visão com a advertência de que “o poder dissuasor da nação, derivado de seu arsenal nuclear e de outra natureza, é, entretanto, provavelmente, muito menor do que a maior parte do pessoal militar dos Estados Unidos supõe que seja”. Cady argumentou que, devido a fatores organizacionais, políticos e comportamentais, “a percepção soviética da capacidade dissuasora dos Estados Unidos é, provavelmente, muito menos favorável do que a dos líderes dos Estados Unidos”.13 Para terminar sua descrição da ameaça, Cady relacionou um certo número de realizações soviéticas, para mostrar que os Estados Unidos já não são a nação mais forte do mundo, “em terra, no mar ou no ar” e que “em termos de capacidade de armas espaciais, eles [os soviéticos] estão na frente e, provavelmente, continuarão na liderança pelos próximos anos” (grifado no original)14

Felizmente para aqueles que seu alarmismo assustava, o Major Cady dava o remédio: “Satélites disparando feixes de laser (ou partículas) por milhares de milhas, para destruir satélites inimigos, ou mísseis inimigos baseados em terra imediatamente após seu lançamento, ou alvos inimigos selecionados em terra.” Revelando um equívoco fundamental em relação à teoria clássica da dissuasão, Cady argumentava que essas armas de energia dirigida oferecem um notável potencial de restauração do poder de dissuasão dos Estados Unidos.15 Ele afastava as questões de legalidade com a observação de que “a preocupação com as firulas do direito seriam adequadas em um mundo utópico” e concordava que um desdobramento de armas assim talvez fosse difícil e oneroso.16 Contudo, acreditava que esse desdobramento não precisava levar a uma corrida espacial: “os registros da União Soviética em suas políticas externa e militar jamais indicou imprudência.... é razoável supor que os soviéticos agiriam com prudência similar se os Estados Unidos optassem por armas de energia dirigida”. Além disso, porque “a União Soviética bem pode estar adiante dos Estados Unidos no desenvolvimento de um sistema assim, os Estados Unidos só estariam estabelecendo paridade, desenvolvendo um sistema também”. Portanto, os Estados Unidos “‘não têm outra escolha senão iniciar um programa nacional intensivo urgente, um programa que supere tudo desde o projeto Manhattan’”.17 O Major Cady usou algumas hipóteses comuns à época, mas, agora, desacreditadas, para exigir abertamente o desdobramento de armas no espaço.

O contra-argumento
do controle de armas

É certamente injusto ridicularizar as suposições de Cady à luz da visão retrospectiva pós-Guerra Fria; de nenhum modo ele era o único a acreditar nessas coisas. Precisa-se, portanto, observar a existência de uma facção contrária ao desdobramento de armas no espaço, igualmente ruidosa e unilateral, e a Air University Review incluiu alguma dessas vozes no debate que publicou. Reagindo especificamente contra a Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI) de Ronald Reagan, o Dr. Robert M. Bowman atacou aqueles que desestabilizariam a situação internacional com um desdobramento desavisado de armas anti-satélites (ASAT) ou defesa antimísseis balísticos baseada no espaço (BMD).18 O autor — um oficial da Força Aérea na reserva, com Doutorado do California Institute of Technology, uma longa história de empregos relativos a engenharia e ao espaço e, em 1985, a presidência de um grupo de pesquisa de assuntos de espaço e segurança — baseou seus argumentos numa leitura exata da teoria de dissuasão de Schellinger. A capacidade de atacar primeiro estava ruim; a capacidade de sobrevivência e a transparência estavam boas; os ASAT — desenvolvidos apenas porque os soviéticos estavam trabalhando em um — ameaçavam “anular a influência estabilizadora benéfica dos [vulneráveis] satélites de vigilância e alerta”.19 A opinião de Bowman era que, combinado com a capacidade de primeiro ataque do novo míssil MX, um ASAT operacional levaria, talvez, os soviéticos a uma atitude de lançamento automático de foguetes quando do alerta, tornando a sobrevivência dos Estados Unidos “dependente da confiabilidade dos computadores russos” e, o que é pior, ele perguntava: “que aconteceria se um satélite soviético fosse atingido por um meteoro ou sofresse um defeito elétrico catastrófico?”20

Deixando para trás essa imagem, Bowman voltava-se para seu alvo real: o sistema BMD “Guerra nas Estrelas” de Reagan. Citando as similaridades tecnológicas entre ASAT e BMD, declarava que “do ponto de vista militar operacional, bem como do ponto de vista do controle de armas, as armas espaciais devem ser consideradas um todo”; em seguida, observava que “a decisão a respeito de continuar [com o desenvolvimento ASAT e, então, com o desenvolvimento de BMD] é urgente.... Se as armas da Guerra nas Estrelas… não forem factíveis, tiverem um custo proibitivo ou forem nocivas a nossa segurança, então devemos tentar negociar uma proibição ampla e verificável de todas as armas espaciais”.21

Não é surpresa que o Dr. Bowman haja citado os perigos de um escudo BMD que não fosse completamente eficaz alinhado com um certo número de contramedidas baratas ao BMD e concluído que “não há modos de se conseguir uma capacidade [de BMD viável] sem, ao fazê-lo, conseguir a capacidade de completar uma atitude de primeiro ataque”.22 Portanto, “a Guerra nas Estrelas é muito mais que o necessário para ampliar a dissuasão e muito menos do que é necessário para substituí-la e “o melhor modo que a administração tem para mostrar… que é sincera… seria unir-se à moratória soviética nos testes ASAT.23 Em suma, embora sua conclusão estivesse certamente alinhada com a visão original de “espaço para a paz”, de Eisenhower, Bowman era tão culpado de fanatismo e de visão unilateral quanto os defensores do desdobramento de armas no espaço. Sua teoria de dissuasão era bem elaborada, mas o salto inferencial que ele fez de “os ASATs desestabilizam” para “não à Guerra nas Estrelas” era excessivamente amplo.

“O céu está caindo!”

Em 1989, o muro de Berlim ruiu e o contexto do debate a respeito da colocação de armas no espaço mudou radicalmente. Sem o monolítico bicho papão soviético, os defensores da colocação de armas no espaço necessitavam de uma nova ameaça para impelir à ação seu auditório. Assim, eles como que criaram uma. Para ilustrar os perigos ainda intrínsecos ao mundo pós-Guerra Fria, o Ten Cel Michael E. Baum, um piloto de B-52 e analista de sistemas com PhD, escreveu “Defiling the Altar: The weaponization of space”.24 Empregando um cenário fictício, o artigo descrevia o “pior fracasso de informações em 70 anos”, quando, em 7 de dezembro de 2011, os chineses executaram um ataque semelhante ao de Pearl Habor a partir do espaço e incapacitaram os Estados Unidos com uma série de ataques arrasadores do alto.25 O novo inimigo usou armas ASAT e armas de energia cinética em órbita para destruir um amplo espectro de recursos americanos baseados no espaço, recursos de comando, controle, informações, vigilância e reconhecimento; sistemas de conexões bidirecionais, sistemas de lançamento e, mesmo, afundaram um navio-aeródromo e um contratorpedeiro da classe Aegis. Simultaneamente, os chineses atacaram a força de manutenção da paz dos Estados Unidos e das Nações Unidas nas Ilhas Pescadores, que a comunidade internacional cedeu prontamente ao controle chinês.

Para sublinhar as lições do Pearl Habor de 2011, o presidente da Junta de Chefes de Estado-Maior depôs no Congresso, no dia 1º de abril, dia dos tolos, de 2012. O Gen William Smith, personagem fictício de Baum, admitiu que “os Estados Unidos aprenderam a lição errada [da Guerra do Golfo] que nós sempre seríamos senhores do terreno elevado do espaço e seríamos capazes de confiar em nossos recursos” (grifado no original).26 As forças armadas pós-Guerra Fria seguiram uma estratégia de aquisições incongruente com a doutrina espacial em desenvolvimento, deixaram cegamente de admitir que o espaço receberia armas e institucionalizaram um certo número de vulnerabilidades singulares que os chineses foram capazes de explorar. Portanto, Smith/Baum sugeria modos de superar essas vulnerabilidades e recomendava um programa de armamentos em três partes, com armas de energia cinética espaço/ superfície, proteção em órbita ativa e passiva e ASATs. Como havia feito o Major Cady 12 anos antes, o Cel Baum rejeitava a visão da era de Eisenhower, clamava por armas baseadas no espaço e sugeria que os aderentes à “liberdade no espaço” tinham enfiado a cabeça na areia — mas, sem uma clara ameaça, ele teve que criar uma história fantástica.

De volta ao futuro

Finalmente, em 1998, os argumentos fecharam o ciclo, voltando à idéia original de Eisenhower de “espaço livre”, como mostrado pelo Ten Cel Bruce M. DeBlois em “Space Sanctuary: A Viable National Strategy.”27 DeBlois, ex-professor tanto da Air Force Academy quanto da School of Advanced Airpower Studies, pôs em evidência uma peça do quebra-cabeça omitida por Johnson, Cady, Bowman e Baum: o contexto histórico, cultural e político em que ocorreu o debate a respeito da colocação de armas no espaço. “As vantagens militares imediatas de ser a primeira nação a colocar armas no espaço são inegáveis”, concordou ele, “mas elas precisam ser ponderadas em face dos custos militares de longo prazo bem como custos econômicos sociais e políticos mais amplos”.28 Fazendo eco aos autores do tempo da Guerra Fria, DeBlois resumiu a história da dissuasão e, então, levou muito mais longe a descrição contextual. Ele acompanhou as bases da tradição de espaços abertos, de Eisenhower (e das administrações subseqüentes), e sublinhou as realidades políticas que apóiam essa idéia de isenção, como falta de ameaça real, limitações tecnológicas, impedimentos culturais (os americanos não se vêem como agressores) e os fenomenais custos em oportunidades de investimentos em armas espaciais. Concluindo uma refutação de 10 pontos das estratégias de colocação de armas no espaço, o coronel concluiu que o que pode ser feito com as armas espaciais também pode ser feito do ar, sem a carga política associada à colocação de armas no espaço.29

Em apoio a sua defesa de deixar o espaço livre DeBlois incluiu um certo número de recomendações para que se proclamasse uma “visão espacial” pacífica e para que, por tratado, a colocação de armas no espaço fosse declarada ilegal. Embora ele se opusesse claramente à colocação aberta de armas no espaço, DeBlois não agiu de modo que os críticos o pudessem acusar de enterrar a cabeça na areia. Ao contrário, pediu vigilância: “a outra tendência histórica da política espacial dos Estados Unidos tem sido acompanhar nossas apostas no espaço livre com investimentos na pesquisa e desenvolvimento de armas espaciais. Continuar com a política de espaço livre não afasta o preparar-se para agir de maneira diferente; na verdade, pode-se defender com propriedade que este preparo estimula outros atores a seguirem a política de espaço livre, já que eles não obteriam qualquer vantagem em desafiá-la”.30 Seguindo essas linhas, Deblois enfatizou que o espaço não era, em si próprio, um centro de gravidade; em vez disso, os sistemas espaciais contêm vulnerabilidades críticas que precisam ser eliminadas ou protegidas. De qualquer modo, argumentou DeBlois, existem estratégias muito melhores para proteger recursos e capacidades nacionais do que uma corrida armamentista espacial: estratégias que continuam “a busca de 40 anos de um ambiente espacial seguro e da estabilidade global e… [projetam] diversos caminhos para usar-se o espaço de maneira cooperativa para buscar os interesses nacionais dos Estados Unidos: segurança nacional a longo prazo, bem-estar econômico e legitimidade mundial dos valores constitucionais dos Estados Unidos”.31

Conclusão

Um debate ainda não resolvido a respeito dos méritos da colocação de armas no espaço emergem de cinco artigos colhidos em trinta anos da Air University Review e do Air Power Journal. Afastando-se da base de espaço livre lançada pelo presidente Eisenhower, um especialista em defesa aeroespacial, durante a corrida para a Lua, defendeu o desdobramento de satélites adiantados de vigilância e rastreamento e sugeriu que dever-se-iam seguir armas defensivas. 14 anos mais tarde, no auge da escalada dos ICBM e dos mísseis balísticos de alcance médio, durante a Guerra Fria, um major da Força Aérea gritou “urso!” e exigiu a imediata e aberta colocação de armas no espaço. Em resposta a apelos semelhantes — especialmente ao programa SDI do Presidente Reagan — um oficial da Força Aérea na reserva e líder de um think-tank contrapôs que as armas espaciais seriam intrinsecamente desestabilizadoras e precisavam ser evitadas a todo custo. É claro que a ameaça soviética acabou, mas os entusiastas das armas no espaço não. Eles profetizaram a catástrofe em mãos dos chineses a menos que os Estados Unidos desenvolvessem e desdobrassem novas capacidades espaciais. Finalmente, um professor universitário em serviço ativo levou o argumento de volta ao ponto de partida, indicando os excessos das posições desses defensores e sugerindo escolhas políticas que, sendo pragmáticas, não representassem, por outro lado, uma ameaça para o futuro.

Que lições se podem tirar desta viagem pelo debate a respeito do desdobramento de armas no espaço, dentro da Força Aérea? Examinando os termos comuns do debate encontra-se a tendência dos participantes de ignorarem o contexto e caírem no fanatismo. A facção a favor da colocação de armas no espaço partiu de uma suposição hobbesiana de que se as pessoas podem criar uma nova arma, elas o farão, e enfatizam excessivamente a ameaça para criar impulso para a mudança. Fazendo assim, ignoram a história, a cultura e a economia. Não se pode culpar muito o major Cady por seu alarmismo do começo dos anos 80, mas ele ignorou a pouca disposição dos americanos de aparecerem como agressivos, e seu sucessor na defesa da colocação de armas no espaço, o Coronel Baum, esqueceu completamente o fato de a SDI ter levado a União Soviética a falência! Por que deveria a economia chinesa ser capaz de criar um sistema de armamentos espaciais suscetível de inabilitar os Estados Unidos com um simples golpe? Além disso, todos os defensores da colocação de armas no espaço, inclusive o General Johnson, esqueceram o primado da política, que Clausewitz aponta. Todas as administrações dos últimos 40 anos subscreveram a posição original de Eisenhower; não existe vontade política para romper o paradigma do “espaço para a paz”. Parafraseando Walter McDougall, não há “velocidade de escape” que leve para além da realidade política deste país.32 Finalmente, o Dr. Bowman, o único representante do lobby a favor do controle de armas nessa amostra — também não conseguiu criar um argumento equilibrado baseado no contexto. Ele pede que o leitor aceite que ele trate em conjunto todas as armas espaciais e afasta possíveis contra-argumentos sem concordar com a existência de ameaças genuínas contra as quais se proteger e de capacidades espaciais desejáveis, pelo menos para serem exploradas. Como resultado, seu apelo para que nos uníssemos à moratória dos testes soviéticos revelou-se tão inexpressivo quanto os outros gritos de “o céu está caindo”.

Em conjunto, os primeiros 4 artigos sugerem que os fanáticos tendem a esquecer-se do contexto do quadro geral. Eles emolduram vividamente seus argumentos, mas fornecem bases insuficientes para uma política. Concentrando-se especificamente nas questões contextuais, o artigo do Coronel DeBlois evitou essa armadilha e construiu pragmaticamente recomendações políticas desejáveis e suscetíveis de serem alcançadas. DeBlois rejeitou a noção hobbesiana de que a colocação de armas no espaço é inevitável, inclinando-se mais para a sugestão kantiana de que as atitudes internacionais realistas podem mudar e que os Estados Unidos podem garantir a segurança sem um oneroso sistema de armas espaciais. Mais importante – ele defendeu a continuação de uma política que funcionou nos últimos 40 anos. Eisenhower disse uma vez a seu Gabinete que “vamos enfrentá-los [a ameaça soviética] mantendo nossa economia absolutamente saudável. Sem a saúde e a expansão de nossa economia nada do que fizermos, em termos nacionais ou internacionais, poderá ser de auxílio a longo prazo”.33 Para facilitar essa estratégia — e acreditando firmemente que o espaço livre servia aos interesses dos Estados Unidos — Eisenhower conservou o espaço para a paz e impediu uma corrida de armas espaciais. Foram necessários 30 anos mais, mas o final da Guerra Fria provou o valor dessa política de segurança baseada na economia. Hoje em dia, com as tecnologias americanas provavelmente à frente das do resto do mundo por uma ordem de grandeza, o não-desdobramento de armas no espaço pode ser ainda mais do interesse nacional do que era na época de Eisenhower. Por que consertar alguma coisa que não se estragou?

Notas

1. Walter A. McDougall, The Heavens and the Earth: A Political History of the Space Age (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1985), 194.

2. Veja-se, por exemplo, Col Martin B. Schofield, “Control of Outer Space,” Air University Quarterly Review 10, no. 1 (Spring 1958): 93–104; and Maj Charles A. Roberts, “Outer Space and National Sovereignty,” Air University Quarterly Review 12, no. 1 (Spring 1960): 53–65.

3. Dyna-Soar era uma plataforma espacial hipersônica, reutilizável, tripulada, catapultada, planejada especialmente para diversos tipos de missões militares espaciais. Para mais informações a respeito do programa espacial tripulado, veja-se Roy F. Houchin II, “Hypersonic Technology and Aerospace Doctrine,” Air Power History 46, no. 3 (Fall 1999): 4–17.

4. Gen Thomas S. Moorman Jr., “The Explosion of Commercial Space and the Implications for National Security,” Maj Shawn P. Rife, “On Space-Power Separatism,” e Sen. Bob Smith, “The Challenge of Space Power,” Airpower Journal 13, no. 1 (Spring 1999): 6–39.

5. Maj Gen Oris B. Johnson, “Space: Today’s First Line of Defense,” Air University Review 20, no. 1 (November–December 1968): 96.

6. Ibid., 97.

7. Ibid., 96.

8. Ibid., 99.

9. Ibid., 101–2.

10. Ibid., 102.

11. Lembremo-nos da elevada audiência na televisão da minissérie “The Day After”, representando a vida depois do apocalipse; os papéis de Mel Gibson em Mad Max; e a popularidade do filme War Games, entre outros exemplos.

12. Maj Steven E. Cady, “Beam Weapons in Space: A Reality We Must Confront,” Air University Review 33, no. 4 (May–June 1982): 33–39. Para outro artigo representativo da linha a favor da colocação de armas no espaço, veja-se Dr. Barry J. Smernoff, “The Strategic Value of Space-Based Laser Weapons,” Air University Review 33, no. 3 (March–April 1982): 2–17.

13. Cady, 34. Em apoio, Cady cita Roger D. Speed, Strategic Deterrence in the 1980s (Stanford: Hoover Institution Press, 1979); o argumento faz eco à obra mais conhecida dos cientistas políticos Graham Allison e Robert Jervis.

14. Cady, 35.

15. Ibid., 36. Como explicou o cientista político Karl Mueller, professor de Relações Internacionais na School of Advanced Airpower Studies, a teoria clássica da dissuasão postulava que ameaçar as pessoas é bom, mas ameaçar as armas é ruim, já que isto sugere uma atitude agressiva de primeiro a atacar.

16. Ibid.

17. Ibid., 38.

18. Dr. Robert M. Bowman, “Arms Control in Space: Preserving Critical Strategic Space Systems without Weapons in Space,” Air University Review 37, no. 1 (November–December 1985): 58–72.

19. Ibid., 62.

20. Ibid., 63.

21. Ibid., 65–66.

22. Ibid., 70.

23. Ibid., 71, 72.

24. Lt Col Michael E. Baum, “Defiling the Altar: The Weaponization of Space,” Airpower Journal 8, no. 1 (Spring 1994): 52–62. Para um cenário futurista de ameaça similar, veja-se Capt Fred Kennedy, Capt Rory Welch e Capt Bryon Fessler, “A Failure of Vision: Retrospective,” Airpower Journal 12, no. 2 (Summer 1998): 84–94, em que norte-coreanos, iranianos e iraquianos e “diversos interesses de empresas multinacionais” unem-se em uma coalizão ameaçadora do espaço.

25. Baum, 53.

26. Ibid., 59.

27. Lt Col Bruce M. DeBlois, “Space Sanctuary: A Viable National Strategy,” Airpower Journal 12, no. 4 (WINTER 1998): 41–57.

28. Ibid., 41.

29. Ibid., 52.

30. Ibid., 57, nota 43.

31. Ibid., 55–56.

32. Descrevendo um antigo estudo da RAND a respeito das implicações políticas da era espacial, McDougall escreve: “a despeito dos vôos da fantasia de alguns teóricos em direito espacial, não há ‘velocidade de escape’ que nos leve para além das rivalidades políticas deste mundo” (178).

33. Ibid., 138.


Colaborador

O Maj Howard D. “Dave” Belote (Bacharelado, University of Virginia; Mestrado em Administração de Empresas, Embry-Riddle Aeronautical University; Mestrado em Arte e Ciência do Poder Aéreo, School of Advanced Airpower Studies) é chefe de estratégia de longo prazo na Sétima Força Aérea e chefe da Célula de Sincronização de Comando de Componente Aéreo, Base Aérea de Osan, Coréia. Serve como assessor imediato do comandante do componente da força aérea interaliada de teatro de operações para questões de linhas de ação para o poder aéreo e prepara documentos de estratégia que orientam os processos de planejamento e seleção de alvos aeroespaciais. Serviu anteriormente como inspetor de operações de caça no Gabinete do Inspetor Geral no QG do Comando de Combate Aéreo, e voou F-16 e F-111 na Base Aérea Hill, Utá, e na Base de Lakenheath da RAF, no Reino Unido. O Major Belote é graduado com distinção tanto da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais como da Escola de Comando e Estado-Maior, ambas da USAF. Seus artigos sobre teoria militar e teoria do poder aéreo foram publicados nos periódicos Strategic Review e Airpower Journal, e sua monografia Once in a Blue Moon: Airmen in Theater Command será brevemente publicada pela Air University Press.

 

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