Cartas ao Editor


Sr. Editor

Embora pertencente ao Exército, tenho lido, regularmente, os números trimestrais desse periódico profissional da Força Aérea dos EUA. Faço-o, não apenas por me interessar ainda, mesmo na inatividade, por toda evolução que ocorra na arte da guerra, em termos de doutrina, estratégia, tática, organização de meios, apoios, surgimento de novas tecnologias aplicadas ao material de emprego militar, mas também, a seu pedido, como antigo Redator-Editor da Edição Brasileira da Military Review (MR) que fui — a revista congênere do Exército Norte-Americano — à época em que exercia também o cargo de Assessor Militar Brasileiro Junto à Escola de Comando e Estado-Maior daquela Força, no Forte Leavenworth, Kansas. É o que vejo seguindo os sábios ensinamentos de Goethe, o qual dizia que os néscios buscam aprender à custa de sua própria experiência, enquanto que ele procurava aproveitar a experiência dos outros...

Assim, apesar dos contatos que temos tido por telefone, com troca de impressões e sugestões, achei que seria necessário e justo enviar-lhe uma carta na qual manifestasse publicamente o excelente conceito que faço do material publicado nesse periódico em termos de originalidade e consistência. Decidi fazê-lo agora, então, no momento em que recebo os exemplares relativos ao 4o trimestre de 1996 e ao primeiro do corrente ano.

Desejo, de público, cumprimentá-lo pelo seu trabalho, que é fruto, naturalmente, de sua larga experiência e de seu persistente esforço em busca da perfeição.

Quero também, nesta carta, referir-me a dois artigos, um de cada número do Airpower Journal ora recebidos.

No relativo ao 4o trimestre de 1996, o trabalho intitulado “Tempestade no Deserto: uma Revisão da Guerra, do Tempo e da Substituição”, de autoria do Dr. Herman L. Gilster, Coronel Reformado da Força Aérea e que, entre outros títulos altamente meritórios, ostenta os de graduado por West Point, PhD por Harvard e ex-integrante da Brookings Institution. Com competência, comenta sobre os indiscutíveis sucessos alcançados pelo Poder Aéreo na Guerra do Golfo, mas ressalta que a perfeição ainda está longe de ser alcançada; salienta as restrições impostas pelas condições atmosféricas e conclui que a situação e o ambiente em que operaram as forças da coalizão durante a “Tempestade no Deserto” eram ideais — o que é muito difícil de se repetir. Portanto, embora os meios aéreos sejam fator proeminente no combate moderno — como o eficiente sistema de C3I, meios tecnológicos avançados (em especial eletrônicos) e bem treinadas Forças de Operações Especiais — não podem ser considerados únicos e absolutos na obtenção da vitória. E que o extraordinário desenvolvimento tecnológico já alcançado, que pôde ser posto à prova no conflito, ainda está longe do ideal decantado. A euforia da retumbante vitória, o justo orgulho pelo excepcional cumprimento da missão levaram, naturalmente, a conclusões iniciais muito otimistas que uma reavaliação posterior, mais isenta e serena, encarregou-se de minimizar. Considerações importantes e extremamente oportunas. E faz encimar seu convincente e lúcido estudo por uma preciosa e válida afirmação do General Douglas MacArthur, um expoente comandante do Teatro do Pacífico na 2a Guerra Mundial.

Do primeiro número do corrente ano, desejo referir-me ao artigo “A Educação Profissional Militar e a Emergente Revolução nos Assuntos Militares” — uma segunda versão de trabalho antes apresentado em uma conferência sobre o mesmo tema levada a cabo na Universidade de Defesa Nacional, em Washington, D.C. Nele, o autor, Steven H. Kenney, um civil analista político e militar da Corporação Internacional de Aplicações da Ciência, com sede na Capital Norte-Americana, lembrando-nos ensinamento de W. Churchill, após a 2a Grande Guerra, de que os chefes do porvir deverão ostentar, como títulos, contínuos, crescentes e longos estudos profissionais de nível superior — condição sine qua non para a obtenção de vitórias — analisa o impacto, no caráter e na condução de operações militares, produzido pela aplicação de novas tecnologias, combinada com as evoluções na doutrina e nas concepções organizacionais. Em conseqüência, a par das inovações oferecidas pela ciência e pela técnica, há que acompanhar as que ocorrem no campo da pedagogia, e definir, com precisão, o que, quando, como, onde e por quem na área do ensino e da instrução.

Tal revolução, nas escolas e centros de instrução, deve atingir tanto o corpo de alunos como o corpo docente. Pois o importante é aprender mais e melhor, em menor tempo, tanto os aspectos intangíveis da guerra, como o modo de ver e analisar os novos problemas militares que terão de ser encarados. Dinâmica, combate à estagnação, inovações, uso extensivo do computador e de simuladores, permanente incentivo à pesquisa, por exemplo, revolucionam velhas técnicas educacionais, métodos e processos de instrução, e ajudam a ampliar e solidificar o conhecimento dos chefes de amanhã. Isto é muito importante. Eis, senhor Editor, breves comentários que faço para ressaltar a importância de dois dos variados e benéficos assuntos contidos nessa conceituada publicação profissional da Força Aérea dos EUA. Cumprimentos aos autores e aos responsáveis por sua seleção, bem como ao Editor, pelo primoroso trabalho da Edição Brasileira. Continue assim!

General-de-Exército (RRm) Pedro Luis de Araujo Braga
Membro do Instituto de Geografia
e História Militar do Brasil
Rio de Janeiro, Brasil


Sr. Editor do Air Power Journal

A tarefa decente em uma instituição de ensino, como a Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica — ECEMAR, Rio de Janeiro, Brasil, — não difere substancialmente de outras escolas congêneres das forças aéreas de todo o mundo, exigindo do seu Corpo de Instrutores aprofundamento contínuo de conhecimentos e uma atualização permanente.

Para ministrar uma instrução acadêmica con- sistente, dinâmica e motivadora, deve-se estimular nos oficiais-alunos a leitura, a reflexão e o debate construtivo e acerca dos temas militares no contexto Força Aérea. Para tal efeito, valho-me com frequência dos artigos veiculados neste valioso periódico profissional da Força Aérea dos EUA, cujas edições sempre aguardo com grande expectativa e renovado interesse.

Em nossa Escola, desde o meu ponto-de-vista, o Airpower Journal já se consolidou como “matéria- prima” e leitura selecionada para as instruções, em razão da atualidade, da pertinência e relevância dos seus artigos.

Somente para exemplificar, no ano de 1996, algumas matérias trouxeram especial contribuição ao meu trabalho em particular:

a — Na Área de Doutrina

— “Uma Proposta Modesta: Como Tornar a Doutrina Mais Presente”, do Major General (RR) I. B. Holley, Jr., USAFR (20 Trimestre de 1996);

— “Problemas de Doutrina da Força Aérea: de 1926 ao Presente”, do Dr. James A. Mowbray (30 Trimestre de 1996).

b — Na Área de Ética Militar

— “Ética Pessoal versus Ética Profissional”, do Major General Jerry E. White, USAF (40 Trimestre de 1996).

— “O Atavismo Valoroso: A Ética Militar em uma Era de Nihilismo”, do Dr. James H. Toner (também do 40 Trimestre do 1996).

As matérias referidas, poder-se-ia assim dizer, “caíram como chuva oportuna em terra sequiosa”, quando buscava subsídios adicionais para preparar minhas aulas.

Toda Escola é uma instituição que se nutre de muitas fontes de informações que, uma vez obtidas, processadas, selecionadas, organizadas e aprimoradas, convertem-se num produto acabado: o conheci- mento.

Embora sejam fisicamente compostas de pessoas, recursos de toda ordem e facilidades materiais, a essência das instituições é um patrimônio intangível, estruturado em princípios éticos e valores morais, ideais e propósitos, experiências e conhecimentos úteis que se integram e se dinamizam com a finalidade de possibilitar o alcance de seus objetivos maiores, ou seja, cumprir uma missão sublime, que tenha perenidade no tempo.

Os frutos da experiência aperfeiçoam o saber e as sementes do conhecimento sempre encontram terreno fértil para vicejar. Eis aí um ciclo intelectual- mente revitalizante onde se inserem perfeitamente a razão e o propósito de Airpower Journal!

Parabéns pelo seu trabalho e obrigado pela sua permanente contribuição a minha gratificante tarefa!

Marco Aurélio Veríssimo da Rocha
Tenente-Coronel-Engenheiro Aer.
(Instrutor da ECEMAR)
Rio de Janeiro, Brasil


As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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