Document created: 01 Agosto 1997
ASPJ  Em Português 3° Trimestre 1997

Estalingrado

Um Exame da Decisão de Hitler a Respeito do Transporte Aéreo

Joel S. A. Hayward

DEPOIS DE FEVEREIRO DE l943, a sombra de Estalingrado sempre se estendeu sobre Adolf Hitler. A batalha por essa cidade terminou numa derrota desastrosa, destruindo o mito de seu “toque de Midas” militar, acabando com suas chances de derrotar o Exército Vermelho, causando um dano permanente às relações com a Itália, a Romênia, a Hungria, e outras nações aliadas,1 e, é claro, infligindo pesadas perdas aos seus exércitos do oriente. Mais de l50.000 soldados do Eixo, a maioria deles alemães, foram mortos ou feridos nas vias de acesso ou nas ruínas da cidade; 108.000 outros caíram prisioneiros dos soviéticos, sendo 91.000 apenas nos três últimos dias da batalha. (Embora Hitler jamais tenha sabido disto, apenas 6.000 chegaram a voltar à Alemanha.)

A batalha provocou uma atenção considerável, tanto no meio jornalístico quanto no meio acadêmico. Durante os 50 anos desde que os exércitos de Stalin entraram em Berlim, fazendo terminar a guerra na Europa, foram publicados, literalmente, centenas de livros e artigos a respeito de Estalingrado. A maior parte deles foi publicada na Alemanha e, em menor quantidade, na Rússia, onde o nome “Estalingrado” ainda evoca reminiscências poderosas e emocionais.2 Comparativamente poucos foram publicados em países de língua inglesa, e isso é de se entender. Nem os ingleses nem os americanos podem contar qualquer de seus homens entre os numerosos heróis, mártires, prisioneiros e vítimas, porque nenhuma força britânica, da Commonwealth ou dos Estados Unidos participou da batalha. Além disso, embora a derrota alemã em Estalingrado tenha sido vista, imediatamente, no ocidente, como um ponto de inflexão no andamento da guerra, seus efeitos não se fizeram sentir diretamente nas nações anglo-americanas.


O foco principal da historiografia de Estalingrado, incluindo a dúzia de livros publicada em l992 e 1993, para comemorar o 50o aniversário da batalha, foi o combate, o cerco, o sofrimento e a destruição do VI Exército do Generalfeldmarschall Friedrich Paulus. Poucos livros e artigos devotaram a atenção adequada às atividades da Luftwaffe, embora ela tenha dado uma contribuição substancial a todas as batalhas, por toda a campanha do verão de 1942 —Estalingrado foi o seu clímax, sendo ela, sozinha, a responsável pela manutenção do VI Exército depois que as forças do Marechal G. K. Zhukov o isolaram de todo contato com outras formações do exército alemão, a não ser pelo rádio. Um número ainda menor de obras — e nenhuma delas em inglês — analisou em profundidade a decisão de Hitler de suprir as forças imobilizadas em Estalingrado a partir do ar, embora essa decisão tenha levado à destruição dessas forças, depois que a Luftwaffe não foi capaz de mantê-las adequadamente supridas.

É claro que a maior parte dos autores que tratam da Batalha de Estalingrado refere-se, brevemente, à decisão do transporte aéreo antes de se dedicar às descrições do sofrimento do VI Exército e do desempenho insuficiente da Luftwaffe. O tratamento que eles dão ao processo de tomada de decisão, porém, é invariavelmente, frágil e pouco convincente. Quase todos censuram Hermann Göring, o ineficaz comandante-em-chefe da Luftwaffe. Quando Hitler lhe perguntou o que a força aérea poderia fazer, sustentam eles, Göring fez promessas imprudentes de transporte aéreo, esperando que o êxito desse transporte restaurasse o seu prestígio declinante. Na falta de vozes em contrário e confiando em Göring, Hitler prosseguiu e ordenou o transporte aéreo. Típico desta linha de argumentação é o que escreveu o Generalfeldmarschall Erich von Manstein: “Não estou seguro se as afirmativas frívolas de Göring para Hitler se deveram a uma falsa apreciação das capacidades existentes ou a uma necessidade desesperada de admiração. Qualquer que tenha sido a causa, o responsável foi Göring.”3

Muitos dos primeiros que escreveram a respeito de Estalingrado (inclusive von Manstein), deve-se notar, participaram destes acontecimentos. Seus vieses e preconceitos estão evidentes nas suas narrativas que valorizam a eles próprios e procuram pôr a culpa em outros. Contudo, suas palavras tiveram influência em modelar a opinião acadêmica na primeira década depois da guerra, e suas descrições e explicações têm sido, com poucas exceções,4 aceitas de maneira acrítica até hoje. Um trabalho recente a respeito de Estalingrado, por exemplo, Franz Kurowski repete diversos erros e conclui: “O que levou Hitler a dar sua ordem mortal ao VI Exército? Durante uma conversação telefônica, em 23 de novembro de l942, ele perguntou diretamente a Göring se o suprimento de Estalingrado por ar era possível. Göring replicou: ‘A coisa parece poder ser feita’.”5 De maneira semelhante, Samuel Mitcham escreve em seu livro sobre a Luftwaffe:

A única maneira pela qual o Reichsmarschall podia se redimir aos olhos do Führer era conseguir uma vitória militar espetacular. Estalingrado parecia ser a entrada para isso. Ele prometeu a Hitler que a Luftwaffe ressupriria Estalingrado pelo ar …. Foi a maior ruptura do andamento da guerra.6

Göring esteve, certamente, entre os responsáveis por uma das decisões mais desavisadas da guerra, mas ele não merece ser culpado sozinho, como este estudo procura demonstrar. Este artigo tenta recriar o processo de tomada de decisão a partir das fontes sobreviventes — inclusive os diários dos Comandantes da Luftwaffe no setor de Estalingrado, que tiveram sua oposição ao transporte aéreo ignorada por seus correspondentes do Exército e pelo Alto Comando — e procura determinar a culpabilidade de uma maneira mais bem distribuída e desapaixonada do que ocorreu nas tentativas anteriores.

Quando o V Exército Blindado e o XXI Exército soviéticos lançaram sua maciça contra-ofensiva (de codinome Uranus) a noroeste de Estalingrado, em l9 de novembro, um Hitler exausto estava desfrutando de um breve feriado em Berghof, seu retiro na montanha em Berchtesgaden, sul da Baviera. Seu descanso chegou a um fim abrupto naquela tarde, quando ele recebeu uma chamada telefônica de seu quartel-general, da Prússia Oriental. Claramente agitado, Kurt Zeitzler, chefe do Estado-Maior do Exército, gritou pela linha que centenas de carros de combate soviéticos haviam rompido a frente da Romênia, exatamente onde o Führer havia predito anteriormente, e que as formações romenas estavam em fuga.7 Reiteradas atualizações naquela tarde convenceram Hitler de que a situação era séria, embora ele ainda achasse que o 680 Corpo de Panzer, do Generalmajor Ferdinand Heim, poderia, se desdobrado apropriadamente, conter a investida inimiga. Prontamente, ele ordenou ao Generaloberst Maximilian von Weichs, Comandante do Grupo de Exércitos B, que abandonasse todas as operações ofensivas que se planejassem ainda dentro de Estalingrado e transferisse forças da cidade para o flanco rompido.

Quando a frente sudoeste soviética rompeu o flanco do Eixo ao sul de Estalingrado, no dia seguinte, Hitler compreendeu que o seu IV Exército de Panzer e VI Exército estavam em grave perigo de serem cercados pelo grande movimento de pinça. Imediatamente ele contactou o Generalfeldmarschall von Manstein, que ele considerava seu melhor comandante de exército operacional. Ordenou-lhe que abandonasse o ataque planejado a Velikiye, no extremo norte da Rússia, e que se encarregasse de um comando criado recentemente, o Grupo de Exércitos do Don, no setor de Estalingrado.8 Von Manstein era ideal para este trabalho por causa de seu intelecto finamente estratégico e experiência sem par com as unidades romenas. Embora deliciado pela confiança de Hitler, o marechal-de-campo ficou de início desencantado ao saber a composição de seu novo grupo de exércitos: o III Exército romeno, que havia sido rompido onde quer que fosse atacado, o IV Exército Panzer, do qual uma grande parte (incluindo a maior parte de seus carros de combate) estava presa entre as duas pontas da pinça soviética que se estava fechando rapidamente, e o VI Exército, completamente envolvido. Este último, também estava desgastado após meses de constante ação, com todos os batalhões muito abaixo de seu efetivo. Hitler disse ao Marechal-de-campo que esperasse reforços, totalizando seis divisões de infantaria e quatro divisões Panzer, uma divisão de campanha da Luftwaffe e algumas unidades de artilharia antiaérea. Dessas formações, porém, apenas duas divisões de infantaria estavam disponíveis. As outras não chegariam senão no começo de dezembro.

O Generaloberst Hans Jeschonnek, chefe do Estado-Maior da Luftwaffe, chegou a Berghof no mesmo dia (20 de novembro). Hitler o havia convocado de seu quartel-general da Prússia Oriental para discutir o papel da Força Aérea em qualquer tentativa de uma operação para romper o cerco ou para auxiliar as tropas cercadas.9 Göring estava “ocupado demais” para ir. Ele estava presidindo uma conferência sobre petróleo em Karinhall, sua propriedade campestre em Berlim. Não são conhecidos registros textuais da conversa de Hitler com Jeschonnek, mas os fatos básicos são: o Führer explicou que o VI Exército estaria, provavelmente, totalmente isolado em alguns dias; que ele havia organizado um novo grupo de exércitos sob o comando de von Manstein e que lançaria o esforço de socorro tão logo fosse possível. Esperava não apenas libertar o VI Exército dentro de pouco tempo, mas, também, recuperar o território perdido e reconstruir uma forte linha defensiva. Entendendo, aparentemente, que o cerco ao VI Exército era temporário, Jeschonnek assegurou a Hitler que se tanto aviões de transporte quanto bombardeiros fossem usados, e se aeródromos adequados pudessem ser mantidos dentro e fora do bolsão, a Luftwaffe poderia transportar, por via aérea, suprimentos suficientes para o exército. Afinal, ele indicou, a Força Aérea tinha tido sucesso em manter 100.000 homens supridos no bolsão de Demyansk por diversos meses durante o winter anterior.

A comparação com Demyansk não era apropriada, como o próprio Jeschonnek provavelmente compreendeu logo que teve tempo de pensar nessas questões (dificilmente possível quando se tratava de Hitler, que sempre queria respostas imediatas para suas perguntas). Os 100.000 homens do Segundo Corpo-de-Exército presos em Demyansk haviam precisado de não menos do que 300 toneladas de suprimentos por dia.10 Tendo em vista a baixa atividade operacional determinada pelas condições de winter, a Luftwaffe, havia sido forçada a comprometer quase 500 Junkers JU-52 com o transporte aéreo a fim de assegurar que um número suficiente de aviões — cerca de 150 — pudesse levar a tonelagem necessária todos os dias.11 Além disso, a presença da VVS ( Voyenno-vozdushnyye sily, a Força Aérea Soviética) em Demyansk havia sido insignificante, permitindo operações aéreas alemãs quase ininterruptas com poucas perdas.12 A situação em Estalingrado era muito diferente. Primeiro, quase três vezes o número de pessoas estava cercada ali. Se 100.000 homens haviam necessitado 300 toneladas de suprimentos por dia então, logicamente, 250.000 necessitariam cerca de 750 toneladas, uma tonelagem quase impossível de fazer chegar lá (como seria confirmado, dias mais tarde, pelos cálculos feitos no Quartel-General de Hitler).13 Segundo, a Luftwaffe não possuía, em lugar nenhum, nem mesmo uma quantidade aproximada de aeronaves e bombardeiros disponíveis para levar essa tonelagem. Terceiro, as forças da VVS em Estalingrado eram, então, muito mais fortes do que haviam sido em Demyansk. Elas seriam um grande obstáculo às operações de transporte aéreo e infligiriam elevadas perdas.

A garantia espontânea e precipitada de Jeschonnek, de que a Força Aérea poderia manter o VI Exército em Estalingrado agradou ao Führer. Era difícil para ele permitir que o exército abandonasse essa cidade depois que ele havia proclamado para toda a nação alemã, em setembro, que “podem estar certos de que ninguém vai nos tirar dali!”14 e, apenas duas semanas antes, havia trombeteado na Löwenbräukller de Munique que suas forças haviam tomado essa “cidade de vital importância … que leva o nome de Stalin”, onde a guerra “real” estava sendo travada.15 Incapaz de engolir suas palavras, Hitler agora se achava obrigado a manter Estalingrado. Na tarde do dia 21, portanto, ele mandou uma mensagem diretamente a Paulus ordenando-lhe que se mantivesse firme “a despeito do perigo de um cerco temporário”. Era para ele manter a ligação por ferrovia aberta tanto tempo quanto possível. “No que concerne ao transporte aéreo”, acrescentou, “seguirão ordens”.16

Nem Hitler nem Jeschonnek concebiam um transporte aéreo com a escala ou a duração do que havia decorrido em Demyansk. Eles ainda pensavam que von Manstein rapidamente romperia o cerco e recuperaria a frente sul. O VI Exército só necessitaria de ser suprido por ar no interregno. Ainda assim, estava claro que não era essa a maneira pela qual os comandantes do exército no campo, enfrentando as tristes realidades de sua situação, interpretaram as referências de Hitler ao transporte aéreo. Os oficiais mais graduados do VI Exército sentiam que, a menos que rompessem imediatamente o cerco (o que eles advogavam, sem êxito), o exército teria que ser suprido por ar por semanas, senão por meses. Eles declararam que seriam necessárias 750 toneladas de suprimento por dia (reduzindo este número a 500 toneladas depois de alguns dias). Essas declarações horrorizaram os comandantes locais da Luftwaffe, cujas unidades depauperadas teriam que executar o transporte aéreo.

Mais tarde, nesse mesmo dia (21 de novembro), o Generalleutnant Martin Fiebig, comandante da Fliegerkorps VIII, o corpo da Luftwaffe responsável por todas as operações aéreas do setor de Estalingrado, telefonou ao Generalmajor Schmidt, chefe do Estado-Maior do VI Exército, para discutir as intenções do exército. Paulus ouvia em outro telefone. O relatório de Fiebig dessa conversa revela a tensão que rapidamente se desenvolveu entre os comandantes do Exército e da Força Aérea quando o primeiro aceitou facilmente a sugestão de Hitler de que a Força Aérea manteria vivo o exército preso:

Em resposta às minhas perguntas a respeito das intenções do VI Exército, o General Schmidt respondeu que o comandante do exército propôs desdobrar o seu exército numa defesa de Estalingrado em forma de porco espinho [quer dizer por toda a parte] …. Em relação às possibilidades dessa defesa em forma de porco espinho, eu perguntei como eles planejavam manter o VI Exército suprido, especialmente quando parecia certo que a linha de suprimento vinda da retaguarda seria cortada rapidamente. O General Schmidt replicou que os suprimentos seriam trazidos pelo ar. Eu repliquei que suprir um exército inteiro por ar seria impossível, particularmente quando as nossas aeronaves de transporte já estavam fortemente compro- metidas no norte da Africa. Eu o adverti contra espectativas exageradas. O Generaloberst Paulus entrou na conversa ocasionalmente na sua outra linha telefônica. Na manhã seguinte, às 0700 horas, eu telefonei de novo para o General Schmidt dizendo-lhe que ele estava contando excessivamente com o suprimento aéreo. Sublinhei para ele, novamente, que, depois de longa ponderação, baseado em minha experiência e conhecimento dos [limitados] meios disponíveis, suprir o VI Exército por ar era simplesmente impossível de se fazer. Além disso, as condições meteorológicas e a situação do inimigo eram fatores completamente imprevisíveis.17

Outro chefe preeminente da Aeronáutica compartilhava com o ponto de vista de Fiebig: o muito condecorado Generaloberst Wolfram Freiherr von Richthofen, comandante da Luftflotte 4, a frota aérea encarregada de todas as operações da Luftwaffe no sul da Rússia (inclusive Ucrânia, Criméia, Mar Negro, o Cáucaso e, é claro, o setor de Estalingrado). As opiniões de Von Richthofen tinham muito mais peso do que as de Fiebig, seu subordinado. Não apenas ele era considerado o mais importante comandante operacional da aeronáutica alemã, mas, também, era querido e respeitado pela pessoa que importava mais: o próprio Hitler. Na verdade, Hitler admirava Von Richthofen, um dedicado nacional socialista, um comandante com iniciativa, um líder inspirador, um assessor sincero e um leal seguidor.

Von Richthofen considerava uma loucura que Paulus e seu estado-maior planejassem uma defesa circular de Estalingrado e pusessem suas esperanças na Luftwaffe para sustentar o seu exército. A força aérea simplesmente não tinha capacidade de mantê-lo suprido, advertiu ele, freneticamente, a todos que o ouviam. “O VI Exército acredita que será suprido pela frota aérea nas suas posições tipo porco espinho”, queixava-se ele em seu diário no dia 21.18 “Faço todos os esforços para convencê-lo de que isto não pode ser realizado, porque os recursos necessários ao transporte não estão disponíveis.” Durante os “numerosos terríveis telefonemas … até tarde da noite”, ele insistiu enfaticamente com praticamente todos os chefes importantes do Exército e da Força Aérea — inclusive Göring em Berlim, Zeitzler na Prússia Oriental, Jeschonnek em Berchtesgaden e von Weichs no Grupo de Exércitos B — que ele não tinha os meios de suprir o exército de Paulus e que esse exército devia imediatamente tentar romper o cerco.19 Seus protestos caíram em ouvidos moucos e, a despeito de diversos rogos, ninguém levou o seu pedido a Hitler.

No dia seguinte, o Generalmajor Wolfgang Pickert comandante da Nona Divisão de Artilharia Antiaérea e o mais antigo oficial da Luftwaffe preso no bolsão, fez eco a esses sentimentos falando com Paulus e Schmidt durante uma conferência em Nizhne-Chirskaya, à qual compareceram estes generais e o Generaloberst Hermann Hoth, comandante do IV Exército de Panzer. De acordo com as versões subseqüentes de Pickert daquilo que transpirou (a única narrativa que chegou até nós), Schmidt lhe perguntou, em um dado momento, o que ele achava que devia ser feito. “Eu reuniria todas as forças que pudesse para romper o cerco na direção sudoeste”, respondeu francamente o general da artilharia antiaérea. Schmidt explicou que Hitler havia ordenado expressamente ao seu VI Exército para permanecer em Estalingrado, que faltava suficiente combustível ao exército para uma tentativa apropriada de romper o cerco e que o próprio terreno complicava o assunto. Os soviéticos dominavam o terreno mais elevado a oeste, o que significava que o VI Exército estaria exposto a sua artilharia se tentasse romper o cerco. Essa tentativa teria que ser feita sem armamento pesado, de qualquer maneira, por causa da falta de combustível. Além disso seria necessário deixar 15.000 soldados doentes e feridos entregues à própria sorte. Por essas razões, acrescentou Schmidt, uma ruptura do cerco provavelmente acabaria sendo uma “catástrofe Napoleônica”.20

Pickert rejeitou isto como um “nonsense”, insistindo que uma ruptura do cerco era a única solução. As suas forças de artilharia antiaérea poderiam ajudar consideravelmente, acrescentou ele. Ele tinha numerosas baterias pesadas para o fogo de cobertura e seus homens poderiam levar seus canhões 20 mm de AAAe (160 em sua totalidade) e sua munição pelas estepes. “Não”, concluiu Schmidt, “o exército recebeu ordens de manter-se firme em Estalingrado. Como resultado, vamos fazer uma defesa em forma de porco espinho e esperar os suprimentos por via aérea”. O comandante de artilharia antiaérea, que aparentemente não sabia do debate anterior de Fiebig com o exército a respeito do assunto, ficou bestificado. “Suprir um exército inteiro por via aérea? — absolutamente impossível! Simplesmente não pode ser feito, especialmente com esse tempo.” A despeito de repetidamente argumentar com o VI Exército para romper o cerco, e explicar amplamente as razões pelas quais a Luftwaffe não poderia suprir o exército, Pickert foi incapaz de persuadir o exército. Paulus havia ficado silencioso durante toda a discussão, mas, finalmente, disse ao aviador as duas coisas mais importantes que ele pensava: Hitler tinha ordenado a ele que permanecesse e que a tentativa de romper o cerco com os meios disponíveis terminaria provavelmente em catástrofe. Schmidt permaneceu inexorável a respeito do transporte aéreo. “Simplesmente não pode ser feito”, declarou ele, acrescentando que seus homens fariam a sua parte para diminuir a necessidade de suprimento comendo os milhares de cavalos que havia dentro do bolsão.21

Assim, os comandantes da Luftwaffe no campo eram unânimes tanto na crença de que a força aérea não poderia suprir o VI Exército inteiro quanto na sua condenação da idéia dos comandantes locais do exército e do próprio Alto Comando. Afinal, conseguiram diversos convertidos, dos quais o mais notável foi Zeitzler (como logo se mostrará) e o General-oberst von Weichs, comandante do Grupo de Exércitos B. O último havia ouvido cuidadosamente os argumentos de von Richthofen. Persuadido, ele enviou uma mensagem por teletipo ao Alto Comando em 22 de novembro.22 A pronta retirada do VI Exército era essencial, disse ele, especialmente porque “o suprimento pelo ar das vinte divisões que constituem este exército não é possível. Com o transporte aéreo disponível e em condições meteorológicas favoráveis é possível transportar apenas um décimo das suas necessidades essenciais diárias”. Von Weichs acrescentou que embora uma ruptura do cerco fosse “acarretar pesadas perdas, especialmente de material”, era a única opção viável e, se bem sucedida, “resultaria em desenvolvimento favorável da situação como um todo”.

Diversos entre os comandantes de corpo-de-exército presos em Estalingrado também concordavam que a guerra terminara para eles se o Alto Comando recusasse a tentativa de romper o cerco e ordenasse o transporte aéreo. Em 22 de novembro, enquanto Pickert estava discutindo com Paulus e Schmidt em Nizhne-Chirskaya, ocorreu um encontro entre comandantes de corpo-de-exército em Gum-rak, dentro do bolsão.23 Agindo por si próprio, Walter von Seydlitz, comandante do 510 Corpo-de-Exército, convocou os outros comandantes de corpo-de-exército — Generais Erwin Jaenicke do 40 Corpo-de-Exército, Walter Heitz do 40 Corpo-de-Exército, Karl Strecker do 110 Corpo-de-Exército e Hans Hube do 140 Corpo de Panzer — para discutir a situação. Todos eles concordaram que deveriam reunir toda a sua força para uma tentativa de romper o cerco. Planejaram o ataque para o dia 25 e, de acordo com von Weichs (mas não com Paulus, que não sabia do plano deles, nesse ponto), começaram a reagrupar-se para a operação.

Contudo, Paulus — como seu chefe de estado-maior — aparentemente não estava persuadido pelas advertências do aviador. Vacilou durante 22 e 23, receoso de contrariar as ordens de Hitler para permanecer firme, mesmo que ele soubesse que suas oportunidades para um rompimento com êxito estavam desaparecendo a cada hora que passava. No dia 22 ele pediu “liberdade de decisão no caso do fracasso em organizar posições defensivas ao sul”. Entretanto, ignorando totalmente os argumentos lógicos de Richthofen, Fiebig e Pickert contra um transporte aéreo, estabeleceu que logo que ele pudesse fechar seu flanco sul exposto e “receber amplos suprimentos por via aérea”, pretendia manter a área ainda em sua posse.24 Na noite seguinte, em resposta a uma ordem nova de Hitler para organizar posições defensivas em todas as direções e esperar socorro do exterior, o General replicou com outra mensagem por teletipo. Dessa vez ele referiu-se à oposição crescente ao transporte aéreo proposto, mas disse apenas que “o suprimento tempestivo e adequado havia sido descartado”.25 Seu exército precisava romper o cerco pelo sudeste, afirmou ele, porque estava agora sofrendo de aguda falta de munição e combustíveis e de ataques crescentes do inimigo contra certos setores. Como o exército não se podia manter por muito tempo, ele, novamente, pedia “liberdade de decisão”. Seus cinco comandantes de corpo-de-exército, acrescentou ele, compartilhavam sua visão da situação.

Os ouvidos de Hitler ficaram moucos a esses pedidos. Ele havia decidido firmemente. Depois de voltar para seu quartel-general, na Prússia Oriental, no dia 23, ele respondeu a Paulus, por rádio, no começo do dia 24. O VI Exército (que ele agora chamava de “Fortaleza de Estalingrado”) ficaria e defender-se-ia vigorosamente. “O suprimento aéreo por mais uma centena de Junkers está a caminho”, disse ele, tentando tranqüilizar o inquieto comandante de exército.26 Por essa época, as idéias do Führer de uma operação por transporte aéreo haviam mudado consideravelmente desde que Jeschonnek primeiro havia assegurado a ele que o VI Exército podia ser suprido por ar. Ele havia, então, descrito o cerco ao exército como temporário, e Jeschonnek deu sua imprudente garantia com isso em mente. Agora ele percebia claramente tratar-se de um transporte aéreo no estilo de Demyansk, apenas ainda maior e mais duradouro. “O VI Exército vai ficar onde está”, ele gritou para Zeitzler na noite de 23, de acordo com a narrativa deste último depois da guerra. “É a guarnição de uma fortaleza, e o dever dos soldados da fortaleza é resistir a cercos. Se necessário, eles ficarão ali por todo o winter, e eu vou ajudá-los com uma ofensiva na primavera.”27

A firmeza da convicção de Hitler de que a “fortaleza” devia permanecer firme e que a Luftwaffe poderia mantê-la suprida adequadamente havia crescido consideravelmente nos dois dias subseqüentes à primeira vez que Jeschonnek o havia mencionado. Uma das principais razões para essa convicção crescente foi o quase unânime apoio dessa decisão manifestado à volta dele. Em Berchtesgaden e durante sua longa viagem de trem para a Prússia Oriental, no dia 23, o Führer não teve contato com os comandantes do exército e da força aérea, direto ou telegráfico. Durante este período crítico de tomada de decisão ele não falou com von Richthofen, com Fiebig ou com Pickert, cujas forças aéreas teriam que realizar a operação maciça de suprimento e que estavam, agora, advertindo freneticamente quase todos aqueles com quem falavam de que não tinham os meios para manter o VI Exército suprido. Nem se comunicou, também, com von Weichs, que compartilhava seus pontos de vista e advogava uma imediata tentativa de rompimento do cerco. Hitler inteirou-se dos pontos de vista deles por intermédio de Zeitzler, que, finalmente, havia “acordado” e agora defendia a avaliação deles. Ainda assim, porque sua advertência não havia sido apresentada pessoalmente, mas, apenas, passada adiante pelo chefe do estado-maior “excessivamente preocupado”, o peso dela foi pequeno. Hitler meramente acusou Zeitzler de ser excessivamente pessimista e aconselhou-o a parar de prestar atenção aos comandantes “derrotistas” que não podiam ver a floresta em vez das árvores.

Os assessores militares que acompanhavam o Führer — seus fiéis paladinos Wilhelm Keitel e Alfred Jodl e seus reduzidos estados-maiores — não estavam em posição de fazer uma análise detalhada ou oferecer uma assessoria bem informada. Keitel, um sicofanta que raramente expressava pontos de vista contrários ao do Führer, foi fiel ao seu estilo durante esse período crucial. “O Volga tem que ser defendido! … O VI Exército tem que se manter firme!” disse ele, repetidamente, a Hitler. Embora Jodl não fosse um lacaio bajulador, a despeito dos esforços de muitos autores do pós-guerra em pintá-lo assim, ele ainda estava sofrendo do tratamento grosseiro que Hitler havia despejado sobre ele quando ficou do lado do Generalfeldmarschall Wilhelm List, contra Hitler, em setembro. Ele ainda não estava pronto para receber mais desse tratamento. Portanto, deu a Hitler um aconselhamento muito mais cuidadoso, mas ainda assim agradável: embora o VI Exército estivesse, certamente, numa situação muito difícil, argumentou ele, e sua destruição parecesse certa se não chegasse auxílio, os enormes ganhos territoriais obtidos durante a campanha de verão não deviam ser abandonados antes que fosse tentada a operação de resgate de von Manstein. Entrementes, a Luftwaffe deveria manter o exército suprido.

Com exceção da Zeitzler, a única voz discordante que Hitler ouviu durante seus últimos dois dias em Berchtesgaden, em sua longa viagem para o norte, para a Prússia Oriental, foi a de Jeschonnek, que havia abandonado sua posição primitiva e, agora, sugeria francamente que o VI Exército deveria romper o cerco.28 Ele lamentava as garantias que dera anteriormente a Hitler. Mal as palavras lhe haviam saído da boca, ele desejara que as pudesse engolir de novo. Depois de mandar seu estado-maior conferir os números, e depois de ter falado várias vezes com von Richthofen por telefone, ele percebeu rapidamente que nada parecido com um apoio logístico adequado, por ar, ao VI Exército, seria possível, mesmo se as condições atmosféricas ficassem permanentemente favoráveis e que não fosse levada em conta a ação da VVS. Ele e von Richthofen eram amigos íntimos, mas este último dominava claramente a relação e, quando discordavam em algum assunto, geralmente von Richthofen vencia Jeschonnek. Este foi, claramente, um caso assim. Contudo, embora Jeschonnek informasse Hitler de que poderia ter sido precipitado ao fazer sua avaliação anterior, sua retratação não pesou. Não apenas Keitel e Jodl acreditavam que o VI Exército deveria ficar, replicou Hitler, mas o próprio superior de Jeschonnek, o Reichsmarschall Göring, já havia, agora, dado a sua garantia pessoal de que a Força Aérea podia atender completamente às necessidades de suprimento do Exército.

Determinar quando Göring primeiro assegurou especificamente a Hitler de que a Luftwaffe poderia suprir o Exército é difícil, por causa da escassez de fontes confiáveis e minuciosas. Contudo, David Irving, que reconstruiu os movimentos de Göring, neste período, acredita que Hitler telefonou para ele, pela primeira vez, em 21 de novembro, um dia inteiro antes que Jeschonnek tivesse feito sua promessa imprudente e logo depois que Hitler primeiro mencionou o transporte aéreo a Paulus.29 Esse ponto de vista tem o apoio do diário de von Richthofen, descrevendo uma discussão que teve com Hitler no “covil do lobo”, em 11 de fevereiro de 1943, quase duas semanas depois de Paulus ter-se rendido e seus soldados sobreviventes terem sido feitos prisioneiros pelos soviéticos. Hitler admitiu para von Richthofen que Göring não tinha toda a culpa do fracasso do transporte aéreo. Ele próprio havia prometido ao VI Exército que seria suprido por ar, “sem o conhecimento do Reichsmarschall”.30

Quando Göring primeiro discutiu o transporte aéreo com Hitler, em 21 de novembro, ele não tinha uma informação atualizada do cerco ao VI Exército nem dados estatísticos com que fazer os cálculos do suprimento por ar. Portanto, ele não deu seguranças específicas a respeito da capacidade de tonelagem do transporte aéreo por sua força, insistindo, em vez disso, em que o VI Exército deveria ficar firme e que, como Jeschonnek tinha dito no dia anterior, a Luftwaffe faria tudo que estivesse em seu poder para atender às necessidades do Exército. Assim que saiu do telefone, convocou seu estado-maior de Intendência e ordenou que todos os aviões de transporte disponíveis — incluindo o seu próprio correio — fossem mobilizados para a operação. Convém notar as ações de Göring, considerando que ele ainda não havia estudado os dados minuciosos ou consultado especialistas em suprimento por ar. Mais tarde, ele contou a von Richthofen que desde o começo de Estalingrado ele havia tido uma atitude otimista e apoiado o Führer em sua decisão de ficar firme ali.31 Nesse ponto, acrescentou von Richthofen, Göring ainda acreditava que o cerco ao VI Exército era temporário.

A segurança de Göring se tornou muito mais forte no dia seguinte (22 de novembro) quando ele chegou a Berchtesgaden. Hitler perguntou ao seu gordo vice se ele ainda apoiava a proposta de suprimento por via aérea. Göring respondeu confiantemente “Ja, pode ser feito”. Ele não podia dar outra resposta, disse ele, mais tarde, ao Generaloberst Bruno Lörzer, seu amigo íntimo, porque o líder nazista usou o pior tipo de chantagem emocional:

Hitler me disse: “Olhe aqui, Göring. Se a Luftwaffe não puder fazer isso, o VI Exército está perdido!” Ele me segurava firmemente pelo fiador da espada. Eu não pude fazer nada senão concordar, de outra forma a Força Aérea e eu teríamos ficado com a culpa pela perda do Exército. Assim, tive que responder: “Mein Führer, vamos fazer o trabalho!”32

Dificilmente ele poderia ter rejeitado a proposta de transporte aéreo, de qualquer modo, explicou ele, depois, de maneira pouco convincente, a Paul Körner (subsecretário de estado para o Plano Quadrienal), porque seu próprio chefe de estado-maior já tinha convencido o Führer de que a Força Aérea poderia suprir as forças sitiadas. “Hitler já tinha os papéis de Jeschonnek antes que eu os olhasse”, disse ele a Körner, sem dúvida procurando lançar alguma culpa sob os ombros de seu chefe de estado-maior. “Eu só pude dizer: ‘Mein Führer, o senhor tem todos os números. Se eles estiverem corretos, então eu me ponho a sua disposição.’”33

Os números originais de Jeschonnek não eram exatos, entretanto, como Göring veio a saber apenas algumas horas depois. Oberst Eschenauer, o oficial de suprimento de Jeschonnek, informou seu chefe de que os contêineres de suprimento aéreo padrão de “250 kg” e “1000 kg”, em que ele havia baseado seus cálculos, realmente levavam apenas dois terços dessas cargas.34 Seus nomes derivavam, apenas, do tamanho das bombas que eles substituíam nos suportes de bombas. Jeschonnek, um homem honesto que admitia seus erros, disse imediatamente a Göring e pediu a ele que advertisse o Führer de que seus cálculos estavam baseados em dados incorretos. Göring estremeceu quando seu jovem chefe de estado-maior confessou esse erro, mas, acreditando que era “tarde demais agora”, proibiu-o expressamente de contar a Hitler. Em vez disso, telefonou para o Führer sugerindo que ele telefonasse ao Generalfeldmarschall Erhard Milch, seu substituto e Inspetor Geral da Aeronáutica, se se sentisse inseguro. Quando Milch finalmente tomou conhecimento disso, em 1946, rabiscou raivosamente em seu diário: “Fraude mais incompetência é igual a um Reichsmarschall! Eu já imaginava isso, mas, agora, tive a prova disso; isso me faz querer vomitar de novo.”35

Segundo as afirmativas de Zeitzler, depois da guerra, depois que Hitler voltou para a Prússia Oriental na tarde da noite seguinte — 23 de novembro — ele tentou vigorosamente persuadir Hitler de que as promessas de Göring eram impossíveis de ser cumpridas. Depois de explicar minuciosamente a tonelagem requerida e a falta de aeronaves para levá-la, Zeitzler disse a Hitler que “tendo examinado os fatos minuciosamente, a conclusão de que não é possível manter o VI Exército suprido por via aérea é inevitável”.36 Hitler permaneceu exteriormente calmo, mas, com evidente aborrecimento em sua voz, declarou: “O Reichsmarschall me assegurou que isso é possível”. Quando Zeitzler se manteve firme, Hitler mandou buscar o chefe da Força Aérea. “Göring”, perguntou ele, “você pode manter o VI Exército suprido por via aérea?” O aviador levantou o braço direito e disse “Mein Führer, eu lhe garanto que a Luftwaffe pode manter o VI Exército suprido”. Hitler lançou a Zeitzler um olhar triunfante, mas o general se recusou a desistir. “A Luftwaffe certamente não pode fazer isso”, insistiu ele, ao que Göring respondeu irado: “Você não está em posição de dar uma opinião a esse respeito”. Hitler ficou surpreso pela indisfarçada hostilidade entre seus comandantes, mas deu permissão a Zeitzler para contestar as promessas de Göring. “Herr Reichsmarschall”, disse ele, “o senhor sabe que tonelagem tem que ser levada todos os dias?” Apanhado com a guarda aberta, o envergonhado chefe da Aeronáutica respondeu: “Eu não, mas os oficiais do meu estado-maior sabem”. Zeitzler tinha vindo bem municiado. Seu próprio estado-maior havia feito cálculos detalhados, que ele sumarizou imediatamente:

Levando em conta todos os estoques que o VI Exército tem no momento, levando em conta as necessidades mínimas absolutas e tomando todas as medidas de emergência possíveis, o VI Exército necessitará que sejam levadas a ele 300 toneladas por dia. Mas já que nem todos os dias são apropriados para o vôo, como eu próprio vim a descobrir na frente, no último winter, isso significa que cerca de 500 toneladas terão que ser levadas ao VI Exército a cada dia em que o vôo puder ser feito, para que o mínimo irredutível médio tenha de ser mantido.

“Eu posso fazer isso”, retorquiu Göring. Perdendo a paciência, Zeitzler gritou “Mein Führer! Isto é mentira!” Hitler pensou por um minuto antes de replicar: “O Reichsmarschall fez seu relatório a mim, e eu não tenho outra escolha senão acreditar nele. Portanto, eu mantenho minha decisão original [suprir o exército por via aérea].”

A descrição de Zeitzler, freqüentemente citada, de sua discussão com Göring não deve ser tratada como um registro literal, porque se baseia em sua lembrança subjetiva da troca de palavras e, aparentemente, não foi escrita senão no dia seguinte. Contudo, a narrativa é quase certamente uma tentativa honesta de reconstruir o acontecido. A oposição aberta de Zeitzler ao transporte aéreo é mencionada em várias fontes confiáveis, incluindo o diário de von Richthofen, assim como sua coragem de expressar opiniões contrárias às do Führer. Mas colocar essa narrativa, cronologicamente, dentro desse período crucial de tomada de decisão traz alguns problemas. O próprio Zeitzler não podia se lembrar da data, observando, apenas, que isso aconteceu “ entre 22 e 26 de novembro”.37

A maior parte dos autores coloca essa discussão nas primeiras horas de 24 de novembro — quer dizer, pouco tempo depois que Hitler chegou de Berchtesgaden e pouco tempo antes que ele desse sua ordem fatal a Paulus para que o exército resistisse, que uma operação de salvamento estava sendo lançada e que a Luftwaffe, “apoiada por mais 100 Junkers” manteria o exército suprido.38 Se a discussão não ocorreu nesse ponto, então representa o último apelo importante a Hitler para mudar sua decisão e o mais relevante desafio às garantias incondicionais de Göring de que sua Força Aérea seria capaz de fazer face às necessidades de suprimento do exército retido. Isso mostra não apenas que Hitler já tinha decidido firmemente o assunto antes que voltasse para a Prússia Oriental, mas que o vergonhoso desconhecimento de seu vice em relação às tonelagens que ele tinha prometido suprir deveriam ter levantado graves dúvidas em sua mente a respeito da confiabilidade dessas promessas. Antes que fosse tarde demais, Hitler deveria ter reexaminado as tabelas e gráficos feitos por Jeschonnek e Zeitzler e o Intendente Geral do Exército, e deveria ter falado com von Richthofen, cuja frota aérea iria realizar a operação de suprimento aéreo.

Contudo, a discussão entre Zeitzler e Göring não se realizou no dia 24, antes que começasse o transporte aéreo. Não poderia ter sido assim. Depois que Göring visitou Hitler em Berghof, no dia 22, ele foi para Paris, no Asia, seu luxuoso trem de comando. Passou os quatro dias seguintes, quando deveria estar organizando o transporte aéreo, visitando comerciantes de artes e galerias parisienses.39 Von Richthofen ficou abismado. “Eu insisto com Jeschonnek e com Zeitzler que levem meus pontos de vista ao Führer”, escreveu ele em seu diário no dia 25, “e que utilizem a força do Reichsmarschall, mas ele está em Paris!”40 Göring voltou ao quartel-general de Hitler, em Rastenburg, no dia 27, e sua acalorada discussão com Zeitzler provavelmente ocorreu nesse momento; quer dizer, três dias depois que Hitler dera o sinal verde para o transporte aéreo. A despeito do que dizem numerosos autores, portanto, a discussão não desempenhou papel no processo de tomada de decisão. Os dados já haviam sido lançados.

A decisão de Hitler de manter o VI Exército em Estalingrado e apoiá-lo a partir do ar até que uma operação de salvamento pudesse romper o seu sítio foi recebida mal pelos comandantes no campo. Von Richthofen tentou, novamente, convencer, desesperadamente, quem quer que o ouvisse, de que Hitler deveria receber uma avaliação honesta dos fatos. Telefonou a Jeschonnek (três vezes), a von Weichs e a Zeitzler, pedindo mais uma vez que seu ponto de vista fosse levado a Hitler (o que eles fizeram, sem resultado).41 Ficou desapontado pelo que ele corretamente achava ser a falta de coragem de Jeschonnek diante de Hitler, observando que “Weichs e Zeitzler compartilham o ponto de vista. Jeschonnek não tem ponto de vista nenhum”. Ele ficou mais aborrecido no dia seguinte (25 de novembro) ao vir a saber que o transporte aéreo continuaria, a despeito de suas advertências:

O Führer ouviu tudo o que tínhamos a dizer, mas decidiu contra isso porque acredita que o exército pode se manter e não acredita que pudéssemos voltar a conquistar Estalingrado. Eu continuo com minha opinião. Entretanto, ordens são ordens e tudo será feito segundo as ordens recebidas. É trágico que nenhum dos comandantes com responsabilidade local, embora supostamente possuindo a confiança [do Führer], tenha qualquer influência, em qualquer coisa agora.... Como as coisas estão, presentemente, em termos operacionais, não somos mais do que sargentos altamente remunerados.42

Von Richthofen ficou aturdido ao perceber que o Alto Comando esperava que ele levasse pelo menos 300 toneladas por dia. “Suprimos [hoje, o bolsão] com todos os nossos Ju-52, mas só tínhamos 30 disponíveis para isso”, acrescentou ele em seu diário:

Dos 47 Ju-52 de ontem, 22 fizeram surtidas [para o bolsão]; dos trinta de hoje, 9 fizeram surtidas. Levamos para lá por via aérea 75 toneladas hoje, em vez das 300 toneladas ordenadas pelo Alto Comando, que não é possível alcançar com os poucos Ju-52 disponíveis. Eu relatei isso ao Reichsmarschall.

Von Seydlitz, comandante do 600 Corpo-de-Exército, também se queixou de que a ordem de Hitler era impossível de cumprir. Ele enviou um longo relatório a Paulus, advertindo que não havia possibilidade de agüentar firme: “o Exército tem uma escolha clara: deve romper o cerco pelo sudoeste, na direção geral de Kotelnikovo, ou enfrentar a destruição dentro de alguns dias”.43 A situação de suprimento do exército, insistiu, decidiria o assunto. Acreditar que a Luftwaffe poderia manter o exército suprido era segurar-se em palhas, especialmente já que apenas 30 Ju-52 estavam disponíveis e mesmo se a outra centena de aeronaves que Hitler prometeu se materializasse verdadeiramente, ainda não poderiam atender completamente às necessidades do exército. Infelizmente, o relatório de von Seydlitz continha diversas inexatidões que tiravam dele capacidade de persuadir. Por exemplo, afirmava que mesmo mil toneladas de suprimento por dia não seriam suficientes, enquanto o próprio intendente do VI Exército tinha relatado que o Exército poderia sobreviver se a Luftwaffe levasse 500 toneladas todos os dias (300 metros cúbicos de combustível e 200 toneladas de munição).44 Schmidt e Paulus ainda enviaram o relatório a von Manstein, acrescentando que, embora discordassem da maior parte dos argumentos de von Seydlitz, compartilhavam seu ponto de vista de que o exército devia romper o cerco imediatamente.

Infelizmente para todos os que se opunham ao “ficar firme” de Hitler e às decisões relativas ao transporte aéreo, von Manstein fez seu próprio estudo da situação e enviou ao Alto Comando uma estimativa muito mais otimista.45 Sua posição era similar à de Jodl: embora concordasse que a rompimento do cerco era a linha de ação mais segura e que o exército permanecia em perigo se ficasse na sua posição presente, não estava convencido pela insistência do Grupo de Exércitos B relativa à imediata ruptura do cerco. Se uma operação de salvamento pudesse iniciar no começo de dezembro, argumentava ele, e se a promessa de reforços chegasse a tempo, ainda era possível salvar o exército. É claro, recomendava ele cautelosamente, que se se mostrasse impossível lançar uma operação de salvamento ou atender às necessidades de suprimento do exército por ar, então ele deveria romper o cerco. Hitler tinha o que queria. Ele valorizava extremamente as opiniões de von Manstein (como o faziam seus oficiais mais graduados), e informou orgulhosamente a Seydlitz e a seus outros assessores que a avaliação do marechal-de-campo era muito mais de acordo com suas próprias opiniões do que as dos generais “derrotistas”. O debate estava terminado; ele havia vencido — por enquanto.

Assim, a responsabilidade pela decisão de suprir o VI Exército — uma das mais fatais decisões da guerra — cai sobre três indivíduos: Jeschonnek, Hitler e Göring. Jeschonnek imprudentemente deu as primeiras garantias de que a Luftwaffe era capaz de atender às necessidades logísticas do exército, antes de consultar especialistas em transporte aéreo, de fazer cálculos detalhados por si próprio ou de perguntar o ponto de vista de von Richthofen e dos outros comandantes do Exército e da Força Aérea na frente. Suas avaliações da situação e a capacidade das respectivas forças teriam sido muito mais minuciosas e confiáveis do que o estudo de situação feito pelo Führer e seu grupo (milhares de quilômetros, no retiro alpino de Hitler no sul da Baviera) cuja principal fonte de informação eram as “atualizações” de Zeitzler por telefone. Jeschonnek deveria ter pedido um pouco de tempo para trabalhar antes de apresentar uma opinião sobre o assunto.

Quando Jeschonnek deu sua garantia inicial a Hitler, contudo, ele acreditava que o cerco ao exército seria temporário e, portanto, que a sua sobrevivência de longo prazo não dependia da capacidade da Força Aérea de mantê-lo suprido. Se ele soubesse que o VI Exército precisaria de suprimento por diversas semanas, senão por diversos meses, ele certamente não teria prometido a Hitler coisa alguma sem uma pesquisa extensa. A seu crédito, quando ele veio a saber que o cerco ao VI Exército permaneceria por muito mais tempo do que originalmente afirmado, que von Richthofen e Fiebig se opunham vigorosamente ao transporte aéreo e que seus próprios cálculos rápidos eram inexatos, ele imediatamente admitiu seus erros e tentou dissuadir Hitler e Göring. Não tinha, porém, nem uma personalidade vigorosa nem o respeito dos seus chefes e, assim, eles simplesmente ignoraram suas advertências. A culpabilidade de Jeschonnek, desse modo, é apenas imprudência, a de uma avaliação original falha da situação e a da inabilidade de se impor a personalidades mais fortes. Não é o caso de desonestidade nem incompetência.

Considerando a responsabilidade de Hitler pela decisão de suprir o VI Exército por via aérea, deve-se notar que ele era incapaz de se concentrar apenas neste assunto. Ele tinha que dividir sua atenção entre os acontecimentos de Estalingrado e o que equivocadamente entendia ser uma situação igualmente crítica no norte de África. Apenas duas semanas após o General Bernard Montgomery ter lançado sua ofensiva contra as posições de Erwin Rommel, em El Alamein, e quatro dias após seu exército tê-las capturado (o que lançou o Führer num acesso de raiva), importantes desembarques anglo-americanos ocorreram no Marrocos e na Argélia, em 8 de novembro. A resistência francesa rapidamente entrou em colapso e acontecimentos subseqüentes forçaram Hitler a lançar a operação Anton, a ocupação de Vichy, na França, no dia 11. Para tornar piores as coisas, ele sentiu que precisava despejar centenas de milhares de soldados na Tunísia, para impedir o avanço das forças anglo-americanas que estavam pressionando para leste, em direção ao Afrika Korps, de Rommel, ainda recuando para ocidente diante do VIII Exército de Montgomery. A operação Anton rapidamente alcançou uma conclusão bem sucedida. Entretanto, quando Stalin lançou a operação Uranos, em 19 de novembro, as coisas ainda estavam muito ruins para as tropas alemãs no norte da África e a mente de Hitler estava concentrada na sobrevivência delas e, esperava ele, em operações para recuperar a situação. Assim, perturbado pelos acontecimentos no Mediterrâneo, Hitler não era capaz de concentrar sua atenção apenas na grave situação do Oriente. Se ele tivesse preferido se concentrar em Estalingrado e na segurança da região de Don/Donet, estrategicamente mais importante que a Tunísia, poderia ter feito escolhas diferentes das que acabou fazendo e que o levaram à perda de um exército inteiro.

Decidir suprir o VI Exército por via aérea não foi o único erro de Hitler. Sua decisão de despejar homens e equipamentos na Tunísia durante esse período crítico se qualifica como uma das piores que ele jamais tomou. Como observou o historiador Vincent Orange: “A campanha, embora prolongada, só podia ter um resultado: a derrota do Eixo.”46 Os Aliados, explicou ele, “dispunham do domínio do mar, do ar e de uma enorme vantagem terrestre, em números de soldados, de carros de combate, de canhões e de suprimentos de toda espécie (especialmente combustível)”. Assim, os 81.000 soldados alemães desembarcados na Tunísia entre novembro de 1942 e janeiro de l943,47 mais os 250 JU-52 usados para transportá-los, foram desperdiçados numa campanha com pouco valor estratégico e nenhuma possibilidade de êxito. Esses homens e aeronaves poderiam ter feito uma diferença crucial para o destino alemão na muito mais importante região Don/Donet se tivessem sido enviados para von Manstein e para von Richthofen.

A responsabilidade de Hitler pelo transporte aéreo supera a de Jeschonnek. Primeiro, sua própria percepção inicial a respeito do desenvolvimento do cerco e do destino do VI Exército não fora baseada na racionalidade, mas no egoísmo. Sua “vontade de ferro” sozinha havia salvo seus exércitos orientais durante o winter anterior, acreditava ele. Ele faria a mesma coisa de novo. Isso explica seu comentário a Zeitzler na primeira noite depois que voltou para a Prússia Oriental. “Temos que mostrar firmeza de caráter no infortúnio”, insinuou ele. “Temos que nos lembrar de Frederico o Grande.”48 Segundo, ele também considerava essencial manter-se firme em Estalingrado porque não podia retirar-se, com a face salva, dessa cidade “importante estrategicamente”que ele publicamente havia prometido diversas vezes defender. Terceiro, aceitou acriticamente a garantia dada por Jeschonnek porque elas apoiavam seus próprios preconceitos, embora o aviador claramente não houvesse refletido ou feito nenhuma pesquisa antes de dá-las. Quarto, a partir do momento em que recebeu essas garantias, que caíam bem para sua própria maneira de ver, Hitler fechou sua mente a estratégias alternativas. Quinto, ignorou completamente os apelos repetidos e as advertências dos comandantes de seu Exército e de sua Força Aérea na frente, chamando-os, injustamente de “derrotistas” porque eles questionavam a inflexível fórmula do “ficar firme” que ele havia elevado ao status de uma doutrina. Sexto, aceitou as promessas de Göring e as suas reiteradas afirmativas de maneira tão pouco crítica quanto havia aceitado as de Jeschonnek, a despeito do fato de que o registro do Reichsmarschall Göring tinha uma história ruim, de que ele havia exercido apenas o comando nominal da Luftwaffe durante o último ano, delegando, em vez disso, a gerência cotidiana da força a seus subordinados e, a despeito da natureza crucial da situação presente em Estalingrado, não tinha feito, evidentemente, qualquer esforço para familiarizar-se com as questões envolvidas. Por fim, ele não retirou Göring e o substituiu por alguém competente ou mesmo exigiu que ele assumisse a responsabilidade neste período crítico. Ele deveria, pelo menos, tê-lo proibido (nas palavras de von Richthofen) de “deslizar como um cisne para Paris para saquear galerias de arte” e ordenar-lhe que ficasse em Rastenburg para organizar e supervisionar o transporte aéreo para Estalingrado, o maior na história militar, e do qual dependiam as vidas de um quarto de milhões de homens.

A responsabilidade de Göring pela decisão do transporte aéreo é igual à de Hitler. Quando o líder nazista primeiro perguntou a ele se a Luftwaffe podia, como Jeschonnek tinha prometido, atender completamente às necessidades logísticas do VI Exército, ele não devia ter dado resposta imediata; devia, primeiro, ter consultado seus especialistas em transporte aéreo, estudado todas as informações disponíveis a respeito da situação de Estalingrado (efetivo inimigo e atividades, tamanho e estado das forças cercadas, condição e capacidade da Luftflotte 4, padrões e projeções das condições atmosféricas e assim por diante) e buscado a opinião de von Richthofen e dos comandantes do Fliegerkorps que estavam envolvidos no assunto. É de se notar que Göring tenha deixado de fazer isso, não apenas antes de dar suas primeiras garantias, mas, também, antes de fazer suas promessas finais e ir para Paris.

Göring dominava de maneira impetuosa seu próprio estado-maior, tendo levado dois de seus mais graduados oficiais ao suicídio (Ernst Udet, em novembro de l941 e Jeschonnek, em agosto de l943). Ainda assim ele se mostrou incapaz de enfrentar Hitler. Ele raramente sequer expressava pontos de vista contrários ao do Führer (pelo menos na presença deste), especialmente depois de seu fracasso óbvio em derrotar a Grã-Bretanha a partir do ar e de defender as cidades alemãs de ataques aliados sempre crescentes. Esses fracassos haviam reduzido persistentemente seu prestígio aos olhos de Hitler durante l941 e l942. Em vez disso, ele entregou-se à subserviência, esperando que sua lealdade servil reparasse a relação entre eles. É provável, então, que as garantias incondicionais de Göring de que sua Força Aérea poderia manter o VI Exército suprido viessem da sua incapacidade de resistir ao Führer ou de enfrentar seus pontos de vista (“eu fiquei com a impressão de que ele tinha medo de Hitler” escreveu Milch certa vez49) e de seu intenso desejo de recuperar o seu abalado prestígio.

Hermann Plocher argumentou que Göring “também pode ter acreditado sinceramente que poderia realizar a operação de transporte aéreo satisfatoriamente, do mesmo modo que o havia feito em algumas ocasiões no passado, combinando as influências de seus diversos escritórios e acrescentando a isso sua brutal energia”.50 Plocher está errado. Göring não acreditava “sinceramente” que pudesse fazer o trabalho, de outro modo não se pode entender os seus comentários para Lörzer de que Hitler o tinha segurado “pelo fiador da espada” e que ele não tinha podido “fazer nada se não concordar” porque não queria “ser deixado com a culpa”. Também, sua recusa em informar a Hitler que os cálculos originais de Jeschonnek estavam baseados em falsas premissas e informações afasta qualquer sugestão de “sinceridade”. Ele deliberadamente omitiu informação embaraçosa, mas importante, ao Führer. Além disso, em nenhum momento durante o curso do transporte aéreo, lançou mão de sua “brutal energia” para fazer com que o êxito fosse alcançado. Ao contrário, em vez de ficar e organizar e supervisionar a operação crucial ele próprio, sumiu e foi para Paris numa viagem de compras e, em seguida, ao voltar, apenas raramente tentou envolver-se nas questões que estavam acontecendo.

Em suma, este artigo mostra que a decisão de Hitler de deixar o VI Exército preso em Estalingrado com a Luftwaffe suprindo-o até que uma tentativa de resgate pudesse ser lançada é mais complexo do que apresentado nos livros a respeito desses acontecimentos. Primeiro, mais pessoas estiveram envolvidas no processo de decisão do que apenas Göring e Hitler, e a própria decisão final não foi tomada espontaneamente durante a primeira discussão entre ambos. Ela evoluiu ao longo de diversas discussões entre Hitler e seus assessores militares mais próximos, vários deles tendo dado mal conselho e evitado que Hitler ouvisse pessoalmente as opiniões dos que discordavam, especialmente von Richthofen, claramente a pessoa melhor informada a respeito das capacidades da Luftwaffe no setor de Estalingrado. Ao contrário do que é popularmente informado, a decisão não foi alcançada depois que Göring “enganou” o Führer. Não. Graças a Jeschonnek e ao aconselhamento inútil de Keitel e Jodl, Hitler já tinha decidido firmemente antes que sequer falasse com o volumoso demagogo. Seu receio à humilhação pública conjugado com sua teimosa inflexibilidade (que ele chamava sua “vontade de ferro”) rapidamente transformou o transporte aéreo — realmente uma das diversas estraté-gias alternativas que ele teria podido explorar com propriedade — na única linha de ação. Esses mesmos fatores subjetivos o levaram a ignorar as vozes que discordavam, dos comandantes em quem ele geralmente confiava e aos quais ouvia, para dar atenção a opinião de homens que ele tinha em baixa conta.

Notas

1. Para tratar do efeito da derrota sobre os aliados de Hitler, veja-se Jürgen Förster, Stalingrad.: Risse im Bundnis 1942/43 Einzelschriften zur militärischen Geschichte des Zweiten Weltkrieges (Freiburg: Rombach, 1957), 16.

2. Um excelente tratamento da historiografia de Estalingrado e dos efeitos duradouros dessa batalha na memória coletiva dos alemães e dos russos está em W. Wette e G. R. Ueberschär, eds., Stalingrad: Mythos und Wirklichkeit einer Schlacht (Frankfurt am Main: Fischer Taschenbuch, 1992); veja-se, também, Jürgen Förster, ed., Stalingrad: Ereignis-Wirkung-Symbol (Munich: Piper, 1992).

3. Erich von Manstein, Verlorene Siege (Bonn: Athenäum, 1955), 347.

4. J. Fischer, “Über den Entschluss zur Luftversorgung Stalingrads: Ein Beitrag zur ilitärischen Führung im Dritten Reich,” Militärgeschichtliche Mitteilungen 2 (1969): 7-67, é o melhor estudo publicado a respeito da “decisão de suprir Estalingrado por via aérea”, embora não faça uso dos diários de Milch, von Richthofen, Fiebig e Pickert, todos usados neste artigo. Os trabalhos de David Irving na Luftwaffe tratam, apenas brevemente, da decisão relativa ao transporte aéreo, mas contém um discortino valioso e distribui a culpa com justiça.

5. Franz Kurowski, Stalingrad: die Schlacht, die Hitlers Mythos zerstörte (Bergisch Gladbach: Gustav Lübbe, 1992), 298. Veja-se o anterior livro de Kurowski, Luftbrücke Stalingrad: Die Tragödie der Luftwaffe und der 6. Armee (Berg am See: Kurt Vowinckel, 1983), 32-37, e Balkenkreuz und Roter Stern: Der Luftkrieg über Russland 1941-1944 (Friedberg: Podzun-Pallas), 310; e Williamson Murray, Strategy for Defeat: The Luftwaffe, 1933-1945 (Maxwell Air Force Base, Ala.: Air University Press, 1983), 151.

6. Samuel W. Mitcham, Men of the Luftwaffe (Novato, Calif.: Presidio, 1988), 184.

7. Fischer, 10.

8. Manstein, 326.

9. Para o encontro de Jeschonnek com Hitler, vejam-se as declarações do estado-maior do aviador após a guerra, especialmente “Frau Lotte Kersten, damals Sekretärin bei Generaloberst Jeschonnek” e “Oberstleutnant Leuchtenberg, damals Adjutant des Generaloberst Jeschonnek” —in Aussagen zum Problem der Luftversorgung von Stalingrad, United States Air Force Historical Research Agency, Maxwell Air Force Base, Alabama (citado, a partir daqui, como USAFHRA), no. K113.106-153.

10. Fritz Morzik, German Air Force Airlift Operations, USAF Historical Study No. 167 (Maxwell AFB, Ala.:USAF Historical Division, Air University, 1961), 145.

11. Ibid., 150.

12. Ibid., 157-60.

13. P. E. Schramm, ed., Kriegstagebuch des Oberkommandos der Wehrmacht (Wehrmachtfuhrungsstab), 1940-1945 (Frankfurt am Main: Bernard & Graefe, 1961), vol. 2, 25 November 1942, 1019; Cajus Bekker, Angriffshöhe 4000: Ein Kriegstagebuch der deuschen Luftwaffe, 1939-1945 (Gräfelfing vor München: Urbes Verlag Hans Jürgen Hansen, 1964), 363.

14. M. Domarus, Hitler: Reden und Proklamationen,1942-1945 (1965; reprint, Leonberg: Pamminger, 1988). O discurso de 28 de setembro de 1942 está no vol. 4, 1912-1914, edição reimpressa.

15. Ibid., 1933-44, esp. 1937 (discurso de 9 de novembro de 1942).

16. Manfred Kehrig, Stalingrad: Analyse und Dokumentation einer Schlacht Beiträge zur Militär-und Kriegsgeschichte, Band 15 (Stuttgart: Deutsche Verlags-Anstalt, 1974), 163.

17. Feldgericht des VIII. Fliegerkorps, Br. B. Nr. 7143, gKdos, Im Felde, den 26.1.1943, gez. Fiebig, anexo a Tagebuch-Generalleutnant Fiebig (Stalingrad), 25.11.1942—22.2.1943, in USAFHRA, file no. 168.7158-335.

18. Dr. Wolfram Frhr. von Richthofen, Persönliches Kriegstagebuch, Band 9, 1.1.—31.12.1942, 21 November 1942, in Bunarchiv-Militärarchiv (Federal Military Archives) Freiburg, Germany, N671/9. Citado, a partir daqui, como BA/MA.

19. Ibid.

20. Minha descrição da conferência foi tirada das notas de Pickert (“Aufzeichnungen aus meinem Tagebuch und von Besprechungen über operative ünd taktische Gedanken und Massnahmen der 6. Armee”), anexas a seu diário, USAFHRA (168.7158-338): Aufzeichnungen des Generalmajor Pickert, Kommandeurs der 9. Flak-Division und Generals der Luftwaffe bein der 6. Armee, aus der Zeit vom 25.6.42-23.1.43) bem como de correspondência posterior entre Pickert e Hans Doerr, USAFHRA (K113.309-3 Vol. 9), e de um ensaio escrito por Pickert para Hermann Plocher, em 1956 (mesma fonte).

21. Ibid.

22. OB HGr B an OKH/Chef GenStdH vom 23.11.1942, betr. zurücknahme der 6. Armee, gez. von Weichs, publicado como Doc. 9 in Kehrig, 561.

23. H. Schröter, Stalingrad: “... bis zur letzten Patrone” (Lengerich: Kleins Druck- und Verlagsanstalt, n.d.), 85.

24. AOK 6/Ia an HGr B vom 22.11.1942, 1900 Uhr, betr. Lage und Absicht der Armee, publicado como Doc. 6 in Kehrig, 559-560.

25. Paulus an Hitler vom 23.11.1942, betr. Notwendigkeit des Ausbruches der 6. Armee, FuSpr (Entwurf) OB 6. Armee, gKdos Chefs. an OKH, nachr. HGr. B, vom 23.11.I942, 2130 Uhr, publicado como Doc. 10, ibid., 562.

26. Führerentscheid vom 24.11.1942, betr. Halten der Stellungen der 6. Armee und Ensatzstoss. FS OKH GenStdH/Op. Abt. (I/SB) Nr. 420 960/42 gKdos Chefs. vom 24.11.1942, 0140 Uhr, aufgenommen bei AOK 6 um 0830 Uhr, publicado como Doc. 11, ibid., 562.

27. K. Zeitzler, “Stalingrad,” in W. Kreipe, G. Blumentritt et al., The Fatal Decisions: Six Decisive Battles of the Second World War from the Viewpoint of the Vanquished (London: Michael Joseph, 1956), 142.

28. David Irving, Hitler’s War (London: Papermac, 1977), 456, and Göring: A Biography (London: Macmillan, 1989), 369.

29. Ibid., 367.

30. Von Richthofen, Generalfeldmarschall. Persönliches Kriegstagebuch, Band 10, 1.1.-31.12.1943, 11 February 1943. BA/MA N671/10.

31. Ibid., 10 February 1943.

32. USAFHRA K113.309-3: Bericht über eine Auskunft über Görings Stalingrader Zusage durch Generaloberst Lörzer (Befragung Hamburg-Othmarschen, 16. April 1956, durch Prof. Dr. Richard Suchenwirth, Karlsruhe).

33. Staatssekretär a.D. Paul Körner über Jeschonnek (Befragung am 19.9.1955 in München), USAFHRA file no. K113.309-3. vol. 9.

34. Milch Taschenkalender, 21 May 1946, parte da série de microfilmes de Irving Records and Documents Relating to the Third Reich, distrib. Microform (Wakefield) Ltd., microfilm DJ-57.

35. Ibid.

36. Generaloberst Zeitzler über das Zustandekommen des Entschlusses, Stalingrad aus der Luft zu versorgen (Briefliche Beantwortung vom 11.3.1955 folgender von Prof. Suchenwirth mit Brief vom 3.3.1955 gestellter Fragen); Zeitzler, “Stalingrad,” USAFHRA file no. K113.309-3, vol. 9, 144-45.

37. Ibid.

38. Para a instrução de Hitler a Paulus, veja-se nota 25. Para a datação da discussão Zeitzler-Göring em 24 de novembro, veja-se Matthew Cooper, The German Airforce 1933-1945: An Anatomy of Failure (London: Jane’s, 1981), 251; Bekker, 363; Paul Carell, Stalingrad: The Defeat of the German 6th Army (Atglen, Pa: Schiffer, 1993), 170.

39. Irving, Göring, 369-71.

40. Von Richthofen, Personliches Kriegstagebuch, Band 9: 1.I.-31.12.1942, 25 November 1942, BA/MA N671/9.

41. Ibid., 24 November 1942.

42. Ibid., 25 November 1942.

43. Gen d. Art. v. Seydlitz-Kurzbach, HG des LI. AK, an den OB der 6. Armee vom 25.11.1942, betr. Stellungnahme zum Armeebefehl vom 24.11.1942. Abschrift des AOK 6 für ObKdo HGr Don: Der KG des LI. AK Nr. 603/42 gKdos vom 25.11.1942, bei HGr Don 28.11.1942, publicado como Doc. 15 in Kehrig, 564-67.

44. AOK 6/OQu vom 24.11. an OKH/GenQu, HGr B/OQu, und vom 25.11.1942 an HGr Don, betr. Bedarfsanforderung für Luftversorgungsgüter, publicado como Doc. 16, ibid., 567.

45. Manstein an OKH/0p Abt vom 24.11.1942, betr. Beurteilung der Lage der 6. Armee. FS (Abschrift) ObKdo der HGr Don/Ia Nr. 4580/42 gKdos Chefs. vom 24 11.1942, ca. 1300 Uhr, publicado como Doc. 14, ibid., 564.

46. Vincent Orange, Coningham: A Biography of Air Marshal Sir Arthur Coningham (1990; reprint, Washington, D.C.: Center for Air Force History, 1992), 128 (veja-se, também 127).

47. George F. Howe, Northwest Africa: Seizing the Initiative in the West (Washington, D.C.: Office of the Chief of Military History, Department of the Army, 1957), 683.

48. Zeitzler, “Stalingrad,” 132.

49. Irving, Göring, 381.

50. Hermann Plocher, The German Air Force versus Russia, 1942, USAF Historical Study No. 154 (Maxwell AFB, Ala.: USAF Historical Division, Air University, 1966), 276. Embora datada, confusa e inexata em alguns pontos, a discussão destes assuntos em Plocher está entre as melhores escritas em inglês.


Colaborador

Dr. Joel S. S. Hayward

O Dr. Joel S. S. Hayward (Mestrado em Artes e Doutorado, University of Canterbury, Christ-church) é conferencista no Departamento de História, Massey University, Palmerston North, Nova Zelândia. Em 1994, a USAF Historical Research Agency concedeu-lhe uma bolsa para pesquisar os seus arquivos como parte de sua dissertação doutoral sobre as operações aéreas alemãs durante a campanha oriental de 1942-1943, de Hitler. Após realizar extensa pesquisa neste órgão, recebeu uma bolsa de pesquisa do governo alemão no sentido de habilitá-lo a pesquisar oArquivo Militar alemão, em Freiburg, Alemanha.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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