GUERRILHA NA AMAZÔNIA:

UMA EXPERIÊNCIA NO PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO

CORONEL ALVARO DE SOUZA PINHEIRO, do Exército Brasileiro

A Amazônia Brasileira foi elevada à situação de área estratégica prioritária, em face dos múltiplos conflitantes aspectos que a caracterizam, conferindolhe uma problemática política, econômica, psicossocial e militar altamente especial, delicada e sensível. O presente artigo procura decodificar as lições aprendidas nas diversas experiências de guerrilha vivenciadas na Amazônia, tentando estabelecer um paralelo entre o passado, o presente e o futuro.

ACONQUISTA da Amazônia tem sido, desde os primórdios da nossa colonização, uma epopéia escrita com sangue, coragem e determi nação. E o sangue foi derramado em acirrados combates na selva onde a criatividade e a implacabilidade das técnicas da guerra de guerrilhas sempre estiveram presentes.

A cidade de Belém, capital do Estado do Pará, assinala o marco inicial da conquista do vasto mundo amazônico, pelas forças lusobrasileiras. Fundada a 12 de janeiro de 1616, por Francisco Caldeira Castelo Branco, após a expulsão dos franceses de São Luís do Maranhão, o pequeno núcleo, representado inicialmente pelo Forte do Presépio, tornouse admirável pólo de atração e irradiação, marco precursor da expansão, domínio, posse da terra e fixação de uma nova raça em plena zona equatorial, produto natural da miscigenação do branco europeu com o indígena.

Não foi, entretanto, uma conquista pacífica. Lutas violentas foram travadas pelas forças lusobrasileiras para expulsão de ingleses, franceses, holandeses e irlandeses que, em incursões permanentes para exploração e comércio de especiarias, pro curavam também o domínio da terra, com a edificação de fortificações às margens de alguns dos rios da região.

Um vulto de significativa expressão nessa formidável conquista destacase dos demais. Tratase de um remanescente das tropas comandadas por Francisco Caldeira Castelo Branco. Seu nome: Pedro Teixeira. Sua consagração histórica: O Conquistador da Amazônia. Em 28 de outubro de 1637 partiu de Cametá, na margem esquerda do Tocantins, para uma ousada aventura de dois anos e 44 dias. Comandando 87 soldados lusobrasileiros e 300 índios paraenses, flecheiros e remeiros, todos embarcados em 45 canoas, o Capitão Pedro Teixeira subiu o rio Amazonas até a localidade de Quito, no Equador. Durante o longo percurso, lutou, derrotou e expulsou contingentes estran geiros que procuravam fixação em pontos estratégicos da calha do Rio Mar. Descobriu, efetuou reconhecimentos e deu nome aos principais tributários do rio Amazonas. Fundou, após vencer os índios Encabellados, na confluência dos rios Napo e Aguarico, atual fronteira PeruEquador, o povoado lusobrasileiro, a Franciscana, distante 1200 léguas de Belém , para assinalar os limites das coroas de Portugal e Espanha, desde 1580 unidas sob a majestade do rei da Espanha.

Pouco após o retorno da expedição a Belém, Portugal tornouse independente da Espanha e senhor de uma verdadeira Colônia Continente, graças a esta expedição e às de outros bandeirantes como Raposo Tavares, que atingiu Belém 11 anos após, descendo o rio Amazonas pelo Madeira, proveniente de São Paulo. Os resultados obtidos pela expedição Pedro Teixeira serviram, mais tarde, como primeiro argumento da doutrina do Utipossidetis que fundamentou o Tratado de Madrid de 1750 e que viria a confirmar a conquista lusobrasileira.

É importante ressaltar que Pedro Teixeira também se destacou nas lutas para reduzir e pacificar os índios Tupinambás que amea çaram a conquista portuguesa de Belém e de outras localidades litorâneas entre esta e São Luís, como Cumã e Caités. Nestas lutas ra tificou a sua condição de chefe militar astuto e audacioso, quando demonstrou de forma plena que a mais eficiente forma de se combater a ação tipicamente guerrilheira tupinambá era também empregar a técnica da guerrilha.

Pedro Teixeira foi nomeado CapitãoMor do Grão Pará, função equivalente, hoje, a de Comandante Militar da Amazônia. Vítima de rápida e insidiosa moléstia veio a falecer em Belém, em 1641. Seus restos mortais permanecem na Catedral Metropolitana de Belém, erguida no século XVII, na mesma área em que foi construído o Forte do Presépio, atualmente denominado Forte do Castelo.1

Para deslocar o Meridiano de Tordesilhas da foz do Amazonas para os contrafortes dos Andes, retificando àquela época a geopolítica do mundo, Pedro Teixeira se valeu, sobremaneira, das técnicas da guerra de guerrilhas. Pela forma como conduzia suas operações ribeirinhas, quase sempre enfren tando efetivos superiores, e pelo emprego descentralizado de suas frações em ações sempre caracterizadas pela surpresa, o Capitão Pedro Teixeira pode ser considerado um precursor das ações das "Companhias de Emboscadas" que celebrizaram Antonio Dias Cardoso, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Felipe Camarão na memorável Insurreição Pernambucana, movimento nativista que expulsou os holandeses da região nordeste do Brasil e se notabilizou como um dos mais importantes eventos da formação da nacionalidade brasileira.

Mas a ocorrência da guerra de guerrilhas na história da Amazônia Brasileira tem outro episódio altamente significativo na formação do Estado Independente do Acre.

A exploração e a prosperidade do comércio da borracha levaram grande efetivo de brasileiros, principalmente nordestinos, à região do Acre, uma faixa de terra que, desde 1867, estava cedida à Bolívia pelo Tratado de Ayacucho. Recusandose a aceitar a autori dade boliviana sobre a região, os brasileiros criam um verdadeiro território independente e exigem sua anexação ao Brasil. Os bolivi anos reagem e em contrapartida fundam em janeiro de 1889 a localidade de Puerto Alonso (hoje, Porto Acre). Em maio do mesmo ano, os brasileiros, através de ação armada, expulsam os bolivianos e ocupam a localidade. Em julho de 1899, com o apoio dos seringueiros e do governo do Estado do Amazonas, Luís Galvez Rodrigues proclama a República do Acre. Todavia, o governo brasileiro é obrigado a reprimir tal intenção, tendo em vista a manutenção dos compromissos em vigor. Em 1901, a Bolívia assina o Tratado de Aramayo, arrendando a região ao The Bolivian Syndicate of New York, que recebe autorização de cobrar impostos, explorar a borracha e efetuar mineração. A situação se torna crítica e; em agosto de 1902, uma força de guerrilha brasileira com pouco mais de 2 000 homens, sob a liderança de José Plácido de Castro, inicia uma insurreição vitoriosa. Este gaúcho de 26 anos adaptou às condições da selva amazônica a tática ágil e de grande mobilidade das guerrilhas que praticara, a cavalo, nas coxilhas do Rio Grande, na Revolução Federalista.

Em janeiro de 1903, após acirrados combates, as forças bolivianas são definitiva mente derrotadas e batem em retirada. Plácido de Castro é aclamado governador do Estado Independente do Acre. Em 17 de janeiro de 1903, numa vitória diplomática do Barão do Rio Branco, é assinado o Tratado de Petrópolis. O Brasil compra a região, da Bolívia, por dois milhões de libras esterlinas, compromentendose a construir a estrada de ferro MadeiraMamoré e a indenizar o Bolivian Syndicate com 110 mil libras esterlinas. Em 25 de fevereiro de 1904, o Estado Independente do Acre é dissolvido, sendo incorporado à Federação Brasileira como Território Federal do Acre.

Numa análise de maior profundidade é possível verificar que Plácido de Castro conjugou, no campo da estratégia geral, com rara habilidade e compreensão, os fatores fisiográficos, políticos, econômicos e sociais que desembocaram na luta armada. Em suas operações militares, aplicou estratégia de genuína inspiração napoleônica, dentro dos clássicos princípios da arte da guerra, numa movimentada campanha de guerrilhas, com reduzidos efetivos, adaptando perfeitamente a conduta das operações às condições meteorológicas e ao terreno.2

Ficam assim registrados dois exemplos históricos de campanhas militares ama zônicas de grande significado político estratégico, de enorme conotação patriótica, onde a técnica da guerra de guerrilhas foi de fundamental importância.

E, como veremos a seguir, ao focalizarmos as situações mais recentes em que forças regulares brasileiras se viram envolvidas com a guerra de guerrilhas na região amazônica, poderemos concluir que os ensinamentos colhidos nas campanhas conduzidas por estes extraordinários Pedro Teixeira e Plácido de Castro permanecem extremamente válidos, atualizados e com grande probabilidade de serem empregados no futuro, se necessário for defender os interesses vitais do Brasil na Amazônia.

A Experiência dos Anos 70

Ensolarada manhã amazônica em novembro de 1970. Uma aeronave Albatróz SA16, da Força Aérea Brasileira, entra na final para o lançamento de páraquedistas sobre o rio Tocantins, em frente à localidade de Marabá, Estado do Pará. A 7 000 pés de altura, doze homens do então Destacamento de Forças Especiais da Brigada Aeroterrestre se lançam ao espaço num arrojado salto livre operacional, considerandose as reduzidas dimensões da área de salto, um pequeno banco de areia no meio do rio. Após um retardo de 30 segundos, abrem seus páraquedas e o líder da equipe libera de seu equipamento uma bandeira do Brasil. A equipe aterra, rapidamente se reorganiza, e em passo acelerado conduz a bandeira até uma embarcação da Marinha, onde um tenente fuzileiro naval a recebe dos páraquedistas. O naviopatrulha fluvial se desloca da ilha para o porto da cidade. Lá, o fuzileiro, sempre de forma solene, desem barca e passa a bandeira a um tenente de um dos Batalhões de Infantaria de Selva do Comando Militar da Amazônia (CMA). Devidamente escoltado por uma guarda de honra, o infante de selva se dirige à principal praça da cidade onde passa a bandeira a um estudante de uma escola pública que, ao som do Hino Nacional, procede ao hasteamento do Pavilhão Nacional.

Esta solenidade de grande significado cívico, assistida por milhares de habitantes daquela progressista cidade paraense, ma terializou o término daquela que foi a primeira grande operação militar realizada pelas forças armadas brasileiras na Amazônia, a Operação Carajás 70.

Empregando efetivos das três forças singulares, e contando com a participação de várias unidades nãosediadas na Amazônia, a Operação Carajás 70 vivenciou um quadro de contraguerrilha em ambiente de selva, e se constituiu num excelente adestramento conjunto. Todavia, mais do que atingir um objetivo de adestramento, aquela manobra teve como principal finalidade uma ação de presença e de dissuasão, tendo em vista que, àquela época, os indícios da presença de um foco de guerrilha rural na região conhecida como "Bico do Papagaio" (fronteira entre os Estados do Maranhão, do Pará e de Goiás) tornavamse cada vez mais intensos.

Realmente, cerca de um ano e meio depois, em abril de 1972, os órgãos de informações confirmavam a existência desse foco na região das localidades de Marabá/PA e Xambioá/GO (atualmente estado de Tocantins). O então ilegal Partido Comunista do Brasil (PC do B), de orientação maoísta, ali instalara uma área de treinamento visando o posterior desenvolvimento de uma zona liberada.

A Força de Guerrilha do Araguaia (FOGUERA), como se autointitulou o movimento revolucionário, foi patrocinada por grande soma de recursos proporcionados pelo Movimento Comunista Internacional, a maioria dos quais provenientes da Albânia. O comprometimento do Partido Comunista da Albânia com a FOGUERA era de tal ordem que todos os dias, às 21:00 h, hora local de Xambioá, um programa com uma hora de duração, em língua portuguesa, ia ao ar pelas ondas curtas da Rádio de Tirana. Tratavase de uma programação especificamente dirigida ao movimento do Araguaia, e os fatos mais recentes ocorridos na área eram transmitidos sempre dando uma conotação heróica à atuação da guerrilha. Havia uma rede rádio de longo alcance integrando a força de guerrilha, uma estação intermediária e Tirana. Desmantelar esta conexão rádio foi um dos primeiros desafios superados com sucesso pelos órgãos de informações e segurança.

A área selecionada pelo PC do B mostravase extremamente adequada para a ação subversiva. Tratavase de uma região onde as condições de vida da população eram bastante precárias. A ação dos governos estadual e municipal pouco se fazia presente. A rede hospitalar e o estado sanitário eram altamente deficientes. A malária e a leishmaniose eram endêmicas e grande parte da população era anêmica e infestada de verminose. Não havia água tratada e muito menos rede de esgostos nas localidades. A base econômica da região era o extrativismo vegetal, sendo a coleta da castanha, no Winter, e o corte da madeira, no verão, as principais atividades. A agricultura era basicamente de subsistência com roças de milho, mandioca e arroz. A qualidade de vida da população era realmente muito baixa.

Por outro lado, a posição da área próxima a importantes eixos rodoviários era extrema mente favorável porque a região recebia um considerável número de novos colonos e isto permitia o ingresso de reforços sigilosamente. No campo militar, a escolha do local foi muito inteligente, porque a região englobava território de dois Comandos Militares de Área, o da Amazônia e o do Planalto. E tal fato ao início das operações provocou problemas de coordenação e controle, constituindose em vantagem para a força de guerrilha.

Em maio de 1972, quando efetivamente se iniciaram as operações militares, a FOGUERA contava com um efetivo aproximado de 80 guerrilheiros, dos quais cerca de 15 eram mulheres. O movimento era organizado em um Birô Político, uma Comissão Militar e três Destacamentos, cada um com três Grupos de 8 a 10 guerrilheiros.

O Birô Político era o órgão de cúpula do PC do B, àquela época dissidente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que seguia a orientação soviética, enquanto o PC do B seguia a linha chinesa. Adotando os princípios preconizados por Mao Tse Tung, o PC do B idealizava a eclosão de um movi mento de guerrilha em área rural que, após o recebimento do devido apoio da população rural, seria estendido aos centros urbanos. Os componentes do Birô Político raramente estavam na área, mas orientavam e acom panhavam cerradamente tudo o que se passava. Todas as decisões da Comissão Militar ficavam subordinadas à aprovação do Birô Político.

A Comissão Militar se constituía no comando da FOGUERA. Suas atribuições eram planejar, coordenar e conduzir as ações da força de guerrilha. Esta liderança, bem como os demais elementos em função de comando nos Destacamentos e Grupos, era na sua quase totalidade constituída por quadros com cursos de guerrilha no exterior, notadamente em Pequim, Tirana e Havana.

Subordinados à Comissão Militar estavam os três Destacamentos, verdadeiros elementos de manobra da FOGUERA: o de Faveiro, mais ao Norte, com área de atuação próxima à rodovia Transamazônica; o da Gameleira, ao centro; e o de Caiano, mais ao Sul. Estes Destacamentos operavam de forma compartimentada, não tomando conheci mento das ações planejadas e conduzidas pelos demais, por questões de segurança. O subcomandante do Destacamento exercia as funções de Comissário Político, empenhandose no trabalho de elevação do nível político e da conscientização ideológica. O sistema de comando e controle da Comissão Militar sobre os Destacamentos era baseado na "cobertura de pontos", com local e datahora predeterminados, e estabelecidos de modo absolutamente compartimentado, de modo a assegurar a manutenção do sigilo. Este sistema fazia do guerrilheiro preso vivo a mais eficiente fonte de informações para a ação repressiva.

Subordinados aos Destacamentos estavam os Grupos de Fogo, num total de nove e que se constituíam nas frações elementares básicas da força de guerrilha. Sua autonomia era extremamente restrita e operavam sob rígido controle dos Comandantes de Destacamento.

Na sua grande maioria, os elementos pertencentes à FOGUERA foram recrutados pelo PC do B junto aos meios universitários dos grandes centros urbanos de Fortaleza/CE, Salvador/BA, Rio de Janeiro/RJ e São Paulo/ SP. Uma boa parte já estava vivendo na clan destinidade e comprometida com ações de terrorismo urbano.

O treinamento da guerrilha era efetuado procurandose atingir basicamente dois objetivos, um de caráter prático e ou outro, teórico. A parte prática era dirigida à preparação do combatente individual e das frações elementares para o combate em ambiente de selva. Destacavamse as instruções de orientação, emboscadas, e explosivos e destruições com material improvisado. A parte teórica tinha como objetivo específico o fortalecimento da conscientização ideológica dos integrantes da FOGUERA. E há que se reconhecer que, de uma maneira geral, o moral e a crença na causa eram elevados. Além do treinamento militar, os grupos eram também empenhados no "trabalho produtivo", sobretudo na roça, tendo como finalidade maior o seu autoressuprimento.

Junto à população rural local, os guerrilheiros desenvolviam uma ação psicológica denominada "trabalho de massa", com o objetivo de obter o seu apoio. O resultado desse trabalho frutificou em algumas áreas com a organização de uma força de sustentação. Mas em nenhum momento, a FOGUERA conseguiu recrutar elementos da população local que estivessem dispostos a combater, integrando efetiva mente a força de guerrilha.

Na verdade, a FOGUERA era uma força de guerrilha em estágio inicial, ainda incipiente. Seu armamento se resumia a armas curtas, armas de caça e alguns fuzis obtidos de ações isoladas contra postos da Polícia Militar do Pará. Um dos mais graves equívocos cometidos pelas forças federais foi iniciar as operações desencadeando ações que são normalmente efetuadas contra forças de guerrilha já nos seus estágios finais de organização e construção, quando já prontas para seu emprego em combate.

A ação de repressão da força legal pode ser dividida em três fases, quais sejam: a 1ª fase, de abril a outubro de 1972; a 2ª fase, de abril a agosto de 1973; e a 3ª fase, de setembro de 1973 a março de 1975.

A primeira fase foi caracterizada pelo emprego em massa de tropa. Em agosto de 1972, o efetivo chegou a ser de 1 500 homens. Fundamentalmente, foram instaladas duas bases de combate de valor batalhão, uma em Marabá e a outra em Xambioá. E no interior da área de operações foram instaladas seis bases de combate de valor companhia.

Nesta fase verificouse a ocorrência de uma série de equívocos dentre os quais destacamse:

Concepção equivocada nos níveis operacional e tático. O planejamento e a condução das operações inicialmente desencadeadas no "Bico do Papagaio" partiram do pressuposto que as ações de contraguerrilha a serem executadas seriam aquelas que normalmente são desencadeadas contra forças já no estágio de Exército de Libertação Nacional, to tipo "martelo bigorna", "pistãocilindro", etc. Uma das primeiras operações efetuadas na área foi uma ação de vasculhamento na única serra existente na região, a serra das Andorinhas, que se caracterizava por não ter cobertura vegetal. Após ser bombardeada com napalm pela Força Aérea, a serra foi objeto de uma vigorosa ação de cerco e busca efetuada por um grande efetivo. E o resultado foi nulo porque os guerrilheiros nunca lá estiveram. Por outro lado, no terreno de selva, as patrulhas se deslocavam com um efetivo de pelotão, 35 a 40 homens, pelas trilhas, enquanto os grupos da guerrilha se deslocavam através selva, com um efetivo de 5 a no máximo 10 elementos. Dessa forma as ações iniciais se mostraram extremamente ineficazes.

Falta de unidade de comando. Provocada, sobretudo, pelo fato de que a base de combate de Marabá estava sob o controle do Comando Militar da Amazônia, enquanto a de Xambioá estava sob o do Comando Militar do Planalto (CMP). Uma simples solicitação de evacuação aeromédica provocava um complexo problema de coordenação.

Informações deficientes sobre o terreno e o inimigo. Não havia cartas nem fotos aéreas da região de operações em escala compatível. O desconhecimento do terreno era enorme. As patrulhas se deslocavam somente pelas trilhas, enquanto os guerrilheiros, profundos conhecedores do terreno, sempre através selva. Não se conhecia o dispositivo e a composição da FOGUERA. As informações sobre o valor eram extremamente difusas. Com relação às atividades recentes e atuais, e peculiaridades e deficiências, praticamente nada.

Grande diversidade de unidades empregadas e deficiências no adestramento. Unidades de diferentes pontos do território nacional foram empregadas nesta fase. Algumas delas com graves deficiências no adestramento em operações de contra guerrilha em ambiente de selva. Muitas delas com efetivos constituídos por soldados recrutas que, além da imaturidade psico lógica, não tinham ainda completado nem a metade do ano de instrução. Inúmeras baixas ocorreram pela execução de disparos acidentais e por disparos equivocadamente realizados quando do encontro inadvertido entre patrulhas na selva.

Falta de continuidade nas operações. Diferentemente da força de guerrilha que já estava na área há algum tempo e lá permanecia, a tropa era empregada por períodos predeterminados, não mais de 20 dias, findos os quais retornava à sua sede, sem ser substituída. Esta descontinuidade trazia enormes prejuízos para as operações e graves reflexos negativos sobre a população.

Apesar de todas estas deficiências, há que se ressaltar dois aspectos positivos na 1ª fase. O primeiro é que foi possível fazer da ordem de 15 baixas na força de guerrilha. E o segundo é que houve uma conscientização geral em todos os escalões de comando sobre a gravidade da situação no "Bico do Papagaio".

Em outubro de 1972, foi decidido em Brasília, pelo mais alto escalão da Força Terrestre, interromper as operações.

A 2ª fase foi planejada levandose em consideração todos os ensinamentos colhidos na 1ª fase. E assim foi determinado que seria necessário o desencadeamento de uma operação de inteligência visando o levantamento detalhado da FOGUERA, do terreno, e da população local. Esta operação de inteligência, que foi denominada "Operação Sucuri", foi planejada nos seus mínimos detalhes e cuidadosamente desencadeada. E os seus resultados foram excepcionais, tendo sido possível atingir plenamente todos os objetivos.

E fruto das informações obtidas na "Operação Sucuri" ficou muito claro para o escalão superior que o problema não poderia ter apenas uma solução militar. Haveria necessidade de se integrar a ação de diversos órgãos governamentais civis de nível federal e estadual, para que se efetuasse a eliminação completa do foco subversivo.

A 3ª fase, que se denominou "Operação Marajoara", foi desencadeada imediatamente após a conclusão dos levantamentos efetuados na "Operação Sucuri". A unidade de comando ficou perfeitamente definida, cabendo ao CMA o exercício pleno do comando e controle, inclusive das diversas agências governamentais federais e estaduais civis envolvidas.

Foram selecionados efetivos profissionais das mais bem adestradas unidades de in fantaria de selva e dos batalhões de infantaria páraquedista. Um rigoroso programa de adestramento foi conduzido tanto nas sedes quanto na área, enfatizandose, sobretudo, o exercício da liderança nos diversos escalões.

Três bases de combate foram instaladas, uma em Marabá, onde se encontrava o principal posto de comando da operação; uma em Xambioá, e outra em Bacaba, às margens da rodovia Transamazônica. Foi estabelecido um eficiente e seguro sistema de comunicações que permitiu o funciona mento do sistema de comando e controle em muito boas condições. Da mesma forma, foi estabelecido um eficiente sistema de apoio logístico que levou em consideração as características altamente especiais da missão e do ambiente operacional.

Todo o efetivo envolvido, inclusive o pessoal da Força Aérea, passou a operar descaracterizado, em trajes civis. Como "estória de cobertura", a tropa atuava como se fossem elementos pertencentes aos quadros da Política Federal. Esta decisão foi tomada, principalmente, a fim de negar o reconhecimento de que efetivos das forças armadas estavam sendo empregados num problema de defesa interna dessa natureza.

As patrulhas passaram a operar com o efetivo de 5 a 10 homens, compatível com o poder de combate do inimigo interno em presença. E também passaram a contar com o considerável reforço de habitantes locais selecionados que atuavam como "guias" e/ou "rastreadores". Há que se ressaltar que a atuação destes elementos foi decisiva para a obtenção do pleno êxito na operação.

Mais uma vez se ratificava o ensinamento de que "guerrilha se combate com guerrilha". Nesse contexto, cabe ressaltar o importante papel desempenhado pelos elementos da então Companhia de Forças Especiais, os especialistas em guerra irregular, que estiveram permanentemente envolvidos no combate à FOGUERA, desde o desencadea mento das operações de informações, ainda na "Operação Carajás 70". Nesta fase, estes elementos atuaram como multiplicadores de força, adestrando as unidades engajadas e preparando as forças de autodefesa das comunidades locais, desencadeando opera ções de informações e operações psicológicas junto à população local, e sendo empregados em missões selecionadas de ação direta contra o inimigo interno.

Outro papel preponderante a ser ressaltado na consecução dos objetivos finais foi o desempenhado pelos elementos da Força Aérea, particularmente pelos esquadrões de helicópteros. Cumprindo missões de infiltração, exfiltração, ressuprimento e evacuação aeromédica, estes elementos foram fator primordial para o êxito alcançado.

Assim, cerca de três anos após o início da ação repressiva, e tendose colhido uma grande quantidade de importantes ensina mentos para todos os escalões, eliminavase aquele que foi o mais perigoso foco de guerrilha rural no Território Nacional.

O Presente

12:00 horas de uma terçafeira, dia 26 de fevereiro de 1991. Cerca de 40 elementos que se declararam guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias Comunistas (FARC)-Comando Simón Bolívar-Facção Força e Paz, realizam uma incursão em território nacional e atacam um Destaca mento do Exército Brasileiro estacionado em instalações semipermanentes, às margens do rio Traíra, fronteira entre o Brasil e a Colômbia.

O ataque foi efetuado por três escalões, dos quais um, o de apoio de fogo, permaneceu na margem colombiana, enquanto os outros dois, de assalto e de segurança, investiram o acampamento. Inicialmente, com preciso fogo de atiradores de escol, foram eliminados os sentinelas da hora, e a seguir, desen cadeado intenso fogo de armas automáticas contra as instalações do Destacamento, cujos integrantes, surpreendidos, tentaram, sem sucesso, reagir.

Em decorrência da ação, da guarnição de 17 homens, resultaram três soldados mortos e nove feridos. Morreram também dois garimpeiros clandestinos colombianos que estavam detidos no posto aguardando evacuação para Vila Bittencourt/AM.

Na finalização da operação, os guer rilheiros colombianos apropriaramse de estaçõesrádio, munição, uniformes e todo o armamento do posto, conduzindo todo o material para o seu território. Aparentemente, não sofreram baixas. Portavam armamento automático HK5.56 mm e armas de caça calibre 12. Trajavam uniformes de cor verde claro e botas de borracha do tipo "sete léguas". Faziam parte do comando atacante duas mulheres identificadas como já tendo sido anteriormente presas no Destacamento.

A instalação do Destacamento Traíra foi uma decisão do Comando Militar da Amazônia, autorizada pelo Sr Ministro do Exército, Comandante da Força Terrestre, para fazer face à tumultuada situação reinante na região da Serra do Traíra/AM, provocada pela presença de grande número de garimpeiros clandestinos brasileiros e, principalmente, colombianos, que para lá se deslocaram após a desativação das instalações da Empresa de Mineração Paranapanema, que detinha o alvará de pesquisa aurífera cedido pelo Governo Federal.

Em posteriores operações de inteligência ficou comprovado que a guerrilha colom biana aliada a cocaineiros e garimpeiros clandestinos colombianos, e também contando com o beneplácito de alguns índios corrompidos pela narcoguerrilha na região, procuravam as regiões auríferas nos antigos garimpos abandonados da Cia Parana panema, a fim de obter recursos para suas ações subversivas. Dessa forma, a ação da guerrilha colombiana foi efetuada como uma represália à ação repressiva desencadeada pelo Destacamenteo Traíra.

Há que se ressaltar que a atuação do Destacamento Traíra, instalado sob a responsabilidade do então 1º Comando de FronteiraSolimões/1º Batalhão Especial de Fronteira (1º Cmdo FronSolimões/1º BEF), sediado em Tabatinga/AM, se limitava a uma ação específica de manutenção da ordem, visando tãosomente expulsar garimpeiros colombianos de volta ao seu território, e impedir a vinda de garimpeiros brasileiros para a área, até que o Governo Federal regu larizasse a situação da lavra no local, provo cada pelo abandono da Empresa Parana panema.

O ataque das FARC contra o Destacamento Traíra foi uma ação inesperada, covarde, traiçoeira e inusitada, em virtude da missão que o Destacamento cumpria, e de nunca se ter tido notícia de fatos dessa natureza, desde a instalação, na Amazônia, dos primeiros Pelotões de Fronteira do Brasil.

A ação de 26 Fev 91 das FARC no rio Traíra desencadeou o planejamento e a execução de uma operação conjunta efetuada pelas Forças Armadas Brasileiras e Colombianas, denominada "Operação Traíra". Esta Operação foi a principal conseqüência da Reunião Extraordinária Regional Bilateral Brasil/Colômbia, com a participação, pelas forças colombianas, de autoridades do Comando da IV División del Ejército Nacional de Colombia, sediado em Vila Vicenzio/Col e, pelas forças brasileiras, de autoridades do Comando Militar da Amazônia, sediado em Manaus/AM.

Esta Reunião estabeleceu vários Acordos Conjuntos e algumas Recomendações que, basicamente, definiram que as respectivas forças se comprometiam a operar em seu respectivo território, com o objetivo de manter a ordem e a tranqüilidade na região fronteiriça. Ficou também estabelecido que as ações a realizar seriam coordenadas de forma plena, em todos os níveis de planejamento, inclusive com o intercâmbio imediato e contínuo de informações relacionadas com a subversão, o terrorismo e o narcotráfico, visando a neutralização de qualquer ameaça que se apresentasse no respectivo território. Foi também recomendado que os Exércitos do Brasil e da Colômbia promovessem gestões junto aos seus respectivos governos no sentido de incrementar na área a presença de organismos do Estado, orientados para a execução de atividades de desenvolvimento comunitário.

No território nacional, o posto de comando instalado pelo CMA ficou em Vila Bittencourt, sede de um dos Pelotões na fronteira com a Colômbia. No território colombiano, o posto de comando ficou em La Pedrera/Província de Taraira.

Os resultados obtidos na "Operação Traíra" foram extremamente significativos. Pelo lado colombiano, devese destacar a eficiente ação do Batalhão "Bejarano Muñoz", sediado em La Pedrera/Taraira. Pelo lado brasileiro, o excepcional desempenho dos combatentes do então 1º Batalhão Especial de Fronteira (1º BEF), hoje, 8º Batalhão de Infantaria de Selva (8º BIS), sediado em Tabatinga/AM. Superando com estoicismo o trauma inicial que enlutou a família tabatinguense, o 1º BEF, fundamentado numa liderança do mais alto padrão em todos os níveis de comando, demonstrando um excelente grau de adestramento, um moral e um espírito de corpo extraordinários, foi o grande responsável pela ocorrência da eliminação de doze guerrilheiros integrantes do comando das FARC que atacou o Destacamento Traíra, bem como pela prisão de inúmeros elementos de sua rede de apoio, e pela recuperação de boa parte do material capturado quando da solerte ação terrorista.

Há também que se destacar a efetiva participação dos elementos do tradicional "Batalhão Amazonas", 1º Batalhão de Infantaria de Selva (1º BIS), sediado em Manaus, unidade de elite do CMA que, como sempre, ratificou o seu excelente nível de preparo para as operações em ambiente de selva.

Especial atenção deve ser dada também à atuação dos elementos da Reserva Estratégica do Exército Brasileiro, sempre presentes nas situações de crise na Região Amazônica, das Forças Especiais e da Aviação do Exército.

Mais uma vez foi ratificado que a presença dos especialistas em guerra irregular e combate nãoconvencional do 1º Batalhão de Forças Especiais (1º BFEsp), sediado no Rio de Janeiro, através da ação de um Destacamento de Ação Imediata, integrado por frações de Forças Especiais e Ações de Comandos, se faz imprescindível ao comando da operação, em situações dessa natureza.

Com relação à Aviação do Exército, há que se ressaltar que a "Operação Traíra" se constituiu num marco histórico altamente significativo. Esta foi a primeira oportunidade em que a então recémcriada Brigada de Aviação do Exército (Bda Av Ex), sediada em Taubaté/SP, se viu engajada numa operação real de combate na Região Amazônica, o seu verdadeiro batismo de fogo. E o desempenho da Patrulha Ajuricaba, integrada por 4 helicópteros de manobra HM1 Pantera, 2 helicópteros de reconhecimento e ataque HA1 Esquilo, reforçados por pessoal de suprimento e manutenção, foi excepecional. Estas aeronaves, inclusive, apoiaram, por solicitação do comando colombiano, as ações de infiltração do comando colombiano, as ações de infiltração e ressuprimento das patrulhas colombianas. E após o término da "Operação Traíra", uma seção, constituída por duas aeronaves HM1 e uma HA1, permaneceu baseada em Vila Bittencourt, por mais de seis meses, operando em apoio às ações do 1º BEF na região do Traíra. É importante ter em mente que operar aeronaves de asa rotativa na Amazônia exige padrões de desempenho especiais que ultrapassam em muito os exigidos para outras áreas. Quando se está em presença de uma situação real de combate, estas demandas se tornam ainda mais significativas, e tudo isso foi superado pelos elevados níveis de adestramento, motivação e liderança dos integrantes da Aviação do Exército.

Também não se pode deixar de considerar a decisiva participação da Força Aérea Brasileira (FAB). Além de apoiar oportuna mente a concentração estratégica e o apoio logístico com aeronaves C-130 Hércules e C-115 Búfalo, a FAB se fez representar no posto de comando da operação por um oficial superior do VII Comando Aéreo Regional (COMAR VII), sediado em Manaus, que desempenhou, no estadomaior constituído, as funções de coordenador do apoio aéreo. A ele cabia a tarefa de planejar e conduzir o emprego dos meios aéreos alocados à operação pelo Comando Geral do Ar (COMGAR). Estes meios eram, basicamente, constituídos por duas aeronaves C-95 Bandeirante, de reconhecimento aerofotogra métrico, seis helicópteros UH-1H e seis aeronaves de ataque ao solo AT-27 Tucano, todas baseadas em Vila Bittencourt.

A "Operação Traíra" ratificou mais uma vez que, na Amazônia, sem o adequado e oportuno apoio da Força Aérea, a Força Terrestre fica extremamente limitada nas suas ações de combate, apoio ao combate e logísticas.

A Marinha do Brasil também se fez presente na "Operação Traíra", através da atuação de um NavioPatrulha Fluvial da Flotilha do Amazonas (FLOTAM), sediada em Manaus, que se deslocou para Vila Bitten court, cooperando com o apoio logístico e incrementando a segurança daquela região fronteiriça.

A insidiosa ação sobre o posto do Traíra, em fevereiro de 1991, registrou de forma significativa a mais importante ameaça aos interesses vitais do Brasil na Amazônia, no contexto da Defesa Externa, nos dias de hoje.

A atual problemática existente em diversas regiões do arco fronteiriço amazônico, da Guiana Francesa à Bolívia, envolvendo com maior ou menor intensidade, questões indígenas, garimpo clandestino, descaminho de recursos minerais, atividades de contra bando e de tráfico de armas, problemas fundiários, e, principalmente, a forte conexão existente entre a guerrilha alienígena e o narcotráfico criando o fenômeno da narco guerrilha (particularmente no Peru e na Colômbia), ratifica a possibilidade da eclosão latente de crises que tenham no seu escopo o desencadeamento de conflitos onde estará em foco a defesa dos interesses vitais do Brasisl na Amazônia, particularmente, a Soberania e a Integridade do Patrimônio Nacional.

Em novembro de 1991, outra operação de monta foi desencadeada pelo CMA para fazer face às latentes ameaças provodadas pela ação das FARC, na fronteira com a Colômbia. Esta operação denominada "Operação Perro Loco" foi realizada na região de Iauaretê/AM e Querarí/AM, conhecida como "Cabeça do Cachorro". Empregou efetivos do 5º BIS, sediado em São Gabriel da Cachoeira/AM, do 1º BFEsp, e uma Força de Helicópteros com 14 aeronaves da Bda Av Ex. A exemplo da "Operação Traíra", a "Operação Perro Loco" se constituiu numa magnífica demonstração de operacionalidade dos elementos envol vidos, atingindo de forma plena o seu grande objetivo que era dissuadir, de forma definitiva, a execução de incursões por parte da narcoguerrilha colombiana naquela região.

Em atendimento às diretrizes emanadas do EstadoMaior do Exército (EME), no contexto da Defesa Externa, coube ao Comando de Operações Terrestres (COTer) definir a orientação do planejamento do emprego da Força Terrestre na defesa dos interesses vitais do Brasil face a ameaças dessa natureza. E para esta definição, todos os ensinamentos colhidos nas experiências da "Operação Traíra" e da "Operação Perro Loco" foram significativamente considerados.

Dentre as mais significativas idéias preconizadas na atual concepção estratégica face a conflitos dessa natureza está a sua adequada caracterização. Tratase de um conflito de baixa intensidade, onde o inimigo, genericamente designado de "forças adversas", pode apresentarse sob vários matizes-narcotraficantes, garimpeiros clan destinos, indígenas apátridas, guerrilheiros com ou sem motivações ideológicas, aven tureiros internacionais, agentes de potências de fora do continente sulamericano infiltrados, ou mesmo uma combinação desses elementos-pondo em risco a Segurança Nacional, nas regiões fronteiriças amazônicas.

O grande objetivo político a ser atingido quando da eclosão de um conflito dessa natureza é manter a Soberania e a Integridade do Patrimônio Nacional, não suspendendo as operações até a definitiva expulsão das "forças adversas" do Território Nacional.

Quanto aos objetivos militares, estes podem ser sintetizados pelas ações de destruir as "forças adversas" que atuarem no Território Nacional, e defender a população e o Patrimônio Nacional.

Fundamentalmente, a ação da Força Terrestre crescerá de intensidade passando pelos estágios de desencadeamento de ações preventivas, repressivas e operativas; e segundo a seguinte gradação: operações de apoio aos órgãos da administração federal, estadual ou municipal, operações de inteligência; operações contra as "forças adversas", e operações de maior vulto, caso as "forças adversas" evoluam para estágios mais desenvolvidos de organização.

A concepção estratégica de emprego da Força Terrestre face a situações dessa natureza define que, apesar da ocorrência de ações operativas para a destruição das "forças adversas", não será ativada a Estrutura Militar de Guerra, ou seja, tratase de uma situação típica de nãoguerra.

Em termos de estrutura operacional, para fazer face a situações dessa natureza, está preconizada a ativação, por parte dos Comandos Militares da Amazônia e do Norte (CMN), mediante autorização do Sr Ministro do Exército, Comandante da Força Terrestre, de uma Área de Conflito (AC). O estabeleci mento de AC, em termos de delimitação territorial, deve estar restrito à área fronteiriça onde seja iminente ou esteja ocorrendo a ameaça. Em termos de estrutura de comando, a AC deverá enquadrar uma Zona de Opera ções (ZOp) e uma Zona de Apoio (ZAp). Esta organização tem como finalidade o estabele cimento tanto de uma estrutura de comando e controle quanto a definição de responsa bilidade territoriais.

A ZOp deverá ficar restrita à região onde se realizam as ações operativas de destruição das "forças adversas". Esta região deverá abranger o espaço físico terrestre e aéreo necessário à condução das operações. Em princípio, o comandante da ZOp deverá ser o comandante do escalão diretamente responsável pela destruição das "forças adversas". E o seu posto de comando deve estar localizado no ponto onde melhor se possa coordenar e controlar as ações operacionais.

A ZAp deverá englobar a região onde as ações a realizar serão de caráter predomi nantemente logístico. Em princípio, o posto de comando da ZAp deve estar localizado junto à principal base logística instalada. Basicamente, o suprimento chega à ZAp por meios aéreos (principalmente) ou fluviais de maior porte. Razão pela qual, normalmente, a ZAp estará numa área onde exista um aeródromo de adequadas condições. Daí o suprimento será transportado para a ZOp, normalmente, através do emprego de helicópteros.

O valor da AC a ser estabelecida, por determinação do CMA ou do CMN, será função da complexidade e da gravidade do problema a ser resolvido. Numa área onde o poder de combate das "forças adversas" se apresente como ponderável, com parcelas significativas de forças irregulares represen tativas da guerrilha e/ou do narcotráfico alienígena, em princípio, a AC ativada deverá ser de valor Bda, cabendo o planejamento e a condução das operações ao comandante de uma das quatro Brigadas de Infantaria de Selva (dependendo da localização do conflito) estacionadas na Área Estratégica Amazônica. Nesse caso, o comandante da brigada poderá designar um de seus comandantes de batalhão, comandante da ZOp, e o seu E/4, comandante da ZAp. Caso o problema seja de menor monta, e seja restrito à eliminação de um pequeno grupo que, episodicamente, adentrou o Território Nacional, o CMA ou o CMN poderão determinar às suas brigadas subordinadas o estabelecimento de uma AC de valor batalhão.

É importante ressaltar que o COTer tem antecipadamente definidas para os Comandos Militares de Área interessados quais as áreas prioritárias onde, em função das informações disponíveis, há uma maior probabilidade de eclosão de uma crise dessa natureza. Dessa forma, é possível a orientação do esforço de preparação e de planejamento para essas áreas prioritárias.

Como meios disponíveis para emprego nas AC ativadas estãos os meios de combate, apoio ao combate e logísticos do CMA e do CMN; os meios de combate, apoio ao combate e logísticos da Reserva Estratégica, destacandose os do Comando de Aviação do Exército, os da Brigada de Infantaria PáraQuedista e os do Batalhão de Forças Especiais. Além desses, estão disponíveis os meios de combate, apoio ao combate e logísticos da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil, a serem definidos respectivamente pelo Comando Geral do Ar (COMGAR) e pelo Comando de Operações Navais (CON). A esses meios poderão ser acrescentados outros, dependendo da complexidade do problema a ser enfrentado, requisitados de organizações civis governamentais (federais, estaduais ou municipais) ou privadas, todos integrados sob o comando único da AC.

Assim, o Exército Brasileiro está dotado de uma adequada estrutura de preparação, planejamento e condução de operações para fazer face às "forças adversas" que, indiscu tivelmente, se constituem na mais latente ameaça a ser enfrentada no contexto da Defesa Externa, na Área Estratégica Amazônica, nos dias de hoje.

O Futuro

Uma visão futura de situações que possam colocar em risco os interesses vitais do Brasil na Amazônia nos permite antever que as ameaças atualmente existentes tenderão a diminuir ou a aumentar, principalmente, como conseqüência do resultado que as nações amigas vizinhas tiverem no seu esforço para vencer seus graves conflitos internos.

Todavia, fica muito claro que qualquer perspectiva otimista, a curto prazo, é absolutamente irreal. A atual intensidade da presença da narcoguerrilha na Colômbia, no Peru e na Bolívia é de tal ordem que não nos é permitido visualizar um "final feliz", nem a médio prazo, apesar dos extraordinários esforços que vêm sendo desenvolvidos por estes respectivos governos.

Assim, a perspectiva de combater "forças adversas" provenientes da narcoguerrilha alienígena, em algumas regiões do arco fronteiriço amazônico, num contexto de Defesa Externa, permanece presente, a curto e a médio prazos.

Por outro lado, ao se focalizar possíveis ameaças à garantia dos poderes constitu cionais e à manutenção da lei e da ordem, numa visualização a curto e a médio prazos, não se pode deixar de acompanhar com extrema atenção o desenvolvimento das questões fundiárias que, em inúmeras regiões da Amazônia, podem levar a exacerbações que desencadeiem conflitos provocados por reivindicações não atendidas dos chamados "Movimentos dos SemTerra". Estes conflitos, que poderão ter ou não conotação ideológica, podem exigir o emprego de força federal, ainda que eventualmente, no combate contra "forças adversas", num contexto de Defesa Interna. A própria região do "Bico do Papagaio" continua sendo potencialmente explosiva para o desencadeamento de conflitos dessa natureza. Para prevenir a sua eclosão, muito mais que a presença da expressão militar, o que se faz necessário é uma eficiente ação governamental, coordenada a nível federal, estadual e municipal. Todavia, para fazer face, no futuro, a situações dessa natureza, os comandos militares de todos os níveis mantêm permanentemente atualizados os seus planejamentos de Segurança Integrada.

Mas, ao se efetuar qualquer análise prospectiva envolvendo aos questões de segurança da Amazônia Brasileira, há que se considerar significativamente a atual conjuntura internacional e as demandas produzidas pelo que se tem denominado de "Nova Ordem Mundial". Neste novo sistema internacional, onde os Estados Unidos da América se apresentam como a única superpotência econômica e militar, novos focos de tensão e atrito passaram a eclodir, todos com relação direta a aspectos étnicos, religiosos e de identidade nacional.

Nesse novo contexto, as questões ambientais têm se revestido de especial importância. E sob a égide de um manto ecológicopreservacionista, os organismos de comunicação social internacionais têm construído e divulgado uma imagem extremamente negativa a respeito da Amazônia Brasileira. Nesse contexto de idéias, o mundo passou a assistir a pronunciamentos como o do Presidente Miterrand que, na defesa do que entende ser uma causa de fundamental importância para a humanidade, advoga a formação de organismos supranacionais para policiar os governos das nações dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento sobre as questões ambientais. É a apresentação explícita do princípio do devoir d'ingerence.

Não se constitui em escopo deste trabalho a discussão sobre a validade, a adequabili dade, a oportunidade e a legitimidade da avaliação desta que pode vir a se constituir, no futuro, na maior das ameaças externas aos interesses vitais do Brasil na Amazônia. Até porque, o EME, órgão responsável pela formulação das políticas e concepções políticoestratégicas, já definiu em diretriz estratégica específica que, para fazer face a ameaça dessa natureza, que envolve a possibilidade da ocorrência de um conflito contra uma força militar multinacional extracontinental dotada de um superior poder de combate, há que se empregar, ao nível da Estratégia Operacional, a Estratégia da Lassidão ou da Usura. Esta, por definição, "desenvolvese através de um conflito prolongado, de caráter total, tendo na maioria das vezes, fraca intensidade, normalmente à base da guerrilha, e busca obter a decisão pelo desgaste moral e o cansaço material. Nesta forma de atuar é fundamental saber durar".

A adoção da Estratégia da Lassidão no nível Operacional pressupõe a adoção da Guerra Irregular como principal forma de conduta de uma guerra convencional, na qual fica evidente o desequilíbrio de poder de combate entre as nossas forças e as dos possíveis oponentes. Implica na impossibilidade de fazer face ao invasor por meios convencionais de atuação em força, quer ofensiva, quer defensivamente, devido à inferioridade de recursos materiais e à grande disparidade na área científicotecnológica.

Seu grande objetivo será demonstrar ao invasor que o preço a pagar para manter o domínio sobre determinada região não compensa os benefícios decorrentes. Há que se ressaltar que o Exército Brasileiro é o único da América Latina a possuir o mesmo conceito doutrinário de emprego das Forças Especiais que o Exército dos EUA. Este conceito preconiza, basicamente, que os Destacamentos de Forças Especiais estabelecerão Áreas Opera cionais de Guerra Irregular (AOGI). A diferença entre as concepções norteamericana e brasileira está no fato de que as Special Forces têm previsão de emprego fora de seu território operando com populações estrangeiras no contexto de um Movimento Revolucionário Patrocinado. Por outro lado, os nossos operadores de Forças Especiais estabelecerão AOGI no contexto de um Movimento de Resistência, trabalhando com comunidades brasileiras, quando da ameaça ou da ocorrência de uma invasão do nosso território.

As ações da Lassidão se desenvolvem em dois planos, simultaneamente: o plano material das forças militares e o plano moral da ação psicológica.

No plano material das forças militares, há que se enfatizar que, apesar de o combate a ser conduzido estar fundamentado no in tenso emprego das ações típicas de guerrilha, não se pretende transformar a força regular numa força de guerrilha. Para que forças regu lares sejam eficazes empregando as técnicas da guerra de guerrilhas não se faz necessário que elas se convertam em forças de guerrilha. Isto seria um retrocesso inconcebível e preju dicial para o desenvolvimento da campanha.

No plano moral da ação psicológica, há que se distinguir o trabalho a ser desenvolvido sobre os diversos atores em presença. O objetivo será dar aos nossos combatentes e à nossa população o devido suporte moral, que lhes permita conduzir uma campanha de longa duração. Quanto ao invasor, há que se tendar desgastálo psicologicamente, pro curando leválo a ceder pelo cansaço.

Há que se ter sempre em mente que o objetivo político a ser atingido, e a campanha não deve ser concluída antes disso, é restabelecer a Soberania e a Integridade do Patrimônio Nacional. E há que se desenvolver uma conscientização nacional de que tal objetivo só será atingido com a retirada de todos os efetivos estrangeiros do território brasileiro.

Para que se possa efetuar um planejamento adequado, oportuno e coerente, também se faz necessária a correta identificação dos centros de gravidade em presença. Tornase muito claro que o centro de gravidade do invasor é a vontade nacional que lhe dá respaldo. No momento em que, fruto do desgaste que venha ser infligido ao invasor, fique caracterizado que o rendimento custobenefício não é compensador, ocorrerá o enfraquecimento da vontade nacional, e este será o fator prepon derante para a retirada das forças militares estrangeiras do território nacional.

Por outro lado, não podemos ignorar que os vazios demográficos, o desconhecimento da área, a existência de fronteiras não vivificadas, o posicionamento marginal em relação aos sistemas de circulação, enfim, a deficiência de integração de inúmeras regiões da Amazônia aos centros de poder nacionais podem criar condições potenciais de risco de fragmentação, com conseqüente perda do patrimônio nacional.

Não se pode esquecer também que a adoção da Lassidão pressupõe sacrifícios, que serão impostos a toda a Nação, que ficará exposta ao poder do adversário que, certamente, tentará quebrar a vontade nacional, principal insumo para a implementação dessa estratégia. E este é verdadeiramente o ponto focal a ser desenvolvido: estabelecer e consolidar a vontade nacional, desde já, em torno da defesa dos interesses vitais do Brasil na Amazônia.

Conclusão

Os vestígios e as ruínas de inúmeras fortalezas e os preservados fortes artilhados com velhos canhões de bronze são testemunhas de mais de 350 anos de lutas travadas pelos nossos antepassados para conquistar e manter a Amazônia Brasileira. E o emprego das técnicas da guerra de guerrilhas tem sido uma constante nessas lutas.

O ambiente de selva, a extensão territorial, a imensa faixa de fronteira, a rarefação demográfica, a deficiência de transportes e a precariedade de comunicações, todos fatores característicos daquela que, hoje, é a Área Estratégica de maior prioridade no território brasileiro, têm contribuído para que esta singular forma de combater encontre naquele ambiente operacional magníficas condições de condução.

Ao longo dos anos, tornouse muito claro que o vetor principal do desenvolvimento da Amazônia tem sido a ação pioneira e desbravadora das Forças Armadas, as quais, sem medir esforços e sacrifícios, sempre se fizeram presentes. E é, sobretudo, nos seus mais remotos rincões que o Exército influencia de modo decisivo a formação e a consolidação da nacionalidade das populações. E esta grandiosa missão de fortalecer a brasilidade nos corações e mentes de cada cidadão, além de ter que manter incólumes milhares de quilômetros de fronteiras, não é realizada sem sacrifícios, exigindo profissionais integralmente compromissados com a real dimensão do que significa ser soldado na Amazônia.

Mas a defesa dos interesses vitais do Brasil naquela área não é obra exclusiva dos soldados da Amazônia. É uma responsabili dade de todos os brasileiros, militares e civis, inclusive de outras regiões. E quando for o caso, todos, irmanados, se necessário empregando a guerra de guerrilhas, irão defendêla, como o fizeram no passado, e o estão fazendo no presente.

E nada poderá refletir melhor esta determinação na consecução das missões de segurança e integração da Amazônia do que a frase do antigo chefe, Gen Rodrigo Otávio: "Árdua é a missão de desenvolver e defender a Amazônia, muito mais difícil, porém, foi a de nossos antepassados em conquistála e mantêla!"


As opiniões expressas ou insinuandas nesta revista pertencem aos seus respectivo autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, d Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.ž


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