Document created: 01 Agosto 1997
ASPJ  Em Português 3° Trimestre 1997


“ . . . OU CAIR EM CHAMAS?” POR UM MANIFESTO DO
PODER AÉREO PARA O SÉCULO 21

RICHARD SZAFRANSKI  e MARTIN C. LIBICKI>

CHEFIAR É escolher. Escolher implica comprometer o próprio grupo com cursos de ação e com suas conseqüências. Em 1995, os chefes da Força Aérea dos Estados Unidos afirmaram que o planejamento de longo prazo na Força Aérea estava “quebrado” e que eles o consertariam. Fazer isso exige visão, senso de evolução do ambiente e um processo que conecte as visões à estratégia e às tarefas. A burocracia sem visão comete o erro de tomar atividade por progresso. A visão sem os recursos para a mudança chama-se sonho.

Hoje em dia, o planejamento tem importância porque, de nosso ponto de vista, a Força Aérea está se equilibrando entre dois destinos: um, “viver com fama”; o outro, “cair em chamas”, como diz a canção da Força Aérea. As escolhas erradas são um prenúncio da irrelevância institucional ou — o que é pior — da desintegração e da derrota. Algumas pessoas podem achar que o futuro sem uma Força Aérea seja uma loucura, uma perda de tempo ou uma impossibilidade lógica. Não se trata, porém, de nenhuma dessas opções.

Por Que Mudar?

No momento presente, não chega a ser novidade que todo o Departamento de Defesa tem que se haver com duas descontinuidades fundamentais. A primeira envolve o “porquê” do poder militar na esteira da queda do muro de Berlim. Ninguém sabe se a “história” — o domínio da política mundial por lutas entre as grandes potências — terminou, está simplesmente descansando ou está em processo de transformação. Desse modo, fica mau para os Estados Unidos e suas forças armadas esperar a volta da história deitados na cama. Irritantes como sejam os desafios hoje em dia, é difícil ver qualquer circunstância sob a qual a reemergência de uma grande potência hostil aperfeiçoaria a segurança nacional dos Estados Unidos. Na Guerra Fria, a Força Aérea usava bombardeiros e mísseis balísticos para ajudar a dissuadir de um agravamento da situação. Hoje em dia, o ambiente torna imperioso que repensemos as capacidades exigidas para dissuadir as grandes potências de amanhã de posições hostis.

A segunda envolve o “como” do poder militar na rápida evolução da tecnologia da informação. Dito de um modo simples, “ser digital”, para usar o sentido da nova ontologia, segundo Nicholas Negroponte, significa que o terreno elevado não é mais o ar e o espaço, em si ou por si, mas sim o ciberespaço.1 Entendido no seu sentido mais amplo, o ciberespaço é a grande confluência de todos os diversos bits e correntes de informação que, em conjunto, gera o “ver de cima”, pré-requisito estratégico da vitória.

Segundo a história, por predileção e estrutura, ver de cima parece ser o domínio natural da Força Aérea, mas, apenas, se tiver as escolhas e o comando para isso. A Força Aérea precisa, primeiro, redefinir-se, transformando-se, de uma instituição atmosférica, em uma instituição infosférica. Esta é a essência do nosso manifesto, e o nosso ensaio dedica-se a visualizar e a orientar esta transformação.

Entender as implicações de uma tal mudança para a Força Aérea exige partir de primeiros princípios. A missão da Força Aérea não é meramente o que ela faz (dedicar-se a operações no ar e no espaço), mas o modo pelo qual ela contribui (determinando como funcionar para produzir um resultado estratégico). Saber como transportar massa ou energia até os alvos — destruindo carros de combate ou arrasando cidades têm sua época e seu lugar. Ainda assim, isso é apenas uma parte de saber como obter e usar o conhecimento para perturbar ou acabar a produção, distribuição e, crescentemente, o controle de todas as fontes de força militar oposta. A tecnologia permite-nos alcançar fins — superioridade estratégica — por numerosos meios: sistemas espaciais, atmosféricos terrestres e marítimos, tanto tripulados quanto não-tripulados. Existindo uma Força Aérea separada para fins estratégicos, a informação, em vez de qualquer outro método de ataque, torna-se central, daí uma razão de ser para que a Força Aérea abandone sua orientação atmosférica em favor de uma orientação infosférica. Do mesmo modo que a Força Aérea nasceu para explorar a tecnologia do vôo, tem de evoluir para refletir as tecnologias subseqüentes de igual alcance estratégico. Nossas idéias de terreno elevado precisam mudar à medida que o pessoal da aeronáutica aceita o golpe de vista como emparelhado e capacitador do golpe de graça.

A Força Aérea foi fundada segundo o princípio de que o domínio da nova tecnologia permitiria a uma nação dar um salto sobre o sangrento impasse da Primeira Guerra Mundial e lançar um ataque estratégico contra a máquina de guerra do inimigo. O ar — a at- mosfera — tornou-se o terreno elevado. Tomá-lo tornaria a vitória em qualquer outro ponto uma questão de tempo e de vontade. Assim aconteceu que no primeiro período entreguerras (e bem que poderemos estar em um outro), essa tecnologia foi corporificada na aeronave tripulada, já que apenas o corpo humano tinha os sensores e o poder de computação necessário para as tarefas do poder aéreo. Mas a tecnologia é como Proteu, por sua própria natureza, e, como seria demonstrado pela primeira vez na Operação Tempestade no Deserto, o domínio da informação está se tornando o terreno elevado de amanhã. Em termos simples, se você pode ver o inimigo e o inimigo não pode vê-lo, então basta uma pequena aplicação de força dirigida por intenções precisas e empregada tempestivamente para ter o controle do espaço de batalha. É esse terreno que a Força Aérea tem de buscar controlar.

Antes de examinar a transição de uma força atmosférica para uma força infosférica a honestidade exige que observemos duas visões alternativas — a Força Aérea “policial” e a Força Aérea que combate numa guerra de informação. Ambas as capacidades — uma que diz respeito a condução de paz e a outra que diz respeito a tomar como alvo os sistemas de informação do inimigo — parecem tarefas novas e válidas. Nenhuma delas, porém, fornece uma alma e um coração razoáveis para a Força Aérea de amanhã.

A Força Aérea policial — explicada tão brilhantemente por Carl Builder — é, porém, altamente problemática. Deixa-se muito pouca força; “bombas de alimentos” jogadas para amigos podem ser necessárias, mas dificilmente bastarão para gerar uma posição de influência contra inimigos. Elas dão pouca garantia contra a reemergência de grandes potências rivais. Uma Força Aérea policial enfraquecida poderia, mesmo, estimular esses doidos. Alienada de seu núcleo focal, os policiais do ar podem não ser capazes de recuperar-se se voltar a história.

Adotar a tendência à profundidade e à modernidade da guerra de informação como uma missão primordial é uma leitura que se faz (erradamente), freqüentemente no Corner-stones of Information Warfare (1995), a declaração da Força Aérea a respeito desse assunto. Ainda assim, disciplina e causalidade na aplicação incansável do poder — não a inescrutabilidade ou a novidade —distinguem a guerra da arruaça ou da fantasia. Operações de informação estratégicas — lançamentos de vírus, vermes, cavalos de tróia e outros dessa fauna aparentemente mágica (ou, talvez, mítica) descrita por Doug Waller em Time — tendem a alcançar sua utilidade maior contra as infra-estruturas nacionais do inimigo apenas antes do conflito. Basta este fato para sugerir cautela em encarregar qualquer militar disso (e, mais ainda, para informação estratégica para defesa). No nível operacional, ninguém sabe realmente quanto bem — que fará quanto mau — podem causar os ataques de informação. Essas operações são oportunísticas e, desse modo, antiéticas para uma geração cujo ethos se construiu na idéia estratégica para uma tarefa. Inimigos sem uma infra-estrutura de informação para ser desbaratada podem deixar uma Força Aérea redefinida desse modo sem qualquer coisa para fazer.

A Força Aérea Como Uma
Força Combinada

Como é que a nossa concepção de tomar e controlar o terreno elevado se harmoniza com as concepções das outras Forças e do Estado-Maior Conjunto? A Joint Vision 2020 desse último foi planejada para investigar o horizonte estratégico, promover a força combinada e, dessa maneira, contribuir para as “concepções” das Forças singulares. Ela vai procurar a virtude nos aspectos imutáveis do combate. Haverá ataques de precisão no futuro? Sim. Será que um dos lados deve empenhar-se para ter maior clarividência do que o outro? É claro. Seria eficaz se as forças combinadas pudessem conceber e estruturar uma manobra que alcançasse o domínio em todo o espectro do combate? Mas evidente. A logística concentrada facilita o ressuprimento? Nem se precisa dizer. Alexandre, o Grande Khan e Napoleão aplaudiriam esses atributos, achando-os familiares.

Mais importante, porém, é o que fica sem ser dito. Nem a legislação nem a redução de forças faz com que a condição de ser combinada seja necessária, mais ainda à medida que a tendência das forças é promover uma superposição dos sistemas de aquisição e processamento. O título 10 faz as forças armadas funcionarem de uma maneira federada, enquanto o espaço de batalha é tão indivisível quanto o ciberespaço. Ele já não pode ser dividido em domínios nítidos e parcelado para que cada Força combata a sua própria guerra — a Marinha no litoral, o Exército no campo e a Força Aérea nas alturas e em profundidade. Elas vão continuar atravessando umas pelos caminhos das outras.

Uma futura Força Aérea não pode deixar de conceber a totalidade das forças armadas combinadas e integradas. No coração dessa visão combinada é provável que esteja um metassistema (um “sistema de sistemas” ou, mais adiante, um “organismo de organismos”) interconexo, interoperável e integrado, em última análise, para a qual todas as Forças contribuam, e do qual todas elas recebam algo. O metassistema não é a elusiva arma mágica ou o tiro certeiro, mas sim a arquitetura convergente de capacidades alimentadas por um planejamento deliberado. Não será uma máquina única ou, mesmo um único circuito, mas isso não importará a seus usuários; no que se refere a eles, será um instrumento comum com o qual todos vão à guerra. Para alimentá-lo, haverá regras de entrada em combate, intenção dos comandantes, inteligência estratégica, torrentes de bits vindos do espaço, relatórios logísticos permanentes, situação das forças, observações meteorológicas, sensores por toda parte, interferência de operadores e, mesmo, o resultados das redes globais de notícias. Esse sistema dará a matéria-prima para praticamente toda a percepção da situação, do quadro global até os alvos designados. Para que o metassistema funcione seriamente, temos que planejá-lo desde o início, como um sistema integrado, mesmo que se componha, inicialmente, de instrumentos e códigos herdados. Não podemos simplesmente colar juntos os sistemas hoje existentes, crescentemente inadequados, e achar que está tudo feito. Uma idéia desse tipo está grosseiramente abaixo das exigências do controle do espaço de batalha em tempo real e do grau em que a tecnologia pode capacitar uma visão mais ampla. Ao final, alguém tem que estar encarregado e construir e manter o metassistema, para quem quer seja chamado a comandá-lo. Quem melhor que a Força Aérea? Foi o Spacecast 2020 da Força Aérea que apresentou a idéia de “visão global” e o pronunciamento institucional que afirmou uma forma nova e virtual de entrada em combate na “presença global”, que se seguiria em uma perseguição acirrada.

Não é que a Força Aérea vá preencher todo o metassistema — uma construção orgânica de várias partes sendo construídas, testadas, usadas, refinadas, reutilizadas, trocadas e retiradas cada uma por sua vez. O que a Força Aérea tem de fazer é conceber sua arquitetura (e tudo o que isso implica: exigências, doutrinas, testes, protocolos e objetivos). Uma vez que isso tenha sido bem entendido, o metassistema se desenvolverá naturalmente — com a concepção da Força Aérea de ver do alto o fantasma na máquina. Guardar o metassistema é o aspecto de controlar e explorar o terreno elevado que diferencia a Força Aérea infosférica, de nova geração, de uma Força Aérea congelada do âmbar complacente de operações atmosféricas ligeiramente mais rápidas e ligeiramente mais stealth. Uma Força Aérea infosférica tem capacidades que bloqueiam todos os competidores e tornam suas forças aéreas e de superfície não competitivas com as nossas.

Uma força “armada” com informação, mas sem meios de convertê-la em poder de ataque, não tem sentido — desnecessário é dizê-lo. O melhor “OO” (observar, orientar) não é capaz de obviar a capacidade “DA” ( decidir, agir). O metassistema dá informações ao comando, não o substitui. Ainda são os operadores que mandam, e a Força Aérea terá sua parte a fazer no alto. No que se refere às armas, uma Força Aérea infosférica ainda precisa ser armada. Para o campo de batalha evanescente de amanhã podemos precisar de meios mais rápidos de transporte de energia, para que os alvos não desapareçam antes que a força energética possa dar-lhes combate. A Força Aérea de amanhã pode e deve prestar atenção aos seus operadores visionários, cientistas e engenheiros: buscar armamentos de combate em tempo real, que vão de feixes de laser a feixes de partículas neutras e microondas de alta potência concentradas. Sem dúvida, a necessidade de um acoplamento sensor-disparador mais rápido, consistente com a reificação da informação, exige que a Força Aérea fortaleça o seu comando sobre armamento estratégico (não exatamente nuclear), especialmente aquele que se relaciona intimamente com o próprio metassistema.

As Missões de Amanhã

Se uma das pernas da Força Aérea de amanhã é a condição de ser combinada, o perfil emergente da missão das forças armadas dos Estados Unidos é a outra perna. Os Estados Unidos separaram, da Guerra Fria, 4 missões duradouras: dissuasão estratégica, intervenção convencional no exterior, proteção às linhas de comunicação e dissuasão (por exemplo, os ataques aéreos contra a Líbia). Os estudiosos do novo caos freqüentemente acrescentam operações de paz e apoio a autoridades nacionais, mas nenhuma delas pode ser duradoura nem ter muita relevância para a Força Aérea (um dos partidos políticos não gosta delas e o outro não gosta de pagar por elas). A tecnologia e a necessidade hodierna de dissuadir e adiar as rivalidades com grandes potências indica que surgirão, no próximo quarto de século, três novas missões “antiguerra”, para usar a frase de Alvin e Heidi Toffler: o extenso domínio da informação, transparência global e defesa estratégica.

A tecnologia tanto permite quanto exige que o domínio da informação buscado pelos Estados Unidos seja estendido a seus amigos. Pondo de parte o “stealth” (difícil, caro, sempre incompleto), o espaço de batalha de amanhã será muito mais transparente do que o de hoje, para ambos os lados. Por quê? Todas as coisas criam uma assinatura de algum tipo — seja som, cor, rastro, pressão, movimento ou perturbações no ambiente geomagnético. Cada novo bit ilumina o espaço de batalha descobrindo o carro de combate no mato ou avião nas nuvens — e o número de bits por dólar tem dobrado a cada 20 meses, uma tendência que se manterá por pelo menos uma década. Quanto mais bits mais esclarecimento. Uma cobertura de bits suficientemente densa, por assim dizer, acresce as chances de que uma quantidade suficiente deles venha a corresponder a qualquer coisa que valha a pena identificar. Isso não é um fenômeno apenas militar. Sem dúvida, as forças mais poderosas para a geração e a disseminação da informação incluem o World Wide Web, câmaras de vídeo baratas e em grande número, satélites comerciais e veículos aéreos não-tripulados (UAV) de fabricação caseira. Precisamente quais capacidades vão aparecer quando, sempre pode ser objeto de debate, mas a tendência está estabelecida (e pode ainda ser acelerada por descobertas casuais aqui e no exterior). Estar presente é arriscar-se a ser percebido por uma ou outra fenomenologia. A revolução em guiar com precisão, que está chegando, significa que ser percebido é ser morto. Assim, caminhar de maneira perceptível é cortejar a morte. Pode ser que tudo isso favoreça ou não a defesa contra o ataque (mesmo levando em conta que o movimento cria mais assinaturas do que ocultar-se). Mas, definitivamente, isso favorece o lado que possa integrar os vários fluxos de informação em um quadro coerente do espaço de batalha, em vez de ficar com uma série oportunista de ocorrências isoladas.

Nesse ambiente, as plataformas de hoje simplesmente não podem passar despercebidas, quando estão a caminho ou quando entrarem em batalha nos combates mais importantes de amanhã. Esse fato, juntamente com a sensibilidade que o público tem para as baixas, sugere que enviar um número grande de jovens homens e mulheres para o exterior, para combater contra inimigos secundários (aqueles que não podem ameaçar diretamente os Estados Unidos), já não precisa ser a maneira pela qual as forças armadas trabalhem sempre. Cada vez mais freqüentemente, uma influência maior pode ser obtida dando a nossos aliados o poder de combater por eles próprios, especialmente quando ajudados por aplicações de energia de além do horizonte. Dar poder é a idéia central. Ao dizer aos nossos amigos a localização dos alvos inimigos dentro do campo de alcance do seu material mi- litar permite a eles defenderem-se contra adversários maiores que estejam presos a parâmetros de força antigos. Os meios pelos quais os amigos são assim dotados de mais poder são essas mesmas torrentes de bits que vão alimentar o metassistema, apenas, dessa vez, empacotadas para entrega, em vez de ingeridas organicamente — daí, a primeira missão de estender aos amigos a vantagem informacional de que desfrutam os Estados Unidos. Se eles deixarem de ser amigos, não podem mais beber dessa fonte de informação. Sem informação eles terão de lutar cegos e atados.

A missão de transparência global vem naturalmente em seguida. A dissuasão mais garantida para qualquer nação que aspire a ser uma grande potência hostil talvez seja o conhecimento certo de que está permanentemente sob observação. O poder dos Estados Unidos pode ser, como sustenta a Força Aérea, “presente globalmente”, mesmo quando ele parece estar fisicamente afastado. Quando os outros fizerem algo como abrir uma fábrica no deserto, pegar o telefone para convocar suas naves, colocar um carro de combate em caminho, lançar uma aeronave num sobrevôo dentro da floresta, em algum lugar, de alguma maneira, alguma parte do metassistema saberá — e pode alertar instantaneamente quem quer que melhor possa manter a coisa sob vigilância. Esse conhecimento nem sempre precisa ser convertido em entrada em batalha. Basta sua demonstração para dissuadir. Daí, a segunda nova missão das forças armadas: dotar o mundo instrumentado com grau de transparência tão alto que nenhum país possa nos desafiar ocultamente. O mal que se esconde por trás dos corações humanos pode se ocultar para sempre, mas não os meios de converter os pensamentos maus nas ações. Acrescente-se a isso o recurso instantâneo de desnudar a vontade na obtenção dos meios, e a vontade mal intencionada se tornará uma agravante, em vez de uma ameaça.

A terceira missão, a defesa estratégica, é conseqüência da segunda. Noventa por cento da tentativa de interromper a trajetória de um míssil balístico ou de cruzeiro é encontrá-lo. Para uma aeronave um míssil com Mach 25 é um borrão. Para um fóton, porém, ele pende no espaço. O mesmo metassistema que pode armar um aliado com informação e tornar o mundo inteiro transparente ao poder dos Estados Unidos, pode, também, varrer os céus, procurando ameaças no ar e no espaço, e enviar suas coordenadas para quaisquer métodos que sejam escolhidos para dar combate a eles.

Seria difícil imaginar três missões que favorecessem mais intrinsecamente a nova Força Aérea. Isso não significa que o Exército e a Marinha estejam ausentes — porque eles participam —, mas isso reflete a orientação e os mitos que sempre alimentaram a Força Aérea. Isso é verdadeiramente cosa nostra — “nossa coisa”. O princípio que domina essas idéias — sejam eles chamados de domínio do meio, visão do alto ou planejamento de campanha (a guerra como um problema solúvel de aplicação sistêmica de força para um fim específico) — são seguidores diretos da inspiração que encaminhou as gerações anteriores para a linha do vôo. Os que reconhecem uma mudança nas possibilidades e a empregam na guerra, observou Douhet, têm vantagens consideráveis sobre aqueles que esperam até que o poder da mudança transformacional seja usado contra eles. Note-se que nenhuma dessas novas missões tem nada a ver com o domínio humano do vôo. Isso é um problema de ontem — completamente resolvido. É tempo de que a Força Aérea, como primeira agência tecnológica dos Estados Unidos, se ponha em marcha.

Implicações de Uma
Força Aérea Infosférica

O teste de um princípio organizador está em quanto ele é capaz de informar as numerosas decisões que uma instituição tão complexa e tão vital como a Força Aérea dos Estados Unidos tem que tomar. A teoria original do poder aéreo fazia exatamente isso: dava à organização sua missão; punha a missão no contexto das outras Forças; sugeria como a missão poderia ser realizada; priorizava as tarefas dentro da missão; orientava a estratégia de aquisição (e, assim, apoiou a maior indústria de aviação do mundo); definia a essência de ser “da aeronáutica” e, assim, contribuía para a criação e a sustentação do poder aéreo. Hoje em dia, a Força Aérea luta com problemas existenciais aparentemente intratáveis. Se a concepção de hoje em dia deve ser mais do que palavras, tem de ser a base pela qual as questões de hoje são reexaminadas a uma nova luz — uma luz tão poderosa que faz visível o obscuro e, desse modo, transforma a crise aparente em uma autêntica oportunidade.

Uma concepção que não reflita os fatos arrisca-se a tornar-se pura ilusão. Não há melhor exemplo de que essa lei existe do que o atual programa F-22. Para a Força Aérea atmosférica o F-22 é algo que ela tem de ter — o próximo passo óbvio num encadeamento lógico de máquinas lustrosas. O F-22 continua a ser outro caça tripulado, de curto alcance, envenenado, embora um pouco mais stealth e sobrecarregado com mais silicone. Talvez o F-22 possa ser justificado com base numa avaliação fria dos seus custos — que, certamente, estão impedindo numerosos outros investimentos e, talvez, oportunidades (e num mundo onde todos os demais desistem de ir contra os nossos F-15, que fará contra os F-22). Talvez uma Força Aérea infosférica os comprasse. A concepção, enfim, é o começo da análise, não toda ela. Mas uma Força Aérea atmosférica não pode deixar de comprar os F-22, independente do que quer que seja que se soubesse a respeito da ameaça.

Quem quer que seja que deva manter o terreno elevado precisa dedicar-se a três atividades que serão ou têm de tornar-se a razão de ser das forças aéreas e espaciais: (1) operar militarmente em um mundo transparente, (2) compreender o espaço e (3) defender o território americano de ameaças aeroespaciais. Em conjunto, essas necessidades são fatos inescapáveis no futuro. São fatos, não problemas. Um fato é algo que não pode ser mudado. Os problemas surgem da ignorância ou da tentativa de se alterarem os fatos. As forças aéreas espaciais têm de concentrar-se nos fatos do futuro e usá-los de uma maneira vantajosa.

Em primeiro lugar, num espaço de batalha transparente, as coisas grandes deixam mais tipos de assinaturas do que as coisas pequenas. Encapsular um ser humano nos sistemas de sustentação da vida necessários para operar na atmosfera superior ou no espaço exige uma grande quantidade de peso e volume e, mesmo assim, esse esforço pode ser frustrado pelas enormes cargas “G” necessárias para a agilidade máxima. Tire-se o corpo humano da nacele e os veículos aéreos de combate podem dar um pulo para adiante. O esforço para colocar “dados vindos do espaço na nacele” pode ser redirecionado para contribuir para outras partes do metassistema de maneira mais eficaz. Os dados precisam ser levados para as ogivas de combates, não para seres humanos saturados de tarefas que também têm que se preocupar com se manterem no rumo, no nível, respirar, controlar a temperatura, urinar e — talvez mais importante — serem capturados e explorados. Removendo-se o ser humano, pequenos veículos, podem, rapidamente, tornar-se muito pequenos e muito, muito rápidos, e apresentar novos problemas para os defensores. Se os pilotos forem compreendidos como componentes processadores de informação — a tendência natural de uma Força Aérea infosférica — a alocação racional dessas funções ao carbono e ao silicone poderá continuar aceleradamente.

Os UAV põem bem à mostra algumas das dificuldades de uma Força Aérea atmosférica para o planejamento de força. Bastam os nomes dos modelos de hoje em dia — Hunter, Raptor, Talon, Predator, Dark Star e assim por diante — como pistas de que, mesmo não-tripulados, os UAV serão feitos para lutar em vez de, apenas, para observar. Sonhos de combates aéreos entre UAV se escondem sob a superfície. Custando vários milhões de dólares cada uma, as aeronaves têm de ser crescentemente bem protegidas (o que acrescenta dispositivos, o que aumenta o custo, o que...). Que estranho parecerá quando alguém decidir que um UAV de U$100.000 não apenas basta, mas custa menos que o míssil que seria necessário para atirar nele e destruí-lo. Uma revoada de UAVs descartáveis ocorreria muito mais rapidamente com uma Força Aérea infosférica do que a uma Força Aérea atmosférica.

Em segundo lugar, onde no espaço? Os que trabalham no espaço não podem ficar satisfeitos sem uma forma de emular os seus primos do combate aéreo. A despeito de qual seja a real importância do espaço para o combate aéreo e terrestre, as chances de que possa ser usado como uma arena de combate, em si e por si, são pequenas (e isto era verdade mesmo quando os soviéticos estavam por aqui). Já é bastante ruim que tais pressões alimentem as rodadas usuais de fantasias institucionais. Mas elas influenciam seriamente o tratamento dos viajantes no espaço no que se refere aos recursos espaciais de “qualquer outro”. A descoberta tardia de que nossas forças poderiam ser postas em perigo por informação obtida em aeronaves — Saddam Hussein poderia ter visto o “hook de esquerda” chegando, por meio de imagens colhidas do alto — dá origem a uma tarefa de atirar em aeronaves assim desde o céu.

Essa tarefa é problemática. Ela faz com que as pessoas neguem a inevitabilidade da transparência do espaço de batalha obtida desde o espaço, com o argumento desavisado de que poderemos eliminá-la — eliminá-la completamente — quando chegar a ocasião. Além disso, a despeito do simpático aspecto de cowboy intrínseco ao “atirar nos criminosos e pô-los fora do céu”, isso empurra as forças armadas para muito perto da doutrina operacional que, na prática, transformaria em alvo qualquer aeronave alienígena — o que talvez seja apropriado para uma terceira guerra mundial, mas não para uma contingência mais fraca. Um desafio do “casco negro-casco cinzento” que as marinhas desde há muito enfrentaram, raramente se resolveu com a determinação de afundar todos os navios. Com os satélites tão baratos “um simples de 3 metros poderá logo ser comprado por 50 milhões de dólares, sem perguntas” e fontes de terceiros tão onipresentes, bem que será quase impossível descobrir onde os bits estão sendo recolhidos, como estão sendo transferidos de satélite para satélite, ou, mesmo, por que porta ou comutador, no sistema global de telefone ou internet, são levados ao seu destino.

Em vez de se embelezar para uma batalha sem sentido, o Air Force Space Command deveria recolher seu manto de primeira força de informação do mundo. Virtualmente tudo que ele tem existe para favorecer a percepção do espaço de batalha, a conectividade e a inteligência estratégica. Entendido isso, o Space Command da Força Aérea estaria impondo os seus dados como o firmamento que dá sentido às tentativas de todos os outros sensores para desenhar o espaço de batalha. Trabalhando às ordens de uma Força Aérea infosférica, não seria preciso pedir isso ao comando duas vezes. No sentido oposto, um Space Command atmosférico, descartando sumariamente seu papel na informação, se arrisca a perder visão de cima para uma cacofonia de pequenos veículos dirigidos por controle remoto e baseados no solo, “pseudólitos” de grande altitude e sensores de terra. Esses seriam, todos, elementos interativos no metassistema, em vez de serem aquisições ocasionais, realizadas sem uma concepção ou arquitetura de metassistema.

A mesma coisa é verdade para a questão de aquisições para o espaço. Deve a Força Aérea buscar um veículo transatmosférico (TAV)? Se ela procurar colocar à frente deles um piloto, a questão se revela quixotesca; não há naquele meio densidade para executar os vôos elegantes de Hans Solo que o ar permite. Ainda assim, se o TAV for entendido como uma maneira radicalmente barata de colocar uma libra em órbita, abre uma grande variedade de horizontes, dos quais a proliferação da informação e a visão do alto não é o menor. Em terceiro lugar, a Força Aérea precisa tornar-se o maior especialista do planeta em enfrentar armas de destruição de massa, que costumavam a distinguir os profissionais da primeira divisão geoestratégica dos amadores dos clubes da segunda divisão. Com a proliferação, as armas de destruição de massa se tornam equalizadores estratégicos potencialmente disponíveis a qualquer naçãozinha, como apontou o General RR Larry D. Welch, da Força Aérea. Os mais baratos e mais insidiosos são os armamentos de destruição de informação de massa. Logo em seguida, estão os armamentos biológicos, capazes de ser lançados por veículos muito pequenos, capazes de iludir sensores. No exterior, eles tornarão os portos e as bases de estacionamento inúteis para um desdobramento, mas também podem pôr em risco o território americano. A ameaça poderia vir de um míssil balístico — um veículo benigno lançado no espaço modificado por uma vontade hostil — ou de um míssil de cruzeiro lançado de contêineres transportados por navio. A capacidade de alcançar o território americano pode ser de tal maneira um equalizador estratégico que os riscos de chantagem e ultimato cresçam à medida que as armas e os meios de fazê-las agir proliferem. Quem melhor para defender a pátria do que as pessoas que construíram o metassistema que nos alerta para uma vontade hostil atuando?

Algumas formas de defesa estratégica ativa precisam se tornar uma competência que as forças aeroespaciais procuram. O antigo Strategic Defense Initiative Office deu uma parte a cada Força. Com o desaparecimento dos soviéticos, a questão dura do “quem é realmente o encarregado?” pode e deve ser revista. As armas nucleares não são menos pavorosas, vistas nesse esquema diferente. Argumentar que uma ausência temporária de vontades hostis nos permite ignorar os meios hostis é esquecer o valor do planejamento de longo prazo em favor de uma programação para a ameaça do momento. O prospecto sombrio de um “competidor à altura” embora ainda não se tenha realizado, pode, a menos que o tenhamos presente em nossa mente, tornar-se um fato em 2015 ou 2025. Ignorar fatos, como eu disse, é um problema. Assim, a Força Aérea de amanhã precisa colocar-se na postura de comandar o “poder elevado” num sentido muito real. O terreno elevado é a “infosfera”, não a atmosfera ou o ar e o espaço. Ao metassistema de conhecimento do terreno elevado devem ser adicionados os recursos de força combinada para dar combate a qualquer coisa que o inimigo abaixo valorize.

O Homem da Aeronáutica
de Amanhã Redefinido

Para a redefinição da Força Aérea é central o que significa ser “da aeronáutica”. Na Segunda Guerra Mundial, uma grande percen-tagem de homens da aeronáutica estava submetida ao risco, como participantes de tripulações aéreas. A Força Aérea de hoje tem muito menos aeronaves, mas são muito mais eficientemente tripuladas. Além disso, não mais do que 1% dessas aeronaves podem estar no ar ao mesmo tempo. Sobre que base tão pequena de pilotos em perigo pode descansar a Força Aérea? Ainda assim, o que substituiria isso como autodefinição numa Força Aérea infosférica?

Como enfrentaram as outras forças exigências similares de mudança? O Exército, pesado, difícil de se mover, não tem outra escolha senão ficar com o modelo de combate “preparar-se para se preparar”, consistente com o ciclo tradicional de resposta inicial, armar, contra-ataque e consolidação. Talvez o Exército digitalizado converta carros de combate em simuladores interativos para “ensaio de missão virtual” durante o longo e lento movimento para “armar”— ou, talvez, a minimização da importância dos carros de combate pela transparência seja demasiadamente assustadora para se contemplar. De qualquer modo, a blindagem constitui a pele, em vez da alma do Exército. No coração dele está a sua autodefinição como a vontade do povo americano feita manifesta em força. Essa força, por sua vez, se manifesta por estar em cena — hoje, num contexto real, mas, ao longo do tempo, também, num contexto virtual. Os Fuzileiros Navais foram além do Exército no que se refere à redução do peso: os carros de combate são uma carga que uma força ligeira, letal e ágil talvez queira evitar. Eles caminharão para o futuro com uma autodefinição que colhe seu sentido do contexto caótico e complexo no qual seu trabalho se realiza. O fuzileiro naval é um ser humano transformado em um atirador transcendente. Um fuzileiro naval procura ser nada mais nada menos que um fuzileiro naval. De modo parecido, a Marinha compreenderá o que a transparência poderá fazer pela esquadra de superfície. Ainda assim, ela foi e continua a ser casada com o mar, antes que se casasse com qualquer instrumentalidade para dominá-lo. Dominar os mares e enfrentar os adversários “a partir do mar” não é necessariamente exercer poder em massa, mas exercer o discernimento com energia — o meio continua a ser a mensagem para a Marinha.

E para a Força Aérea? Habituada a ser o caprichoso e rebelde irmãozinho do Exército, a Força Aérea achou difícil mudar sem se prender ao instrumento que lhe deu sua independência. Então vieram os mísseis balísticos e a soldadura forçada do aero e do espacial. Será que a evolução maior em direção ao ciberes- paço — não se trata de nada mais do que isso — deve criar um escarcéu, embora isto seja absolutamente fiel à visão dos fundadores do poder aéreo? É claro. O aviador de combate é o último vestígio emocional da cavalaria, o produto da busca do combate um a um pelo guerreiro. Cultivamos um louco individualismo porque acreditamos, examinadas todas as coisas, que a guerra realmente significa LeMay ser superior a Khrushchev, ou Horner ser superior a Saddam. Uma Força Aérea atmosférica que procura ter as “coisas certas”, mas limita suas realizações a oficiais-aviadores arrisca-se a um cisma explorável entre suas várias comunidades — especialmente à medida que aqueles de nós em Nomex somos rodeados por “eles” em uniforme de campanha ou brancos hospitalares ou uniformes de escritório. Enquanto isso, os digitadores e os magos tecnológicos superam grandemente em número o que algum de nossos chefes parece crer que seja a pequena elite dos guerreiros “reais”. Uma Força Aérea infosférica é intrinsecamente baseada no trabalho de equipe inerente à construção do metassistema. Felizmente, o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea estabeleceu um novo curso: cooperação, trabalho de equipe e compreensão da Força Aérea como equipes dentro de equipes. Há uma base sólida sobre a qual construir.

O ápice da Força Aérea será sempre definido como os ases do meio, mas numa Força Aérea infosférica, o meio de ar pode dar lugar um pouco aos vários meios espaciais. A noção do ciberatleta atracado com as exigências dinâmicas do metassistema em tempo real ainda não está estabelecida. As pessoas que ficam olhando para a tela raramente têm que reagir em tempo real com o andamento da “Tek War”. Ainda assim, à medida que o metassistema se torna crescentemente integrado com sensores e armamentos, esse controle em tempo real se tornará crescentemente possível, e ninguém que tenha gasto qualquer tempo com qualquer dos mestres desse jogo pode duvidar da sua acuidade.

E se o risco define o ápice, considere que à medida que o poder de processamento cresce e o espectro permanece fixo, a habilidade de iluminar, comandar e controlar o espaço de batalha pode voltar a introduzir a essencialidade da presença física. O ciberguerreiro do amanhã, amarrado ao console, armado com a visão do alto, dedicado à continuidade da iluminação, correndo para o espaço de batalha tangível para construir, manter ou aprimorar as filigranas do metassistema, será a própria definição de graça sobre pressão.

Implicação Para os Papéis
e Missões

Essa transição, embora necessária e devida há algum tempo, não deve ser feita da noite para o dia. Deve ser planejada cuidadosamente e estruturada delicadamente. No interregno, alguém tem de continuar responsável por selecionar as soluções técnicas necessárias para cuidar da loja atmosférica. Isso já foi a Força. De maneira crescente, é o Joint Requirements Oversight Council que faz isso. Dentro da Força Aérea, uma inércia burocrática benéfica e uma afeição persistente pelo caça tripulado para obter a superioridade aérea fornecerão suficientes pesos e contrapesos contra uma mudança estonteante. Além disso, uma Força Aérea autônoma não é uma Força Aérea independente. O Congresso, o Estado-Maior Conjunto, numerosas agências e as outras Forças têm de concordar com qualquer nova autodefinição que a Força Aérea proponha. Os arquitetos e os construtores do metassistema têm de receber suas verbas da corporação de segurança nacional americana, que não pode perder a sua parte nas encomendas do mercado aeronáutico à medida que uma de suas divisões de produtos chega a uma nova compreensão do negócio em que se deve engajar. A mudança que propomos é mais fácil de debater do que implementar, mas isto é uma característica da mudança revolucionária — vide o aeroplano e o míssil balístico intercontinental. Assim, como devemos continuar?

Se a Força Aérea compreendesse a si própria como organizando-se não em torno da tecnologia de vôo que está envelhecendo, mas sim em torno da tecnologia nascente da visão do alto, ela poderia ser capaz de participar do contínuo debate de papéis e missões de uma maneira muito mais construtiva. Como qualquer firma esperta, jogaria fora missões de baixo nível de informação em favor das do alto nível de informação, fortaleceria sua competência central e se posicionaria a favor de uma vigorosa vida institucional no próximo século, ao mesmo tempo em que contribuiria para fortalecer a condição de forças combinadas sem arriscar sua própria identidade.

A corrente subdivisão das forças pelos meios em que atuam é problemática para a Força Aérea. Considere-se, por exemplo, qualquer missão dada. O primeiro passo em papéis e missões é designar a cada Força a responsabilidade pelas armas que emergem de seu meio particular: terra, mar ou ar. O passo dois, que enrola tudo, é argumentar que os sistemas que vêm de um meio são, certamente, superiores aos sistemas que vêm de outro. O prestígio da Força fica na linha de frente, em defesa de características técnicas que aparecem aleatori-amente diante do combate. Isto constrói uma burocracia litigiosa — não uma instituição. A Força Aérea, em virtude da necessidade de uma teoria antes que de um sentimento, como seu princípio organizador, inevitalmente põe em cheque sua coerência antes que seu fim todas as vezes que essa questão surge. O que deveria dizer a teoria a respeito da estratégia da Força Aérea para a atribuição de missões? Comecemos com a freqüentemente revista luta a respeito das “quatro forças aéreas” em geral — e do apoio aéreo aproximado em particular. Declarar que há apenas uma Força Aérea, quando três outras Forças também têm armas aéreas, é negar os fatos e alimentar um debate contínuo sempre que as brasas dos fatos são abanadas. Mesmo assim, “uma” Força Aérea atmosférica desdenha o uso de aero- naves em geral por qualquer outra força e — quando se dispõe a aceitar isso, guarda, cheia de ciúme, a missão do apoio aéreo aproximado, em particular. Assim a Força Aérea institucional se desincumbe dele, mas com muito pouco entusiasmo — usando as aeronaves erradas, sob a filosofia de comando errada e nem sequer aproximadamente tão depressa ou de uma maneira tão reativa quanto poderia, a despeito do valor dos seus guerreiros. Entrementes, a estrutura do Exército acaba com os mecanismos de coordenação que nunca são satisfatórios e, em conseqüência, põe todas as capacidades de que necessita em outra plataforma para missão — o helicóptero — já que a Força Aérea não lhe permite outra escolha. A resposta, para a Força Aérea, é óbvia: deixe partir essa missão e seu equipamento associado. Os Fuzileiros provaram que uma força de superfície pode prover seu próprio meio propelido a jato organicamente. O apoio aéreo aproximado é necessário, mas é um componente da guerra com baixo nível de informação — contribui muito pouco para a visão do alto e raramente tem efeito estratégico, se é que alguma vez o tem. Enquanto o Exército combater exércitos, o apoio aéreo aproximado será necessário. Mas em nenhum lugar está gravado na pedra que a Força Aérea tem que desempenhar essa responsabilidade.

Um debate semelhante refere-se aos mísseis de longo alcance, particularmente para a defesa aérea. Esses mísseis são um feudo do Exército nos Estados Unidos — freqüentemente contestado pela Força Aérea como uma intromissão indesejada no combate em profundidade. Aqui, a estratégia da Força Aérea deveria ser óbvia: busque os radares e o controle de fogo por comunicação computadorizada e deixe os mísseis para quem quer que queira arrastá-los para lá e para cá. Isso conserva a visão do alto sobre um espaço de batalha crescentemente não-linear e abre mão do gatilho. É verdade que essa separação é puramente ideal enquanto o controle de fogo e o processo de guiar estiverem intimamente conectados a mísseis específicos, mas esse acoplamento é, precisamente, a maneira errada de estabelecer a orientação dos mísseis no futuro. Por que não poderia um radar Pave Paws ou Aegis guiar um míssil Patriot tão bem quanto o radar Patriot pode guiá-lo? Em última análise, o metassistema informa os mecanismos de controle de fogo e a Força Aérea, se for esperta, será a primeira a reivindicar o metassistema como o núcleo da máquina de informação militar.

Os debates sobre papéis e missões hoje em dia parecem voltar-se para os últimos dias de fevereiro de 1991. Deixem que outros vençam por esse critério. Em vez disso, olhem para diante e reivindiquem com base no que se antecipa para 2015 ou 2025 — um espaço de batalha global rearrumando-se em termos de microssegundos. Daí para estender a reivindicação reconhecida da Força Aérea ao gerenciamento da defesa com mísseis táticos em batalha para ter alçada sobre todo o complexo de informação necessário para derrubar outro míssil é um pulo. O Exército, a Marinha e a Força Aérea já não devem ter três tratamentos mal coordenados — cada um atirando a partir do próprio meio. Novamente, uma Força Aérea atmosférica guarda ciumentamente sua reivindicação sobre a plataforma que atira enquanto uma Força Aérea ionosférica vai em busca do que é precioso.

Se a Força Aérea deseja brigar com as outras Forças em torno de plataformas, o modo de fazer isso não é perder tempo discutindo sobre o meio de uma ou de outra, mas reivindicar componentes ricos em informação: o Long-bow, o Guardrail, o Hawkey e — por que não, algum dia — o sistema de combate Aegis (e, sim, importa pouco quem realmente dirige os veículos em comparação a quem trabalha nos controles operacionais e nas arquiteturas). Uma Força Aérea infosférica pode também liderar na maturação de nossa compreensão das operações de informação. Uma Força Aérea infosférica compreende que A-2 (inteligência) e A-6 (computadores e comunicações) já não podem residir em suas pequenas chaminés separadas do A-3 (operações). A transição de uma Força Aérea atmosférica para uma Força Aérea infosférica também dará aos planejadores de longo prazo, em uma nova A-5, pelo menos 5 anos de trabalho, examinando todos os aspectos da Força e vendo onde ela cabe na nova estrutura.

Uma questão relacionada com essa diz respeito ao que a Força Aérea deveria manter como orgânico, em vez de expelir para o setor privado. Uma Força Aérea atmosférica mantém sua orientação baseada no ar, e o resultado — é redundante dizer — é a retenção de demasiada funcionalidade auxiliar, que tem muito mais enfermeiras que operadores, com cerca de 20% do total da Força Aérea para os profissionais de saúde. A capacidade dos militares para comandar forças amplas com um objetivo único de metas que se valorizam devem ser retidas. Ainda assim, uma Força Aérea infosférica perguntaria que elementos precisam ser militares para garantir a continuidade da informação e o comando das operações sob pressão. Ela reverá cuidadosamente a atual prática de ir buscar fora dela o auxílio técnico, sob pena de ser forçada a ir sem ele para o teatro de operações, à medida que os metassistemas são propelidos com a pressão do campo de batalha, composta por novas formas de guerra de informação.

Conclusões

Nós realmente esperamos que a mudança seja tortuosa e torturante. Também sabemos que “sem visão o povo perece”. A Força Aérea não está diante de uma encruzilhada, mas à beira de um abismo. Dedicar suas afeições, teoria e estrutura de força exclusivamente a aeronaves transportando massa para alvos é deslizar para o abismo. Apenas enfrentando o abismo é que a Força Aérea pode subir do outro lado. O atrativo da descida é familiar aos aviadores, lutando para manter o controle da força, mas assim foram o cavalo e a vela para as outras forças algum dia.

Haverá a Força Aérea de voar para diante, como Dédalo, ou de cair, como Ícaro? Se a insensatez for escolhida, estejam seguros de que ela será proclamada sabedoria. Ainda assim, a marcha inexorável da contingência leva a um dos dois resultados. O melhor resultado é chegarem os grupos divisores e fazerem em pedaços as missões da Força Aérea, deixando a instituição com um cerne decadente. O pior resultado é que a ideologia da atmosfera enfrente todos os desafios, impedindo que as pessoas vejam o futuro com a clareza que ele se apresenta — até que a Força Aérea desperte para achar a revolução firmemente segura pelos que pouco choraram por ela. De qualquer modo, se a Força Aérea fracassar — no fazer a nossa nação e aos aliados o favor de ter êxito — fica para os historiadores do próximo século descobrir a resposta a nossa pergunta final: por que a Força Aérea, tendo a escolha de viver em fama ou cair em chamas, como se diz no seu próprio hino, escolheu a queda e a morte?

O salto de uma Força Aérea atmosférica para uma Força Aérea infosférica é o próximo passo lógico, paradoxal que possa parecer. As forças aéreas sempre se beneficiaram da velocidade, do alcance, da liberdade de manobra e da vantagem que o seu meio oferece. Ainda assim, nada anda mais rápido que a informação. Nada impede as distâncias que o conhecimento pode alcançar. Nada faz movimentos mais inteligentes, econômicos e frutíferos do que a informação. E nada daria mais vantagem do que dá um metassistema. As soluções atmosféricas foram suficientes até que a tecnologia permitiu soluções múltiplas para qualquer meio. O metassistema, contudo, exige uma integração de componentes exoatmosféricos com aqueles que são dados pelo ar e pela superfície. Isso não é uma visão ou papel que o Exército, a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais estejam em posição natural para pleitear, embora eles possam reivindicar pedaços e partes dela, frustrando, dessa maneira, a reivindicação mais ampla. Essa é a oportunidade que a Força Aérea pode perder. Colocada de maneira apropriada, a questão já não se torna tanto “Qual é o futuro da Força Aérea?” mas “ Qual é a Força Aérea do futuro?”2

Notas

1. Veja-se Nicholas Negroponte, Being Digital (New York: Knopf, 1995).

2. Essas perguntas são paráfrases das perguntas de Alvin e Heidi Toffler a respeito de economia.


Colaboradores

Coronel Richard Szafranski

O Coronel Richard Szafranski (Bacharelado, Florida State University; Mestrado em Artes, Central Michigan University) é o primeiro titular da Cátedra de Estratégia Militar Nacional do Air War College, Base Aérea Maxwell, Alabama. Dentre outras funções desempenhadas pelo Cel Szafranski citam-se cargos de estado-maior no QG do Comando Aéreo Estratégico, Comando Espacial dos Estados Unidos, Comando de Defesa Aeroespacial Norte-Americano, bem como no Comando Espacial da Força Aérea. Comandou unidades de B-52 nos escalões esquadrão e grupo, tendo sido seu cargo mais recente o de comandante da 7a Ala de Bombardeio, Base Aérea Carswell, Texas, de 1991 a 1993. Também foi comandante da Base Aérea Peterson, no Colorado. Seus trabalhos sobre estratégia militar e arte operacional já foram publicados na Airpower Journal, Parameters, US Naval Institute Proceedings, Joint Forces Quarterly, Naval War College Review, Strategic Review e Military Review. O Cel Szafranski cursou a Escola de comando e Estado-Maior e a Air War College, ambas da USAF.
 

Dr. Martin C. Libicki

Dr. Martin C. Libicki (Bacharelado, Massachusetts Institute of Technology; Mestrado em Artes, University of California, Berkeley; Doutorado, University of California, Berkeley) é um membro graduado do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos (Universidade de Defesa Nacional). Serviu anteriormente no estado-maior da Marinha como gestor do programa de prontidão industrial e como analista de planos de ação da Divisão de Energia e Minerais do Escritório de Contabilidade Geral. O Dr. Libicki é autor de um grande número de publicações sobre o relacionamento entre tecnologia de informação e segurança nacional.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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