Document created: 01 Agosto 1997
ASPJ  Em Português 3° Trimestre 1997

VALORES CENTRAIS

ENQUADRAR E RESOLVER QUESTÕES
ÉTICAS NA FORÇA AÉREA

CORONEL CHARLES R. MYERS, USAF

OS VALORES CENTRAIS da Força Aérea dos Estados Unidos — integridade em primeiro lugar, serviço à Força antes de si próprio e excelência em tudo que fizermos — são surpreendentemente simples e vigorosos. Mas serão, por acaso, demasiadamente simples e demasiadamente vigorosos? Será que são tão simples, tão gerais, que podem significar qualquer coisa para qualquer pessoa? Se assim for, será que acabarão sendo apenas a palavra de ordem deste ano? Serão tão vigorosos, tão exigentes, que sejam irreais? Se assim for, será que eles levam à hipocrisia ou ao cinismo?

Perguntas desse tipo não são desarrazoadas — mas elas têm boas respostas e vale a pena dizê-las. Há muitos tratamentos bons para essas questões, mas penso que as distinções e os métodos da filosofia moral oferecem um caminho especialmente promissor para explicar o tremendo apelo e poder dos valores centrais da Força Aérea. Isto é o que eu tento aqui: uma explicação dos valores centrais da Força Aérea baseada nas estratégias do raciocínio moral. Descrevo, primeiro, possíveis mal-entendidos a respeito dos valores centrais. Em seguida, sustento que o pessoal da aeronáutica pode usar os valores centrais para enquadrar e resolver questões éticas, porque os valores centrais podem representar todas as dimensões da estrutura e do propósito da moralidade. Entendidos em termos de estrutura da moralidade, os valores centrais representam os conceitos nucleares que o pessoal da aeronáutica necessita para enquadrar as questões éticas. Entendidos em termos de propósito da moralidade, eles representam os valores que o pessoal da aeronáutica necessita para resolver essas questões.1

Mal-Entendidos a Respeito
dos Valores Centrais

Há diversas razões para pôr em dúvida os valores centrais. Nenhuma delas é irretorquível, mas é imperativo enfrentá-las face a face. Uma razão de ceticismo é que os valores centrais podem não ser permanentes. Poderiam ser uma moda. Organizações de todas as espécies — negócios, organizações de serviços e agências do governo federal, estadual e local — “abasteceram-se” da noção de valores centrais.2 Entretanto, os instrumentos de gerência mudam e os valores centrais podem, mais cedo ou mais tarde, ficar fora de moda.3 Se os valores centrais se tornarem fórmulas gastas, os líderes precisarão de novos instrumentos para promover o comportamento ético. Porém, mesmo que a moda dos valores centrais perdure por um pouco, será que os atuais valores centrais da Força Aérea são duradouros? Será que um outro secretário ou chefe de estado-maior não anunciarão novos valores centrais ou recuperarão os seis que a Força Aérea tinha antes que os três atuais fossem anunciados em 1995?

Perguntar se uma nova administração poderia enunciar novos valores centrais levanta uma questão mais geral: Em que base qualquer administração escolhe os valores centrais da Força Aérea? Como explicamos por que integridade, serviço à Força e excelência — e apenas esses três — sejam os valores centrais da Força Aérea? Não há dúvida que esses valo- res são de importância vital para qualquer organização ética. Mas por essa razão mesma, o pessoal da aeronáutica pode perguntar-se como esses valores distinguem a Força Aérea de outras organizações. Por que virtudes mili-tares como a coragem e a obediência não estão entre os valores centrais do pessoal da aeronáutica? E, em seguida, também, como deve a Força Aérea coordenar seus valores centrais com os de outras forças singulares e o resto do governo federal? Cada uma das forças singulares tem uma lista diferente de valores centrais.4 O Joints Ethics Regulation, que se descreve como “a única fonte de padrões de conduta ética e orientação ética”5 (grifei) para todo o Departamento de Defesa (DOD), tem sua própria lista de valores éticos.6 Essa variedade de valores bem dentro do DOD poderia levar algumas pessoas a concluir que qualquer conjunto de valores é tão bom quanto outro.

Uma questão mais perturbadora a respeito dos valores centrais é se eles são irreais — tão irreais que sejam irrelevantes na prática ou, ainda pior, resultem em hipocrisia. Não é, exatamente, que os valores possam parecer abstratos demais para ter significado ou difíceis demais para serem alcançados no mundo real. Em vez disso, literalmente, eles parecem impossíveis de serem atingidos. Integridade, pelo menos se entendida como simples honestidade, pode parecer fácil — é só dizer a verdade. Mas se entendemos alguma coisa acerca da falibilidade humana, ninguém pode ser completamente sem malícia, consigo próprio e com os outros, todo tempo. De maneira semelhante, ninguém pode ser completamente despido de egoísmo todo tempo. Na verdade, acontece freqüentemente que quanto menos os membros das forças armadas pensem em si próprios, maior a probabilidade eles tenham de ter êxito e, assim, colocar o serviço à Força antes de si próprio poderia, até, tornar-se uma espécie de egoísmo. E ninguém pode ser excelente em todas as coisas. Considerando-se as limitações humanas, alcançamos excelência em algumas áreas concentrando-nos nelas, enquanto aceitamos a mediocridade em outras. Assim, parece que, mais cedo ou mais tarde, todos deixarão de alcançar o padrão “zero defeitos” que a integridade, serviço à Força, e a excelência parecem exigir. Se parece inevitável que o pessoal da aeronáutica — inclusive os chefes da Força Aérea — não esteja à altura desses princípios impossíveis, por serem tão elevados, que disso resulte o cinismo e a hipocrisia não é apenas inevitável? Proclamar que a Força Aérea responsabiliza as pessoas por rupturas com esses valores, aparentemente irreais, só pode exacerbar o cinismo e a hipocrisia.

A questão mais séria a respeito dos valores centrais é se eles podem permitir ou, mesmo, promover a imoralidade. Uma pessoa pode ser rigorosamente honesta, esquecer de si e alcançar excelentes resultados — tudo para alcançar propósitos nocivos. Os líderes nazistas esperavam que seus oficiais relatassem de maneira rigorosa as minúcias dos seus crimes contra a humanidade. Em obediência a ordens para cometer esses crimes, os nazistas, de boa vontade, colocavam o serviço antes de si próprios. Sem dúvida eles sacrificaram suas almas fazendo isso. E os nazistas constantemente buscavam maneiras mais eficientes de excelência na execução de suas atrocidades.7 Integridade, serviço à Força, e excelência, por si próprios, não parecem ser uma garantia da moralidade. Ao contrário, se reduzem a moralidade a um relatório verdadeiro, a trabalhar de forma desprendida e obter excelentes resultados, os valores centrais mascararão problemas éticos fundamentais. Alguém na aeronáutica, com a mente concentrada em praticar a honestidade, o trabalho desprendido e alcançar excelentes resultados, poderia deixar de perguntar-se para que são esses valores. Poderia, com a mesma facilidade, servir a um regime imoral e sem lei e a uma democracia moral cumpridora da lei. O pessoal da aeronáutica, cujos valores sejam simplesmente dizer a verdade, seguir ordens a qualquer custo e desempenhar bem suas missões, e nada mais, poderia não estabelecer uma distinção ética entre as duas situações. Vistos dessa forma, os valores centrais poderiam tornar-se meios para um fim perverso.8 Mas todas essas dúvidas são equívocos e mostra-se o porquê ao comparar os valores centrais com a estrutura e o propósito da moralidade.

A Estrutura da Moralidade
e os Valores Centrais

A estrutura da moralidade, como eu entendo, tem três dimensões — o agente, o ato e o resultado. As estratégias para enquadrar as questões éticas se alinham nessas três dimensões. Essa seção primeiro esboça a estrutura da moralidade e, em seguida, descreve uma estratégia de raciocínio moral baseada em cada uma de suas dimensões e mostra como essa estratégia se refere diretamente a um dos valores centrais da Força Aérea. O resultado é mostrar que os valores centrais indicam ao pessoal da aeronáutica todas as espécies de estratégia que existem para enquadrar questões morais — e isto demonstra a abrangência dos valores centrais.9 Finalmente, uso essa análise para responder às objeções de que os valores centrais poderiam ser apenas palavras de ordem transitória e que não sejam especificamente apropriados para a Força Aérea.

Agente, Ato e Resultado em Moralidade

A experiência moral é freqüentemente densa, complexa, mas sua estrutura é simples. Tudo na moralidade diz respeito a pessoas fazendo coisas que afetam outras pessoas. A estrutura da moralidade é simplesmente: alguém fazendo alguma coisa para alguém. As três dimensões de qualquer questão ética são, assim, (1) a pessoa que faz, (2) a coisa que a pessoa faz e (3) o resultado desse ato para alguém. Em casos específicos as linhas que dividem essas dimensões serão esbatidas, porque as três dimensões são inextricavelmente conexas umas com as outras. Uma pessoa age, mas seus atos, por sua vez, ajudam a definir quem é a pessoa. Os atos produzem resultados, mas os atos, em parte, são definidos por seus resultados. E os resultados afetam as pessoas, mas são essas pessoas que dizem o que os resultados significam, para si próprias e para os outros. Não obstante, pode-se discernir essas três dimensões — agente, ato e resultado — em todas as ações éticas. Elas representam a lógica, ou a gramática, do raciocínio moral — o sujeito, o verbo e o objeto.

Os valores centrais, porque podem ser alinhados com essas dimensões, produzem um poderoso enquadramento do raciocínio moral. Como mostra a análise subseqüente, cada um dos valores centrais corresponde a uma dessas dimensões. A integridade diz respeito à pessoa que age — o agente. O serviço diz respeito ao que a pessoa faz — os atos da pessoa. E a excelência diz respeito a que atos produz — o resultado. Desse modo, os valores centrais podem descrever completamente qualquer situação moral e, desse modo, oferecer um plano completo para o enquadramento das questões éticas.

Integridade: Agente. Na estrutura da moralidade como “alguém fazendo alguma coisa para alguém”, a primeira dimensão é aquele que age. As teorias da moralidade se referem a essa pessoa como “o agente moral”. O agente moral pode ser um indivíduo — por exemplo, alguém da aeronáutica cumprindo ordens. Ou, o agente moral pode ser um grupo — por exemplo, o estado-maior de uma organização da Força Aérea trabalhando em conjunto, como uma equipe. O agente moral pode ser responsável diretamente — a tripulação que lança a arma contra o alvo. Ou pode agir em apoio a outros — a equipagem de terra que prepara a missão.

O agente moral é o foco de uma das estratégias de enquadramento das questões éticas. As teorias concentradas no agente mapeiam as características significativas do terreno moral exigindo-nos perguntar como deve ser o agente moral. Essas teorias enfatizam que, em ética, assim como em direito, muita coisa depende dos motivos e das intenções do agente. Para essa estratégia de raciocínio moral, importa, por exemplo, se o motivo da pessoa da aeronáutica para relatar sinceramente os resultados de uma missão é um sentido de dever ou o temor da punição se for apanhada mentindo. É típico dessas teorias, na verdade, que as intenções do agente importem mais do que aquilo que ele, de fato, realiza.10 O valor moral, dependeria, por exemplo, mais do fato de que uma tripulação lutou para resgatar um aviador caído do que se geralmente tiveram êxito em fazê-lo. As intenções do agente também podem ser invocadas para justificar resultados que, de outra forma, seriam perturbadores. Por exemplo, sob o princípio do “duplo efeito” e sujeitos a certas condições de tensão, o aviador que mata ou fere não-combatentes ao atacar um alvo estaria justificado moralmente desde que ele não fizesse isso com intenção de ferir os não-combatentes — mesmo que pudesse prever esse dano.

As teorias concentradas no agente também perguntam pelo caráter moral dele. Sem dúvida, essas teorias, freqüentemente, adotam a posição de que o motivo e a intenção têm de ser colocados no contexto de questões mais gerais a respeito da espécie de gente que o agente seja. Elas perguntam o que torna uma pessoa moralmente boa ou má. Por exemplo, mentir e escravizar são errados porque, necessariamente, corrompem o caráter moral do mentiroso e do escravagista. As teorias concentradas no agente estudam o caráter em geral e traços particulares de caráter chamados “virtudes” e “vícios”. As teorias do caráter e da virtude perguntam o que são as virtudes e como as aprendemos e as ensinamos. A filosofia ocidental tem suas origens nessas questões. Sócrates praticou sua crença de que “a vida que não se investiga não vale a pena viver” propondo questões investigadoras a respeito da coragem, da justiça e de outras virtudes.11 A ética de Aristóteles também se concentra nas virtudes, proclamando que as virtudes morais são hábitos adquiridos através da prática, encontrando-se a média entre extremos.12 As beatitudes, também, representam esse tipo de tratamento. E o fazem segundo um tratamento que tem um lugar influente na filosofia moral contemporânea, acadêmica e popular — o que é claro a partir do sucesso do best seller Book of Virtues.13 O tratamento do raciocínio moral concentrado no agente é indispensável para o pessoal da aeronáutica na hora de enquadrar as questões morais — e eles se sentem muito bem com isso, por causa do seu forte senso de honra pessoal.

O valor central da “integridade em primeiro lugar” aponta diretamente para o agente moral — para o caráter da gente da aeronáutica. A integridade caracteriza o agente moral. Falamos a respeito de integridade como algo que a gente da aeronáutica tem, como um traço de caráter que o agente moral tem, em um ou outro grau. Quando falamos da integridade do agente moral, referimo-nos não apenas à sua tendência para honestidade, mas, de uma maneira mais geral, à espécie de pessoa que ele ou ela é, e os motivos e intenções que lhe são importantes. Sem dúvida, a integridade não é apenas mais um traço de caráter. A integridade define o agente. Como mostra a etimologia da palavra, a integridade é “integral” para o agente moral. É a integridade que “integra” todos os traços morais da pessoa. A integridade do pessoal da aeronáutica é o seu caráter. Destacar a integridade como um valor central torna o caráter crucial para o raciocínio moral na Força Aérea. Ao enquadrar questões morais, não basta para o pessoal da aeronáutica perguntar a respeito de atos e resultados. Eles precisam, também, considerar seu próprio caráter, a espécie de pessoas que devem ser. Têm de perguntar-se o que a sua integridade exige e como seus atos afetarão sua integridade.

Serviço à Força: o Ato. A estrutura da moralidade como “alguém fazendo alguma coisa para alguém”, a segunda dimensão é o “fazendo alguma coisa”. Podemos nos referir a essa dimensão como “o ato moral”. Ele pode ser ativo ou passivo, uma ação ou uma omissão. Pode fazer com que algo aconteça — um aviador ataca e destrói o alvo — ou, pode permitir que alguma coisa aconteça — por exemplo, os chefes permitem que um acidente ocorra ao serem incapazes de controlar um piloto conhecido por voar de maneira insegura.

Do mesmo modo que o agente moral, o ato moral também fornece um ponto focal para uma estratégia de enquadramento de questões éticas. E, do mesmo modo que as teorias concentradas no agente, as teorias morais concentradas no ato esboçam características significativas do terreno moral. Elas nos exigem perguntar que atos devem ser praticados ou que atos não devem ser praticados. As teorias concentradas no ato perguntam, isso sim, se o ato em si é certo ou errado. Essas teorias sustentam que certos atos são moralmente corretos ou errados, independentemente das intenções do agente, das conseqüências do ato, ou de quaisquer outras circunstâncias. Para essas teorias, mentir e escravizar são coisas intrinsecamente erradas, independente-mente dos motivos ou das conseqüências. Nesse tratamento da questão, um ato moralmente exigido é exigível, mesmo se nenhum benefício específico resultará, e um ato moralmente proibido é proibido, mesmo que resulte em pouco dano. Segundo essa linha de raciocínio moral, é, simplesmente, errado para alguém da aeronáutica não preencher um item de uma lista de verificação — mesmo se o aviador sabe que a omissão não resultaria num acidente ou em qualquer outra conseqüência danosa. Assim, as teorias morais concentradas no ato são, geralmente, “deontológicas”, porque avaliam atos, bem como pessoas e resultados, em termos de dever. O agente moral tem o dever de realizar atos moralmente exigidos e um dever de não cometer atos moralmente proibidos. Esse modo costumeiro e poderoso de pensar a respeito da moralidade é tão antigo quanto os 10 mandamentos. O “imperativo categórico” de Immanuel Kant é a filosofia do dever melhor conhecida e mais poderosa.14 O pessoal da aeronáutica entende que o tratamento do raciocínio moral concentrado no ato é tão indispensável no enquadramento das questões morais, quanto o tratamento concentrado no agente, por causa de seu forte senso do dever pelo dever.

O valor central do “serviço à Força antes de si próprio” aponta diretamente para o ato moral — para o dever do pessoal da aeronáutica. O serviço à Força descreve o que faz o agente moral. O serviço é um ato que se pratica sob a direção e a jurisdição de um superior. É um ato que se faz por um dever que se tem perante um superior, sem consideração pelos interesses pessoais do agente. O superior, por ordem de quem o homem da aeronáutica realiza um dever, é alguém que está na cadeia de comando e alguém a quem esse homem deve obediência. Em termos mais gerais, contudo, o superior a quem o homem da aeronáutica serve é também a organização — a Força Aérea como um todo — e a Nação. De uma maneira ainda mais geral, o superior é, simplesmente, o próprio dever. Servir é realizar um ato moral apenas pelo dever. Desse modo, servir não é apenas uma característica que o ato moral deve ter. É a característica definidora do ato moral, entendido como dever. Identificar o serviço à força como um valor central faz que o ato moral — o dever do agente moral — seja crucial para o raciocínio moral na Força Aérea. Para enquadrar questões morais, não basta, para o pessoal da aeronáutica, considerar sua própria integridade ou os resultados de seus atos. Eles precisam perguntar quais são os seus deveres morais diante das circunstâncias; que atos são moralmente certos ou errados. Precisam perguntar-se, isso sim, o que a Força exige deles.

Excelência: o Resultado. Na estrutura da moralidade como “alguém fazendo alguma coisa para alguém”, a terceira dimensão é aquele que é afetado pelo ato do agente moral. Este pode ser uma pessoa ou um grupo de pessoas, e pode ser, ou incluir, o próprio agente moral.15 Podemos nos referir aos efeitos do ato do agente moral como “o resultado moral”. O resultado moral inclui as conseqüências imediatas e as conseqüências de longo prazo de um ato, as conseqüências diretas e as conseqüências indiretas, e as conseqüências desejadas e as conseqüências indesejadas. É, por exemplo, a neutralização de um alvo atacado por um aviador, a contribuição dessa surtida para a estratégia toda, e os danos colaterais não-intencionais causados pelo ataque. O resultado moral é, simplesmente, o que acontece às pessoas por causa do ato do agente moral.

Do mesmo modo que o agente moral e o ato moral, o resultado moral também é ponto focal de uma estratégia para enquadrar questões éticas. As teorias morais concentradas no resultado mapeiam características significativas do terreno moral perguntando que resultados devem ser obtidos e que resultados devem ser evitados. Essas teorias consideram se as conseqüências de um ato são ou não desejáveis moralmente e, assim, essas teorias calibram a validade moral segundo o que um ato realiza em termos de benefícios e danos reais a pessoas. De acordo com essas teorias, certos resultados — a geral felicidade humana, por exemplo — são moralmente mais desejáveis do que outros. A validade moral depende mais de alcançar esses resultados do que das intenções do agente ou da moralidade dos meios que foram utilizados para produzir o resultado. Nesse tratamento, mentir e escravizar são errados porque o dano que eles causam supera os benefícios que produzem. As teorias focalizadas no resultado são tipicamente “utilitá-rias”, porque avaliam o caráter e os atos com referência a sua utilidade para alcançar resultados moralmente desejáveis. Algumas variantes desse tratamento sustentam que o que realmente importa não é o resultado de um ato particular, mas, antes, o resultado de seguir a regra que prescreve esse ato. Em qualquer caso, porém, ainda é a “meta” que conta. Essa é uma maneira persuasiva de pensar a respeito da moralidade. Numerosas pessoas acham difícil avaliar traços de caráter ou atos, a não ser em termos de conseqüências no mundo real desses traços de caráter e atos. O “princípio de máxima felicidade”, de John Stuart Mill — que os atos são corretos na medida que maximizam a felicidade — é a versão clássica da teoria que se concentra nos resultados.16 O tratamento do raciocínio moral concentrado nos resultados é tão atrativo para o pessoal da aeronáutica — e tão efetivo para eles —, no enquadramento de questões morais, quanto os tratamentos concentrados no ato e concentrados no agente, por causa do seu forte senso de missão e de fazer com que o trabalho que deva ser feito o seja. O valor moral da “excelência em tudo que fazemos” aponta diretamente para o resultado moral — a missão do homem da aeronáutica. Do mesmo modo que a integridade caracteriza o agente moral e que o serviço à Força caracteriza o ato moral, a excelência caracteriza o resultado moral. Na medida em que a responsabilidade moral da pessoa é otimizar os resultados moralmente desejáveis, a excelência é o resultado exigido moralmente. Desse modo, a excelência não é, apenas, mais uma característica do que a pessoa faz. É a característica definidora do resultado moralmente esperado. Descreve um nível de êxito que se espera do agente moral ao produzir um resultado — e, para o pessoal da aeronáutica, o que importa é a missão. A excelência é produzir resultados excelentes ao desempenhar a missão. Identificar a excelência como um valor moral torna o resultado moral — o resultado que o pessoal da aeronáutica alcança — crucial para o raciocínio moral na Força Aérea. Ao enquadrar as questões morais, não basta, para o pessoal da aeronáutica, considerar suas qualidades e seus deveres. Precisam, também, considerar os resultados que se espera, moralmente, que eles alcancem ao fazer seu trabalho. Eles devem perguntar-se, isso sim, como realizar sua missão com excelência.

Os Valores Centrais como Quadro
do Raciocínio Moral

Entendido em termos da estrutura da moralidade “alguém fazendo alguma coisa para alguém”, os valores centrais formam um quadro abrangente para o raciocínio moral. Todos esses valores centrais, e apenas esses três, são necessários para enquadrar as questões morais. Eles são um mapa de qualquer situação em que o pessoal da aeronáutica planeja o que fazer, leva a efeito a operação ou tira “lições do acontecido”. A integridade, o serviço à Força e a excelência denominam e conjugam todas as dimensões da estrutura da moralidade — agente, ato e dever. Assim, podem, de fato, pôr em ação todas as estratégias de raciocínio moral.

Isso explica por que o pessoal da aeronáutica precisa ter em vista todos esses três valores sempre. O agente, o ato e o resultado estão inseparavelmente atados. Numerosos erros nas teorias éticas e no raciocínio moral prático resultam de se reduzir toda a moralidade a uma única dimensão, e proclamar que essa dimensão é o fundamento de toda moralidade.17 Algumas teorias concentradas no agente tentam reduzir o ato e o resultado a aspectos do caráter. Uma formação narcisista no caráter, porém, levará alguns a escusarem-se ao cumprimento de regras morais. Poderiam raciocinar: “sou uma pessoa íntegra e, assim, por definição, estou certo, e as regras de que os outros necessitam para distinguir o certo do errado não se aplicam a mim”. Algumas teorias concentradas no ato desvalorizam o caráter e as conseqüências, insistindo em que só há validade moral em fazer a coisa certa. Mas um senso de dever que é limitado a obedecer, sem pensar, às leis da Força Aérea rapidamente desviará o pessoal da aeronáutica do desenvolvimento do caráter e de encontrar modos de aprimorar as práticas da Força Aérea. De maneira parecida, alguma teorias concentradas no resultado vêem pouco valor no caráter ou nos atos morais, exceto na medida em que eles produzem resultados. Há alguma razão para recear que o sistema de avaliação dos oficiais e subalternos da Força Aérea possam contribuir para esse erro. Concentrando-se quase que exclusivamente no “impacto da missão” e no “desempenho”, os relatórios de desempenho podem levar o pessoal da aeronáutica a valorizar insuficientemente o caráter e pensar pouco nos meios que usam para alcançar o impacto da missão. Os valores centrais podem evitar todos esses erros. O quadro dado por integridade, serviço à Força e excelência permite — sem dúvida, exige — que o pessoal da aeronáutica conserve o equilíbrio da estrutura da moralidade completa — agente, ato e resultado.

É por essa razão que os valores centrais da Força Aérea, entendidos como um quadro geral para o raciocínio moral, não podem ser um programa de gerência de curta duração. Qualquer plano de raciocínio moral, na Força Aérea ou fora dela, — parecerá um pouco com os valores centrais da Força Aérea, se levar em conta toda a moralidade. Os estilos gerenciais vêm e vão (e, no que diz respeito a isso, as teorias éticas também). Mas a estrutura da moralidade e as estratégias do raciocínio moral que se baseiam nela, não. A Força Aérea poderia chamar as peças desse quadro geral por outros nomes que não “valores centrais”. Poderia usar diferentes etiquetas para seus valores centrais — “honra”, “dever”, e “pátria” por exemplo, são praticamente a mesma coisa.18 Quaisquer que sejam as etiquetas que a Força Aérea use, porém, haverá esse quadro geral tripartite de “valores” que estão no “centro” do pensar questões éticas. Alguns dos homens da aeronáutica podem questionar se os valores centrais da organização são um modismo gerencial, mas, porque os valores centrais da Força Aérea expressam toda estrutura da moralidade, têm todas as razões para dedicarem-se a eles.

Tomar os valores centrais como o quadro geral do raciocínio moral responde, também, à dúvida de se os valores centrais são ou não particularmente apropriados à Força Aérea ou a profissionais militares. Como um quadro geral refletindo a estrutura da moralidade, os valores centrais não são exclusivos da Força Aérea — nem pretendem ser. Todos poderiam tomá-los como plano de raciocínio moral com proveito. São as “competências centrais” da Força Aérea que descrevem sua singular fortaleza. Os valores centrais mostram ao pessoal da aeronáutica como desenvolver-se e empregar essas competências eticamente. Refletindo o domínio completo da moralidade, os valo-res centrais são apropriados para o pessoal da aeronáutica de uma nação ao prepararem-se para as guerras, combater nelas e vencer, de maneira legal e ética.

Outro modo de dizer isso é afirmar que é o pessoal da aeronáutica que torna os valores centrais apropriados para a Força Aérea. Os valores centrais da Força Aérea definem o pessoal da aeronáutica. A integridade define quem o pessoal da aeronáutica deve ser; o serviço à Força define o que essa pessoa deve fazer e a excelência define o que ela deve conseguir. Isso é, apenas, metade da história: o pessoal da aeronáutica também define os valores centrais. Os valores centrais não enquadram, por si próprios, as questões éticas. São os homens da aeronáutica que o fazem, usando os valores centrais. Em numerosos casos, o pessoal da aeronáutica faz face a exigências éticas múltiplas. As mais difíceis escolhas éticas que o pessoal da aeronáutica enfrenta não é distinguir o certo do errado. O pessoal da aeronáutica sabe a diferença entre o certo e o errado. Os desafios éticos mais duros são equilibrar valores complementares e, às vezes, competitivos.19 É, freqüentemente, um desafio equilibrar exigências de ser uma pessoa moralmente boa e praticar atos moralmente corretos para alcançar resultados moralmente desejáveis. Isto é assim para qualquer pessoa, mas particularmente verdadeiro para o pessoal da aeronáutica na “névoa” e no “atrito” de preparar-se para a guerra e combater nela. O pessoal da aeronáutica tem de usar os valores centrais para colocar essas exigências complementares em equilíbrio, para eles e para a Força Aérea. Nesse sentido, o pessoal da aeronáutica, ao executar a missão da Força Aérea para a nação, preenche as definições dos valores centrais e os transforma em valores militares e valores da Força Aérea. Eles o fazem discutindo os valores centrais, usando os valores centrais para guiar seu processo de tomada de decisão e colocando em ação os valores centrais. No final, é o homem da aeronáutica que mostra o que integridade, serviço à Força e excelência realmente significam na Força Aérea.

Mas como, exatamente, pode o pessoal da aeronáutica usar os valores centrais não apenas para enquadrar questões éticas, mas, também, para resolvê-las e levar a efeito suas decisões? Tomar os valores centrais como quadro geral do raciocínio moral, afasta as dúvidas de que os valores centrais sejam apenas palavras de ordem efêmera não totalmente apropriadas para as forças armadas. Essa análise, porém, ainda não tratou da questão de saber se os valores centrais são irreais e não funcionarão no mundo real. Nem mostrou ainda que os valores centrais não podem, na prática, tornar-se bons meios para maus fins. Para fazer isso, é necessário mostrar como os valores centrais resolvem questões éticas. E para fazer isso, é necessário distinguir não apenas a estrutura da moralidade, mas, também, as dimensões de seu propósito. Enquanto a estrutura da moralidade é o núcleo do raciocínio moral, o propósito da moralidade fornece valores para o raciocínio moral.

O Propósito da Moralidade
e os Valores Centrais

O propósito da moralidade, como eu o entendo, tem duas dimensões — normativa e inspiradora. Os valores para resolver as questões éticas se alinham ao longo dessas duas dimensões. Nesta seção, resumo essas duas dimensões e, em seguida, mostro como cada um dos valores centrais da Força Aérea representa tanto uma norma quanto uma inspiração. O resultado é mostrar que os valores centrais apontam padrões ideais para o homem da aeronáutica, e que isso é responsável pela coerência deles.20 Isso responde às objeções de que os valores centrais sejam irreais e que poderiam tornar-se bons meios para maus fins.

Moralidade Como Norma e Inspiração

O propósito da moralidade é mostrar-nos como atingir as metas da vida moral. Todos os empreendimentos humanos, inclusive a moralidade, tem meios e fins. Freqüentemente, a linha entre os dois fica esmaecida e o fim de uma atividade é, geralmente, o meio da outra. Entretanto o padrão básico é: todas as atividades lançam mão de seus meios para atingir seus fins.21 O propósito de qualquer empresa humana tem duas dimensões: (1) os instrumentos ou meios que ele determina para alcançar metas e (2) as metas ou finalidades. O atleta alcança a meta jogando o jogo bem e vencendo, usando os instrumentos do esporte — seguindo as regras do jogo e explorando suas técnicas e táticas. O estrategista militar alcança a meta da vitória militar e a paz usando os instrumentos da guerra — seguindo as regras que governam a tecnologia, os princípios, as leis e a moralidade da guerra. Em todas as atividades humanas, os praticantes seguem as regras da atividade — não apenas por segui-las, mas para alcançar os objetivos da atividade. A empresa de levar uma vida moral tem essas mesmas duas dimensões. A moralidade tem papéis diversificados e complexos, mas seu propósito é exatamente determinar os meios e fins para uma vida moral. Se a estrutura da moralidade é alguém fazer alguma coisa para alguém, seu propósito é determinar os meios e os fins para fazer isso de maneira moral.

Os meios da moralidade são os padrões morais que nos governam e seus fins são os ideais morais que nos inspiram. A moralidade é um sistema de obrigações e, também, uma fonte de aspirações, e os valores centrais da Força Aérea são melhor compreendidos como representando a ambos. Exatamente como os valores centrais exigem que o pessoal da aeronáutica leve em conta todas as três dimensões da estrutura da moralidade, eles também devem ser entendidos como apontando ambas as dimensões do propósito da moralidade ao pessoal da aeronáutica.

A primeira dimensão do propósito da moralidade é a normativa. A moralidade faz isso através de padrões que impõem obrigações morais. Os padrões prescrevem o que é moralmente proibido, permitido, ou seja: os traços de caráter, os atos e os resultados exigidos. O pessoal da aeronáutica acha esses padrões expressos nos seus estatutos, regulamentos, diretrizes e costumes — e nos seus valores centrais. É obrigatório que os padrões mantenham a eficiência militar e a boa ordem e disciplina exigidas para desempenhar os papéis das forças armadas. Em virtude do papel crucial que as forças armadas desempenham na segurança nacional, os padrões, para o pessoal da aeronáutica, são mais exigentes do que os que vigem fora das forças armadas. Por exemplo, pode ser impróprio para outros chegar ao trabalho atrasados ou serem grosseiros, mas, para um militar, é tanto uma ofensa à moralidade quanto uma violação criminosa atrasar-se ou ser desrespeitoso. Os padrões morais se expressam tipicamente em normas, e numerosas dessas normas impõem penalidade por sua violação. Entretanto, quer um padrão moral esteja formalizado numa norma punitiva, quer não, sua violação é imoral e o homem da aeronáutica pode ser responsabilizado pela violação. Ao desempenharem a função ativa da moralidade, os valores morais representam padrões que o pessoal da aeronáutica precisa seguir e aos quais precisa responder.

A segunda dimensão do propósito da moralidade é a inspiradora. A moralidade faz isso mediante ideais que nos dão aspirações morais. Se os padrões morais são as “regras do jogo”, que devemos seguir, os ideais morais são as metas de “jogar o jogo bem e vencer”. Os ideais morais retratam os traços de caráter, os atos e as realizações aos quais podemos aspirar. Para o pessoal da aeronáutica esses ideais estão implícitos em seus estatutos, regulamentos, diretrizes e costumes. As pessoas os encontram, também, nos exemplos dados por seus heróis morais e por seus mentores. E os encontram nos valores centrais. Esse ideais mostram ao pessoal da aeronáutica como usar a eficiência militar e a boa ordem e a disciplina para triunfar decisiva e moralmente ao levar a efeito a função militar. Exatamente como os padrões militares são mais exigentes do que os padrões civis, os ideais militares, também, exigem extraordinária dedicação e sacrifício. As pessoas que estão fora das forças armadas e que não podem manter-se constantemente adstritos a ideais morais, não colocam, geralmente, os outros em perigo. Mas o pessoal da aeronáutica que não se empenhe constantemente em alcançar os ideais da profissão militar, coloca os interesses nacionais e, até, a sobrevivência nacional em risco. Enquanto os padrões morais são geralmente expressos através de normas, os ideais morais, freqüentemente, se expressam em histórias de virtude extraordinária, ações ou realizações. Os padrões morais exigem cumprimento e promovemos a responsabilidade daqueles que os violam. Os ideais morais, contudo, inspiram empenho, e admiramos aqueles que prosperam em seus ideais. Refletindo a dimensão inspiradora da moralidade, os valores centrais são ideais pelos quais o pessoal da aeronáutica deve constantemente empenhar-se. Em qualquer caso particular, a linha que separa o padrão e o ideal é de ser esmaecida. Sem dúvida, o ideal em certas circunstâncias pode ser o padrão em outras. Na ética, como em tudo mais, o que em um momento, em um determinado lugar, pode ser o “bom de ter” em outro momento e outro lugar pode ser “o mínimo necessário”. Entretanto, pode-se distinguir o padrão do ideal em todas as situações éticas, e é importante fazer isso porque confundi-los é confundir o raciocínio moral. Quando o pessoal da aeronáutica usa os valores centrais para o raciocínio moral, é importante que eles vejam que cada um dos valores centrais expressa tanto obrigações quanto aspirações. Embora não seja, de modo nenhum, uma relação completa de todos os padrões e todos os ideais que os valores centrais representam, a análise seguinte indica como esses valores centrais podem tanto normatizar quanto inspirar.

Integridade: a Honestidade Estrita e
a Boa Pessoa

Como um padrão moral, a integridade significa, geralmente, estrita honestidade. Significa ser a espécie de pessoa em que os outros podem confiar para uma exposição de fatos completa e tempestiva. Os chefes, em todos os níveis, em qualquer organização, necessitam do relatório verdadeiro de seus subordinados para tomar decisões eficazes. É especialmente assim para os chefes preparando-se para a guerra e combatendo nela. As decisões a respeito da aquisição e do emprego de sistemas de armas, por exemplo, têm que basear-se em relatórios completos e exatos a respeito do desempenho do sistema. As decisões tomadas “na névoa da guerra” são particularmente dependentes de relatórios honestos a respeito de capacidades e operações. E se os chefes, em todos os níveis, necessitam dos relatórios verdadeiros de seus subordinados, os subordinados, também, necessitam da honestidade de seus chefes. A boa ordem e a disciplina e um estado elevado do moral exigem completa confiança nas palavras do chefe.

Como ideal moral, contudo, a integridade exige mais do que ser a espécie de pessoa com a qual se possa contar ou que diga a verdade. A integridade também exige que o pessoal da aeronáutica seja composto de pessoas de bom caráter. Esse, de fato, é o sentido original da palavra “integridade”, como “condição de ser integrado”, ou “inteireza”, ou “integralidade”. É uma inteireza que Platão descreve como a espécie de harmonia, dentro da pessoa, entre a razão, o espírito e o desejo — harmonia possível apenas se a razão comanda.22 O pessoal da aeronáutica acha o sentido de integridade no “conceito de pessoa integral” da força aérea. Isso não significa “marcar os quadrinhos” por obter graus acadêmicos e fazer trabalho voluntário na comunidade. Significa uma responsabilidade ética contínua para aperfeiçoar-se. Integridade é uma responsabilidade ética de desenvolver não apenas a virtude da veracidade, mas todas as virtudes. Desempenhar bem o papel militar exige não apenas que os profissionais militares façam seu dever e consigam ter impacto com sua missão, mas, também, que eles se empenhem em ser pessoas de bom caráter. Integridade como honestidade é uma “regra do jogo” da qual o pessoal da aeronáutica não se pode desviar. Integridade como pessoa integral, por outro lado, é a meta de “jogar bem e vencer”, que o pessoal da aeronáutica tem que alcançar. Buscam esse ideal não apenas por jogar bem, mas para serem a força aérea e espacial que é necessária para que a nação vença guerras. Para que a Força Aérea desempenhe bem sua função, não basta que o pessoal da aeronáutica seja verdadeiro. Tem que ser, também, constituído de boas pessoas.

Serviço: Obediência e Respeito
à Dignidade Humana

Como padrão moral, serviço à Força antes de si próprio significa, geralmente, cumprir seus deveres qualquer quer seja o custo para si próprio. O serviço à Força é a obediência incondicional às ordens legais. Nesse sentido, o serviço do militar é diferente de qualquer outro tipo de vocação. As pessoas, nas outras profissões, nos trabalhos comuns, podem escolher. Podem demitir-se. Fazerem um trabalho depende da condição de que elas continuem interessadas em fazê-lo. Os militares, porém, não podem demitir-se. É um crime para eles desobedecer ordens ou ausentarem-se sem permissão. Além dessa obrigação legal, contudo, estão sob a obrigação ética de sempre colocar os deveres como militares antes de qualquer outro interesse. Devem evitar até a aparência de conflito entre interesses pessoais e deveres militares. Isso é uma exigência da segurança nacional. A promessa que eles fazem de defender a nação impõe a eles a obrigação ética de colocar em primeiro lugar os deveres militares.

Como ideal moral, porém, serviço à Força antes de si próprio exige mais do que obediência. Serviço à Força também exige que o pessoal da aeronáutica sempre sirva com respeito pela dignidade humana. Serviço significa dever, e dever significa respeito e dignidade. Todo o significado do dever moral é respeitar a dignidade humana.23 A única base de qualquer dever moral — a única base de reivindicar que alguns atos sejam corretos e outros sejam errados, independentemente de suas conseqüências — é proteger e promover a validade moral do indivíduo. Ora, como disse Kant, nunca se deve usar pessoas apenas como meio para alcançar algum objetivo. Os integrantes da aeronáutica devem tratar um ao outro não só como instrumentos para fazer seu trabalho, mas, também, como pessoas inquestionavelmente dignas de respeito. O pessoal da aeronáutica não pode limitar seu respeito pela dignidade humana ao seu companheiro da aeronáutica. O respeito à dignidade humana precisa estender-se a todas as pessoas — ao povo que eles defendem, aos seus aliados e, até, a seus adversários. Dois axiomas da lei e da ética da guerra — que temos de discriminar entre combatentes e não-combatentes quando aplicamos forças militares e que nossa aplicação de força militar tem de ser proporcional ao objetivo militar — baseiam-se no respeito à dignidade humana. Por causa do nosso respeito à dignidade humana é que o nosso uso da força militar contra inocentes e não-combatentes, bem como contra combatentes, está sujeito às mais severas restrições. Até na guerra — ou especialmente na guerra — o pessoal da aeronáutica não pode perder de vista a validade moral da humanidade. Numerosos padrões da Força Aérea — regras de seleção de alvos e regras que proíbem o assédio sexual, por exemplo — refletem o respeito à dignidade humana. O serviço à Força, como ideal moral, contudo, exige não apenas que o pessoal da aeronáutica se comporte de acordo com esses padrões específicos, mas, também, que se empenhem constantemente em respeitar a dignidade de todas as pessoas. Servir — como obedecer — é uma “regra do jogo” de que o pessoal da aeronáutica não se pode desviar. Serviço — como respeito e dignidade —, por outro lado, é a meta de “jogar bem e vencer”, pela qual o pessoal da aeronáutica tem de se empenhar. Eles se empenham por esse ideal para servirem como a força aérea e espacial que é necessária para preparar-se para as guerras da nação e vencê-las, de maneira legal e ética. Para que a Força Aérea desempenhe bem sua função, não basta que o pessoal da aeronáutica cumpra seus deveres. Eles também têm que agir com respeito pela dignidade humana.

Excelência: Realização da Missão e
Constante Aprimoramento

Como um padrão moral, a excelência significa, geralmente, o bom cumprimento da missão. Significa uma determinada concentração nos resultados — fazer bem o trabalho, fazê-lo bem da primeira vez e a tempo. A função é tão importante e exigente que fazer o trabalho exige mais das forças armadas do que em qualquer outro lugar. O fracasso da missão nas forças armadas põe em perigo a sobrevivência nacional e desempenhar o papel militar exige capacidades e acarreta riscos que não são encontrados em outras vocações. Por essa razão, um padrão de excelência é necessário apenas para que o militar faça o seu trabalho. Fazer isso com um mínimo esforço basta, freqüentemente, fora das forças armadas, mas a excelência é o único padrão para a realização da missão militar. A promessa do pessoal da aeronáutica de defender a nação impõe uma obrigação ética de fazer todos os esforços para cumprir a missão.

Como um ideal moral, contudo, a excelência exige mais do que a realização da missão. A excelência também exige que o pessoal da aeronáutica constantemente produza mais resultados e resultados melhores. Este é o significado de “exceder” — ultrapassar, ir além do que é esperado. Como ideal, a excelência significa superar as exigências do dever para alcançar resultados que ultrapassem o “fazer o trabalho”. Para permanecer a força aérea e espacial mais respeitada do mundo, a Força Aérea precisa aprimorar-se constantemente, precisa inovar constantemente. O apenas manter os padrões de hoje, o apenas realizar as exigências da missão põem a Força Aérea em perigo de ficar para trás. O pessoal da aeronáutica precisa ser ousado em “reinventar” a Força Aérea para proteger e promover os interesses da nação. As pessoas precisam correr riscos, precisam estimular os demais a correr riscos para aprimorar tudo que diga respeito à Força Aérea — sua organização, seus processos, sua doutrina. A excelência como realização da missão é “uma regra do jogo” que o pessoal da aeronáutica tem de observar. A excelência como constante melhoria, por outro lado, é a meta de “jogar bem e vencer”, pela qual o pessoal da aeronáutica precisam constantemente empenhar-se. O pessoal da aeronáutica se empenha por esse ideal para produzir a Força Aérea e espacial necessária para combater e vencer nas guerras da nação. Para que a Força Aérea defenda a nação não basta que o pessoal da aeronáutica cumpra a sua missão. Eles precisam, também, encontrar maneiras de ultrapassar, de ir além da realização da missão.

Os Valores Centrais como
Padrões e Ideais

Considerados em termos e propósitos da moralidade, os valores centrais da Força Aérea são padrões morais e, também, ideais morais. Apontam obrigações e aspirações quando o pessoal da aeronáutica pensa a respeito de qualquer situação em que as pessoas tenham que tomar uma decisão, executar a decisão ou aprender as lições que a operação pode ensinar. Apontam tanto para a honestidade estrita quanto para a pessoa integral, tanto para a obediência quanto para o respeito à dignidade humana e tanto para a realização da missão quanto para a constante inovação.

Isso explica por que o pessoal da aeronáutica precisa entender seus valores centrais tanto como padrões quanto ideais. É claro que as etiquetas honestidade, pessoa integral e assim por diante não capturam todas as obrigações e aspirações que os valores centrais contêm para o pessoal da aeronáutica. Contudo, mostram que a distinção entre obrigações e aspirações é um instrumento que o pessoal da aeronáutica pode usar para resolver questões éticas. É um instrumento que o pessoal da aeronáutica pode usar, juntamente com as distinções que os valores centrais permitem entre agente, ato e resultados para enquadrar questões éticas. Enfrentando os desafios de ser uma pessoa moralmente boa, praticar o ato moralmente correto e alcançar o resultado moralmente desejado, o pessoal da aeronáutica precisa considerar os variados pesos que os valores centrais têm como padrões e ideais em qualquer situação específica.

Numerosos erros em ética e no raciocínio moral prático resultam de confundir obrigação com aspiração. Ambos são necessários: sem padrões morais não é possível manter a ordem e sem ideais morais não é possível direcionar essa ordem para vitórias morais. Não devemos confundi-los tornando o cumprimento dos padrões opcional ou fazendo com que alcançar ideais seja compulsório. Admiramos e louvamos as pessoas que corporificam ideais morais. Entretanto, não as elogiamos por observar os padrões. Ser verdadeiro, obedecer e realizar a missão são apenas as coisas que a Força Aérea espera. Por outro lado, enquanto censuramos as pessoas por sua falha em relação aos padrões, não as censuramos por sua incapacidade de alcançar ideais. Isso explica um pouco da confusão a respeito da “Força Aérea de só um erro”. O pessoal da aeronáutica deve ter sua responsabilidade promovida se violar os padrões da Força Aérea, expressos nos valores centrais. Mas “ter a responsabilidade promovida” não abrange falar a respeito de ideais expressos nos valores centrais. As violações dos padrões da Força Aérea são um tipo de erro, freqüentemente um crime. Não alcançar os ideais da Força Aérea pode, também, ser um tipo de erro, mas de espécie muito diferente. Por exemplo, os erros cometidos na busca da melhoria da Força Aérea são, freqüentemente, resultados dos riscos que o pessoal da aeronáutica deve correr empenhando-se pelo ideal da excelência. O receio de “ter a responsabilidade promovida” não deveria dissuadir o pessoal da aeronáutica de buscar melhores maneiras de desempenhar-se. Mas, tampouco, a Força Aérea pode, de boa vontade, aceitar que esses erros levem o pessoal da Força Aérea a imaginar que a Força Aérea tolera violações de seus padrões.

É por essa razão que os valores centrais da Força Aérea, entendidos como obrigações e aspirações, não devem levar à hipocrisia ou ao cinismo. Os valores centrais exigem que o pessoal da aeronáutica cumpra com os padrões da Força Aérea, mas não exige que eles sejam perfeitos. Os chefes da Força Aérea precisam promover a responsabilidade deles e dos outros se deixarem de cumprir com os padrões da Força Aérea, expressos nos valores centrais. Se eles tolerarem violações dos padrões da Força Aérea ou se, seletivamente, os aplicarem nos sistemas de “dois pesos e duas medidas”, haverá cinismo a respeito dos valores centrais. Não há razão, contudo, para cinismo pelo fato de se tolerar aqueles que se empenham, mas não são capazes de alcançar os ideais expressos nos valores centrais, nem por se aprender com a experiência deles nem, mesmo, por se os encorajar. Proclamar que os valores centrais estabelecem, de maneira irrealista, padrões elevados que não podem ser postos em vigor é confundir os meios com os fins da moralidade. Os valores centrais não são tão altos a ponto de gerarem impossibilidade como padrões de honestidade, obediência e cumprimento da missão. Sem dúvida, os padrões da Força Aérea são extraordinariamente altos, porque a missão militar é crucial para a sociedade. Mas o pessoal da aeronáutica pode cumprir com esses padrões e o faz, diariamente; e os chefes da Força Aérea podem pôr em vigor esses padrões, e o fazem. Como ideais morais, porém, os valores centrais são, num certo sentido, tão altos que é impossível cumpri-los. A idéia da pessoa integral, o respeito sem trégua à dignidade humana e o aprimoramento constante são ideais altos — até altos a ponto de serem impossíveis, no sentido de que sempre pedem mais do pessoal da Força Aérea. Ideais que não pedissem sempre mais seriam de pouca valia para a Força Aérea. Os ideais da Força Aérea pedem ao pessoal da aeronáutica que vá “acima e além” ao longo de suas carreiras. Sem a distinção entre padrões e ideais, o pessoal da aeronáutica poderia equivocar-se e ser cético a respeito dos valores centrais. Com a distinção, porém, eles se prenderão aos elevados padrões da Força Aérea e serão motivados pelos altos ideais da Força Aérea.

O erro mais sério a respeito dos valores centrais — o de que eles poderiam se tornar bons meios para maus fins — também se afasta quando vemos que os valores centrais são tanto padrões quanto ideais. Os valores não podem ser bons meios para maus fins, simplesmente porque eles não são apenas meios. Como padrões e ideais, eles são tanto meios quanto fins. É verdade que uma pessoa pode ser verdadeira, colocar o dever antes dos seus interesses e alcançar excelentes resultados — tudo isso para a agressão, o genocídio ou qualquer outro propósito imoral. Os criminosos, inclusive criminosos de guerra, podem ter uma “honra entre ladrões”, com padrões de relato honesto, colocar a organização à frente de si próprios e alcançar resultados. Ninguém, contudo, pode perverter os padrões de integridade, serviço à Força e excelência para um mau fim quando esses padrões estão conectados com seus ideais morais correspondentes. A integridade, compreendida como o bom caráter da pessoa integral, é inteiramente irreconciliável com o relatório honesto em apoio a uma meta perversa. O serviço à Força, entendido como respeito à dignidade de todas as pessoas, dentro e fora da Força Aérea, é completamente inconsistente com a agressão errada aos inocentes. Resultados excelentes, mas maus, não são possíveis quando a excelência se compreende como constante melhoria da força aérea e espacial necessária para defender a nação de maneira moral e legal, em busca de interesses que são morais e legais. Uma pessoa de bom caráter, agindo com respeito à dignidade humana para alcançar os maiores benefícios para o maior número, simplesmente, não pode servir a um mau fim. Entendidos como padrões solidamente conexos com ideais, os valores centrais não limitam o horizonte ético do pessoal da aeronáutica a narrativas verdadeiras, trabalho inegoísta e obtenção de resultados excelentes. Ao contrário, eles expandem esse horizonte ético para abranger ideais inspiradores e exigentes que enobrecem o pessoal da aeronáutica.

Conclusão

Os valores centrais da Força Aérea são maravilhosamente simples e poderosos. Seu significado é evidente por si mesmo. Ainda assim, para evitar que não sejam entendidos e que sejam mau usados, é importante explicar o tremendo potencial que os valores centrais têm para a Força Aérea. Tentei fazer isso em termos da estrutura e do propósito da moralidade. Este não é, de nenhum modo, o único modo de tratar desses valores. Há outros tratamentos filosóficos dos valores centrais e seria instrutivo examinar, também, os valores centrais das perspectivas éticas do direito, da história, da ciência do comportamento, da teoria gerencial, da ciência política, da religião e assim por diante. Adicionalmente, mostrar um papel dos valores centrais no enquadramento e na resolução de questões éticas é, certamente, apenas um primeiro passo para realmente enquadrar e resolver essas questões. Entretanto, considero que uma análise conduzida pela estrutura e pelo propósito da moralidade revela-se particularmente útil para explicar o poder dos valores centrais.

Entendidos em termos e propósitos, os valores centrais são um plano abrangente para enquadrar questões éticas e, também, uma fonte coerente de padrões ideais para resolvê-las. Os valores centrais abrangem todas as dimensões da estrutura da moralidade — agente, ato e resultado — e, desse modo, mapeiam todo o domínio do raciocínio moral. Dessa maneira, representam elementos centrais para o enquadramento das questões éticas. O pes-soal da aeronáutica enquadra questões éticas perguntando como uma pessoa de integridade coloca o serviço à Força antes de si próprio para conseguir resultados excelentes na Força Aérea. Os valores centrais também abrangem tanto as dimensões do propósito da moralidade — obrigação e aspiração — quanto abrange, também, padrões e ideais. Eles significam integridade, tanto como honestidade estrita quanto como ser uma boa pessoa; serviço tanto como obediência ao dever quanto como respeito pela dignidade humana; e excelência tanto quanto realização da missão quanto como constante inovação. Desse modo, representam valores para resolver questões éticas. O pessoal da aeronáutica resolve questões éticas pela sua adesão aos elevados padrões que servem para que promovam a responsabilidade uns dos outros a fim de desempenharem seu papel militar e, também, empenhando-se pelos ideais exigentes que os impelem a construir a mais respeitada força aérea e espacial. Pode parecer fantástica a afirmativa de que os valores centrais da Força Aérea podem, de algum modo, conter todas as dimensões da moralidade. Mas as três expressões que a Força Aérea usa para denominar seus valores centrais são suficientemente significativas para que o pessoal da aeronáutica os entenda exatamente dessa maneira.

Notas

1. Duas notas a respeito de tecnologia: (a) embora em alguns contextos seja útil distinguir “ética” de “moralidade” (e “ético” de “moral”), não faço essa distinção aqui. (b) O termo pessoal da aeronáutica [ou homem da aeronáutica] significa todos na Força Aérea — oficiais, subalternos e civis, em todos os níveis. Os papéis desses três grupos são diferentes, como são diferentes as normas que os regem; assim, a aplicação minuciosa dos valores centrais a eles pode ser diferente. Mas, em geral, não há necessidade de distinguir entre eles ao explicar os valores centrais.

2. Basta procurar “valores centrais” na internet para que se sugira a pergunta se existe alguma organização que não tenha identificado seus valores centrais.

3. “Todas as boas idéias acabam, afinal, ficando gastas. A importância de uma visão e de valores de uma corporação não é exceção a essa regra.... A idéia era — e é — correta.... Mas temos que reconhecer que os valores podem envelhecer rapidamente, tornar-se inescapavelmente estreitos, subdividirem-se de uma maneira ridícula, e entrar em conflito com o mercado em mutação. Ironicamente, quanto mais virtuoso seja o valor (serviço, pessoas), maior a chance de uma perversão no longo prazo. Por quê? Porque quanto ‘melhor’ seja o valor, mais ‘a sociedade estabelecida’ tenta assegurar-se de que se tenha uma adesão exata a ele (grifei).” Tom Peters, Liberation Management: Necessary Disorganization for the Nanosecond Nineties (New York: Knoppf, 1992), 616.

4. Para a Marinha e o Corpo de Fuzileiros, os valores centrais são: honra, coragem e compromisso. Até recentemente, o Exército descrevia seu ethos como baseado nos valores de: dever, integridade e serviço inegoísta; esses valores, por sua vez, eram apoiados pelas “qualidades profissionais” de compromisso, competência, franqueza, compaixão e coragem. Mas, em 1996, o exército identificou sete valores centrais: dever, integridade, lealdade, serviço inegoísta, honra, coragem e respeito.

5. DOD Directive 5500.7-R, Joint Ethics Regulation, agosto, 1993, parágrafo 1-100.

6. Os 10 “valores éticos primários” do DOD são: honestidade, integridade, lealdade, responsabilidade, justiça, cuidado, respeito, manutenção das promessas, cidadania responsável e busca da excelência. DODD 5500.7-R, agosto, 1993, parágrafo 12-501. A Joint Ethics Regulation define esses valores em termos de serviço público, sem referência ao combate na guerra. A Joint Ethics Regulation também fornece um “plano de tomada de decisão ética” de dez passos (par. 12-601).

7. Himmler identificou quatro “virtudes do homem da SS”. Ele as chamou “a base desta organização” e disse que eram “de significação e importância decisivas”. As quatro virtudes eram: lealdade, obediência, bravura e veracidade. “Speech of the Reichsfuehrer — SS at the meeting of SS Major-Generals at Posen, October 4th, 1943,” Document 1919-PS, Nazi Conspiracy and Aggression, vol. 4 (Washington, D.C.: Office of United States Chief of Counsel for Prosecution of Axis Criminality, 1946), 558–72.

8. “Nada disso deveria nos surpreender. Afinal, a maior parte das destruições em massa foi feita a serviço de valores rigorosamente virtuosos....” Peters, 616.

9. Numerosas obras a respeito de ética aplicada apresentam estratégias para o raciocínio moral, divididas em três grupos que se aproximam das três dimensões que eu identifico aqui. Por exemplo: Abraham Edel, Elizabeth Flower e Finbarr W. O’Connor descrevem três “familias de conceitos” que usamos para formular questões éticas. Eles são: “virtudes, vícios e a atmosfera moral”; a lei moral: “o caminho reto e estreito”; e “o bem: fins e meios”. Critique of Applied Ethics: Reflections and Recommendations (Philadelphia: Temple University Press, 1994), 136–68. Rushworth M. Kidder descreve “três princípios para resolver” dilemas éticos. São: pensamento baseado no cuidado, pensamento baseado nas normas e pensamento baseado nos fins. How Good People Make Tough Choices (New York: Morrow, 1995), 151–76. Christopher D. Stone acha na “lógica do discurso moral” uma distinção entre “aferição moral” e “prescrição moral”. Aferição diz respeito a avaliação de agentes (pessoas e instituições) enquanto a prescrição diz respeito a sua conduta. Dentro da lógica da prescrição, ele encontra uma distinção adicional entre sistemas que prescrevem uma única “maximização” (por exemplo, o utilitarismo clássico) e outros sistemas (por exemplo, o Kantismo). Earth and Other Ethics: The Case for Moral Pluralism (New York: Harper & Row, c. 1987), 153–99.

10. “É impossível conceber qualquer coisa no mundo, ou mesmo fora dele, que se possa ter por boa sem qualificação, exceto a boa vontade.... Uma boa vontade não é boa por causa do que ela realiza ou consegue, mas por causa da sua capacidade para atingir algum fim proposto: é boa só por ser vontade, quer dizer, boa em si própria.” Immanuel Kant, Ground-work of the Metaphysic of Morals, trans. H. J. Paton (New York: Harper & Row, 1964), 61–62.

11. Na Apologia, Platão mostra Sócrates explicando porque a vida que não se examina não é digna de um ser humano. O Laches trata da coragem e a República trata da justiça, para o indivíduo e para o estado. A. E. Taylor, Plato: The Man and His Work (New York: The Humanities Press, c.1937), passim.

12. Nichomachean Ethics, trad. Martin Ostwald (Indianapolis: Bobbs-Merrill Publishing, 1962), II.2 e 6.

13. William J. Bennett, ed., The Book of Virtues: A Treasury of Great Moral Stories (New York: Simon & Schuster, 1993).

14. “Um imperativo categórico seria algo que representasse uma ação como sendo objetivamente necessária em si, fora de sua relação com uma finalidade adicional.... Há, portanto, apenas um único imperativo categórico e é este: ‘Aja apenas de acordo com a máxima pela qual você pode, ao mesmo tempo, querer que ela se devesse tornar uma lei universal’.” Kant, 82,88.

15. Uma das mais interessantes tarefas da filosofia moral é estabelecer que pessoas são moralmente relevantes para avaliar o resultado de um ato. Será que as “pessoas” que devemos levar em conta incluem as gerações futuras? As gerações passadas? Deus? Coisas vivas não-humanas? O meio ambiente?

16. “O credo que aceita como fundamento da moral a ‘utilidade’ ou o ‘princípio da máxima felicidade’ sustenta que as ações são corretas na proporção que tendem a promover a felicidade; erradas na medida que tendem a produzir o oposto da felicidade.” John Stuart Mill, Utilitarianism (New York: Bobbs-Merrill Company, Inc., 1957), 10.

17. Quando isso acontece é que “as estruturas conhecidas como teorias éticas são ameaças maiores à sanidade moral e ao equilíbrio do que instrumentos para sua consecução. Elas adquirem essa característica maligna principalmente porque são, por natureza, redutivas. Restringem e fecham a reflexão moral por sua insistência em que considerações morais estão estruturadas segundo uma ordem hierárquica.” Edmund L. Pincoffs, Quandaries and Virtues: Against Reductivism in Ethics (Lawrence, Kans.: University Press of Kansas, 1986), 2.

18. Algumas outras tríades de valores bem conhecidas também se aproximam dessa mesma coisa. Por exemplo, não parece excessivo sugerir que “fé” descreve que espécie de pessoa deve ser o agente moral; “caridade” descreve o que o agente moral deve fazer; e “esperança” refere-se ao resultado que o agente moral empenha-se em alcançar.

19. “Quando pessoas boas encontram escolhas difíceis, raramente isto acontece porque estão enfrentando a tentação moral.... As escolhas realmente difíceis ... não se centram em certos versus errados. Envolve certo versus certo. São dilemas genuínos precisamente porque cada lado está firmemente arraigado em algum dos nossos próprios valores centrais básicos.” Kidder, 17–18. Este é, também, da teoria de W. D. Ross de “que há esses vários e freqüentemente conflitantes tipos de deveres prima facie”. The Right and the Good ( Oxford: Oxford University Press, 1930), 16–47.

20. As teorias morais dependem, em alguma medida, da distinção que se aproxima da que é feita aqui de padrões e ideais. A distinção de Kant entre deveres “perfeitos” e “imperfeitos” é um exemplo. Kant, 89–91. Outros exemplos incluem Lon Fuller, que distingue “a moralidade do dever” da “moralidade da aspiração”. The Morality of Law, rev. ed. (New Haven: Yale University Press, 1969), 5–32. Bernard Gert aponta: “embora as regras morais sejam a parte mais importante da moralidade, não são toda a moralidade. A moralidade não consiste apenas em normas, mas, também, em ideais.” Morality: A New Justification of the Moral Rules (New York: Oxford University Press, 1989), 160.

21. “Toda arte ou ciência aplicada e toda investigação sistemática e, do mesmo modo, toda ação e escolha parecem ter por fim algum bem.” Nichomachean Ethics, 3, I.1, 1094a.

22. “E parece que é alguma coisa assim: a justiça estava na verdade. Ela não está nas ações externas do homem, mas na maneira pela qual ele age dentro de si próprio, preocupado, realmente, consigo próprio e com suas partes internas. Ele não permite que cada parte de si próprio realize o trabalho de outra, ou que as subdivisões de sua alma se intrometam uma com a outra. Ele ordena bem o que é, no verdadeiro sentido da palavra, seus próprios negócios; ele controla a si próprio, põe as coisas em ordem, é seu próprio amigo, harmoniza as três partes.... Ele as mantém juntas e, ele próprio, com a pluralidade se torna uma unidade.” Plato’s Republic, trad. G. M. A. Grube (Indianapolis: Hackett Publishing Co., 1974), 107 (443d–e).

23. Isto é o que Kant mostrou ao formular o imperativo categórico primeiro em termos de “lei universal” e, em seguida, em termos de “fim em si próprio”. A segunda formulação do imperativo categórico é: “Aja de um modo que você sempre trate a humanidade, seja em sua própria pessoa, seja na pessoa de alguém mais, nunca, simplesmente, como um meio, mas, sempre, ao mesmo tempo, como um fim”. Kant, 96.


Colaborador

Coronel Charles R. Myers

O Coronel Charles R. Myers (Bacharelado, Tulane University; Mestrado em Artes, PhD, University of Texas at Austin; Juris Doctor, University of California, Berkeley) é professor e chefe do Departamento de Filosofia e Belas Artes na US Air Force Academy (USAFA). Começou sua carreira na Força Aérea como oficial de inteligência, incluindo uma comissão na Base Aérea de Da Nang, no Vietnã. Após lecionar filosofia na USAFA, fez o curso de direito sob os auspícios do Funded Legal Education Program. Exerceu a função de advogado nos escalões ala, força aérea numerada e grande comando em diversos comandos, bem como no Centro de Assistência Jurídica da Força Aérea dos EUA. Mais recentemente, foi advogado na Sétima Força Aérea e no Comando Aéreo Estratégico. Ocupou o cargo que ora exerce em janeiro de 1995. O Cel Meyers cursou a National War College.

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